DFW por Zadie Smith: ou A leitura como uma habilidade e uma arte
30 setembro, 2009
Smith: Eu penso na leitura como uma habilidade e uma arte. E se você lê mal – Eu sempre penso num bom exemplo – Tenho tentado escrever um artigo sobre [David] Foster Wallace e quando você lê Foster Wallace pela primeira vez, ou quando os críticos o lêem, eles o devolvem com aquilo que eles acreditam que viram, que é algum espertinho muito sabido com uma linguagem inteligente, mas eles não tem idéia de que isso –-
Silverblatt: Sim, que ele está tentando determinar o que é verdadeiro. O que pode ser dito de forma verdadeira.
Smith: Exatamente. Um incrível escritor altamente ético e moral. Mas há alguns tipos de camadas superficiais nele que, se você não pode perder seu tempo pra pensar mais a fundo, parece apenas, “Aqui está um cara inteligente com suas histórias espertalhonas”. E isso não é verdade. Mas o problema com os leitores, a idéia que nos é dada sobre leitura é que o modelo do leitor é uma pessoa vendo um filme, ou assistindo televisão. Então a idéia principal é, “Eu devo sentar aqui e ser entretido.” E o modelo mais clássico é a idéia do leitor como um músico amador. Um músico amador que senta no piano, tem a sua peça musical, que é a criação, feita por alguém que ele não conhece e provavelmente não pode compreender por inteiro, ele tem que usar suas habilidades para tocar essa música. Melhor a habilidade, melhor é a doação que você oferece ao artista e que o artista oferece a você. Essa é uma idéia sobre leitura incrivelmente fora de moda. Ainda assim, quando você pratica a leitura, e trabalha num texto, ele só pode lhe oferecer aquilo que você dedica a ele. É uma lição antiga, mas inteiramente verdadeira.
[Dessa vez negritei o que acho importante nunca mais esquecer (para mim). Nas outras vezes negritei o que achava importante você, meu leitor imaginário, reter; sei que você é preguiçoso, e daí que essa foi a melhor forma que encontrei para fazer com que você lesse ao menos o que se mostrava em destaque. Enfim.]
Via Renato Parada.
faz isso não, vai.
20 setembro, 2009
Logo abaixo, o trailer oficial do que se propõe a ser a versão filmada do livro de contos Breves Entrevistas com Homens Hediondos, de DFW.
Pra quem leu o livro, o trailer é patético, imbecil, boçal. O diretor (o qual não me atrevi sequer a pesquisar) não sabe ler, coitado. Nota-se pelo trailer que o problema não é de adaptação, mas de leitura mesmo. E agora eu vou ali dormir um pouquinho, afinal de contas coisas desse tipo só me fazem sentir mais e mais preguiça.
Lendo Harold Bloom
15 janeiro, 2009
Comprei Gênio (os 100 autores mais criativos da história da literatura) por uma bagatela. 20 reais e um SORRISO. Senti-me culpado por não dizer à dona do sebo que o livro custa 90 reais (culpa ligeira, pois). O livro estava sem preço; ela tinha à disposição acesso ilimitado à internet, mas não sabia acessar. Vasculhou a estante onde o livro fora retirado, e notou que os demais livros variavam entre 20, 25 e 30 reais. Usou a teoria da grossura (828 páginas), e chutou um preço: 25 reais e um sorriso. Soubesse que sou banguelo, pensaria duas vezes antes de pedir um sorriso. Pago 20, falei enquanto tentava manter a boca levemente aberta, num sorriso que não parecia sorriso, mas parece tê-la convencido de minha amabilidade. Ok, disse aproximando-se e perguntando o que faço pra ganhar a vida. Vendo planos de saúde. Eu precisava mesmo fazer um plano de saúde… Indica qual?, perguntou aproximando-se MAIS. Medial… e pra falar a verdade estou meio atrasado. Cresci ao lado de mulheres, mas nunca tive jeito com elas; são complexas demais para uma só vida. Ao abrir o livro, ponho-me a gargalhar de maneira infantil, como se ganhasse a coleção completa dos Transformers.
¨¨
Harold escreve como se conversasse:
É preciso oferecer ao leitor um senso de proporção: basta reler O Sol Também se Levanta após reler Ulisses, de Joyce. Hemingway não consegue alterar a maneira como se lê: ele aguça a consciência do leitor, quanto a questões de estilo e sensibilidade, mas não altera a relação do leitor com a linguagem.
Nesse trecho Bloom diz TUDO o que eu queria dizer (não faltassem meios para isso) quando ao falar de DFW e seus contemporâneos. Jonathan Franzen, por exemplo, aguça a consciência do leitor, mas não ALTERA a relação do leitor com a LINGUAGEM.
One day at a time
3 janeiro, 2009
Pensei na maior perda que tivemos este ano e cheguei a uma conclusão um tanto óbvia para quem acompanha este blog. A maior PERDA de 2008 foi a morte de David Foster Wallace. Tiago A pensa o mesmo (ele não diz isso explicitamente, A MAIOR PERDA DE 2008 e tal, mas eu posso afirmar que ele sente o mesmo). E ele diz algo que eu costumo comentar com amigos e transeuntes dispostos a ouvir:
A afirmação de Tiago A. pode, também, ser aplicada à ficção de Foster Wallace. Após ler um conto qualquer dele (estou pensando em Para sempre em cima e A pessoa deprimida, ou o conjunto de contos intitulados Breves entrevistas com homens hediondos) tudo MAIS perde o interesse, e você começa a se perguntar como você conseguia viver antes de deparar-se com esse autor, tal como fazemos ao nos apaixonarmos e reavaliarmos o ANTES e o DEPOIS, e concluirmos que a vida só passa a ter sentido agora, com a presença desse OUTRO que é parte de NÓS.
Ninguém escrevia como David Foster Wallace. Ninguém escreve como David Foster Wallace. Eu sei que você costuma ouvir isso um bocado de vezes, o que te leva a pensar que isso não passa de uma frase de efeito ingênua, criada com o intuito primeiro e último de te seduzir, o que não deixa de ser verdade por um lado, mas que esconde o intuito VERDADEIRO da sentença, que é o de dizer que realmente ele era ÚNICO e que perdê-lo causou em mim (prepare-se, lá vem pieguice) uma hecatombe interna de proporções ainda não assentadas (o impacto foi semelhante à perda de um ente muito querido).
Escrevo isso aqui para ressaltar a importância de DFW em minha vida, e de como ela foi ALTERADA pela leitura de seus escritos em 2007-2008, embora eu saiba que nada do que eu venha falar aqui modifique o fato de sua perda precoce, o que só agrava ainda mais essa SENSAÇÃO estranha e sem nome que estou sentindo enquanto escrevo e penso no que ele provavelmente nos legaria futuramente.
De acordo com o laudo da polícia1, ele pregou o cinto de cor negra em um suporte de madeira do telhado de um alpendre no pátio dos fundos do quintal da casa e preparou uma forca. Depois, amarrou os próprios punhos com fita adesiva para evitar que pudesse desistir. Seu método escolhido foi morrer lentamente sufocado. Era uma noite de chuva. Usava uma bermuda cinza e uma camiseta azul. Os cabelos, crescidos até a altura do pescoço, estavam soltos. No rosto, a barba por fazer. Tinha à mostra no braço direito a tatuagem de um coração, sobre a qual estava escrito um nome: Karen. A morte foi declarada às 21h23 do dia 12 de setembro, cerca de quatro horas depois que a esposa saiu de casa e viu-o vivo pela última vez. Tudo ocorreu em Claremont, nos Estados Unidos. (…)
A morte de DFW foi ignorada pela imprensa escrita. A revista Piauí contribuiu com a tradução do seu discurso (parte dele) como paraninfo do Kenyon College. Uma notinha esparsa aqui, um comentário acolá, e finito. Sepultaram-no antes mesmo do sepultamento em si. À época, fiquei puto, esbravejei, babei, disse que precisava de um dossiê em todos os periódicos de CREDIBILIDADE disponíveis no Brasil (doce ingenuidade), e tudo mais a que tivesse direito, afinal ele escreveu isso, e isso, e mais isso aqui, e Infinite Jest (que estou lendo), e Para sempre em cima (prometo postá-lo na íntegra num futuro próximo), que é um dos contos mais AWESOME dos últimos anos, e por isso TUDO não poderiam, não deveriam colocá-lo na vala comum da seção de obituários nunca lidos. Mas, como haveria de ser, colocaram-no na vala comum, e assim permanece quase desconhecido por estas bandas (alguns citam dizendo que é o autor que cometera suicídio enforcando-se em sua casa envolto aos seus cachorros durante uma noite chuvosa).
Era MAIS ou MENOS isso que eu tinha pra dizer, e já é 3 de janeiro de 2009, e eu deveria terminar o post desejando felicidades e agradecendo o ano que passou, e você provavelmente sorriria do outro lado enquanto saboreava algum naco de carne da noite anterior, mas eu prefiro deixar um presente (não precisa agradecer) e um sorriso à Buster Keaton, e acrescentar o uivo triste do meu cachorro quando na virada do ano, que como se antevisse o já fatídico 2009, só fazia uivar e andar em círculos e mais CÍRCULOS.
Aqui o presente em PDF; aqui em versão folheável (o único dossiê declaradamente tupiniquim acerca de DFW; e de lambuja um ensaio de fôlego sobre Mãos de Cavalo e uns textinhos SABOROS envolvendo literatura. Um aperto de mão e um abraço a Não Editora e a Antônio Xerxenesky, e um pedido: apressem, por gentileza, a feitura da número 2).
Eu quérô, eu quérô, eu quérô…
23 outubro, 2008
One afternoon, April of sophomore year, Costello came back to the dorm they shared and found Wallace seated in his chair. Desk clean, bags packed, even his typewriter, which weighed as much as the clothes put together.
“Dave, what’s going on?” Costello asked.
“I’m sorry, I’m so sorry,” Wallace said. “I know I’m really screwing you.”
He was pulling out of college. Costello drove him to the airport. “He wasn’t able to talk about it,” Costello recalls. “He was crying, he was mortified. Panicky. He couldn’t control his thoughts. It was mental incontinence, the equivalent of wetting his pants.”
“I wasn’t very happy there,” Wallace told me later. “I felt kind of inadequate. There was a lot of stuff I wanted to read that wasn’t part of any class. And Mom and Dad were just totally cool.”
Wallace went home to hospitalization, explanations to his parents, a job. For a while, he drove a school bus. “Here he was, a guy who was really shaky, kind of Holden Caulfield, driving a school bus through lightning storms,” Costello recalls. “He wrote me a letter all outraged, about the poor screening procedures for school-bus drivers in central Illinois.”
Wallace would visit his dad’s philosophy classes. “The classes would turn into a dialogue between David and me,” his father remembers. “The students would just sit looking around, ‘Who is this guy?’ ” Wallace devoured novels — “pretty much everything I’ve read was read during that year.” He also told his parents how he’d felt at school. “He would talk about just being very sad, and lonely,” Sally says. “It didn’t have anything to do with being loved. He just was very lonely inside himself.”
[Mais]
Default setting
11 outubro, 2008
É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.
Pomona College
26 setembro, 2008
Those who knew him personally speak of his kindness: Longtime agent Bonnie Nadell recalls how he stood on line at FedEx the week before Christmas to mail an autographed book to a fan. “He would just do things like that because he was a really sweet person,” she says. His students at Pomona College in Claremont, Calif., remember the committed, engaged teacher: Amanda Shapiro had taken writing classes with him the past three years, and recalls the copious comments she got back from him about her assignments. “He would write five pages of notes on a six-page story,” she says, “and put so much care and thought into helping us as writers. He would type out the letters, and then annotate them, in pen, with little smiley faces and notes and corrections*.
…
Se tivesse direito a um pedido, com gênio da lâmpada e tudo, pediria para retroceder o tempo e me dar um passe livre nas aulas de redação criativa de David Foster Wallace, no Pomona College. Para quem dizia, e ainda diz, não acreditar em aulas de redação criativa, isso pode soar como um paradoxo. Não é. Não em se tratando de ter aulas com David Foster Wallace.
* Grifo meu.
DFW no Folhateen?
22 setembro, 2008
Como ninguém se manifestou na informada e querida Folha de S. Paulo, o Álvaro Pereira Júnior, que tem uma coluna no Folhateen, intitulada Escuta Aqui, resolveu falar. É provável que não tenha lido nada do DFW, mas ao menos pesquisou sobre. Falou umas asneiras – normal – sobre o visual e o comportamento do escritor, mas você pode pular essa parte do texto e pensar que ao menos alguém naquele jornaleco contribuiu para que amanhã, bem cedo, David Foster Wallace esteja zanzando numa dessas movimentadas banquinhas da feira e servindo para embrulhar algum peixe qualquer.
Leiam:
Enforcamento sob o céu sem nuvens
EM MEIO A queda das bolsas, caos na Bolívia e outras hecatombes, uma notícia importante e muito triste passou despercebida na semana passada: o suicídio, por enforcamento, do escritor americano David Foster Wallace, aos 46 anos.
Que um escritor se suicide não chega a ser novidade: Hemingway, Virginia Woolf, Hunter Thompson, Maiakóvski. A lista é longa, e Wallace, apenas seu mais novo integrante. Mas dois detalhes causam estranhamento nessa história de morte.
Primeiro, o lugar: o ensolarado, próspero e feliz sul da Califórnia, mais precisamente a cidade de Claremont, nas imediações de Los Angeles. Lá fica a instituição onde Wallace dava aula, o Pomona College, uma dessas faculdades pequenas, mas de alta qualidade, que nos EUA são chamadas de “liberal arts colleges”.
Professores universitários às voltas com os fantasmas da mente são personagens comuns na literatura. Para ficar em dois exemplos de que lembro agora, temos Coleman Silk, em “The Human Stain” (de Philip Roth), e Jack Gladney, em “White Noise” (de Don DeLillo). Esses dois casos da ficção são de acadêmicos que ensinam em pequenas cidades geladas do norte do país, sem nada relevante por perto além da própria faculdade. O isolamento e a natureza inóspita criam a moldura perfeita para os atos extremos desses intelectuais sem rumo.
Segundo detalhe estranho: a razão da morte. Wallace tomava remédios contra depressão havia 20 anos. Mantinha-se produtivo e, me atrevo a dizer, até um pouco chato: falante demais em entrevistas, extravagante demais no visual etc. Após tanto tempo de uso, os remédios começaram a causar efeitos colaterais, e um médico decidiu retirá-los. Como resultado, ele mergulhou na mais profunda depressão, e dela nunca mais consegui sair.
Wallace morreu cercado de um mundo tão perfeito quanto possível, destruído por uma doença quimicamente tratável.
A morte de David Foster Wallace foi tão incomum quanto sua literatura.
Shame on you
20 setembro, 2008
Um dos maiores escritores desse século morreu e os jornais mais parrudos de São Paulo não deram sequer uma notinha fim de página para ilustrar o fato. Nem os Cadernos especiais de Cultura desses mesmos jornais legaram um simplório texto sobre o dia trágico. Tudo bem que 90% 99% da crítica literária desses mesmos periódicos desconhecia a existência desse escritor da mesma envergadura de um Philip Roth, por exemplo, mas daí a não se informar sobre a morte desse escritor de 46 anos é algo vergonhoso. Ao menos a blogosfera, em partes, manifestou-se e salvou a imbecilidade disseminada em nossa imprensa de cobertura de festas de casamento de menininhas virgens e inocentes.
De 11 acontecimentos, filmes, constatações, leituras, pessoas e lugares recentes que me marcaram deveras
18 setembro, 2008
1. Assistir, sozinho, luzes apagadas e silêncio sepulcral, Não Matarás (Kieslowski)
2. Notar que está lendo mais na rede do que fora dela
3. Morte de Heath Ledger
4. A literatura de Cormac MacCarthy
5. Lee Thaylor
6. Ler, estudar e encenar uma peça (Coronado, de Dennis Lehane)
7. Filmografia completa de John Cassavetes
8. A inexorável constatação de que hábito não é amor
9. Da leveza de se notar um sujeito inábel para as coisas do coração e não dar a mínima para isso
10. A casa, lugar como refúgio primeiro e último
11. Suicídio de David Foster Wallace



