Maridos, por Pauline Kael

10 março, 2010

Estou lendo de maneira arbitrária o 1001 noites no cinema, da Pauline Kael. É um apanhado de críticas rasteiras, breves, dessa crítica norte-americana tomada por alguns (não poucos) como a crítica das críticas. Exageros à parte, a mulher é mesmo uma coisa. Em tom levemente informal ela vai desmistificando alguns mitos e criando outros. Mesmo quando torço o nariz pra um dos seus escritos (como o que vem a seguir) ela me faz sorrir baixinho, em tom de cumplicidade.

Maridos (Husbands, 1970) – Três atores (John Cassavetes, Peter Falk e Ben Gazzarra) fazendo três maridos de classe média num filme semi-improvisado dirigido por Cassavetes. Os atores têm ocasionais momentos intensos e comoventes, passando por emoções que despertam uns nos outros, mas Cassavetes é daqueles homens que se dedicam a despir as pessoas de seus fingimentos e desnudar suas almas. Inevitavelmente, os resultados são de agônica banalidade. Columbia. cor (Ver Deeper into movies.)

Carver

6 março, 2010

Há inúmeras maneiras de descrever os personagens de Raymond Carver: fracassados, desiludidos, perdidos, resignados, estacionados, descrentes, alcoólatras, divorciados, etc. Muito já se falou desses personagens. Caipiras de shopping center, nas palavras do editor de Carver. Embora não me lembre de ninguém falar sobre Henry Kuhlken.

Henry é um personagem mais do que secundário. É daqueles tipos que abre e fecha portas, e diz até logo, e só. Faz parte de um conto que ninguém dá lá muita bola, mas que é tão bom quanto Uma coisinha boa, Diga às mulheres que a gente já vai ou Iniciantes.

Se vocês não se importam é o nome do conto. Um casal vai jogar bingo todas as sextas-feiras. O marido era alcoólatra e agora faz tricô. A esposa sangra. Isso é Carver, rapaz. Mas não quero falar do conto e sim de Kuhlken. Ele aparece dado momento e diz boa noite ao casal. Só isso? Sim, só isso. E então o narrador nos diz quem é Henry Kuhlken.

Kuhlken era um homem corpulento e grisalho, que tinha perdido um filho num acidente de barco, anos antes. Sua esposa o deixou por outro homem, pouco depois disso. Passou a beber muito, depois de um tempo, e mais tarde foi parar nos Alcoólicos Anônimos, onde James o conheceu e soube da sua história. Agora, era dono de um dos dois postos de gasolina da cidadezinha e às vezes fazia uns reparos de mecânica no carro deles.

É, já falaram um bocado acerca da temática e da literatura e dos personagens de Carver. Se tivesse que resumir pra alguém o que é ou sobre o que trata Carver, falaria de Kuhlken.

Ductilissimo+DFW= presta atenção aí, vai.

4 março, 2010

Por que é tão dificil escrever bem? Assim, muito bem mesmo. Ao ponto de ser reconhecido enquanto um escritor de primeira.

Desisti de tentar escrever uma resposta para esta pergunta. De todo modo, lê isso daqui:

I know that you know as well as I do how fast thoughts and associations can fly through your head.You can be in the middle of a creative meeting at your job or something, and enough material can rush through your head just in the little silences when people are looking over their notes and waiting for the next presentation that it would take exponentially longer than the whole meeting just to try to put a few seconds’ silence’s flood of thoughts into words. This is another paradox, that many of the most important impressions and thoughts in a person’s life are ones that flash through your head so fast that *fast* isn’t even the right word, they seem totally different from or outside of the regular sequential clock time we all live by, and they have so little relation to the sort of linear, one-word-after-anotherword English we all communicate with each other with that it could easily take a whole lifetime just to spell out the contents of one splitsecond’s flash of thoughts and connections, etc. — and yet we all seem to go around trying to use English (or whatever language our native country happens to use, it goes without saying) to try to convey to other people what we’re thinking and to find out what they’re thinking, when in fact deep down everybody knows it’s a charade and they’re just going through the motions.What goes on inside is just too fast and huge and all interconnected for words to do more than barely sketch the outlines of at most one tiny little part of it at any given instant. [...] Words and chronological time create all these total misunderstandings of what’s really going on at the most basic level. And yet at the same time English is all we have to try to understand it and try to form anything larger or more meaningful and true with anybody else, which is yet another paradox. [...] And of course all this time you’ve probably been noticing what seems like the really central, overarching paradox, which is that this whole thing where I’m saying words can’t really do it and time doesn’t really go in a straight line is something that you’re hearing as words that you have to start listening to the first word and then each successive word after that in chronological time to understand, so if I’m saying that words and sequential time have nothing to do with it you’re wondering why we’re sitting here in this car using words and taking up your increasingly precious time, meaning aren’t I sort of logically contradicting myself right at the start. [...] That’s OK, it doesn’t really matter what you think. I mean it probably matters to you, or you think it does — that isn’t what I meant by *doesn’t matter*.
What I mean is that it doesn’t really matter what you think about me, because despite appearances this isn’t even really about me. [...] . . . and yet of course look how much time and English it’s seeming to take even to say it. It’s interesting if you really think about it, how clumsy and laborious it seems to be to convey even the smallest thing. How much time would you even say has passed, so far?

(WALLACE, David Foster. “Good Old Neon”. in: Oblivion. New York: Little, Brown and Company, 2004, p. 150-153)

(Via)

precisamente: aceita-se presentes de Natal.

21 dezembro, 2009

Os amigos sempre reclamam que não sabem ao certo como me presentear, que sou exigente, irascível, rabugento, neurótico etecétera. Por isso, sem mais delongas, alguns (poucos) presentes (livros) que aceitaria sorrindo:

- As Aventuras de Augie March (Saul Bellow)

- A História do Amor (Nicole Krauss)

- Extinção (Thomas Bernhard)

- Bartleby e Companhia (Enrique Vila-Matas)

- Hitchcock/Truffaut (François Truffaut)

- The Stories of John Cheever (John Cheever)

P.S.: Não há ordem de preferência, mas se for escolher apenas um (o que não é pouco), fique com Extinção, tá? Tá.

DFW por Zadie Smith: ou A leitura como uma habilidade e uma arte

30 setembro, 2009

Smith: Eu penso na leitura como uma habilidade e uma arte. E se você lê mal – Eu sempre penso num bom exemplo – Tenho tentado escrever um artigo sobre [David] Foster Wallace e quando você lê Foster Wallace pela primeira vez, ou quando os críticos o lêem, eles o devolvem com aquilo que eles acreditam que viram, que é algum espertinho muito sabido com uma linguagem inteligente, mas eles não tem idéia de que isso –-

Silverblatt: Sim, que ele está tentando determinar o que é verdadeiro. O que pode ser dito de forma verdadeira.

Smith: Exatamente. Um incrível escritor altamente ético e moral. Mas há alguns tipos de camadas superficiais nele que, se você não pode perder seu tempo pra pensar mais a fundo, parece apenas, “Aqui está um cara inteligente com suas histórias espertalhonas”. E isso não é verdade. Mas o problema com os leitores, a idéia que nos é dada sobre leitura é que o modelo do leitor é uma pessoa vendo um filme, ou assistindo televisão. Então a idéia principal é, “Eu devo sentar aqui e ser entretido.” E o modelo mais clássico é a idéia do leitor como um músico amador. Um músico amador que senta no piano, tem a sua peça musical, que é a criação, feita por alguém que ele não conhece e provavelmente não pode compreender por inteiro, ele tem que usar suas habilidades para tocar essa música. Melhor a habilidade, melhor é a doação que você oferece ao artista e que o artista oferece a você. Essa é uma idéia sobre leitura incrivelmente fora de moda. Ainda assim, quando você pratica a leitura, e trabalha num texto, ele só pode lhe oferecer aquilo que você dedica a ele. É uma lição antiga, mas inteiramente verdadeira.

[Dessa vez negritei o que acho importante nunca mais esquecer (para mim). Nas outras vezes negritei o que achava importante você, meu leitor imaginário, reter; sei que você é preguiçoso, e daí que essa foi a melhor forma que encontrei para fazer com que você lesse ao menos o que se mostrava em destaque. Enfim.]

Via Renato Parada.

Ah, Woody, Woody…

22 setembro, 2009

Two weeks ago, Abe Moscowitz dropped dead of a heart attack and was reincarnated as a lobster. Trapped off the coast of Maine, he was shipped to Manhattan and dumped into a tank at a posh Upper East Side seafood restaurant. In the tank there were several other lobsters, one of whom recognized him. “Abe, is that you?” the creature asked, his antennae perking up.

“Who’s that? Who’s talking to me?” Moscowitz said, still dazed by the mystical slam-bang postmortem that had transmogrified him into a crustacean.

“It’s me, Moe Silverman,” the other lobster said.

“O.M.G.!” Moscowitz piped, recognizing the voice of an old gin-rummy colleague. “What’s going on?”

“We’re reborn,” Moe explained. “As a couple of two-pounders.”

“Lobsters? This is how I wind up after leading a just life? In a tank on Third Avenue?”

The Lord works in strange ways,” Moe Silverman explained. “Take Phil Pinchuck. The man keeled over with an aneurysm, he’s now a hamster. All day, running at the stupid wheel. For years he was a Yale professor. My point is he’s gotten to like the wheel. He pedals and pedals, running nowhere, but he smiles.

Li esse conto meses atrás, mas na época acabei não indicando ele por aqui. Faço isso agora.

faz isso não, vai.

20 setembro, 2009

Logo abaixo, o trailer oficial do que se propõe a ser a versão filmada do livro de contos Breves Entrevistas com Homens Hediondos, de DFW.

Pra quem leu o livro, o trailer é patético, imbecil, boçal. O diretor (o qual não me atrevi sequer a pesquisar) não sabe ler, coitado. Nota-se pelo trailer que o problema não é de adaptação, mas de leitura mesmo. E agora eu vou ali dormir um pouquinho, afinal de contas coisas desse tipo só me fazem sentir mais e mais preguiça.

Duas notas rápidas acerca de um artigo de Maria Rita Kehl

9 setembro, 2009

1.

O universo amoroso ou familiar que substitui o espaço público como gerador de valores está totalmente atravessado pela linguagem da eficiência comercial. “Quem vai olhar para um modelo fora de linha como eu?” “Como promover a otimização de meus finais de semana?” “Fiz as contas: com o que gastei na análise de meu filho já poderia ter trocado de carro duas vezes” (nesse caso, o analista sente-se tentado a sugerir que, de fato, ficaria mais em conta trocar de filho).

2.

As fantasias sexuais são todas prêt-à-porter. Seria ok, se o suposto desvelamento do mistério não produzisse sintomas paradoxais. O tédio, em primeiro lugar, entre jovens que se esforçam desde cedo para dar mostras de grande eficiência e voracidade sexuais. As intervenções cirúrgicas no corpo, de consequências por vezes bizarras, em rapazes e moças que pensam que a imagem corporal perfeita seja a solução para o mistério que mobiliza o desejo. A reificação do sujeito identificado como mais uma mercadoria se revela no medo generalizado de não agradar. O mistério do desejo persiste, assim como não deixa de existir o inconsciente: mas é como se suas manifestações não interrogassem mais os sujeitos.

* Negritei, ok.

Lendo crônicas, pois

25 agosto, 2009

Leio crônicas. Diariamente. É um vício. Na mesa de cabeceira, um livro de Coutinho. Coutinho é o maior cronista a escrever por estas bandas. Sei do que falo. Leio todos os cronistas, Folha e Estado e demais periódicos. Repito:  João Pereira Coutinho é o maior cronista a escrever em nossa imprensa. Av. Paulista é uma coletânea de suas melhores crônicas lançadas na Folha de S. Paulo e na Folha Online. Não só recomendo veementemente a leitura como receito como antídoto à mediocridade reinante que domina os escritos neutros e imparciais. Um bom escrito é parcial. Coutinho é parcial.  Nada de auto-ajuda, nada de afagos e acenos. Coutinho bate antes e depois.

Eis um pitaco:

Botton não é Montaigne, e eu não enlouqueci completamente. Mas Botton aprendeu com Montaigne a lição essencial: aprender a viver é a única preocupação de uma mente civilizada. A nossa inteligência vale o que vale a nossa vida.

Negritei para você a parte relevante. Não precisa agradecer.

Enquanto palitava os dentes, hoje pela manhã, na sala dos professores, lembrei-me dessa outra passagem (logo baixo), que de certa maneira (de todas as maneiras) me traduz. Uma boa crônica é capaz disso, às vezes.

Pergunto às vezes se vale a pena sair de casa. Pergunta retórica, claro. Eu sei que não vale. Mas então cedo, por motivos sentimentais: uma amiga exige “vida social” e eu, com ânimo de cão, compareço a uma festa qualquer, povoada por dezenas de estranhos que exibem uma alegria efusiva que me deprime terrivelmente.

E ele continua. Eu paro por aqui. Leio Coutinho sorrindo, sempre. Ele não nos ensina a viver melhor (que bom), mas nos faz sorrir. E pensar.

A histeria da representação (ou, numa mera inversão de termos, a representação da histeria)

28 julho, 2009

Leia com atenção, ok:

A histeria é a própria forma do amor, de uma exigência de amor fundamental e excessivo.

Ok até aí? Ok.

Como reagir diante da possível simulação da histérica? Como frustrar essa teatralização do corpo? Pois simulação não é sinônimo de falsidade. O fato de a cena ser super-representada não significa que o problema não seja real, muito pelo contrário. É que a própria histérica não sabe, com clareza, até que ponto simula. Daí a diferença entre teatro e histeria, e a confusão de Myrtle Gordon em Opening Night… Myrtle, como atriz, deverá poder, pela graça da representação, colocar seu afeto (no duplo sentido do termo)  à distância, fazendo a distinção entre o real e o imaginário.

Calma, estou chegando ao ponto certo. Calma.

É a função terapêutica do teatro – mas, quando representada todo o tempo, na vida como no palco, ou não mais representada, de sorte que qualquer divisão entre a histeria e o teatro é impossível. Ela perde a consciência de que a representação é representação, e é isto que constitui sua própria histeria.

Para que não pairem dúvidas no ar, repito: Ela perde a consciência de que a representação é representação, e é isto que constitui sua própria histeria.

Todos os filmes de Cassavetes, em menor ou maior grau, são marcados pela histeria da representação, ou a representação da histeria. Em outras palavras, ocorre um curto-circuito. Não é representação tão-somente (como nunca é mesmo, sabemos bem disso), e não é a realidade tampouco. E o que é isso, então?

Thierry Jousse dá o nome de histeria. Eu penso, sobretudo, em Artaud. Eu penso em coisas que vi ou li ou vivi. A matéria essencial do teatro é a vida. E isso mais do que um lugar-comum, encerra uma verdade absoluta. O teatro não suplanta a vida, mas a recria.

* As citações foram retiradas do livro John Cassavetes, de Thierry Jousse.

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