como descrever pra você a relação (identificação) que tenho com Uma Pilha de Pratos na Cozinha? Sei lá. Há coisas que você escreveu sem ter escrito, sabe? Sabe. Taí:

16 dezembro, 2009

BRENO : Você então tá dizendo que tem medo?

JULIO : Medo é o segundo estágio. Pra eu ter medo, primeiro eu tenho que ter interesse. Pode até ser legal, mas eu não tenho interesse, só isso. Por exemplo, pular de buggie jumping pode ser legal, mas eu não tenho o menor interesse. Se eu tivesse interesse, aí eu teria que pensar se eu tinha medo ou não. Medo é sempre o segundo estágio.

(…)

BRENO : Me esclarece uma dúvida, Julio. O Misantropo é necessariamente um cara triste e infeliz?

JULIO : Meia garrafa de whisky, dois filmes do Cassavetes, dois shows do Van Morrison. Existe um tipo de felicidade subterrânea que você não vai conseguir entender no seu dialeto. Você sequer faz idéia de quantas sílabas ela tem, Breno. Tenta pronunciar e sua vaidade de sujeito que aplica multas nos condôminos vai te fazer acreditar que você tem problemas de dicção.

FlyerPilhadePratos21h00

(…)

JULIO : Ela aparecia por aqui, tirava minha cabeça da privada, limpava meu vômito, esvaziava os cinzeiros e cantava Billie Holiday pra eu dormir. Aí um dia apareceu um cara que foi logo tirando o casaco e colocando em cima da cadeira. Ele tinha aquele olhar confiante dos caras que andam com medalhões no pescoço. Ele disse que tinha certeza sobre as coisas. Não há como competir com alguém assim. Ela colocou o casaco dele sobre os ombros e foi embora. Ele foi atrás dela. Eu fiquei aqui, o gato de apartamento olhando pela janela. De vez em quando um pombo desorientado se espatifava na janela. Alguns tem mais sorte que outros.

(…)

CRISTINA : O Júlio. Eu nunca tirei o anel. Amor não devia ser uma coisa que a gente coloca num dedo e fica olhando embevecido um pro outro. Mas quando a gente tira a fora a merda do anel, aí a gente tem certeza que aquela coisa abandonou você de vez, sabe como é? Não é como interromper um vício qualquer. Parar de fumar maconha ou comprar histórias em quadrinhos. É um corte profundo que abstinência nenhuma vai dar jeito. É um esvaziamento, um pneu furado, o carro parando no meio da rodovia. E ninguém com uma merda de estepe no porta-malas, aí você sai do carro com náusea, se ajoelha na beira da estrada e vomita. O fim da coisa toda.

A elegância de Woody Allen

16 novembro, 2009

Falo pouco de Woody por aqui. Sim, falo pouco. Woody (estou a me repetir, sei disso) é o responsável por minha educação sentimental (e por outras educações). Quantos pais conseguem dar isso a seus pequenos monstrinhos? Poucos. Ou muitos. Sei lá. Sei que Woody é uma refeição completa. Ovos mexidos, suco, bacon, panquecas, mel etc.

Woody mora aqui, no meu quartinho. Mora também nas minhas melhores lembranças. Nas mais verdadeiras e sonoras risadas. Nos momentos em que tive certeza que tudo (a vida e tal) não passava de uma brincadeira de mau gosto pra me afrontar, recorria a Woody. Nos momentos mais alegres também. Woody embalou-me algumas noites. Visitou-me outras tantas. Secou minhas lágrimas. Deu-me conselhos. Repreendeu-me. Quantos pais conseguem dar isso a seus pequenos imbecis? Raríssimos. Estou a me repetir, sei disso. Woody sempre está a se repetir. No entanto, é impossível afastar-se de Woody. Woody diz pra não prestarmos atenção no que as pessoas dizem, mas sim na maneira como agem. Pois sim, Woody, pois sim.

Aqui a programação geral da retrospectiva (integral) de sua filmografia. Estarei por lá, revendo tudo na telona e participando de alguns debates. Durante a semana, e sempre após a exibição dos filmes, vou postando as minhas já conhecidas impressões. Espero não precisar dizer que se trata do evento cultural do ano. Digo: se trata do evento cultural do ano. Portanto, se você não é o Caetano, apareça.

era pra isso ter sido divulgado semanas atrás, mas andei trocando os remédios de lugar, aí dá nisso. desculpa, amiga.

17 setembro, 2009

flyer

* Embora não acredite que divulgar algo aqui tenha lá muita serventia. Enfim. (Ah, clica na imagem, tá.)

O amor segundo B. Schianberg

5 julho, 2009

Oi. É o seguinte: sintonize às 22h na TV Cultura (nos três próximos domingos, faça o mesmo).  A TV Cultura tem um projeto para revitalizar (palavra horrível) a dramaturgia televisiva. Há dois anos, aos domingos, eles vêm tentando. Ainda não houve nada realmente inovador (outra palavrinha horrível), ou artístico, ou mesmo empolgante nesses dois anos. Mas, como disse, eles vêm tentando. Pensei em falar de uma ou outra minissérie em particular, mas declinei ao rememorar o quão ruim foram essas tentativas de revitalizar a linguagem televisiva.

Enfim.

Depois de acompanhar Além do horizonte (Satyros), decidi: vendo a tevê na próxima semana. Não consegui comprador. Minha tevê é de tubo, 21 polegadas, chia em dias ímpares e, por vezes, fica em fade out durante minutos. Um artefato de museu, pois. Agora, dedo no controle remoto, sorrio. O motivo? Beto Brant.

Não conhece. Sei muito bem como é isso. Não vou mastigar pra você, mas leia isso aqui e então vai ter uma vaga dimensão de quem é o sujeito de que vos falo.

Leu? Ok, prossigamos. Ah, antes assista esse “debate”. Tape os ouvidos quando o crítico de televisão (um filisteu aprumado) abrir a boca, e foque apenas no que disser Beto Brant e Marçal Aquino.

A empreitada, segundo o próprio Brant, é uma coisa híbrida entre televisão, cinema e videoarte. Nada de reality show, como o crítico de televisão (outro) da Folha de S.Paulo enquadrou (eles, os críticos, quando diante de algo novo, e por não se sentirem a par dos mecanismos apresentados nesse objeto, procuram uma gavetinha capaz de dar conta do que eles, os críticos, não conseguiram dar). Graças a esse mesmo crítico da Folha, meu ânimo, que não era pouco, aumentou de maneira estratosférica (se um crítico desanca algo, avidamente trato de ver esse algo). Um pitaco do que o ilustre crítico falou:

Por não ter roteiro nem as intrigas plantadas que o diretor Beto Brant vê nos reality shows, O Amor Segundo B. Schianberg apresenta momentos sonolentos, chatos, com closes em formigas, papos-cabeça, longos minutos de jogos de cartas. Tudo isso apenas com o barulho de carros, buzinas, cães e pássaros ao fundo.

Ainda bem que o crítico não frequenta mostras de cinema. Já imaginou se tivesse de resenhar um filme de Manoel de Oliveira, ou mesmo de Pedro Costa e Lisandro Alonso? Acho que ele diria: Eles filmam o chão e o vento, e deixam a câmera estática… e nada acontece. Realmente, nada acontece. O que ele quer dizer, suponho, é que ninguém sai voando pelos ares, e não há explosões ou carros desgovernados em vias públicas. Realmente, não há.

Deixemos o crítico em paz.

E o que faz Beto Brant aqui, além de observar? Beto Brant edita. E faz intervenções. E só. Ele (Schianberg) instalou oito câmeras “robotizadas” num apartamento, e colocou Gustavo Machado e Marina Previato numa espécie de semiconfinamento. Não há roteiro, apenas uma sinopse (extraí a sinopse da Folha): Benjamin Schianberg, psicanalista e professor universitário, convence a própria filha a seduzir um rapaz e levá-lo para um apartamento, onde será observado como um objeto de estudo.

A minissérie é baseada numa personagem (Benjamin Schianberg) do livro Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. O livro é uma pérola. De uma sensibilidade e ironia rasgadas (li o livro há mais de três anos, então não me peça para ser didático). Ainda hoje sorrio quando me lembro do Careca, um sujeitinho que esperou o amor da sua vida como quem espera um ônibus que mudou o seu itinerário. Além da minissérie, a obra já rendeu uma montagem (Amor de Servidão; ótima, por sinal) e um filme (em breve, calma lá), dirigido pelo mesmo Beto Brant, parceiro e amigo de Marçal Aquino.

Ao fim e ao cabo, digo: não sei muito bem se vou gostar ou não do resultado (e isso importa pouco), mas acho estimulante o conceito, e isso já é deveras um passo mais largo do que as demais propostas gestadas nesse mesmo projeto intitulado Direções.

O Messias

7 agosto, 2008

Os astros estão em suas devidas casas. Tudo gira da maneira  mais natural  possível na cidade de São Paulo. Nada de chuva ou nuvens embriagadas e vingativas. Mesmo a seleção acaba de vencer um jogo nas Olimpíadas. Ao que parece, nada de atentados terroristas ou assassinos em série – a Flora é personagem de ficção, por isso, desconsidere. O sinal de alerta permanece no amarelo. Estamos alerta. Sim, estamos alerta. Sobretudo estamos no aguardo da visita do cineasta da meditação. Ops, me enganei. Mais uma vez: estamos no aguardo do artista plástico, fotógrafo e, por último, diretor David Lynch.

Para idolatrá-lo não é necessário que tenhamos entendido seus filmes. Ninguém os entende. Nem o próprio Lynch. E faz questão de ressaltar que são objetos incompreensíveis por natureza. A estratégia funciona. Quanto mais herméticos, mais cultuados. Quanto menos explicáveis, impenetráveis, do ponto de vista racional (tipo 2+2=4, 5.2=10…), mais celebrados.

Hoje, às 15:00, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, o Messias (basta ouvir as platitudes que ele anda  dizendo à mídia) da sétima arte estará autografando seu mais recente livro: Em águas profundas – Criatividade e meditação.

Belo título, não?

Não fosse o caráter estritamente mercadológico que envolve a vinda do Messias, e o aviso de que não irá tratar de outro assunto que não a meditação e seus conhecidos benefícios, estaria na primeira fila. Mas odeio angariar autógrafos de quem quer que seja – salvo Woody Allen.

Meditação? Eu pulo.

Prefiro o Lynch incompreensível ao escritor que celebra a felicidade e nos diz que há, sim, um caminho para a luz.

Hoje

8 julho, 2008

Sem delongas, já que falei dessa montagem e desse autor mais do que deveria.

A estréia acontece hoje, no Tucarena, às 21:00, e os ingressos serão distribuídos com uma hora de antecedência. No hall, há uma exposição com algumas fotografias do ensaio. Tudo artesanal, simples.

Não se trata de uma produção portentosa, nem um dos atores faz novela, ninguém conhece o Geraldinho. Mesmo assim, acredito que os ingressos vão esgotar em… meia hora. Portanto, saia de casa mais cedo. O Tuca é um lugar agradável, aproveite para visitar as dependências. E, se porventura os ingressos esgotarem antes do previsto, volte amanhã ou quinta-feira.

É isso.

Narcisismo domado

6 julho, 2008

O informativo saiu sexta-feira, na Folha.

Não tenho dúvidas de que essa foi a primeira e única vez que meu nome e minha foto apareceram num periódico de grande circulação.

Poucas vezes abri o caderno da Ilustrada com tanto prazer. Até recortei a imagem e pensei, num surto de narcisismo controlado, pendurá-la na parede branca do meu quartinho abafado. Moldura com detalhes dourados, quem sabe.

Não. Seria mais um objeto desnecessário a competir com outros acessórios dispensáveis. Essas coisas acumulam pó. Decido, então, doá-la à minha pequena e afável Rafaela.

Pó. O papel virou pó nas suas pequenas mãos.

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O site volta a ter atualizações diárias (ou quase) na próxima sexta-feira, 11/07.