Algo assim como a felicidade
23 março, 2008
Os pés balançam no sofá acinzentado. O vendedor disse que era cor de areia. Você acreditou. E no mais, isso não é nada perto do que virá a ser sua sexta-feira de feriado. Ninguém, fora a sua maleta de filmes, o acompanha. Havia algum tempo que você não sabia a alegria de ouvir um filme com áudio, poder fazer bastante barulho ou ainda estralar os dedos sem que alguém o repreendesse. Não são todos os dias que uma peça que lhe sopra a alma, o cabelo e a espinha. E então Vanguart toca Cachaça pra você e alguns poucos felizardos.
Piscinas públicas
8 março, 2008
Aprendi a nadar aos 9 anos. Ainda me lembro das aulas do professor Plácido. Logo depois, o professor Plácido casou-se com a dona da academia, da qual não me recordo o nome. Ele a traiu há alguns anos com uma aluna. Professores são seres cobiçados. Mais pela posição que ocupam do que pelos atributos físicos. Mas isso não importa muito. O preâmbulo foi para dizer que, após uns 5 anos sem entrar numa piscina, eu finalmente voltei a engolir cloro. E continua sendo uma atividade agradável. Sobretudo por você ser o único na piscina que ainda brinca de tubarão.
Curtindo a vida adoidado
14 dezembro, 2007
A fase escolar, apesar de inúmeras adversidades, foi o melhor período da minha vida. As obrigações se resumiam a um banho, uma lição qualquer, geralmente feita às pressas, e uma rápida olhada no espelho.
Os professores eram professores, burocráticos, lousas negras. A sala era uma trincheira. Havia uma divisão explícita: nerds, mauricinhos, tímidos, burros e os outros. Eu fazia parte dos outros.
Éramos farristas, malandros de quinta, garotinhos loucos pela primeira transa atrás do muro da escola. Nosso modelo era Ferris Bueller (Matthew Broderick), um tipo inteligente e sedutor.
Era interessante ver como alguns tinham melhor desempenho com as garotas, outros com os esportes, e outros, ainda, eram exímios lutadores de rua. Havia os que, por não ter nada a oferecer ao grupo, se resumiam a contar histórias mirabolantes sobre o último feriado, o beijo na Marcinha com direito a peitinho, a descida para a praia de bicicleta, o cigarro de maconha fumado no banheiro da escola ou o novo recorde alcançado num jogo qualquer de videogame.
Sabíamos que cada palavra era um amontoado de mentiras. Sabíamos, também, que era a única coisa que aqueles garotos, nossos amigos, podiam oferecer. Por companheirismo, pena, amizade, amor, ou sei lá o quê, nós os ajudávamos a mentir. As histórias tomavam proporções abissais. Algumas vezes, e dependendo do garoto, fazíamos questão de desmenti-lo, colocando-o numa situação ridícula. Mesmo nessas horas, um ou outro tentava intervir, consertar a falácia. Na época, eu achava patético esse sentimento altruísta. Hoje, acho que era uma forma de amor.
Tínhamos as piadas internas, o time da rua, a matinê aos domingos, as garotinhas estúpidas e sardentas, a Playboy da Vera Fischer embaixo do colchão, a série Malhação, os desenhos do Pica-pau, e o seu Madruga como modelo de professor perfeito. Possuíamos o caminho para o El Dorado.
Bastava o sinal tocar, a turma se reunir, e tudo mais que aconteceu no seu dia era apenas uma preliminar para as cinco horas ao lado dos caras que você, de certa forma, amava. O primeiro amor na vida de um garoto, fora a família, são os amigos. As garotas eram simples notas de rodapé ao final de um dia.
Trocávamos segredos, fazíamos planos, imaginávamos que aquele grupo, criado ao acaso, ficaria ligado mesmo após a saída de casa, o casamento, os filhos, a morte dos pais, a crise dos 40 e a constatação da nulidade da vida. O grupo acabou. Da mesma maneira que tudo que inicia está fadado ao fim. Na época não sabíamos disso. Talvez por isso mesmo fosse tão bom.
Olhando com certa distância, não passávamos de pobres Cameron Frye (o amigo introspectivo de Ferris): tímidos, vacilantes, presos numa garagem com uma bela Ferrari. Éramos fracos, na verdade.
13 anos depois…
Entro no supermercado. Pães, bolachas, duas caixas de hambúrgueres e uma Coca-Cola em vidro. Ergo a cabeça e vou em direção ao caixa. Paro. Percebo um rosto familiar entre saquinhos plásticos e aquele barulho irritante provocado pelo abre e fecha da caixa registradora. ?O Ricardo virou empacotador??, pergunto a mim mesmo, sem acreditar no que estava vendo. O Ricardo era uma espécie de líder, brigão, bom de bola, corpulento, nem bonito nem feio, do tipo que atraía as garotas não tanto pelos atributos físicos, mas pela maneira ardilosa, persuasiva de ser. Todos nós gostaríamos de ser o Ricardo por um dia quando éramos crianças.
Agora, ele estava ali: uniforme azul, dentes cariados, barba por fazer e um olhar de deserção. Tentei fingir que não o havia reconhecido, e assim fiquei, estático, voltado em direção ao funcionário do caixa ? olhar para ele me fazia voltar a uma fase da qual guardava boas recordações. Ricardo sonhava em ser jogador de futebol, como a maioria dos garotos entre 10 e 16 anos. Ele virou empacotador num supermercado pequeno e sem cor. Agarro o saco de compras com as duas mãos, estrangulando o plástico. É inevitável não nos olharmos, e o que se segue é um rápido ?Oi, tudo bem?? formal e próprio para não enveredar para um assunto qualquer.
Saio rápido, tropeçando numa cesta de compras vazia, o que faz com que alguém grite o nome de Ricardo. Não fico para ouvir ou ver qualquer tipo de repreensão ao seu serviço. Fecho a jaqueta. A garoa fina deixa a vista um pouco embaçada. Subo na moto e ela dá duas engasgadas antes de dar a partida. Não olho para trás.
O eterno ciclo da vida
30 novembro, 2007
Exato um ano* do nascimento da minha filha. O parto foi rápido e, aparentemente, indolor. A Jack consegue ser linda até quando chora. Ao sair da sala ainda pude acompanhar no telão, colocado numa sala isolada da maternidade, minha pequena aos prantos.
Tornar-se pai é uma experiência assustadora, num primeiro momento. Abdicar-se de sua vida, ao menos da vida desregrada e sem compromissos, em prol do outro, não é como atravessar a esquina de casa para comprar pão. Acostumar-se a não fazer barulho, deixar de sair todas as sextas-feiras, trocar o dinheiro investido em objetos supérfluos por fraldas, leite, carrinhos, roupas, chupeta e toda a sorte de materiais necessários à criação de uma criança, é tarefa básica e essencial. Depois, preocupe-se em levá-la ao pediatra, não esquecer a vacina do mês, o remedinho para cólica, a pomada específica, o sabonete com cheirinho especial, etc., etc., etc.
A partir do 6º mês, você e sua esposa, caso tenham uma pessoa confiável para cuidar da bebê, podem pensar em ir tomar um suco na padaria. Não se esquecer de passar na farmácia e comprar mais fraldas.
Um sorriso, um balbuciar de sons desconexos, a batida com as palmas da mão ao vê-lo voltar cansado e sem paciência do serviço, valem todo o esforço. A sensação de conforto vem do fato de que você tem certeza, ao menos uma vez, que fez alguma coisa direito na vida. O resto são platitudes.
Isso não quer dizer que eu já passei pela fase de adaptação, que talvez dure pelo resto da vida.
Virão os passeios no parque, fábulas ao cair da noite, o primeiro dia na escolinha, a primeira briga com o papai e com a mamãe, o pedido para dormir na casa da amiga super irada, feita nas aulas de Inglês, o garoto que mexe nos seus livros, pega seus filmes e toma conta do controle remoto, e que você tem vontade de surrar, mas aí você se lembra que ela te disse, chorando, que ele era o amor da sua vida. E, mesmo sabendo que isso é passageiro, você concorda com sua filha, afinal é o seu primeiro amor. A pior parte fica sempre para o fim: o casamento e a saída de casa. Você irá chorar, dizer que ela é uma criança, que seu marido nunca a fará feliz, e blá, blá, blá… blá, blá, blá… blá, blá, blá. Nessas horas nem Joseph Campbell e toda filosofia moderna o farão entender que as pessoas partem. É o eterno ciclo da vida.
Feliz aniversário, Rafa.
…
*Dia 26, e não 30.



