O Profeta
9 fevereiro, 2010




O Profeta
Primeiro: é daqueles tipos de filmes que você sente vontade de mostrar para os amigos (só os mais próximos) e depois passar a noite falando sobre e cruzando experiências acerca de possíveis influências e coisa e tal. Segundo: valeria a pena eu perder um bocado de tempo escrevendo a respeito de aspectos técnicos e virtuosismos que o filme evidentemente apresenta, mas isso diria muito pouco (quase nada) desse que é, até agora, 9 de fevereiro de 2010, noite de terça-feira abafada, o maior filme do ano na opinião do sujeitinho aqui. Adianto que não é empolgação juvenil nem falta de critério não, afinal vi todos os filmes concorrentes ao Oscar (o que não quer dizer nada), entre outros (o que quer dizer muito), e nenhum deles, asseguro-lhes, nenhum deles lambe os calcanhares dessa saga cão come cão; nem mesmo Guerra ao Terror, ou Bastardos Inglórios, ou Um Homem Sério. Sei que exagero. Sei que adjetivo demais, e isso não é bem visto por quem se pretende a fazer críticas imparciais e espertinhas. Mas: não sou crítico, não sou imparcial, e quero mesmo é continuar a falar sobretudo das coisas que me tocam (nada de toque retal, certamente). Do contrário largaria o leme e encaminharia-me à prancha.
Enfim.
Alexandre Desplat compõe a trilha. Mais uma vez: Desplat é responsável pela trilha. Faz cara de surpresa e felicidade e batuque algo próximo a você (falo sério). Algo te faz pensar na trilha de Inimigos Públicos, imagino. Esquece Elliot Goldenthal. Esquece aquela belezura que é Ten Million Slaves na bocarra do Otis. Imagine Desplat a compor uma trilha que cresce com o personagem. De garotinho imberbe e babão a homem que bate no peito e diz eu quis e eu fiz. Arrisco num cavalo: Desplat estava a rever GoodFellas e o cinema americano todinho e também o cinema italiano e os portentosos filmes de máfia da década de 70 e 80 enquanto compunha o corpo da trilha.
Jacques Audiard fez o mesmo (sobretudo no quesito american way of life), com a vantagem de ser um amante antigo do cinema italiano (ele afirma isso em quatro de cinco entrevistas concedidas). Não vou dizer que vejo Rocco e Seus Irmãos (o maior filme italiano de todos os tempos) em O Profeta, mas negar que há similaridades consangüíneas aqui seria de certo uma burrice. Devo dar um resumo didático agora, assim fica fácil pra você:
Malik é jovem de seus vinte e tantos anos, e vai preso. Medroso, imberbe (não sei por que insisto nisso) e chorão. Como todos os jovens de vinte e tantos anos presos, não sabe como sobreviver na cadeia (você saberia? Não responda). Terá de ser mulherzinha, como na maioria dos filmes passados em prisões? Nada disso. Malik tem de matar. É simples assim: matar pra sobreviver. E é isso que fará até o fim. Não só matar, obviamente, mas sobreviver. Adaptar-se ao meio e fazer o meio jogar a seu favor. Um tipo de bildungsroman na telona. Cresce e aprende na adversidade, tal como nós. Mata e sobrevive na adversidade, diferentemente de nós.
Sei que é infantilidade minha falar ainda mais das influências e dos decalques impressos em O Profeta, mas não dividir esse sorrisinho maroto que agora contamina toda minha face, como se tivesse descoberto o esconderijo de Deus, me deixaria pouco à vontade, sozinho com minhas epifanias (compartilhar epifanias é um desvio de meu caráter, sinto muito). Divido, então: James Gray. Pois sim. Ver O Profeta é como assistir Gray adentrar o sistema penitenciário. É o The Yards francês. É O Caminho Sem Volta europeu. Digo mais: Gray assistirá ao filme e o colocará na lista não só dos melhores filmes dessa década, mas na sua listinha pessoal de filmes indispensáveis (da vida, sim).
Acabo de retirar do baú minha agendinha. 243 filmes para serem vistos antes da chamada oficial divina (não mostro a lista nem pra minha esposa, então por favor, não insista). 244 agora (pois é, pois é, O Profeta é o 244).
Audiard fez um filme definitivo (e não me venha dizer que todos os filmes são definitivos). Não sobre o sistema penitenciário ou questões de fundo social/étnico/político, nada disso. Fez um filme definitivo acerca da imponderabilidade de ter não ter escolhas e por isso mesmo ter de “escolher” (paradoxo algum). E Malik, de maneira irrevogável, escolhe. E daí reinventa-se (tudo o que desejamos inconscientemente/conscientemente fazermos sempre quando acordamos ou chegamos ao trabalho ou nos vemos prostrados num sofá de dois lugares e posicionado estrategicamente na frente de um televisor qualquer e diante de uma vida que, bem, você aí sabe que tipo de vida é essa). Poderia tecer variadas considerações sobre mensagens, argh, outras que O Profeta tem/teria, mas isso, como disse acima, diria muito pouco (quase nada) da experiência que é ver esse novo filme de Jacques Audiard.
algumas coisas ficam conosco para sempre. Eric Rohmer é uma dessas coisas.
11 janeiro, 2010
Eric Rohmer (1920-2010)
Onde investir R$ 264,80?
24 agosto, 2009
Inimigos Públicos
1 agosto, 2009




Inimigos Públicos
Eu tinha certeza, ou quase, de que Heat fora o melhor filme de crime da década de 90. Mas conservava dúvidas (as lembranças são traiçoeiras). Esta semana revi o filme. As dúvidas dissiparam. Perdoe a repetição dos termos, mas ela se faz necessária: é o melhor filme de crime da década de 90. Não o mais ambicioso, já que Goodfellas é da mesma década. Este último eu revejo anualmente, sobretudo por um plano-seqüência virtuoso e por Joe Pesci matar o garoto-contínuo e engessado. Adoro ver contínuos sendo mortos durante o exercício da função. Em cenas desse tipo, exerço minha pequena cota de sadismo, e depois volto a ser assim, cordato. Mas quero falar de ambição.
Os filmes contemporâneos não são ambiciosos. Não por falta de cifras (basta ver Transformers e seus congêneres). Hollywood, apesar da crise intermitente, tem dinheiro. Tudo bem que não arriscam como antes, mas basta injetar alguns milhões nos lugares certos e teremos a ambição renovada. Eu fiz um exercício rápido de rememoração e não lembrei um único filme norte-americano de 2000 pra cá que fosse AMBICIOSO de uma maneira satisfatória (quando digo ambicioso de uma maneira satisfatória tenho em mente A Trilogia do Chefão, O Franco Atirador, Os Intocáveis, Apocalypse Now, 2001: Uma Odisséia no Espaço, Touro Indomável etc.).
Eu imagino que você deve estar babando enquanto lê isso, e deve estar pensando, agora mesmo, nos filmes do Marty com o Di Caprio, e eu não o culpo por isso, afinal eu mesmo pensei neles. Há ambição ali, mas tão-somente ambição. Nada além. Sangue Negro? Idem. Onde os fracos não têm vez? Mais resultado e menos ambição. O Gângster? Eu pulo, ok. Eu pensei em falar do Oliver Stone aqui, mas declinei ao lembrar do pernóstico Alexandre, O grande.
A lista é interminável, sabemos bem disso. Então proponho que pulemos etapas. Vamos ao que interessa.
Inimigos Públicos é o filme mais ambicioso dessa década. Ponto 1. Nenhum diretor domina a ferramenta digital com mais qualidade e esmero do que Michael Mann. Ponto 2. Ao menos cinco cenas (chutando baixo) de Inimigos Públicos poderiam constar dentro de qualquer painel, de qualquer época, como cenas de antologia. Ponto 3. A escolha certeira da trilha, a correta e pontual utilização, sublinham a grandeza desse épico. Ponto 4. Eu falei épico?
Sim, épico. Alguns críticos proeminentes andam desancando Inimigos Públicos. Ponto 5. A não-expressividade de Bale é sua marca registrada, e raramente funciona, mas aqui o papel lhe coube como nenhum outro em sua carreira. Ponto 6. Michael Mann é um romântico inveterado. Ponto 7. Nenhum casal no cinema contemporâneo faz par ao romance entre Dillinger & Billie. Ponto 8. O elenco secundário é awesome. Ponto 9. Johnny Depp é sempre desavergonhadamente magistral, mesmo quando excede, with Burton e tal. Aqui ele está depurado, seco, praticamente um decalque do Dillinger real. É uma interpretação apaixonante. Ponto 10. As cenas de ação nos tomam de assalto. Ponto 11. Michael Mann é, possivelmente, o maior (estou pensando, mormente, em termos de ambição) cineasta norte-americano da atualidade. Inimigos Públicos é o maior e melhor filme do ano a entrar no circuito nacional.
Não há dúvidas, ok. Não estou arrebatado pelo impacto da exibição, afinal já vi o filme há mais de uma semana. Minha única preocupação, agora, é a expectativa em torno do próximo Mann. A possibilidade da frustração. Ele nos acostumou mal. No entanto, eu o perdôo (não me corrijam, por favor) de antemão. Pode fracassar à vontade, Mann, eu deixo, juro que deixo.
Além de dormir, filmes #3
12 junho, 2009
Nas últimas semanas vi alguns filmes, mas só vou falar de quatro, afinal meus dedos e parte do meu intelecto estão sendo sugados todas as manhãs por adolescentes vegetarianos e que mais se comunicam com celulares e estojos de maquiagem do que com seres com cartilagem e que emitem códigos de linguagem e não apenas ruídos sonoros indecifráveis.




Um jogo de vida ou morte
Perdi o filme na época do lançamento (2007), mas guardei nomes. Kenneth Branagh na direção, Harold Pinter como roteirista e Jude Law e Michael Caine como intérpretes. Não são meros nomes. Ter Harold Pinter como roteirista é sonho de 10 entre 10 cineastas (depois de sua morte, sonho de 11 entre 10 cineastas). E temos Sir Branagh Shakespeare por trás das lentes. O filme é baseado na peça teatral de Anthony Shaffer, e, como se sabe, transpor dramaturgia para a sala escura é pedra de sísifo. O resultado é um filme teatral. No bom sentido. Ainda assim, aquém das minhas expectativas (quem mandou criar expectativas, não é mesmo?).




Minnie and Moskowitz
Revi Minnie and Moskowitz porque precisava amar novamente. Nem que fosse um amor de mentirinha, e por uma personagem de ficção, precisava (não julgue minhas atitudes). Estou apaixonado por Minnie como da primeira vez em que nos encontramos. Tinha 22 anos à época, e lembro que chorei. Hoje, não. Sorria e praticamente dançava na sala, como que desejando ser Moskowitz, ao menos de vez em quando.




Coraline e o mundo secreto
Gaiman dependesse de adaptações cinematográficas para ser reconhecido, estaria atolado em dívidas (as duas estrelas traduzem apenas um pedido de minha filha, que ficou apaixonada por Coraline).




O exterminador do futuro: A salvação
McG me fez rir com As panteras. McG me fez dormir com O exterminador do futuro: A salvação.
P.S.: Só Cassavetes pode dispor de música noiva no altar e não soar piegas ou old fashioned. Só Cassavetes.
Das Weisse Band
24 maio, 2009
Enfim Haneke leva a Palma de Ouro para casa.
Além de dormir, filmes #1
19 março, 2009




Sim Senhor
Ter Jim Carrey no elenco equivale a PULAR etapas, sendo que o trabalho restante se resume a deixá-lo em cena, falando, GESTICULANDO, andando. Se algumas situações fossem mais bem resolvidas, e o humor mais nonsense, o filme seria mais do que COOL. E que OLHOS tem essa Zooey, hein.




Quatro Noites Com Anna
E o imbecil AQUI não conhecia Jerzy Skolimowski. Quatro Noites Com Anna é feito de BLOCOS de neve. Skolimowski filma como se estivesse a cavoucar um tipo de humanidade solapada, EXTINTA. E Léon é comparável às GRANDES personagem de Lars von Trier (feito do mesmo material de Grace, Dogville, e Bess, Ondas do destino).




O Leitor
Difícil não DORMIR.




Cashback
Há 18 minutos realmente CRIATIVOS, o que não quer dizer que tenhamos de ENGOLIR outros 70 de picardias juvenis.




Good Dick
A PREMISSA e os momentos em que os personagens fazem silêncio justificam o filme.
A Festa de Abigaiu
2 fevereiro, 2009




A Festa de Abigaiu
Gosto do Mike Leigh cineasta. Nu é sua obra-prima. Segredos e Mentiras continua sendo um BOM filme. E tenho certo carinho por Agora ou Nunca. Dos recentes, nada realmente grande ou marcante.
Escritor prolífico (mais de 20 peças) e diretor teatral experiente, escreveu A Festa de Abigaiu na década de 70. A crítica ao consumismo e ao matrimônio continuam atuais, embora as piadas soem ultrapassadas e o texto um tanto frouxo e de humor bem particular.
O ganho da encenação advém do conjunto de atores. Sobretudo de Paula Arruda (cria de Antunes, agora entre novos-ricos e risos enlatados), que faz um personagem que DESTOA dos demais e abusa (no bom sentido) nos detalhes. Vê-la dar corpo e voz a uma mulherzinha reticente e submissa, vale os R$ 50 reais que não paguei pelo ingresso.
Sete Vidas
29 janeiro, 2009




Sete Vidas
Will Smith está na crista da onda. Will Smith não precisa de pares. Will Smith cobra o escanteio e cabeceia. Will Smith domina a tela por mais de 30 min em Eu sou a lenda. 30 MINUTOS. Só ele e um cão.
Will Smith é um GRANDE ator? A resposta é sim. Ali e À procura da felicidade assaz demonstram isso. O problema é que Will Smith está começando a fazer Will Smith, o que não seria de todo ruim se ele fosse Bill Murray ou Woody Allen. Will Smith é uma CELEBRIDADE. A imagem dele é tão onipresente que o jogo agora é o Will Smith fazendo Ben Thomas (personagem de Sete Vidas) e não o Ben Thomas fazendo o Will Smith vira quase metalinguagem, imbrica ator e personagem, personagem e ator, e no final ficamos nos perguntando se esse Ben Thomas não é o mesmo Chris Gardner de À procura da felicidade ou mesmo, guardadas as devidas diferenças, Robert Neville de Eu sou a lenda, ou, ainda, o CARA sorridente que desfila com a curvilínea Jade Pinkett por tapetes vermelhos e festas milionárias.
Por mais que ele seja O CARA, dividir a tela com ele mesmo anda cansando. Pior: não permite que o vejamos interpretar um outrem que não ele mesmo.
E Sete Vidas, Lucas, não era esse o assunto do post?
Bem, era esse o assunto, sim, mas achei mais interessante falar sobre o Will Smith e em como ele é um ator que atingiu aquele PONTO de interpretação que os atores novatos ainda não se dão conta, e que por mais que façam exercícios babacas de respiração e equilíbrio, existe um ALGO que não pode ser transmitido assim como uma receita de bolo, e ver que um ator atingiu esse PONTO é mais gratificante e significativo do que acompanhar À procura da felicidade 2 à Hitchcock.
Revolutionary Road
10 janeiro, 2009




Revolutionary Road
A verdade é que havia escrito um post huge (843 palavras) dissecando a filmografia de Sam Mendes, atestando de maneira peremptória o engodo que é Beleza Americana (realçando que a única coisa vívida no filme é o balé do saquinho plástico, ao que mamãe pedia que eu rebobinasse e pausasse a cena, numa catarse que envolvia lágrimas e movimentos emulados da cena que acabara de ver) e Jarhead (virilidade e urros, tão-somente), não sem antes reconhecer que Road To Perdition é uma injeção de ânimo, e que Tom Hanks fazer um quase vilão abonava a imagem da AMÉRICA real enlatada e psicologizante presente em Beleza Americana. Mas o post, quando visualizado no modo tela inteira, desapareceu, assim como minha vontade de refazê-lo. E por isso afirmo, da maneira mais sintética quanto possível, que Revolutionary Road é tudo que Beleza Americana jamais conseguiu ser. A radiografia de um casal que é a metáfora de um estado de coisas chamada AMÉRICA. A grandiloqüência (Beleza Americana) dando lugar ao silêncio (Revolutionary Road), e aquela face de semblante calmo que esconde a dor de existir das mulheres nascidas na década de 40-50, e que impossibilitadas de sonhar, faziam o que poderia ser feito: housewives. April é de longe a personagem mais expressiva de Kate Winslet (Leonardo Dicaprio há tempos não recebia um personagem de camadas tão intensas e reviravoltas como é este Frank de Revolutionary Road). A inação e aparente inexpressividade da atriz aprofundam a sensação do inferno do cotidiano de um dia após o outro com dois dias de intervalo no meio e uma transa burocrática ao fim. Sam Mendes recria Entre Quatro Paredes e dá o devido peso à sentença O inferno são os outros.


















