coisa de uns trocados só.
9 agosto, 2009
É o limite da conta o problema. Eu preciso pagar umas contas atrasadas. O limite foi tirado da conta. E agora o gerente saiu de novo pra mais um cafezinho, diz a menina fanha do outro lado da linha. Os deficientes (os fanhos) têm tipo um cargo especial em repartições públicas. Eles atendem caras como eu. Caras que perdem o limite da conta. Eu não liguei prum banco pra falar com uma pessoa fanha. Eu saquei que a fanha (a menininha) não queria me passar pro gerente já na primeira ligação. Demorou mais de dois minutos pra dizer que o cara tinha saído. Dois minutos é tempo pra burro esperando na linha. Dois minutos tendo de aturar ser ludibriado por uma fanha esquisitona é de foder. Ela deve ser esquisita. Os fanhos são tipos esquisitos e pegajosos. A deficiência faz as pessoas serem mais solidárias. A fanha tipo quis dar uma de solidária comigo na segunda ligação. Perguntou como eu tava. Perguntar prum cara sem limite na conta como é que ele tá é um ato de solidariedade. A fanha tipo quis ser legal comigo. Não me passava pro gerente porque eu era o tipo de cara que devia ser atendido antes por um deficiente pra só depois ser atendido prum desses caras que acabaram de passar num concurso público do Estado e estão saltitando de felicidade porque vão ficar a vida inteira empregados e vão poder comprar uma casa própria e pagar a escolinha dos filhos e deixar a mulher torrar no shopping o resto do dinheiro ganho pelo marido concurso público e senhor família nos finais de semana. A fanha tipo me fez esperar mais um pouco na linha pra depois ser atendido pelo concurso público. O concurso público é tipo novo no ramo e diz que não pode fazer nada pra voltar o limite da minha conta. Eu tipo fui educado com ele e insisti pra falar com o gerente e coisa e tal mas o cara (o concurso público) disse que o gerente era um cara ocupado. Ele não disse mas tá na cara que o gerente atende só quem ganha de dois mil pra cima. Abaixo desse montante eles colocam os deficientes e os concursos públicos pra atender. O problema dos deficientes e dos concursos públicos é que eles nunca podem resolver nada e tipo continuam segurando você na linha porque essa é a função deles. Segurar na linha tipos que ganham abaixo de dois mil e perdem freqüentemente o limite da conta por motivos que não dizem respeito a mais ninguém senão os próprios envolvidos. Eu tipo perdi o limite por exageros pessoais. Não vem ao caso ficar citando os gastos. O senhor concurso público pede mais uma vez o número da minha conta e eu fico do outro lado linha ouvindo uma musiquinha sobre planos de capitalização e seguros de vida e mais uma porção de outros produtos de igual irrelevância. Ouço a garota gritar algo do tipo enrola mais um pouco e depois finge que a ligação caiu ou que você foi atender outra chamada e pede pra ligar mais tarde pro gerente. Ele começa a dar a explicação que acabei de ouvir a fanha descrever minuciosamente enquanto aguardava ser atendido pelo gerente. O limite é coisa pouca. Uns trocados só. O gerente rapidinho resolveria isso e poderia continuar atendendo os caras que recebem mais de dois mil e tal, e daí eu poderia continuar com a minha vida e não encheria o saco dessa fanha e desse concurso público e todos seríamos mais felizes. Eu continuo ouvindo a explicação sobre o limite e, depois, sem mais nem menos, o barulhinho irritante de quando desligam o telefone na nossa cara no meio da palavra. Os caras estudam isso ao entrarem num banco. Estudam maneiras ardilosas de desligar o telefone na cara dos clientes sem limite e endividados e que só usam o banco pra trânsito de dinheiro pouco, coisa de uns trocados só.
Diálogos
1 julho, 2009
Já disse em diversas ocasiões que diálogo real é uma merda. Uma merda. Certa feita, saí aos socos com um colega que insistia que o bom diálogo é mera transcrição do diálogo real. Não é. Diálogo real é diálogo real, e diálogo ficcional é diálogo ficcional. Escritores são escritores e copidesques são copidesques.
Adendo: dei-lhe um olho roxo e fiquei dois dias de cama, tomando suco de canudinho. Não entendia nada de diálogos, mas tinha uma esquerda mais virulenta do que as sentenças de Elmore Leonard.
Ao que interessa, ok: esse preâmbulo imbecil é para reforçar o quanto diálogos literários me são caros. Dou valor demasiado a eles. Estou sempre atento aos diálogos. Diria que mais do que o enredo e as descrições e os conflitos, o diálogo é que me deixa siderado. Um bom diálogo é melhor do que sexo.
Richard Price, principalmente, e Neil Gaiman sabem muito bem disso (assista tudo; são só 4min e 29s, então não me venha dizer que não tem tempo):
Uma história sem Happy End
20 junho, 2009
Ou não quero ter de voltar pra casa nunca mais se você não estiver me esperando com uma xícara de chá e uma toalha manchada de geléia de morango
Para Jaq
A verdade é que sabia que não daria certo. Isso desde o início. Desde que disse algo como eu não tenho nada para lhe dar, a não ser um ou dois sorrisos. Bastava. E ela sorriu, como se tivesse sido acariciada, como se ele a entendesse, como se dois sorrisos fossem tudo que uma garota como ela gostaria de receber esta noite. Você é diferente, ela disse. E ele disse o mesmo, dando mais ênfase ao termo diferente. Ele 39. Ela 36. Ilusões não mais como antes. Só o agora no lugar do depois. Eram apenas duas pessoas tentando não ir pra casa. Tentando ficar um pouco mais por ali, isoladas, distantes dos outros. De si mesmas. Ele bebia enquanto ela fumava. A coisa toda deve ter durado um ou dois meses. Nunca se sabe ao certo quanto duram essas coisas. Nem quando acabam. O certo é que estavam ali agora, e isso era tudo. Pediu mais uma bebida, e ganhou um beijo. Do tipo molhado, do tipo singelo, do tipo que garotas como ela não costumam dar. Ela quem tomou a iniciativa, e ele só fez o que tinha de fazer. Abriu a boca menos do que de costume (uma briga na noite anterior; um dente a menos e o lábio lacerado), e mexeu lentamente a cabeça em movimentos circulares, em seguida sinuosos. Precisa de alguém pra cuidar de você, meu querido. Ele dá o primeiro sorriso. Nenhuma mulher é capaz de cuidar de um homem, e enquanto diz isso sai na direção do banheiro. Volta, dança sozinho no meio daquele cantinho apertado entre o palco improvisado e umas mesinhas de plástico. Não sabia muito bem o que fazer com os braços e as pernas, e resolveu balançar freneticamente a cabeça. Não era solitário nem um ermitão desiludido com o rumo que sua vida tomou, apenas não sabia o que fazer depois de ter passado dos 30. Ele adora Pink Floyd (saberia, duas semanas depois, que ela tivera uma bandinha escolar de nome Hey You; ela nunca teve coragem de cantar pra ele). Queria descarregar a tensão, amortecer o tédio, e puxou briga com um homenzinho que não tinha pescoço mas um tique irritante no olho direito. Dois golpes certeiros naquilo que parecia um nariz, e então um segurança o colocou pra dormir. Acordou todo mijado do lado de fora, e ela ao seu lado, dormindo e fazendo do seu ombro um travesseiro. Nem sol ou chuva nesse dia. Opacos. Pequeno calçamento algo arenoso e corroído pelo odor da urina dos passantes (lembrou de seu pai dizendo que o centro não era lugar para um garoto: Uma privada a céu aberto). A vida numa garrafa de isopor jogada numa fogueira. Ele nunca quis ser alguém. Ela sonhava em ser bailarina ou cantora: hoje, não. Na primeira noite em que passaram juntos, diálogo. Ela disse que jamais havia conhecido um homem que falasse tanto sobre nada. Estranhou o fato de ele não a atacar no sofá e depois levá-la para o quarto. Gostou da impassividade dele. E choraram bastante juntos. E transaram nos lugares mais inóspitos. E nunca brigas ou desentendimentos. Quando no fim, poucas palavras e nenhuma expressão a indiciar que estava perto do fim.
Era um maldito dia de setembro, onde as esperanças não pipocam e os filhos não nascem, e ele ficou por ali, observando as pessoas apressadas indo em direção ao serviço. Imaginou como seria se tivesse que ir prum lugar desses, todos os dias, e fazer sempre as mesmas coisas, e pensou nela ali, deitada no seu ombro, pedindo para ser protegida, e então sorriu mais uma vez.
Madonna-girl
25 maio, 2008
Monossilábico. O olhar é mais importante do que a palavra. Tosse repetidas vezes, e isso faz com que a ansiedade desapareça junto com o ruído. Ele pensa em dizer banalidades sobre o tempo, como fazem as pessoas nos elevadores. Mas ela o antecede, e comenta rapidamente algo sobre o novo visual da Madonna, e que ela, quando criança, pensava que sua mãe poderia ser a Madonna. A infância é estranha, você diz. Ela sorri, como se não entendesse. Depois, silêncio. Ela, de costas. Você, encostado à janela, acendendo um cigarro vagabundo e pensando em algo capaz de sustentar um diálogo qualquer.
- Então pensava que sua mãe poderia ser a Madonna…
- É. Ela estava sempre bêbada, e raramente estava em casa.
- Como a Madonna.
- É. Como a Madonna.
Você sabe que a Madonna é uma cantora pop, e que aprontou bastante na juventude. Mas isso é tudo.
- Bonita?
- Quem? A mamãe?
- É.
- Como a Madonna. Mais bonita ainda.
- Humn… E você?
- Eu o quê?
- Gosta da Madonna?
- Eu nunca ouvi nada dela. Só vi fotos, e soube das histórias.
- Eu adoro música. Pop.
- Ahã.
- Podemos conversar mais?
- Como quiser. Só apaga a luz, neném.
Rinoceronte
21 maio, 2008
A pizza é tamanho família e com borda recheada. O corpo disforme e obeso passaria despercebido se não fosse acompanhado por uma risadinha irritante, quase surda. Sua como se estivesse numa maratona olímpica. Pouco ou nada do que chamamos de pescoço se faz notar entre o casaco bege manchado por um aparente líquido vermelho, talvez ketchup picante, e uma camisa com o nome de uma dessas indústrias alimentícias. Tal como um rinoceronte encarcerado e visto por crianças barulhentas em zoológicos, ele quase urra quando um dos carros não pára antes da faixa de pedestres. É impossível não notar um homem de compleição robusta quando ele se põe a gritar e mover a barriga num movimento circular, quase hipnótico. A pizza numa das mãos, o lenço umedecido pelo suor na outra. São apenas alguns metros que o distanciam da próxima esquina, e o trajeto, habitual, em direção ao apartamento, com três meses de aluguel atrasado, mais se parece com uma escalada, tamanha a dificuldade de respiração entre um passo e outro. Primeiro a cabeça e depois o restante do corpo beija a rua. Um mamute abatido por um caçador. Antes que seja notado por transeuntes apressados, olha o céu de chumbo e suas formas geométricas.



