prefiro não fazê-lo.
9 março, 2010
Papai, sempre pessimista, costuma dizer que as pessoas (no geral mesmo) desistem. Eu ainda conservo dúvidas. Ou melhor: conservava. Dia desses, um professor de uma das escolas em que estou, decidiu desistir (não estou a usar metáforas). Desistiu ali, na nossa frente. 50 anos biológicos e 10 de magistério. 10 anos de magistério equivale a 56 anos humanos (de vida útil). Sim, os caninos (nós, professores, não somos lá muito diferentes). A sala de aula, as reuniões, as discussões inócuas, a lousa, o giz, o coordenador de área, o semanário, os diários, os latidos, o xixi a fim de demarcar território. Enfim. Mas falava do professor que desistiu.
Segure o choro aí, a história é triste; e curta; e verdadeira. Esse professor de matemática está em depressão, mas permanece ali. Os alunos o tomam por inapto. Não é verdade. Algumas vezes é impossível continuar. Ele, numa tentativa absurda mas humana, optou pelo silêncio. Não quer mais dividir nada, mas permanece ali. Entra e sai da sala em silêncio. Explicações na lousa, tão-somente. Conheço os indícios. Apatia, desinteresse, sensação de fracasso. Eu mesmo esqueci o som da sua voz. É motivo de chacota pelos alunos. Eles ainda não sabem como é difícil crescer e perceber que na verdade não há maneiras seguras de manter a felicidade ou algo parecido. Eles ainda não foram avisados o quão duro é procurar sentido num dia após o outro (fala aí DFW).
Ele desistiu. Assim, de um dia para o outro. Papai tem razão. As pessoas, infelizmente, desistem.
e no mais eu prefiro sempre a minha cama.
28 fevereiro, 2010
Eu não saio mais à noite (quando digo à noite digo à noite mesmo, tipo depois das 23h). Era uma resolução e tudo, mais por necessidade (fico irascível no dia seguinte) do que por aversão aos já conhecidos gritinhos adolescentes e os caras de carro com step sobressalente em relevo na traseira e música para deficientes auditivos e que mexem com as garotas que mascam chiclete em frente às UNIVERSIDADES e fazem cara de que entendem assuntos como crítica genética e estruturalismo. Abri exceção madrugada última e fui jogar sinuca (lugares fechados são mais seguros, é bom que se diga). Teoricamente, sabia tudo. Vi filmes acerca de. Sobretudo revi as jogadas de A Cor do Dinheiro antes e me vesti tal como Tom Cruise. Levei a Jaq (a saber, minha esposa) pra seduzir os caras, distraí-los, numa versão mais delicada e altiva de Mary Elisabeth Mastrantonio (o único problema é que esqueci de avisá-la).
Observei os caras das mesas adjacentes (todos seguravam os tacos de maneira fleumática e não usavam giz ou se pareciam com Paul Newman, o que achei estranho). Desisti do jogo. Não do lugar.
Antes de voltar pra casa ainda lembro de comentar com os amigos que é fácil perceber quando você não leva jeito pra certas coisas (ainda que insista em outras que no fundo no fundo sei que também não levo jeito algum). Definitivamente não fui feito para a sinuca. E seguramente não fui feito pra noite.
constantemente acho o mundo um lugar surpreendente. não por conta das coisas misteriosas, mas por causa das coisas comuns.
24 fevereiro, 2010
Espero sempre ser surpreendido por algo ou alguém (e por mim mesmo), e isso geralmente nunca ocorre. Digo: o mundo é mais plano e bobo mesmo do que nossos anseios. Daí que ando sacando as coisas por um outro ângulo de visão. Nada de mistérios. Nada de metafísica. Nada de física quântica. É tudo muito mais simples. Arroz, bife e batata frita. Minha filha tem razão quando diz que há monstros demais lá fora, e que ela tem medo. Eu também tenho medo. Não dos monstros lá fora ou dos mistérios insondáveis. Tenho cada vez mais medo das coisas comuns.
O Profeta
9 fevereiro, 2010




O Profeta
Primeiro: é daqueles tipos de filmes que você sente vontade de mostrar para os amigos (só os mais próximos) e depois passar a noite falando sobre e cruzando experiências acerca de possíveis influências e coisa e tal. Segundo: valeria a pena eu perder um bocado de tempo escrevendo a respeito de aspectos técnicos e virtuosismos que o filme evidentemente apresenta, mas isso diria muito pouco (quase nada) desse que é, até agora, 9 de fevereiro de 2010, noite de terça-feira abafada, o maior filme do ano na opinião do sujeitinho aqui. Adianto que não é empolgação juvenil nem falta de critério não, afinal vi todos os filmes concorrentes ao Oscar (o que não quer dizer nada), entre outros (o que quer dizer muito), e nenhum deles, asseguro-lhes, nenhum deles lambe os calcanhares dessa saga cão come cão; nem mesmo Guerra ao Terror, ou Bastardos Inglórios, ou Um Homem Sério. Sei que exagero. Sei que adjetivo demais, e isso não é bem visto por quem se pretende a fazer críticas imparciais e espertinhas. Mas: não sou crítico, não sou imparcial, e quero mesmo é continuar a falar sobretudo das coisas que me tocam (nada de toque retal, certamente). Do contrário largaria o leme e encaminharia-me à prancha.
Enfim.
Alexandre Desplat compõe a trilha. Mais uma vez: Desplat é responsável pela trilha. Faz cara de surpresa e felicidade e batuque algo próximo a você (falo sério). Algo te faz pensar na trilha de Inimigos Públicos, imagino. Esquece Elliot Goldenthal. Esquece aquela belezura que é Ten Million Slaves na bocarra do Otis. Imagine Desplat a compor uma trilha que cresce com o personagem. De garotinho imberbe e babão a homem que bate no peito e diz eu quis e eu fiz. Arrisco num cavalo: Desplat estava a rever GoodFellas e o cinema americano todinho e também o cinema italiano e os portentosos filmes de máfia da década de 70 e 80 enquanto compunha o corpo da trilha.
Jacques Audiard fez o mesmo (sobretudo no quesito american way of life), com a vantagem de ser um amante antigo do cinema italiano (ele afirma isso em quatro de cinco entrevistas concedidas). Não vou dizer que vejo Rocco e Seus Irmãos (o maior filme italiano de todos os tempos) em O Profeta, mas negar que há similaridades consangüíneas aqui seria de certo uma burrice. Devo dar um resumo didático agora, assim fica fácil pra você:
Malik é jovem de seus vinte e tantos anos, e vai preso. Medroso, imberbe (não sei por que insisto nisso) e chorão. Como todos os jovens de vinte e tantos anos presos, não sabe como sobreviver na cadeia (você saberia? Não responda). Terá de ser mulherzinha, como na maioria dos filmes passados em prisões? Nada disso. Malik tem de matar. É simples assim: matar pra sobreviver. E é isso que fará até o fim. Não só matar, obviamente, mas sobreviver. Adaptar-se ao meio e fazer o meio jogar a seu favor. Um tipo de bildungsroman na telona. Cresce e aprende na adversidade, tal como nós. Mata e sobrevive na adversidade, diferentemente de nós.
Sei que é infantilidade minha falar ainda mais das influências e dos decalques impressos em O Profeta, mas não dividir esse sorrisinho maroto que agora contamina toda minha face, como se tivesse descoberto o esconderijo de Deus, me deixaria pouco à vontade, sozinho com minhas epifanias (compartilhar epifanias é um desvio de meu caráter, sinto muito). Divido, então: James Gray. Pois sim. Ver O Profeta é como assistir Gray adentrar o sistema penitenciário. É o The Yards francês. É O Caminho Sem Volta europeu. Digo mais: Gray assistirá ao filme e o colocará na lista não só dos melhores filmes dessa década, mas na sua listinha pessoal de filmes indispensáveis (da vida, sim).
Acabo de retirar do baú minha agendinha. 243 filmes para serem vistos antes da chamada oficial divina (não mostro a lista nem pra minha esposa, então por favor, não insista). 244 agora (pois é, pois é, O Profeta é o 244).
Audiard fez um filme definitivo (e não me venha dizer que todos os filmes são definitivos). Não sobre o sistema penitenciário ou questões de fundo social/étnico/político, nada disso. Fez um filme definitivo acerca da imponderabilidade de ter não ter escolhas e por isso mesmo ter de “escolher” (paradoxo algum). E Malik, de maneira irrevogável, escolhe. E daí reinventa-se (tudo o que desejamos inconscientemente/conscientemente fazermos sempre quando acordamos ou chegamos ao trabalho ou nos vemos prostrados num sofá de dois lugares e posicionado estrategicamente na frente de um televisor qualquer e diante de uma vida que, bem, você aí sabe que tipo de vida é essa). Poderia tecer variadas considerações sobre mensagens, argh, outras que O Profeta tem/teria, mas isso, como disse acima, diria muito pouco (quase nada) da experiência que é ver esse novo filme de Jacques Audiard.
2010.
2 fevereiro, 2010
O ano recomeçou, olhei no calendário para ter certeza. Precisamente: 2 de fevereiro de 2010. Prometi coisas para serem feitas em 2009 e não cumpri um terço (estou a me repetir, sei bem disso). Janeiro apressa-se e deixa a folhinha e ainda não levantei corretamente da cama. Procrastinar é algo que faço como poucos, mas ultimamente ando exagerando. Passando da conta.
- Qual sua especialidade?
- Procrastinador.
Se papai estivesse aqui diria pra que eu agarrasse o mundo com os dentes e não salivasse enquanto rugia. Eu no máximo mio, papai, diria um tanto envergonhado, olhar a mirar o chão.
2010 está aí e 28 anos a serem completados nas próximas semanas dizem pouco acerca do garoto sonhador que fui e do homem estacionado que agora sou.
Abandonar os sonhos assim não deveriam pertencer a meses tão iniciáticos e promissores como janeiro e fevereiro, mas como disse ando passando da conta.
Não riam de mim #10
27 janeiro, 2010
Fui criança e adolescente, pode acreditar. Jogava videogame o dia todo e tomava chá e assistia Sessão da Tarde religiosamente. Poucas crianças foram felizes como eu fui. Só os que foram criados por avós podem dizer isso sem culpa. Minha avó é minha infância. Toda ela. De ponta a ponta, sem intervalos. Nada de mamãe & papai e datas comemorativas. Acordava e dormia sob os seus cuidados. Ainda há pouco ri um bocado dela. Indicou-me um tratamento para as minhas espinhas.
- Sabe, Lucas, eu andei vendo que xixi é bom pra tirar essas espinhas aí.
- É?
- É. Xixi. Aqueles de jejum só. Separei um potinho lá e enchi pra você.
- De xixi?
- É. Essas espinhas aí vão sumir num instante.
- Mas já tem xixi lá?
- Eu fiz tudo bem cedinho, antes de tomar café.
Toda infância deveria ser preenchida por pessoas assim.
resoluções 2010.
18 janeiro, 2010
1. Não morrer
2. Comprar um relógio espião de 2gb
3. Adquirir o quanto antes um roupão e um daqueles chinelos confortáveis do papai
4. Não permitir que vendedores digam Eu o acompanho até a porta, senhor
5. Não dar atenção a pessoas que falam sorrindo
6. Comprar ingresso para ver o Sergio Marone no teatro ainda no mês de janeiro
7. Observar senhores na casa de seus 60, 70, 80 anos correndo em via pública com os acessórios devidos (meia social cinza e tênis Rainha e bermuda no limite da virilha) e repensar se vale mesmo a pena o sacrifício de atingir uma longevidade assim, patética
8. Não vitimizar-se; a culpa é sempre sua, baby
9. Não ler blogs em que as palavras são trocadas por pontos de exclamação & interjeições
10. Não fazer novas amizades (sobretudo com atores)
11. Ao acordar, repetir baixinho, tipo um mantra mesmo: sua vida é essa, sua vida é essa, sua vida é essa…
você não imagina o que somos capazes de fazer quando temos um objetivo.
17 janeiro, 2010
É mais ou menos isso que diz o personagem de Nicolas Cage em Vício Frenético. A expressão não tem nada de auto-ajuda não, muito menos o filme, e você aí poderia dizer que se trata de um lugar-comum, coisa de cinema. Em parte eu também acho, afinal todos sabemos que se investirmos bastante em algo esse algo fica mais próximo. Ou mais longe. E eu realmente não dava lá muita bola pra essa afirmação antes de ouvi-la na boca do Cage.
Você não imagina o que somos capazes de fazer quando temos um objetivo.
Mas fiquei pensando bastante nisso. Pensei em como diariamente, semanalmente, anualmente, desperdiçamos nossa vida em coisas banais, coisas que não têm o menor sentido (mediocridades mesmo). E no fundo nós sabemos muito bem que estamos desperdiçando alguma coisa. Por vezes, demoramos uma vida inteira nos distraindo de nossos objetivos primeiros.
Distrair. Taí: eu vivo me distraindo.
algumas coisas ficam conosco para sempre. Eric Rohmer é uma dessas coisas.
11 janeiro, 2010
Eric Rohmer (1920-2010)
Não riam de mim #9
9 janeiro, 2010
Eu (27 anos completos) e minha filha (exatos 3 anos de idade) travamos uma discussão interminável (ok, estou exagerando) em torno da amizade. Mais precisamente, em torno dos amigos que ambos temos/imaginamos ter. Ela, verborrágica e ferina, contabilizou 23¹/2, acrescentando que esse meio vem a ser uma garotinha loira e sem os caninos que frequentemente tenta ridicularizá-la quando estas dividem uma balança & gangorra na área tida como de lazer no prédio de sua avó.
Enfim.
Além de enumerar um por um dos coleguinhas com descrições que fariam os naturalistas/realistas corarem de inveja, disse-me que não iria jamais crescer. Ela e os colegas, eternamente, dividindo a área de lazer e ridicularizando-se mutuamente, que é como as crianças demostram afeto umas pelas outras (não muito diferente dos adultos).
- Pra sempre assim, Rafa?
- Pra todo O SEMPRE!
- Então, tá.
- E você, papai, quantos amigos têm?
- Eu?
- Sim!
Tentei enveredar por caminhos outros, a fim fazer com que minha filha não notasse essa deficiência vida-social-misantropia (poucas pessoas aceitam amigos que não bebem e não topam ver o pôr-do-sol nalgum meio-fio coberto por dejetos e/ou líquidos inclassificáveis; eu faço parte da ala dos abstêmios) que seu papai sempre teve, mas a pequena é renitente e sagaz.
- E daí, papai?
- E daí que eu tenho… assim… eu… eu tenho uns BONS amigos…
- Quantos?
- Quantos?!
- Sim, papai, quantos. Você ainda escuta bem do lado direito, né? (e riu ruidosamente, como se recebesse uma sessão deluxe de cócegas)
- Claro, princesa, claro. Eu tenho amigos. Alguns. Sabe, Rafa, a gente quando cresce, meio que sem querer, assim, nós vamos pra outros lugares, e os amigos vão ficando, daí que vamos perdendo contato com eles, e aí sobra uma camiseta com o nome de alguns deles, sabe?, uma camiseta daquelas que todo mundo risca no fim do ano, antes da gente se despedir e entrar de férias, e aí quando voltamos pra escola vemos duas ou três cadeiras vazias no canto sala, e de repente percebemos que os nomes riscados não estão mais lá, nunca mais vão estar, e daí você deixa de contar, sabe?
- Não, pai, claro que não. Eu tenho 23¹/2, e daqui pra frente isso só tende a aumentar, viu!
- Sei. Claro que sim, Rafa, claro que sim.






