Educação

26 fevereiro, 2010

★★★☆☆  Educação

Educação tem roteiro de Hornby, o que quer dizer muito para alguns. Não pra mim. Mas é preciso colocar as coisa no lugar: é um filme de diálogos fluentes e cadência agradável, e isso também não costuma agradar aos críticos mais sisudos e que tomam café antes das exibições. Daí que a obra vem levando, injustamente, pedradas a torto e direito dos exegetas de plantão e de alguns engraçadinhos que tomam Hornby por um tapado que gosta de listas. Hornby é um escritor talentoso, quer gostemos ou não das coisas que escreve. Lone Scherfig dispensa apresentações. O que não esperava é essa tal de Carey Mulligan brincando assim com as palavras e inflexões. É de uma delicadeza e precisão a interpretação da garota que eu fiquei realmente impressionado. Mais: esqueça as resenhas que leu e curta uma história bacana acerca de uma garota que precisa crescer.

Corte Seco #1

16 fevereiro, 2010

Há coisas que penso e quero dizer acerca de Corte Seco, mas ainda preciso ver mais vezes, deixar a coisa maturar pra valer, sabe. Não quero falar idiotices aqui e depois ver que eu é que estava sendo inconsequente. Christiane Jatahy merece um olhar mais cuidadoso. Cuidadoso, sim, não generoso.

Faço um recorte aqui da longa conversa-entrevista (de leitura obrigatória para quem se interessa um tantinho assim por teatro e áreas afins) que Jatahy e Cristina Amadeo (atriz, assistente de direção etc.) cederam à revista Questão de Crítica (há outros trechos mais interessantes e/ou reveladores a respeito da montagem, sem dúvida, mas separei esse por acreditar que essa fala resume não só o espírito de Corte Seco mas o quão importante é ter uma artista da envergadura de Jatahy por estas bandas):

CHRISTIANNE JATAHY – E essa questão do tempo está muito presente no trabalho. Tanto na construção como no resultado, até o ponto – e aqui vou fazer um paralelo – que na A falta, no filme principalmente, a gente chegou a filmar três horas contínuas com esse objetivo: O que é que se cria quando você não pode parar? No que é que resulta quando você não sabe onde vai ser o fim? Eu lembro que eu vi uma vez numa matéria, acho que era até sobre o Glauber, eu também já ouvi o John Casavettes falando isso. Eles falavam: “Ele tá com a câmera lá, eu não tinha mais o que fazer e a câmera continuava.” Acho que tem um pouco disso no Corte Seco: não tem mais o que fazer e o olhar do espectador continua lá.

Ah, leia a entrevista todinha (e assista ao espetáculo), caso contrário, fora do contexto, sem você ter visto a peça, esse fragmento pode soar como firulinha retórica de artistinha metido a besta.

Não seja inconsequente.

Aceito, sim, por que não?

20 janeiro, 2010

você não imagina o que somos capazes de fazer quando temos um objetivo.

17 janeiro, 2010

É mais ou menos isso que diz o personagem de Nicolas Cage em Vício Frenético. A expressão não tem nada de auto-ajuda não, muito menos o filme, e você aí poderia dizer que se trata de um lugar-comum, coisa de cinema. Em parte eu também acho, afinal todos sabemos que se investirmos bastante em algo esse algo fica mais próximo. Ou mais longe. E eu realmente não dava lá muita bola pra essa afirmação antes de ouvi-la na boca do Cage.

Você não imagina o que somos capazes de fazer quando temos um objetivo.

Mas fiquei pensando bastante nisso. Pensei em como diariamente, semanalmente, anualmente, desperdiçamos nossa vida em coisas banais, coisas que não têm o menor sentido (mediocridades mesmo). E no fundo nós sabemos muito bem que estamos desperdiçando alguma coisa. Por vezes, demoramos uma vida inteira nos distraindo de nossos objetivos primeiros.

Distrair. Taí: eu vivo me distraindo.

algumas coisas ficam conosco para sempre. Eric Rohmer é uma dessas coisas.

11 janeiro, 2010

Eric Rohmer (1920-2010)

Jarmusch a criar um anti-thriller e um assassino leitor de Camus-Sartre e saído à revelia de um Antonioni the passenger.

29 dezembro, 2009

★★★★☆  Os Limites do Controle

É tudo que Hotel Atlântico não é. Deambular, deambular, deambular.

Arieta Corrêa a cortar pedaços de bolo em pequenos cubinhos e acomodá-los edulcoradamente na bocarra (linda, pois sim) de Aline Moraes.

22 dezembro, 2009

Primeiro, a surpresa: Arieta Corrêa (ou Correia, não sei ao certo) na novela Viver a Vida. Imagino que você talvez não conheça Arieta, por isso clique aqui e depois leia esse breve parágrafo que escrevi sobre a pequena notável. Fez diversas pontas na televisão (e uma personagem pra valer em Tudo de Novo, minissérie da Globo), e não há surpresa alguma que o grande público mal a note. Não os culpo. Menos ainda Arieta, que deve ganhar algum dinheiro pelas aparições esporádicas. Mas me incomoda deveras vê-la em Viver a Vida.

Um pequeno diálogo que travei com minha esposa noite dessas, a caráter de ilustração:

- Arieta tá fazendo Viver a Vida?!

- Tá falando da Laura?

- Como é, Jaq?

- Tá falando da Laura, a enfermeira?

- É… Você conhece?

- Ela costuma aparecer…

- Então, que bacana, ela é uma atriz e tanto… Ficou anos com o Antunes!

- É, ela sabe sorrir bem.

- Tá tirando sarro de mim?

- Não. Toda vez que ela aparece ou tá rindo ou tá com cara de ascensorista de shopping pêra com leite.

- Pêra com leite?

- É, shopping chique e tal.

- Saquei. É uma pena isso.

- Pena por quê? Tá ganhando algum e aparecendo no horário nobre.

- Mas é figuração, Jaq!

- Figuração, sim, mas remunerada. E a personagem dela tem até nome. E outra: ela tá contracenando com essa coisa linda que é a Aline Moraes.

- É, tá sim. Olha lá: tá dando cubinhos de bolo na boca dela… Se ao menos ela falasse alguma coisa durante as cenas…

- Mas ela fala.

- Sério?

- Ela chama a colega pra mudar a Aline de posição.

- Ah, Jaq!

- Tô dizendo. E daqui a pouco ela, se for boa do jeito que você diz, vai ganhando mais espaço e tal.

- Como enfermeira no canto do quarto?

- Claro! A Juliana Paes fazia a empregada do tipo gostosona uns anos atrás e agora foi escolhida atriz do ano.

- Atriz do ano?!

- É! Puta que pariu, Lucas, cê precisa ver mais televisão.

- Mas até a empregada dessa novela tem um papel de maior relevância que a Arieta, Jaq.

- Taí: começou por baixo, quase nem falava, e agora já fica uns cinco minutos desfilando pra lá e pra cá de lingerie.

- Não, Jaq, não, isso não é pra Arieta. A Arieta fez Medéia, O Canto de Gregório, Prêt-à-Porter, tudo isso só com o  Antunes, fora o filme com o Masagão e a peça com o Hirsch…

- Cê nunca vai entender, Lucas, nunca. Na televisão a gente começa por baixo.

Depois desse diálogo algo epifânico com minha esposa, pus-me a pensar debaixo do chuveiro (é onde costumo pensar melhor). As sinapses & neurônios a rebelar-se contra mim. Talvez a Jaq esteja certa, afinal é só uma novela. E uma pessoa (como sabemos há tempos) não é uma escolha. Uma pessoa (não custa repetir) é um conjunto delas. E a Arieta é, sim, uma grande atriz. Asseguro-lhes.

- (Às gargalhadas): Lucas! Corre, Lucas! A sorrisinho (Arieta) falou pra Luciana ficar calma… (imitando-a) ‘Luciana, fica calma, fica’… Taí, Lucas, uma frase completa. Isso aí até eu falava melhor que a sorrisinho…

E eu também sorri, que é na verdade a última coisa que resta pra fazer numa situação dessas.

Drops #9

26 novembro, 2009

1. Sonhei, noite passada, que era protagonista de um dos filmes do Wes Anderson (minha esposa esbofeteou-me repetidas vezes, assegurando assim minha integridade física e moral). A vida já está difícil tal e qual, livre de entropias familiares e risos melancólicos. Tudo o que eu mais precisava agora era ser protagonista de um dos filmes do Capra.

2. Queria poder escrever (literalmente) meus sonhos com uma antecedência segura (vai que eu caio num filme qualquer do Abel Ferrara…). Digamos que com 24 horas entre um sonho e outro. É isso: amanhã estarei num filme do Lubitsch e no final de semana entro de sola num Billy Wilder de tintas mais cômicas.

3. A vida pode continuar sendo um caos absurdo e tal (e geralmente triste & tétrica), mas ainda somos capazes de sonhar.

Mas como descrever na tela que uma mulher pode enlouquecer por ter ficado sozinha por trinta segundos?

17 outubro, 2009

Por outro lado, alguns fenômenos muito complexos, delicados ou que se encontram entre os mais arcaicos na história da representação sofrem aqui um tratamento resolutamente claro, não mais sendo trabalhados por valores indefinidos, mas agora da definição: a loucura, a fraternidade, o que significa ser um ator. Encontram-se assim implicados, de forma surpreendente mas com grande rigor, certos procedimentos descritivos típicos do cinema. Cassavetes assinala um dentre eles, que identifica o trabalho de construção de seu filme à tradição de experimentações modernas sobre a estruturação de uma obra, por exemplo, a força que uma síntese temporal atribui a temporalidades frágeis ou da discrição que é conveniente na abordagem de fenômenos devastadores: “Quando vemos esta mulher sozinha ao telefone durante dois minutos, é preciso sentir que ela pode enlouquecer.Na vida, o orgasmo ou o tédio podem nos levar à loucura. Mas como descrever na tela que uma mulher pode enlouquecer por ter ficado sozinha por trinta segundos?” A obra de John Cassavetes pertence à tradição de Faulkner e Schoenberg , obras que trabalham as profundezas das formas, dinamizada por esta idéia inicial de que “as formas da arte registram a história da humanidade com mais exatidão que os documentos”, uma vez que, escrevia ainda Adorno, “ a arte se dirige ao sofrimento real”, e não a uma aparência das paixões.

O Rio é bem bacana

6 outubro, 2009

Não dei a mínina quando soube que o Brasil iria sediar as Olimpíadas de 2016. Até fiz beicinho de reprovação e tudo mais.

Copa em 2014 e Olimpíadas em 2016?

Não dá pé. Peido embaixo do cobertor, espinha na nádega direita, café amanhecido, banheiro sem papel higiênico etc. Pense em assistentes sociais visitando casas de pais que acabaram de adotar um casal de vietnamitas. Tudo funciona de maneira exemplar. A sujeira encoberta por um tapete persa. É assim que vejo dois eventos dessa magnitude  sendo geridos em espaço de tempo tão curto. Mas mudei de opinião. O motivo?

Woody Allen. Isso mesmo: WOODY ALLEN. A irmã de Woody (produtora também) e o produtor (que não é irmão) foram recebidos pelo prefeito e o governador do Rio esta manhã. O que antes não passava de um boato dos mais agradáveis agora se mostra uma evidência capaz de me fazer reavaliar meus senãos. A irmã de Woody não é de ficar batendo perna por aí (sei do que falo, conheço a família). Muito menos os produtores de Allen. Isso quer dizer (e agora não me contenho) que Woody, possivelmente em 2011, estará no Brasil.

E eu não estarei longe. Sei ser discreto. Woody aprecia discrição. Imaginem: eu de sunguinha branca nas praias do Rio, tal como um Rodrigo Santoro saindo do mar em As Panteras. A diferença entre mim e Rodrigo é clara: tenho miolos e compleição menos robusta, o que só depõe a meu favor, já que Woody dá preferência a tipos ordinários, prosaicos.

Pois sim. Acham que brinco?

Então continuem achando. Em 2011 não se esqueçam dos noticiários locais. Procurem por Lucas Mayor sunguinha branca e Woody Allen.

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