mas permaneço de pé.
7 março, 2010
Confesso: adoro assistir um Oscar. Sei que é tudo fachada, jogo político, propaganda, engodo. Mas todo ano ano é igual: vou ao supermercado pela manhã, abasteço a despensa (Coca-Cola, batatinha, sorvete, bolacha etc.) e preparo a poltrona. Tento dormir um pouco, guardar energia (nunca consigo). Quem não precisa de sonhos regularmente que atire a primeira pedra (sim, aquilo é um sonho do tipo huge mesmo). Sou cafona, e por isso adoro ver os desfiles no tapete vermelho. As estrelas e os novatos, todos por ali, adentrando minha sala. Quem ganhará o título de mais bem vestida da festa? Quem cometerá a gafe mais esdrúxula? Alguém irá tropeçar? Os apresentadores conseguirão ser engraçados dessa vez? Woody Allen estará na platéia?
São por estas pequenas coisinhas que ainda assisto o Oscar. Não pelo filmes, obviamente (todos já conhecemos as cartas). Embora esteja cruzando os dedos pelo filme de Audiard. Enfim, enfim.
Nota desnecessária: no único Oscar que Woody esteve presente eu não sei o que estava fazendo da vida (provavelmente dormindo, que é uma das minhas especialidades). Por isso sempre revejo esse video aí (logo abaixo) e fico saltitante. Ao ver o vídeo, note os presentes (a maioria pensou que Whoopi estava de brincadeira). Ron Howard fica estático e depois bate palma de maneira entusiasmada, de pé. Todos de pé. E eu, do lado de cá, faço o mesmo. Minha esposa acha um absurdo, ri, diz aos amigos que temos em comum (poucos) que eu estou a delirar. Confesso novamente: estou a delirar. Mas permaneço de pé (e bato palmas).
Arieta Corrêa a cortar pedaços de bolo em pequenos cubinhos e acomodá-los edulcoradamente na bocarra (linda, pois sim) de Aline Moraes.
22 dezembro, 2009
Primeiro, a surpresa: Arieta Corrêa (ou Correia, não sei ao certo) na novela Viver a Vida. Imagino que você talvez não conheça Arieta, por isso clique aqui e depois leia esse breve parágrafo que escrevi sobre a pequena notável. Fez diversas pontas na televisão (e uma personagem pra valer em Tudo de Novo, minissérie da Globo), e não há surpresa alguma que o grande público mal a note. Não os culpo. Menos ainda Arieta, que deve ganhar algum dinheiro pelas aparições esporádicas. Mas me incomoda deveras vê-la em Viver a Vida.
Um pequeno diálogo que travei com minha esposa noite dessas, a caráter de ilustração:
- Arieta tá fazendo Viver a Vida?!
- Tá falando da Laura?
- Como é, Jaq?
- Tá falando da Laura, a enfermeira?
- É… Você conhece?
- Ela costuma aparecer…
- Então, que bacana, ela é uma atriz e tanto… Ficou anos com o Antunes!
- É, ela sabe sorrir bem.
- Tá tirando sarro de mim?
- Não. Toda vez que ela aparece ou tá rindo ou tá com cara de ascensorista de shopping pêra com leite.
- Pêra com leite?
- É, shopping chique e tal.
- Saquei. É uma pena isso.
- Pena por quê? Tá ganhando algum e aparecendo no horário nobre.
- Mas é figuração, Jaq!
- Figuração, sim, mas remunerada. E a personagem dela tem até nome. E outra: ela tá contracenando com essa coisa linda que é a Aline Moraes.
- É, tá sim. Olha lá: tá dando cubinhos de bolo na boca dela… Se ao menos ela falasse alguma coisa durante as cenas…
- Mas ela fala.
- Sério?
- Ela chama a colega pra mudar a Aline de posição.
- Ah, Jaq!
- Tô dizendo. E daqui a pouco ela, se for boa do jeito que você diz, vai ganhando mais espaço e tal.
- Como enfermeira no canto do quarto?
- Claro! A Juliana Paes fazia a empregada do tipo gostosona uns anos atrás e agora foi escolhida atriz do ano.
- Atriz do ano?!
- É! Puta que pariu, Lucas, cê precisa ver mais televisão.
- Mas até a empregada dessa novela tem um papel de maior relevância que a Arieta, Jaq.
- Taí: começou por baixo, quase nem falava, e agora já fica uns cinco minutos desfilando pra lá e pra cá de lingerie.
- Não, Jaq, não, isso não é pra Arieta. A Arieta fez Medéia, O Canto de Gregório, Prêt-à-Porter, tudo isso só com o Antunes, fora o filme com o Masagão e a peça com o Hirsch…
- Cê nunca vai entender, Lucas, nunca. Na televisão a gente começa por baixo.
Depois desse diálogo algo epifânico com minha esposa, pus-me a pensar debaixo do chuveiro (é onde costumo pensar melhor). As sinapses & neurônios a rebelar-se contra mim. Talvez a Jaq esteja certa, afinal é só uma novela. E uma pessoa (como sabemos há tempos) não é uma escolha. Uma pessoa (não custa repetir) é um conjunto delas. E a Arieta é, sim, uma grande atriz. Asseguro-lhes.
- (Às gargalhadas): Lucas! Corre, Lucas! A sorrisinho (Arieta) falou pra Luciana ficar calma… (imitando-a) ‘Luciana, fica calma, fica’… Taí, Lucas, uma frase completa. Isso aí até eu falava melhor que a sorrisinho…
E eu também sorri, que é na verdade a última coisa que resta pra fazer numa situação dessas.
como descrever pra você a relação (identificação) que tenho com Uma Pilha de Pratos na Cozinha? Sei lá. Há coisas que você escreveu sem ter escrito, sabe? Sabe. Taí:
16 dezembro, 2009
BRENO : Você então tá dizendo que tem medo?
JULIO : Medo é o segundo estágio. Pra eu ter medo, primeiro eu tenho que ter interesse. Pode até ser legal, mas eu não tenho interesse, só isso. Por exemplo, pular de buggie jumping pode ser legal, mas eu não tenho o menor interesse. Se eu tivesse interesse, aí eu teria que pensar se eu tinha medo ou não. Medo é sempre o segundo estágio.
(…)
BRENO : Me esclarece uma dúvida, Julio. O Misantropo é necessariamente um cara triste e infeliz?
JULIO : Meia garrafa de whisky, dois filmes do Cassavetes, dois shows do Van Morrison. Existe um tipo de felicidade subterrânea que você não vai conseguir entender no seu dialeto. Você sequer faz idéia de quantas sílabas ela tem, Breno. Tenta pronunciar e sua vaidade de sujeito que aplica multas nos condôminos vai te fazer acreditar que você tem problemas de dicção.
(…)
JULIO : Ela aparecia por aqui, tirava minha cabeça da privada, limpava meu vômito, esvaziava os cinzeiros e cantava Billie Holiday pra eu dormir. Aí um dia apareceu um cara que foi logo tirando o casaco e colocando em cima da cadeira. Ele tinha aquele olhar confiante dos caras que andam com medalhões no pescoço. Ele disse que tinha certeza sobre as coisas. Não há como competir com alguém assim. Ela colocou o casaco dele sobre os ombros e foi embora. Ele foi atrás dela. Eu fiquei aqui, o gato de apartamento olhando pela janela. De vez em quando um pombo desorientado se espatifava na janela. Alguns tem mais sorte que outros.
(…)
CRISTINA : O Júlio. Eu nunca tirei o anel. Amor não devia ser uma coisa que a gente coloca num dedo e fica olhando embevecido um pro outro. Mas quando a gente tira a fora a merda do anel, aí a gente tem certeza que aquela coisa abandonou você de vez, sabe como é? Não é como interromper um vício qualquer. Parar de fumar maconha ou comprar histórias em quadrinhos. É um corte profundo que abstinência nenhuma vai dar jeito. É um esvaziamento, um pneu furado, o carro parando no meio da rodovia. E ninguém com uma merda de estepe no porta-malas, aí você sai do carro com náusea, se ajoelha na beira da estrada e vomita. O fim da coisa toda.
A elegância de Woody Allen
16 novembro, 2009
Falo pouco de Woody por aqui. Sim, falo pouco. Woody (estou a me repetir, sei disso) é o responsável por minha educação sentimental (e por outras educações). Quantos pais conseguem dar isso a seus pequenos monstrinhos? Poucos. Ou muitos. Sei lá. Sei que Woody é uma refeição completa. Ovos mexidos, suco, bacon, panquecas, mel etc.
Woody mora aqui, no meu quartinho. Mora também nas minhas melhores lembranças. Nas mais verdadeiras e sonoras risadas. Nos momentos em que tive certeza que tudo (a vida e tal) não passava de uma brincadeira de mau gosto pra me afrontar, recorria a Woody. Nos momentos mais alegres também. Woody embalou-me algumas noites. Visitou-me outras tantas. Secou minhas lágrimas. Deu-me conselhos. Repreendeu-me. Quantos pais conseguem dar isso a seus pequenos imbecis? Raríssimos. Estou a me repetir, sei disso. Woody sempre está a se repetir. No entanto, é impossível afastar-se de Woody. Woody diz pra não prestarmos atenção no que as pessoas dizem, mas sim na maneira como agem. Pois sim, Woody, pois sim.
Aqui a programação geral da retrospectiva (integral) de sua filmografia. Estarei por lá, revendo tudo na telona e participando de alguns debates. Durante a semana, e sempre após a exibição dos filmes, vou postando as minhas já conhecidas impressões. Espero não precisar dizer que se trata do evento cultural do ano. Digo: se trata do evento cultural do ano. Portanto, se você não é o Caetano, apareça.
Ah, Woody, Woody…
22 setembro, 2009
Two weeks ago, Abe Moscowitz dropped dead of a heart attack and was reincarnated as a lobster. Trapped off the coast of Maine, he was shipped to Manhattan and dumped into a tank at a posh Upper East Side seafood restaurant. In the tank there were several other lobsters, one of whom recognized him. “Abe, is that you?” the creature asked, his antennae perking up.
“Who’s that? Who’s talking to me?” Moscowitz said, still dazed by the mystical slam-bang postmortem that had transmogrified him into a crustacean.
“It’s me, Moe Silverman,” the other lobster said.
“O.M.G.!” Moscowitz piped, recognizing the voice of an old gin-rummy colleague. “What’s going on?”
“We’re reborn,” Moe explained. “As a couple of two-pounders.”
“Lobsters? This is how I wind up after leading a just life? In a tank on Third Avenue?”
“The Lord works in strange ways,” Moe Silverman explained. “Take Phil Pinchuck. The man keeled over with an aneurysm, he’s now a hamster. All day, running at the stupid wheel. For years he was a Yale professor. My point is he’s gotten to like the wheel. He pedals and pedals, running nowhere, but he smiles.”
Li esse conto meses atrás, mas na época acabei não indicando ele por aqui. Faço isso agora.
era pra isso ter sido divulgado semanas atrás, mas andei trocando os remédios de lugar, aí dá nisso. desculpa, amiga.
17 setembro, 2009
* Embora não acredite que divulgar algo aqui tenha lá muita serventia. Enfim. (Ah, clica na imagem, tá.)
Não riam de mim #6
14 setembro, 2009
Prometi, semanas atrás, enquanto dormia (e sonhava), não mais ligar a tevê (a não ser aos domingos na TV Cultura). Promessa é uma coisa séria, sei bem disso. Juramento é coisa de imbecil, mas promessa, repito, é coisa séria. Prometi de pedra e cal, mas não cumpri. Entendam o que se passou: fui acordado aos risos pela Jaq, que, bem acomodada no sofá, beliscava um pacote de biscoitos de polvilho. Ambos somos amantes de biscoitos de polvilho. Mas não é disso que me envergonho. Promessas existem para serem quebradas. Na tevê, Ídolos. Antes dos risos e da expressão de efusiva alegria da Jaq, não dava a mínima para programas desse tipo. Explico: alguém tem um sonho qualquer, arrisca tudo em busca desse sonho, e sai dali pior do que chegou. Há apenas um primeiro lugar, e mais de cem cavalos na pista. E mesmo sabendo que apenas um daqueles afortunados será o escolhido, e talvez por isso mesmo, você permanece ali, assistindo. E rindo. Além dos biscoitos de polvilho, temos um novo vício: Ídolos. Pois é, agora vocês podem rir à vontade.
O amor segundo B.Schianberg #5 (epílogo)
26 julho, 2009
Os dois últimos episódios só confirmam o que disse anteriormente. É um avanço diante de tanta idiotia televisiva. Isso quer dizer que a minissérie é impecável, uma obra-prima e essas coisas? Não. Longe de ser uma obra irretocável, há muito a ser discutido. Os prós e os contras e os alguma coisa.
Há no último capítulo (na segunda metade) uma complacência e um sentido de arte que não me agradam. Um tipo de hermetismo que não sai do lugar. Uma certa simbologia que não quer dizer absolutamente nada. Os “exercícios de videoarte” de Marina Previato formam o que se pode chamar de Os piores momentos do O amor segundo B. Schianberg.
Enfim.
O que fica? Sobretudo os momentos de inação e o tão fugidio conceito de representação, não-representação, autoficção e metalinguagem. Não só os conceitos, obviamente. Ficam aqueles lances onde você se questiona se os limites fronteiriços entre a realidade e a ficção ainda são barreiras nítidas ou tão-somente caminhos que se interseccionam.
É mais do que estamos habituados a receber, pois.
O amor segundo B. Schianberg #4
12 julho, 2009
O segundo capítulo segue a mesma lógica do anterior. Nada, aparentemente, acontece. Ao lado desse nada aparente, um sem-número de ramificações ligadas à narrativa (metalinguagem, autoficção) e às questões que vão desde relações afetivas, amor, paixão, representação, não-representação etc.
Pode-se dizer que filmar o não-conflito é algo sacal, tedioso, inócuo. Pode-se dizer. Pode-se dizer também que o não-tratamento-artístico no que se refere aos diálogos seja inaceitável. Pode-se dizer. No entanto, pergunto-lhes, já respondendo, que outro programa televisivo (rede aberta) impõe/demonstra/cria tantas possibilidades para aguçar não a libido (embora aguce), mas a massa cinzenta tão preterida e ridicularizada por novelas e programas de auditório de humilhação pública e afins?
Algum? Pense bem. E daí?
Respondo: Nenhum.
Até o próximo domingo.
O Amor Segundo B. Schianberg #2
6 julho, 2009
Agora, sim. Depois do primeiro episódio, dois parágrafos.
Não acreditasse em meus instintos, e levasse a sério o que diz Daniel Castro, perderia O Amor Segundo B. Schianberg, e ficaria zapeando a tevê: num minuto, Fantástico; no outro, um programinha rural da Record. Que bom que críticos de televisão não entendem absolutamente nada de arte.
Elipses narrativas e autoficção não combinam com gramática televisiva, e qualquer imbecil sabe disso. Beto Brant cagou para as convenções que regem a teledramaturgia e fez o que bem entendeu (a cada nova elipse é como se dissesse: olha aqui, seus putos, olha aqui, a gente não precisa nivelar por baixo). Repito: O Amor Segundo B. Schianberg está longe de ser um reality show. Diria que é um anti-reality show, na verdade. É um organismo pulsante e independente, um respiro diante de tanta poluição visual e sonora a invadir nossas casas. Gustavo Machado e Mariana Previato viveram ali algo que não atende escrita prévia. Algo que não admite demiurgos. E esse algo não é amor, necessariamente, mas encontro. É sobre um encontro entre duas pessoas que trata O Amor Segundo B. Schianberg.





