eis uma breve sinopse da literatura brasileira contemporânea:
11 fevereiro, 2010
Quando não estou por perto, Annita Costa Malufe
Versos sofisticados e inteligentes, construindo uma poética cerebrina e sensível.
(Cerebrina. Legal.)
Perfume do Pau Rosa, Luiz Gonzaga Lauschner
Romance que traça o percurso do pau rosa, da Floresta Amazônica às perfumarias.
(Já me interessei.)
O Homem dos patos, Diana de Hollanda Cavalcanti
Proposta que envolve múltiplas linguagens. A jovem autora se destaca em diversas formas de arte.
(Alguém pode explicar isso pra mim?)
Um útero é do tamanho de um punho, Angélica Aires de Freitas
Poesia ousada com trabalho de texto promissor e original.
(Nem mesmo um aluno de 5º série escreveria sinopse tão primária; Angélica deve estar gargalhando até agora do resumo que fizeram do seu livro.)
Opisanie swiata, Veronica Antonine Stigger
Novela de linguagem instigante e envolvente que coloca o leitor na mesma posição do estrangeiro tematizado no livro.
(Posso roncar agora? Stigger é maior do que isso.)
Garotos malditos, Santiago Nazarian
Romance juvenil provocativo e original. Prende o interesse do leitor com sua escrita inteligente.
(É o autor de sempre no “romance” de sempre. Taí um “escritor” que é menor que o resumo de sua obra.)
Esses, e outros livros, foram contemplados pelo Programa Petrobrás Cultural 2008/2009. Não sei quanto cada escritor vai morder dos R$ 918 mil alocados para literatura, mas não é pouco. Receber para escrever deve ser uma delícia, embora alguns deveriam pagar para que os lêssemos.
Zumbilândia
29 janeiro, 2010




Zumbilândia
Na orelha do romance Areia nos Dentes (Antônio Xerxenesky), Daniel Galera é direto: Se tem zumbis no meio, só pode ser bom. Acrescento: só pode ser divertido. Acrescento ainda: sem tem Bill Murray no meio (e aqui tem), basta comprar a pipoca e se refestelar no sofá. E digo mais: os americanos estão assistindo Joon-ho. Zumbilândia comprova isso. É um filme bicho-papão de gêneros, tal como O Hospedeiro.
Eu ri. Tomei alguns sustos. Fiquei apaixonado. E, como não poderia deixar de ser, chorei.
Minto. Mas ri mais do que esperava e merecia. Desde Whatever Works não soltava gargalhadas assim, com tanto entusiasmo. E inteligência, tá ok. IN-TELI-GÊN-CIA. Porque acima de tudo é um filme que sabe se aproveitar de cada situação aparentemente desnecessária. E mesmo as digressões, um tanto longas para os padrões hollywoodianos, mas nunca despropositadas ou acidentais, são a cereja do bolo. Clichê demais para você?
Pois sim. É de clichês e referências e lugares-comuns que Zumbilândia retira um bocado de sua graça. Mas não só. Os diálogos não fazem feio a nenhum Apatow e demais genéricos. Diria até que Apatow deveria contratar as quatro mãos que escreveram Zumbilândia para escrever seu próximo filme. Kevin Smith disse aos amigos íntimos (aos prantos) que nem o seu Balconista (um filme assentado sob e por diálogos) fazia par ao brilhantismo de Zumbilândia. Minto novamente, claro, mas Smith, asseguro-lhes, sentiu inveja.
A mesma inveja que os atores de 20 e tantos anos estão sentindo de Jesse Einsenberg. Desde O Clube do Imperador estou atento a Einsenberg. Mas foi em A Lula e a Baleia que fiquei a colecionar elogios e guardar seu nome. Revi o filme inúmeras vezes, e a cada revisão Einsenberg me surpreendia mais. Explico: Jesse atua em registro “naturalista falseado”, e dá a impressão (falsa, logicamente) de que o que faz o seu Josias da quitanda faria se pedíssemos com jeitinho. Ledo engano (confiram Adventureland e digam se estou equivocado). O que Jesse faz poucos atores nessa faixa de idade são capazes de fazer (Ryan Gosling é um nome e Paul Dano outro, mas em chaves opostas). Por fim: Jesse é um típico personagem de Woody Allen, um tanto abobalhado e desprovido da assertividade tão comum aos Ashton Kutcher da vida. Daí a graça involuntária (e o sentimento natural de empatia) que seus personagens despertam.
Por fim 2: Bill Murray faz Bill Murray. Eu realmente preciso falar mais alguma coisa?
e eu aqui imaginando que Salinger era do tipo imortal. (esgares faciais a expressar uma dorzinha que podemos chamar de tristeza.)
28 janeiro, 2010
if you’re good at something it’s very hard not to do it.
24 novembro, 2009
Wall Street Journal: The last five years have seemed very productive for you. Have there been fallow periods in your writing?
Cormac McCarthy: I don’t think there’s any rich period or fallow period. That’s just a perception you get from what’s published. Your busiest day might be watching some ants carrying bread crumbs. Someone asked Flannery O’Connor why she wrote, and she said, “Because I was good at it.” And I think that’s the right answer. If you’re good at something it’s very hard not to do it. In talking to older people who’ve had good lives, inevitably half of them will say, “The most significant thing in my life is that I’ve been extraordinarily lucky.” And when you hear that you know you’re hearing the truth. It doesn’t diminish their talent or industry. You can have all that and fail.
What is your definition of love?
13 novembro, 2009
Ah, Woody, Woody…
22 setembro, 2009
Two weeks ago, Abe Moscowitz dropped dead of a heart attack and was reincarnated as a lobster. Trapped off the coast of Maine, he was shipped to Manhattan and dumped into a tank at a posh Upper East Side seafood restaurant. In the tank there were several other lobsters, one of whom recognized him. “Abe, is that you?” the creature asked, his antennae perking up.
“Who’s that? Who’s talking to me?” Moscowitz said, still dazed by the mystical slam-bang postmortem that had transmogrified him into a crustacean.
“It’s me, Moe Silverman,” the other lobster said.
“O.M.G.!” Moscowitz piped, recognizing the voice of an old gin-rummy colleague. “What’s going on?”
“We’re reborn,” Moe explained. “As a couple of two-pounders.”
“Lobsters? This is how I wind up after leading a just life? In a tank on Third Avenue?”
“The Lord works in strange ways,” Moe Silverman explained. “Take Phil Pinchuck. The man keeled over with an aneurysm, he’s now a hamster. All day, running at the stupid wheel. For years he was a Yale professor. My point is he’s gotten to like the wheel. He pedals and pedals, running nowhere, but he smiles.”
Li esse conto meses atrás, mas na época acabei não indicando ele por aqui. Faço isso agora.
Honey
6 agosto, 2009




Honey
Primeiro, o título. É um título bacana. É possível criar tantas variações de histórias com um título desses. Baby também sempre me instiga. Algo como Feliz Ano-Novo, Baby. Ou Esquece, Baby. Abre parêntesis. É meu lado autoral pedindo para vir à tona. Sim, eu escrevo. Não ria, ok. Digamos que eu tento escrever quando não estou ocupado lendo. Ler é uma atividade mais gratificante, sem dúvida. Fecha parêntesis.
E agora quero falar da autora mais do que da encenação (aliás, não falarei do espetáculo). Shelagh Delaney. Vocês conhecem? Eu menos. Antes da montagem nunca havia ouvido nome tão feio. É uma mulher. Inglesa. Do tipo sofredora, e que, como Bolãno (o escritor, tá), trabalhou como estivadora e domadora de leões. Brincadeira, pois.
Delaney trabalhou em empregos do tipo em que somos pagos pra sorrir e ficar quieto (discorrei mais acerca de num futuro próximo). O tipo de serviço que não permite os tais respiros necessários para a criação. Mas Delaney era esperta, e escrevia antes de dormir. Imagino, claro.
Escreveu um possível romance de título delicioso: A Taste of Honey. Esse possível romance tornaria-se, futuramente, uma peça de título homônimo. Shelagh Delaney tinha dezoito anos quando escreveu a peça. Apenas. O texto, entre inúmeras outras coisas, fala do fracasso da ilusão. Sei que alguém, algures, que viu a peça ou leu, dirá, dedo em riste: Você é um merdinha alienado, um inseto. A peça fala da questão étnica, das classes sociais desfavorecidas, da mulher que ainda não descobrira Beauvoir, das mães solteiras etecétera e etecétera e etecétera.
Explico. Realmente, o texto pode servir socialmente (palavrinha horrível), digamos assim. Mas isso não me apetece. A universalidade (outra palavrinha horrível, perdoem-me) da peça reside no fracasso da ilusão. Tanto Helen quanto Jo estarão perdidas ao final. Ambas acreditaram, e caíram. Jo acredita no amor. Helen na possibilidade de recomeçar. (Não darei a sinopse da peça,ok.)
Falei que Delaney é triste? Não. Falo agora. Delaney é triste. A melancolia de Delaney está toda lá, depositada em cada fala de Helen. Sua visão de mundo também. Um alter ego decaído, e que é capaz de rir de si mesmo. A ironia como fuga da realidade. A ilusão de que o outro seja capaz de salvá-la de si mesma. E daí o fracasso da ilusão, que falei há pouco. Seria bom se pudéssemos ser salvos. Ao menos de vez em quando.
O amor segundo B.Schianberg #5 (epílogo)
26 julho, 2009
Os dois últimos episódios só confirmam o que disse anteriormente. É um avanço diante de tanta idiotia televisiva. Isso quer dizer que a minissérie é impecável, uma obra-prima e essas coisas? Não. Longe de ser uma obra irretocável, há muito a ser discutido. Os prós e os contras e os alguma coisa.
Há no último capítulo (na segunda metade) uma complacência e um sentido de arte que não me agradam. Um tipo de hermetismo que não sai do lugar. Uma certa simbologia que não quer dizer absolutamente nada. Os “exercícios de videoarte” de Marina Previato formam o que se pode chamar de Os piores momentos do O amor segundo B. Schianberg.
Enfim.
O que fica? Sobretudo os momentos de inação e o tão fugidio conceito de representação, não-representação, autoficção e metalinguagem. Não só os conceitos, obviamente. Ficam aqueles lances onde você se questiona se os limites fronteiriços entre a realidade e a ficção ainda são barreiras nítidas ou tão-somente caminhos que se interseccionam.
É mais do que estamos habituados a receber, pois.
Além de dormir, filmes #4
16 julho, 2009




Tinha que ser você
Harvey Shine é um merda. Um cara que abdicou dos seus sonhos. Mesmo a filha prefere que o padrasto a leve para o altar (nada pior prum pai). Mas aí ele encontra Kate. Kate também não vive. Ou vive a vida da mãe (isso acontece nas melhores e nas piores famílias). É de uma segunda chance que estamos falando aqui. Ou, para ser fiel ao título, de uma última chance (evito falar das interpretações, que são a cereja do bolo). Os clichês estão todos lá, mas com uma graça particular. E, para ser honesto, faço uma confissão: simpatizei-me deveras com Harvey Shine. Ele é um merda (entenda merda como alguém que descarta a possibilidade da tentativa) igual a mim – encantador, mas um merda. O amor maduro já tem seu filme de verão: Last Chance Harvey.




Killshot
Não faz juz ao material de origem (romance de Elmore Leonard; o pior é que o autor do roteiro é o mesmo Leonard), mas ainda temos Mickey Rourke fazendo Mickey Rourke, o que por si só já valeria o filme.




Apenas o fim
Milk-shake de referências da cultura de massa, atores improvisando, um casal em fim dos dias, um nerd carismático e atraente às avessas, uma garota que não sabe muito o que quer, um diretor à procura de um mote, exercício inócuo de metalinguagem, diálogos com timing adequado, comédia romântica vintage para adolescentes e adultos, enfim, enfim, enfim um Annie Hall à brasileira.
Nota desnecessária: Mateus Souza não possui um décimo da capacidade criativa de Woody Allen, e nem o sentimentalismo kitsch exacerbado de Domingos Oliveira (para citar apenas duas referências caras ao jovem cineasta), mas há, sim, talento e, sobretudo, conteúdo, o algo a dizer, aquilo que fica depois que os créditos tomam a tela.
Nota desnecessária 2: Ele só tem 20 anos! 20 anos!




A era do gelo 3
Já alertei os amigos: filmes para crianças devem ser filmes para crianças, e filmes para adultos devem ser filmes para adultos. A era do gelo 3 é decididamente um filme para crianças, embora um adulto qualquer, do tipo normal, se apaixone facilmente pela trupe mais desengonçada e anárquica e cômica dos últimos tempos (a célula familiar atípica continua sendo o chão de A era do gelo). Sid era minha personagem favorita, mas aí surge Buck (mistura de capitão Ahab e capitão Jack Sparrow), uma doninha com poder de atração e dona de histórias mirabolantes e aventuras ímpares. Nada é frouxo ou desprovido de inventividade nesse A era do gelo 3, o que só vem atestar a genialidade de Carlos Saldanha.




Up
Como havia dito, é a animação com o prólogo mais triste da história do cinema (esqueça o mutismo de Wall-e). Algo na linha de um Philip Roth para crianças. Assisti pela segunda vez, e concluí (lágrimas nos olhos): obra-prima. OBRA-PRIMA.




Paris
Cédric Klapisch deveria rever Albergue Espanhol e se perguntar onde foi que começou a degringolar. Um filme próprio de romances de aeroporto.




Mickey and Nicky
Elaine May dá a Cassavetes sua melhor interpretação. Um filme de e para atores, sobretudo. É como rever Perdidos na Noite à luz do cinema europeu, digamos assim. De uma força e de uma dimensão tão profunda e avassaladora que não há como ficar indiferente. Cinema claustrofóbico e de verdades essencias, demasiadamente humanas. É um filme de explosões interiores. Em outras palavras: implode-se a narrativa e cavouca-se os sentimentos mais arcaicos, mais universais e particulares. Elaine May pode morrer sossegada, afinal já nos legou um momento.




A Janela
Sorín era um sujeito tão agradável. Guardo boas recordações de Histórias mínimas e O cachorro. Aí ele resolve caminhar ao lado (e acima) de Bergman. Woody Allen tentou isso mais de uma vez. Não dá pé.




Presságio
Seguindo a trilha de O nevoeiro e Fim dos tempos (filmes melhores, sim), Alex Proyas dá seqüência a uma carreira de pontos altos (O corvo), regulares (Dark City) e baixos (Eu, robô). É um filme corajoso, pois.




Powder Blue
De um primarismo absurdo. Algo próximo de um roteiro de Paul Haggis com direção de Iñárritu. Algo próximo, eu disse. Perto de Powder Blue, Crash e Babel são obras-primas.
Memórias do Subsolo
10 julho, 2009




Memórias do Subsolo
Datava 2000, se não me engano. Um garotinho franzino e tímido agora fazia parte do nosso grupo de estudos. O grupo discutia, entre outras coisas, questões filosóficas acerca de assuntos de respeitabilidade inquestionável. Na realidade, divagávamos acerca dos filmes da nossa infância e de como Anos Incríveis (a melhor sitcom de todos os tempos) nos moldou e educou sentimentalmente pra vida fora dos limites territoriais do nosso bairro.
Eduardo era o seu nome. Sim, Eduardo. Durante boa parte das discussões, mantinha-se calado. Num primeiro momento, pensei: como não sabe o que dizer, prefere o silêncio. E isso foi ficando mais e mais insuportável, afinal éramos revolucionários (doce ingenuidade), queríamos mudar os paradigmas do pensamento ocidental (ah, meus 18 anos), e Eduardo só fazia pequenos e sutis movimentos com a parte inferior dos lábios. Fumava bastante também. E lia. Enquanto discutíamos, lia avidamente. Decidi, num ato de insanidade deliberada, provocá-lo:
- E então, cara, vai discutir com a gente ou vai ficar aí, tipo rato de biblioteca?
- Prefiro ouvir.
Naquela época, aquilo soou como um afronta a nossa integridade grupal e subversiva. Queríamos aliados, pessoas de opiniões fortes e prontas para morrerem por uma causa. Mesmo que a causa fosse um campeonato de xadrez nas férias. E a resposta de Eduardo nos deixou atordoados. Primeiro, porque achávamos que havia ali um teor de ironia e sarcasmo. Segundo, porque para nós, pessoas de retórica e opiniões fortes (hoje gargalho quando ao ouvir pessoas de opiniões fortes), o silêncio era atitude bovina. Era importante ter algo pra dizer. Nem que fosse uma piada qualquer. Mas Eduardo só queria realmente ouvir. E ler.
Exigimos que falasse, e então falou: Proponho a leitura dos russos. Não sabíamos quem eram os russos, mas sabíamos que foram revolucionários como nós. Topamos. Foi nesse período que me caiu às mãos Memórias do Subsolo. Li num sopro. Não entendi sequer um terço. Contudo, intuí que alguma coisa em mim fora tocada. Reli no ano seguinte. E no seguinte. E novamente. Hoje, menos ingênuo e um tantinho mais afeito às letras, digo: é um livro incontornável. Não em razão de Dostoiévski ser incensado como o escritor dos escritores, mas porque a obra instaura a dúvida. Não há verdade absoluta ou sequer verdade única, mas paradoxos. Um homem e um punhado de memórias e o duro martelo da consciência.
Enfim.
Eduardo suicidou-se no ano seguinte às leituras dos russos. Até hoje foi o único sujeito que me fazia tremer diante de um comentário. Possuía aquele tipo raro de inteligência, que bastava duas ou três frases para esmiuçar e resumir algo que demoraríamos meses para compreender. Com ele aprendi o valor das idéias. E a necessidade irrevogável do silêncio.
Memórias do Subsolo está em cartaz. Mika Lins faz o funcionário público aposentado, o homem do subsolo. Ainda não pude ver todos os monólogos em cena, mas afirmo: Memórias do Subsolo não tem pares à altura.
Vai lá ver, vai.
















