John Cassavetes por Al Ruban

1 agosto, 2008

Ao fechar o livro John Cassavetes, de Thierry Jousse, algo em mim silencia. Para alguns pode parecer uma besteira sem tamanho o que vou dizer, mas o que John fazia ninguém fez ou irá fazer no cinema. E o que ele fazia  que o diferenciava dos demais? Aprisionava a vida. Simples assim. Repito: aprisionava a vida nos negativos. Ou as libertava, permitia-lhes existir fora dos domínios da câmera.

No livro de Jousse encontramos três entrevistas – Ben Gazzara, Seymour Cassel, Al Ruban. Boas entrevistas.  Demasiadamente sucintas. Mas boas. Como não estou com disposição para transcrever nenhuma delas, faço um assalto cultural ao site da Revista Paisà e deixo-os com as palavras de Al Ruban, amigo e colaborador full time de Cassavetes.

Ah, não deixem de ler. Leiam de verdade.

Como era trabalhar com Cassavetes?

Shadows foi improvisado, é um erro repetido de forma freqüente que os outros filmes de Cassavetes também foram; cada filme tinha um roteiro completo e era ensaiado antes de ser rodado com a exceção da cena em que Seymour Cassel canta em Faces. Sim, existiam revisões e John as escrevia. É um testamento para Cassavetes e para a habilidade dos atores ter espectadores que acreditassem que os diálogos eram feitos no momento em que se filmava. John não influenciava os atores após as filmagens começarem, ele não os falava como agir ou aquilo que esperava deles nas cenas. Os personagens eram desenvolvidos em ensaios e os atores entravam no set já preparados. Já a equipe técnica assistia aos ensaios e tinham uma compreensão prévia das cenas. Imediatamente percebi que ele não me forneceria instruções sobre como iluminar e filmar, pois John queria que todos contribuíssem com alguma coisa no processo criativo. Eu tentava que ele me explicasse as seqüências para que ficássemos no mesmo nível, mas isso não funcionava. Eu desisti de tentar, se ele não gostasse da iluminação ou do cenário, apenas me notificava e eu tinha que modificar. Era sua visão e eu queria apoiá-la. Cassavetes amava o sentimento da espontaneidade e da descoberta.

Você foi assistente de câmera, montador, fotógrafo, produtor e ator durante sua parceria com o diretor. Por que John optava por trabalhar com a mesma equipe?

Confiança mútua, familiaridade, conforto e lealdade estão entre os motivos que levavam John a trabalhar com a mesma equipe. Essa união o libertava das preocupações com o mundo externo e detalhes da produção, pois ele sabia a equipe que tinha. Assim lhe restava sempre a liberdade para fazer aquilo que mais queria: filmar.

Por que Cassavetes não gostava de ficar na sala de montagem?

Quando nós terminamos Faces, John me confidenciou que jamais gostaria de voltar para a sala de montagem novamente. Dessa forma, fui montar Husbands com Peter Tanner, montador que trouxemos da Inglaterra. Nós exibimos em duas salas o filme para uma platéia de mil pessoas, que eram convidadas pela Universal. A resposta foi entusiasta para todos, exceto para John que odiou. Eu cometi o erro de seguir a ordem que ele havia filmado. Ele foi, então, para sala de montagem, onde passou seis meses e acabou mudando o longa totalmente, criando uma nova versão. Cassavetes provavelmente falou que não gostaria de voltar para a sala de montagem, mas ele foi compelido a ir.

Normalmente, quantas tomadas John rodava por cena?

Nós rodávamos bastante e fazíamos quantas tomadas fossem necessárias. Isso era o caminho mais tranqüilo a ser seguido, algo essencial ao seu estilo. E tudo era devidamente ensaiado.

Você não recebeu nenhum crédito em A Woman Under The Influence, apesar de ter participado do projeto. O que houve?

Eu não filmei A Woman Under The Influence, pois estava comprometido com outro filme. Ele me chamou durante a pós-produção para dar algumas opiniões e eu dei minhas impressões, e então levei a trilha sonora para ser mixada no Glen Glen Sound. Ele me pediu para colocar meu nome nos créditos, mas eu recusei porque achava que não merecia. Algum tempo depois, eu abri uma companhia de distribuição chamada Faces Distribution Corp. para o filme e devido a seu êxito nós abrimos um segundo escritório. Nós ainda fazemos isso. John escreveu diversos roteiros de cinema e teatro e se algum financiamento fosse feito durante o tempo em que ele escrevia talvez tivesse lançado mais produções. Depois desse período, ele não quis mais voltar atrás a esse material, que agora está velho, claro que se alguém quiser comprar os direitos isso pode ser feito, mas com muitas condições impostas.

Cassavetes se arrependia de algum filme ou projeto não realizado?

Ele se arrependia de não poder ter contado com o ator Jon Voight para o papel principal de Love Streams. Porque Jon havia feito a peça e tinha concordado em trabalhar no filme, mas ele desistiu perto do fim da pré-produção. Com pouco tempo para decidir, Cassavetes optou por fazer o papel e não adiar as filmagens.

Alguma história particular sobre as filmagens de Love Streams?

Cassavetes queria que a gente usasse muito vento e água para as seqüências finais de Love Streams. Ele adorava a chuva. Eu finalmente descobri uma explicação sobre o cachorro no filme: John estava realizando testes para a peça e apareceu um rapaz na sala, que foi perguntado sobre sua especialidade, e o sujeito respondeu que poderia interpretar um cão. E ele o interpretou, então. John ficou fascinado e decidiu que precisava encontrar um modo de usar um cão em cena. As platéias têm suas explicações pessoais sobre o que o cachorro representa, e aquilo que expliquei agora não vai satisfazê-las. Eu sei que descrições analíticas devem ser mais interessantes, portanto não sei se deveria ter revelado sobre isso agora.

Qual seria o principal legado de John Cassavetes para o cinema?

O legado de John será sempre que ele fez filmes durante uma época em que nada podia se comparar; são trabalhos únicos, que mostraram que eram possíveis de serem realizados através da autoria. Ele fez filmes sobre pessoas que lidavam com o amor e o que esse sentimento causava; e refletia bastante como as vidas são realmente. Gostando dos filmes ou não, eles são diferentes, algumas vezes difíceis e outras dolorosas experiências, mas não permitem nunca que o espectador seja complacente, pois requerem envolvimento. Os filmes de Cassavetes não tinham inícios ou desfechos, apenas o agora.

Woody Allen por Woody Allen (8)

5 abril, 2008

A Era do Rádio é um filme crepuscular. Alto, embriagado, poético. Há mais de Woody Allen em A Era do Rádio do que no restante de sua filmografia. Tal como Fellini em Amarcord, Woody, de certa maneira, revisita sua infância. Sobretudo por ser a infância de um garoto que cresceu na época de ouro do rádio.

(O foco, ao menos dessa vez, é no seu trabalho com os atores.)

A Era do Rádio

Stig Björkman: A mistura de atores muito conhecidos e outros não tão conhecidos assim em A Era do Rádio deu às interpretações um quê de espontaneidade e vivacidade. Como escolheu os atores para este filme?

Woody Allen: Penso que a Era do Rádio é, basicamente, uma caricatura. Escolhi os atores de acordo com a capacidade que eles tinham de ser caricatos. Se você prestar atenção, o meu tio Abe, minha mãe, minha professora, meus avós, todos eles foram supostamente criados para serem caricaturas exageradas das pessoas da minha vida real.

Stig Björkman: É mais difícil dirigir essa mistura de atores amadores, atores pouco conhecidos e atores bastante conhecidos, como em A Era do Rádio, do que trabalhar apenas com profissionais desempenhando os papéis?

Woody Allen: Não, porque às vezes os amadores ou as pessoas que nunca tinham representado antes são melhores do que os profissionais. Já tive muitos profissionais que passaram suas vidas inteiras interpretando pequenos papéis e nunca foram bons, nunca foram muito convincentes. Quando você encontra um ator nato, que é amador, ele prova que é melhor no momento em que começa a falar.

Stig Björkman: Poderia dar um exemplo de algum destes talentos natos?

Woody Allen: Sim, uma pessoa como o cantor Nick Apollo Forte em Broadway Danny Rose. Ele nunca tinha representado antes, era apenas um cantor de boate, mas saiu-se melhor do que cada um dos outros atores que testei para o papel. Ele foi, instantaneamente, o melhor. Interpretar no cinema é diferente de interpretar no palco. Por isso, tudo que você precisa é ter uma personalidade natural, ser natural.

(Até o próximo sábado.)

Woody Allen por Woody Allen (7)

22 março, 2008

Como havia prometido, mais Woody. E este faz parte dos grandes acertos de sua longeva carreira.

Já da primeira vez que assisti Hannah e suas Irmãs, achei deslumbrante. Não pela composição dos planos ou direção dos atores, que é irrepreensível, mas pela condução da trama que ora coloca um personagem em evidência, ora outro, e daí segue alternando, compondo um saboroso painel das contingências humanas – fora o organismo vivo que é Nova York na fotografia de Carlo Di Palma. A família judia, a relação herética com a religião, os casais que nunca sabem ao certo o que querem, e o coração, que, por vezes, pode ser um músculo bem elástico.

Hannah e suas Irmãs

Prólogo

O único conhecimento absoluto atingível pelo homem é que a vida não tem significado.

(Hannah e suas Irmãs)

Stig Björkman: Por que optou por usar capítulos legendados?

Woody Allen: Sempre quis usá-los. Um dia, resolvi tentar experimentá-los neste filme. E eles tornaram o filme tão interessante que pensei, ?é o que vou fazer?.

Stig Björkman: Eles lembram um pouco os romances clássicos ingleses, como os de Fielding ou Dickens.

Woody Allen: Correto. Essa era minha intenção.

[...]

Stig Björkman: O seu personagem no filme, Mickey, é hipocondríaco. Este também seria um traço de sua personalidade ou só uma característica que você colocou no personagem?

Woody Allen: Sou apavorado, e não hipocondríaco. Não fico pensando a toda hora que estou doente. No entanto, quando fico doente sempre penso que é fatal. Apavoro-me facilmente.

(Até o próximo sábado.)

Woody Allen por Woody Allen (6)

16 fevereiro, 2008

Sábado passado, mais uma vez, eu não pude publicar os excertos do livro-entrevista de Woody Allen por Woody Allen, de Stig Björkman. As razões: diversas. Não entrarei nelas por motivos óbvios. Agora, vamos ao que interessa.

A Rosa Púrpura do Cairo é, dentro da filmografia de Woody, um dos pontos mais brilhantes. Todos os seus filmes, desde os mais irregulares até os mais geniosos, exercitam um diálogo inventivo entre a realidade e a ficção (leia-se fantasia). A ficção, no geral, sai ganhando. A realidade é enfadonha e sofrível. Seus personagens se debatem contra a inevitabilidade da solidão, o pavor de não ser aceito pelos demais, a desilusão que é o amor quando perde seu período de vida útil, a desesperança de um mundo extinto de deuses, a falta de sentido que é a vida, as contingências injustas e aterradoras, o caos de viver numa metrópole, e as pequenas, e quase inexistentes, alegrias. E nada mais normal de que seus personagens nunca saberem quais das opções a se tomar: se a realidade, pobre e ordinária, ou a ficção, jubilosa mas ilusória. A Rosa Púrpura do Cairo é uma ode à imaginação. E sua protagonista uma das mais encantadoras personagens da história do cinema.

A Rosa Púrpura do Cairo

Prólogo

Os que vivem querem a ficção nas suas vidas e os que são ficção querem que suas vidas sejam reais.

(De A Rosa Púrpura do Cairo)

Stig Björkman: Você, obviamente, viu Sherlock Jr. de Buster Keaton. Este filme, de algum modo, inspirou A Rosa Púrpura do Cairo?

Woody Allen: Deixe-me explicar uma coisa: não houve nenhuma inspiração, por mais remota que fosse. Creio que já lhe expliquei isto antes: acho que Buster Keaton fez filmes muitíssimo brilhantes, mas ele não é o meu favorito. Aquela coisa de entrar na tela foi uma idéia pensada depois. Escrevi uma história baseada apenas no seguinte: o homem dos sonhos de uma mulher sai da tela e ela se apaixona por ele. Depois, o ator de verdade aparece e ela é forçada a escolher entre a realidade e a fantasia. É claro que ninguém pode escolher a fantasia porque esta escolha poderia levar à loucura, de modo que é preciso optar pela realidade. E você se fere quando escolhe a realidade. Era simplesmente isso. Todo o resto foi apenas material que vinha à minha cabeça à medida que eu escrevia. Vi o filme de Buster Keaton, provavelmente, há 25 anos. Ele não tinha nada a ver com minha história. A entrada da moça na tela foi, realmente, algo pensado depois. Originalmente, seria apenas o personagem de Tom Baxter que ia entrar na vida dela.

[...]

Stig Björkman: Acho que você gostou de fazer A Rosa Púrpura do Cairo, um filme dentro do filme.

Woody Allen: Sim, gostei. Foi como um daqueles filmes a que assisti quando criança, o que eu chamava de comédias de champanhe, isto é, as comédias da década de trinta e de quarenta com todas aquelas pessoas românticas em traje a rigor, que iam a grandes casas noturnas, viviam em apartamentos de cobertura e bebiam champanhe o tempo todo.

[...]

Stig Björkman: O escritor sueco, que ganhou uma vez o Prêmio Nobel de Literatura, e que escrevia esporadicamente sobre cinema, definiu, certa ocasião, os cinemas como ?o templo dos covardes da vida?. O que você tem a dizer sobre tal definição?

Woody Allen: Eu diria que é uma definição muitíssimo apurada. É apenas uma definição, mas reflete, seguramente, uma das funções do cinema. E, no meu caso, mais ainda. Eu, decerto, concordo plenamente com ele, que um dos prazeres de ir ao cinema é evitar as duras realidades da vida.

(Até o próximo sábado.)

Woody Allen por Woody Allen (5)

2 fevereiro, 2008

Broadway Danny Rose está longe de ser uma das grandes comédias de Woody Allen. Entretanto, a forma como ele desenvolve a narrativa do filme, com alguns personagens discutindo em torno de um bar, e a partir de cada relato uma parcela da vida desse agente artístico toma corpo, é fascinante.

Ao invés de 2 ou 3 filmes por sábado, apenas um. Ao invés de 10,12 perguntas, apenas três. Divirtam-se:

Broadway Danny Rose

Prólogo

Morty, um comediante: Pensei que esta história fosse engraçada. É um horror!

Sandy, uma comediante: Então, o que quer que eu faça? Não é a minha vida.

(De Broadway Danny Rose)

Stig Björkman: Em que período você decidiu usar a estrutura que tem neste filme, com homens num bar falando e comentando sobre Danny Rose?

Woody Allen: Desde o início. Era uma coisa que fazíamos sempre, há muitos anos, quando atuava nas casas noturnas. Todas as noites a gente ia a uma confeitaria perto da Broadway e da Sétima Avenida e ficávamos lá sentados durante horas para descansar depois do espetáculo, comer alguma coisa, conversar e contar histórias. O pessoal tinha muitas anedotas.

[...]

SB: Quem é o sujeito que é o fio condutor da história de Danny Rose?

WA: Acho que é Sandy Baron, um comediante e também um ator muito talentoso. Trabalhou em diversos filmes.

SB: Danny Rose tem uma espécie de moto para os seus vários artistas: ?antes de entrar no palco diga três palavrinhas: Estrela, Sorriso, Forte.?

WA: Ouvi um comediante dizer isso há muitos anos.

(Até o próximo sábado.)

Woody Allen por Woody Allen (4)

26 janeiro, 2008

No último sábado não foi possível continuar com a seleção de excertos retirados do livro-entrevista Woody Allen por Woody Allen, de Stig Björkman. Diferentemente do que havia dito, esse sábado não será o quarto e último dia. Há muito material, e por isso prorroguei até a segunda quinzena de fevereiro. Vale, e muito, o conjunto selecionado.

Zelig e Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão foram feitos simultaneamente, embora o primeiro tenha levado mais tempo para se concretizar. Se fosse obrigado a fazer um top ten da filmografia de Woody Allen, Zelig constaria. Então, aos filmes:

Zelig e Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão

Prólogo

Zelig: É seguro… ser como os outros.

Eudora: Você quer se sentir seguro?

Zelig: Quero me sentir amado.

(De Zelig)

Woody Allen: Fiz dois filmes imediatamente depois de Memórias, que foram Zelig e Sonhos eróticos de uma noite de verão. Rodei ambos ao mesmo tempo.

Stig Björkman: Isto foi porque Zelig levou mais tempo para ser concluído?

WA: Não. Eu tinha terminado o roteiro de Zelig e não tinha nada para fazer enquanto calculavam o orçamento e executavam todo o trabalho de pré-produção. Estava em casa e perguntei a mim mesmo: ?não seria divertido fazer agora um simples filmezinho de verão? Escrevi o roteiro em duas semanas. Era apenas uma história simples, como dia de feriado no campo. E pensei: ?por que esperar? Vou fazer os dois filmes ao mesmo tempo. Que diferença faz?? Foi o que fiz.

[...]

SB: Você fala de Dustin Hoffman e já o mencionou antes. Você já pensou em trabalhar com ele?

WA: Sempre pensei e penso que ele pode fazer todos os meus papéis, talvez até melhor do que eu.

SB: Mas você nunca tentou contar com ele para desempenhar um papel num dos seus filmes?

WA: Não, ele nunca está disponível. Ele só trabalha por dinheiro muito alto, dinheiro que não temos.

[...]

SB: Esta foi também a primeira vez que Mia Farrow aparece num dos seus filmes. Você já a conhecia antes ou só veio a conhecê-la durante as filmagens?

WA: Eu já a conhecia antes. Comecei a sair com ela durante as filmagens de Memórias.

SB: Onde Sonhos eróticos de uma noite de verão foi rodado?

WA: Num lugar chamado Pocantico Hills. Fica a quarenta minutos daqui.

SB: Aquela casa já existia ou foi construída pra o filme?

WA: Foi construída. Vi-a numa revista e falei ?construam isso!?. Os interiores também foram construídos dentro da casa. Construímos uma casa completa.

[...]

SB: De onde você tirou o nome Zelig?

WA: Eu tinha acabado de enrolar a minha língua quando estava escrevendo. Apenas dei o nome de Leonard Zelig ao personagem e o nome soou perfeito, mas nunca pensei em dar ao filme o título de Zelig. Só depois de muito pensar, mas de pensar muito mesmo. Tínhamos vários outros títulos para o filme, títulos que chegaram realmente a ser filmados. Um deles era The Cat´s Pyjamas mas esta é uma expressão dos anos vinte e trinta, que se refere a alguma coisa realmente fabulosa. O título original era O Homem Trocado. Este virou o título do filme dentro do filme. Chegamos mesmo a pensar em A Crise de Identidade e Sua Relação Com a Personalidade Desordenada.

[...]

SB: Você chegou a conhecer Garbo?

WA: Não. Vi Garbo uma vez na rua. Eu, pessoalmente, nunca gostei muito de Garbo. Ela era ótima, mas nunca me deixei levar pelo mito. Eu era talvez um pouco jovem demais quando comecei a me interessar pelo cinema. Ela chegou ao topo da carreira antes da minha época.

SB: Mas ela foi a única grande figura da era de ouro do cinema mudo com quem você queria contar em Zelig?

WA: Não. Fiz uma entrevista com Lilian Gish, mas não me utilizei dela porque não gostei da maneira como ficou. Ela tem se mantido firme desde o nascimento do cinema. É impressionante. Ela realmente engloba toda a história do cinema.

(Até o próximo sábado.)

Woody Allen por Woody Allen (3)

12 janeiro, 2008

Hoje, terceiro e penúltimo dia da seleção de excertos retirados do livro Woody Allen por Woody Allen, de Stig Björkman.

Os filmes: Manhattan e Memórias. O primeiro é um dos grandes momentos de Woody Allen na ?segunda fase? de sua carreira. O segundo, mais desconhecido, é originalíssimo. Memórias sofreu inúmeros ataques tanto do público quanto da crítica, devido à leitura errônea de que o personagem principal, interpretado por Allen, fosse o próprio cineasta usando um alter ego para atacar tudo e todos. Besteira. É mais um de seus film personas, com lastros biográficos, mas nunca a própria transposição do homem (Woody) para as telas.

Manhattan

Prólogo

[...] Capítulo Um. Ele era… tão forte e romântico quanto a cidade que amava. Por trás de seus óculos de aros negros se escondia a ondulante força sexual de um tigre. Adoro isto. Nova York era a sua cidade. E sempre seria sua.

SB: Quando você está interpretando, você mesmo, uma cena, existe um doublé para possibilitar a verificação de suas posições na cena.

WA: Sim, claro.

[...]

SB: Em determinado momento, Isaac diz ?não posso me comprometer. Não consigo ser de outra maneira.? Aqui, não estaria o seu personagem expressando sentimentos muito semelhantes aos seus?

WA: Bem, é difícil a gente se comprometer com alguém por toda a vida. É uma pílula difícil de engolir, a pílula do compromisso.

SB: Ouvi ou li que você se sentiu muito inseguro ou muito triste com Manhattan

WA: … Quando terminei o filme? Estava, mas nunca fico satisfeito quando concluo meus filmes. Quase sempre isso acontece. E no caso de Manhattan fiquei tão decepcionado que não queria nem mesmo que ele estreasse. Pensei em pedir à United Artists para não distribuí-lo. Estava disposto a oferecer-me para fazer um filme de graça para eles se jogassem Manhattan na lata do lixo.

SB: Por que você estava tão descontente com o filme?

WA: Não sei. Trabalhei nele durante muito tempo, mas não estava satisfeito. E isso me aconteceu em vários outros filmes.

SB: Você nunca fica contente quando termina um filme? Nunca tem a impressão de que ?desta consegui ou quase consegui??

WA: Somente em A Rosa Púrpura do Cairo. Foi o mais próximo que cheguei da sensação de satisfação. Quando o filme foi concluído, pensei ?sim, desta vez acho que fiz exatamente o que queria.?

SB: E agora, com Maridos e Esposas?

WA: Esse foi um dos filmes que mais me satisfizeram. Nele ainda há coisas que eu escreveria de modo diferente. Mas não posso voltar atrás, nem fazer mais nada agora. Basicamente, é um dos meus filmes mais satisfatórios.

Memórias

SB: Memórias foi como que uma revelação para mim quando o revi recentemente. Há muitos anos não revia o filme, mas fiquei muito impressionado e emocionado com ele e gostei muito do que revi. Foi, definitivamente, um filme que cresceu com o tempo.

WA: Na minha opinião, esse foi um dos meus melhores filmes. Foi também um dos mais duramente criticados nos Estados Unidos. Não sei na Europa, mas aqui, foi. Mesmo assim, é um dos meus favoritos.

SB: O que criticaram tanto? O estilo, o conteúdo… ou ambos?

WA: Não foi o estilo, mas o conteúdo. Pensaram que o personagem principal fosse eu, não um personagem fictício, mas a minha pessoa, e também que eu estava hostilizando a platéia. É claro que isto não era o que o filme queria dizer, de jeito nenhum. O filme focaliza um sujeito, obviamente no meio de uma espécie de crise nervosa, apesar do sucesso ter chegado numa época de sua vida em que ele está mal. Porém, a reação foi do tipo ?então, você acha que os críticos não prestam, que o público não presta.? Mas eu dizia que não, que não era eu. Estou certo de que seria muito menos criticado se tivesse deixado Dustin Hoffman ou qualquer outro ator fazer o papel principal. É lógico que tudo foi pura especulação.

[...]

SB: Você poderia ter tido uma experiência terrível com a má receptividade de Memórias se não desfrutasse da posição que tem como cineasta, com a liberdade econômica que lhe foi garantida pelo seus produtores. A carreira de qualquer outro diretor de cinema poderia ter sido duramente afetada por esta falta de resposta crítica e comercial.

WA: Sim, porque eu tinha duas reações negativas em conjunto: a de Interiores e a de Memórias. Mas acho que duas coisas me ajudaram: eu não estava no universo comercial e as pessoas diziam ?ele tenta e procura ultrapassar os seus limites. Ele não faz um filme seguindo fórmulas, nem um filme seguro. Tudo bem, ele falhou, mas vamos ver o que ele vai tentar fazer novamente.? A outra possibilidade, e talvez mais importante, é que eu fiz tantos filmes que pouco me importa o sucesso ou o fracasso individual. Fiz Interiores, fiz Memórias, e, antes mesmo do lançamento destes, eu já estava trabalhando em outro filme. Memórias poderia ter sido um grande sucesso como Manhattan ou Hannah e Suas Irmãs, para mim isso não tem importância. Tente i fazer muito com que meus filmes não se tornassem eventos. Quero apenas trabalhar, só isso. Quero apenas lançar filmes para as pessoas verem e continuar realizando outros. Espero ter uma vida longa e saudável e que possa continuar trabalhando e que, na velhice, possa olhar para trás e dizer fiz cinqüenta filmes, alguns excelentes, outros não tão bons assim e outros engraçados…? Simplesmente não desejo ficar mesma situação em que alguns dos meus contemporâneos estão, na qual fazem um filme de poucos em poucos anos e a coisa se torna um grande evento. É por isso que sempre admirei Bergman. Ele fica trabalhando sossegado na sua ilha, faz um filme muito simples, lança e começa a trabalhar no filme seguinte. Você sabe, o trabalho é importante e não o sucesso fugaz, ou o fracasso, o dinheiro ou a receptividade da crítica. Você pode, ao mesmo tempo, como é o meu caso, fazer outras coisas que deseja. Gosto de tocar música, de ver meus filhos, gosto de ir a restaurantes, de fazer caminhadas, ver esportes, gosto de coisas assim. Quando, ao mesmo tempo, você está trabalhando, poderá, então, levar uma vida agradável e integrada.

(Até o próximo sábado.)

Woody Allen por Woody Allen (2)

15 dezembro, 2007

No último sábado não foi possível continuar a seleção de trechos da entrevista que Woody Allen concedeu em janeiro de 1992, e que pode ser encontrada no livro Woody Allen Por Woody Allen, de Stig Björkman. Por outro lado, eu pude reler algumas passagens do livro-entrevista e recortar alguns momentos luminosos.

Neste sábado, ficaremos com os excertos finais de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, e Interiores, este último um de seus filmes mais criticados.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Stig Björkman: A vida precisa de ordem?

Woody Allen: Sim. E tudo tem de ser em tons cor de terra, em tons suaves. Com a exata quantidade de mobília.

[...]

SB: E que pode dizer quanto à sua infância, da infância de Alvy/Woody?

WA: Está perfeita. Eu realmente morei num lugar como aquele. Fui a uma escola que tinha as mesmas professoras de cabelos azulados, muitíssimo rigorosas e antipáticas.

[...]

SB: O filme também demonstra total liberdade de estrutura.

WA: Isso eu sempre tive para escrever. Sempre me senti livre e aberto na cronologia de um filme, na sua estrutura.

[...]

SB: Vamos voltar a Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Neste filme, você fez uma coisa que era mais ou menos proibida no cinema: é quando fala diretamente com a platéia fazendo comentários sobre a história e os personagens, com um toque meio de Brecht ou de Godard. Estas características aparecem nas suas primeiras comédias, mas, nelas, tais comentários são como observações adjacentes, seguindo a tradição de Bob Hope.

WA: Certo, como Groucho e Bob Hope. Isso acontecia mais para favorecer o desenvolvimento da história do que pela piada. Queria que a platéia participasse da experiência comigo. Para início de conversa, foi isso que me estimulou a realizar o filme.

Interiores

SB: Interiores foi o primeiro filme em que você não desempenha papel nenhum. Você chegou a pensar em atuar no filme, isto é, podia ter interpretado os papéis que Richard Jordan ou Sam Waterson fizeram?

WA: Não, não pensei nisso por um minuto sequer.

SB: Foi por causa dos personagens do filme?

WA: Sim, porque sou um comediante, um ator cômico, e não sei se poderia fazer esse tipo de trabalho. Acho que a platéia iria caçoar de mim no momento em que me visse. Nunca me ocorreu fazer qualquer dos papéis.

[...]

SB: A sua mãe também foi uma figura forte na sua vida?

WA: Não. Ela está viva. É uma pessoa agradável. Dou-me bem com ela. Ambos, meu pai e minha mãe, residem perto de mim. Acho que você pode dizer que ela é a mãe típica. Talvez um pouco rigorosa, mas, basicamente, boa.

[...]

SB: Você também mostra Maureen Stapleton sempre vestida com cores vivas. Por exemplo, ela aparece usando um vestido vermelho chamejante ao ser apresentada à família pela primeira vez.

WA: Sim. E ela gosta de comer carne, faz truques de mágica e coisas parecidas. Acho que seria um sucesso se eu agora fizesse o filme outra vez.

SB: Mas você se sente infeliz com o filme?

WA: Não, não estou infeliz com ele, mas, depois de vê-lo, acho que teria feito coisas diferentes. Isto sob um ponto de vista estrutural. O meu instinto de escritor me diz que eu teria colocado Maureen Stapleton na história mais cedo. Eu podia ter descoberto um meio de fazer isso.

[...]

SB: Mas qual a sua opinião sobre ela? Ela é uma pessoa e uma irmã positiva e boa, ou não é uma irmã tão boa assim, especialmente com relação a Joey?

WA: Renata tem sorte porque ela tem o seu talento e aquilo que Joey não tem, isto é, um meio de expressar todas aquelas coisas dolorosas que nos causam problemas na vida. Mas ela é egoísta. Isto porque, a meu ver, os artistas são egoístas. Eles precisam ficar sozinhos, precisam de disciplina e, às vezes, precisam se comportar com as pessoas de formas que sejam importantes para eles, mas que não são realmente simpáticas para com os outros. E Renata compreendeu finalmente que a sua arte não irá salvá-la e isto a incomoda. Alguns artistas pensam que a sua arte irá salvá-los, que eles serão imortalizados e continuarão vivendo através de sua arte. A verdade é que a arte não irá salvar ninguém. Para mim, a arte sempre foi um entretenimento para intelectuais. Mozart, Rembrandt ou Shakespeare sempre foram criadores de entretenimentos num nível muitíssimo elevado. É um nível que traz um grande sentido de estímulo, de incentivo e realização às pessoas sensíveis e cultas. Mas não salva o artista. Shakespeare não ganhou nada com o fato de suas peças terem sobrevivido a ele, que estaria muito melhor se estivesse vivo e suas peças esquecidas.

[...]

SB: Acho que aí está um tema muito repetido nos seus filmes, esse medo da morte. Talvez seja por esse motivo que você povoou seus filmes com muitas pessoas de diferentes idades, nunca excluindo os mais idosos.

WA: Nem há outro receio de maiores conseqüências. A gente pode lidar com todos os outros temores, com todos os outros problemas. Solidão, carência afetiva, falta de dinheiro, a gente pode lidar com tudo isso. De um modo ou de outro, dispomos de meios para agüentar. Você tem amigos que podem ajudá-lo, médicos que podem auxiliá-lo. Mas a morte é o que é. Eu acredito firmemente nas idéias de A Negação da Morte, o livro de Ernst Becker, que recomendei a Annie, o personagem de Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. É um livro interessante sobre o tema, sobre a morte, colocada de uma maneira muito bem pensada.

(Até o próximo sábado.)

Woody Allen por Woody Allen (1)

1 dezembro, 2007

Woody Allen é um artista completo. Não é necessário assistir aos seus mais de 40 filmes para notar isso. Há algo em sua persona que me fascina. Antes de um diretor de cinema, Allen é um escritor. Antes de um comediante bem-sucedido, Allen é um dos mais inventivos, inteligentes e peculiares artistas de seu tempo.

Assisti a todos seus filmes, anotei diálogos, li duas biografias, me apaixonei por Annie, por Bergman, pelos irmãos Marx, por Bob Hope, pela Nova York retratada em suas obras, por suas neuroses, pelo kit de sobrevivência, por sua visão de mundo pessimista, e, sobretudo, por sua inquietação, por seu estado de constante criação.

Terminei a leitura de Woody Allen por Woody Allen, de Stig Björkman, o único livro de entrevistas com o diretor de Crimes e Pecados. Citei o livro na seção Notas de rodapé, recomendando a leitura. A partir de hoje, e durante um mês, sempre aos sábados, postarei alguns excertos desse livro-entrevista, iniciado em janeiro de 1992, um dos períodos mais conturbados na vida do cineasta.

Sonhos de Um Sedutor

Stig Björkman: Depois, você escreveu e trabalhou numa peça chamada Play it Again, Sam. Acredito ter sido esta sua única aparição numa peça teatral. Como foi esta experiência?

Woody Allen: Foi divertida. Gostei de Diane Keaton e Tony Roberts. Nós nos divertimos bastante trabalhando. A peça foi um sucesso. O diretor que encenou, Joe Hardy, fez um bom trabalho. Desde a estréia, foi fácil atuar. Não existe trabalho mais agradável do que atuar numa peça teatral. O que quero dizer é que você tem o dia inteiro livre para fazer o que bem entender. Você pode escrever, descansar, fazer o que desejar. Só precisa chegar no teatro às oito horas da noite. Eu costumava caminhar até lá com Diane: morava perto e podíamos dar uma boa caminhada pela Broadway. Depois, você chega e entra no teatro. Nada de tensão nervosa. A peça segue seu curso. Você está no palco com seus amigos. A cortina sobe e você atua. Tudo leva uma hora e meia. Duas horas depois, você está sentado num restaurante jantando com amigos. É o trabalho mais fácil do mundo! Por isso, foi gostoso realizá-lo.

Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo…

SB: Nos créditos do filme, você assinala que o roteiro é baseado num livro do Dr. David Rueben. Que espécie de livro era esse?

WA: Estava pensando no meu próximo filme e não sabia o que fazer. Uma noite, depois de assistir a uma partida de basquete, voltei para casa com Diane Keaton. Fomos para a cama, ligamos a televisão por um instante e lá estava aquele médico que havia escrito um livro muito popular chamado Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar. Eram perguntas e respostas partindo do pressuposto que ninguém sabia coisa alguma sobre sexo. As perguntas que as pessoas faziam eram do tipo ?uma mulher pode engravidar durante a menstruação?? ou ?qual a melhor maneira de fazer isso assim, assim?? Eram milhares de perguntas de todos os cantos. Então, pensei: ?ora, este livro daria um bom filme.? É só adquirir os direitos e fazer pequenos episódios curtos: as perguntas seguidas de um pequeno sketch ou algo semelhante. Apenas para divertir. Indaguei da United Artists e me responderam que os direitos já haviam sido comprados por Elliot Gould. Entretanto, Gould não estava fazendo nada com o livro. Meu escritório entrou em contato com o dele perguntado sobre o livro. E ele respondeu: ?ora, claro, se você quer fazer alguma coisa, vá em frente. Venderemos os direitos para vocês e poderão rodar o filme.? Ele vendeu e eu fiz o filme. Sei que o médico que escreveu o livro detestou o filme. Não imagino por quê. Acredito que achou o filme trivial, bobo e tolo. Mas, sabe, o livro também era tolo e se ele realmente se importasse com sua obra, não a teria vendido para o cinema: poderia ter caído em mão piores que as minhas. Foi agradável realizar um filme com apenas alguns episódios curtos. Simplesmente, por conta do divertimento.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

SB: Em Maridos e esposas, Juliette Lewis diz que a vida não imita a arte: imita a televisão de má qualidade.?

WA: Sim, acho que é verdade.

[...]

SB: Depois que Alvy e Annie passaram a primeira noite juntos, há uma cena numa livraria em que ele confessa ter uma visão muito pessimista da vida. A vida é dividida entre o horroroso e o miserável. Essas são as duas categorias? Você tem o mesmo ponto de vista de Alvy?

WA: Ah, sim. Isto é um reflexo dos meus próprios sentimentos. Considere-se feliz por ser apenas um miserável.

(Até o próximo sábado.)

Pepsi Twist com toque de limão

28 novembro, 2007

Acabo de engolir a leitura da nova revista da Livraria Cultura (a revista chama-se revista da cultura, com minúscula mesmo). Pior do que a revista só Pepsi Twist com toque de limão.

O único saldo positivo foi a breve entrevista de Antonio Prata – o escritor faz parte do famigerado projeto Amores Expressos. Do jovem escritor, filho de Mário Prata, só pude ler crônicas, e ele é talentoso. Nada que te faça perder o fôlego, mas engraçado.

Na entrevista concedida à revista falou um pouco sobre a sua relação com a literatura, a família, o despertador, etc. Entre uma besteira e outra soltou uma ou duas coisas engraçadíssimas (quando digo engraçada, quero dizer inteligente), as quais reproduzo aqui:

Ler e Escrever

Eu lia desde pequeno, mas nunca fui um leitor exageradamente voraz. Não sou um autor que escreve por influência da literatura. Escrevo porque quero falar da vida, interferir na vida, dizer o que eu penso das coisas. Das primeiras coisas que li, lembro-me de Ruth Rocha, João Carlos Marinho, Tintim, Asterix, Turma da Mônica, Stella Carr, Lígia Bojunga Nunes, a coleção para gostar de ler e muitas outras coisas. Quando agente elenca nossas influências, o que fazemos é dizer quem gostaríamos de ser quando crescermos. Poderia falar de Cortázar, Machado, Millôr, Veríssimo, Cervantes, Campos de Carvalho e tantos outros. Sem falar na poesia: Drummond, Pessoa, Bandeira, Leminski & grande elenco. Mas será que eles marcaram minha escrita mais do que os Simpsons, a professora de português da segunda série ou a bailarina por quem fui perdidamente apaixonado aos 15 anos de idade?

Cultura é?

Cultura é tudo aquilo que nos diferencia de mexilhões, samambaias e tamanduás. (Tirando a respiração e a primeira mamada, o resto é cultura – a segunda mamada já deve ter alguma malícia. E malícia é cultura.) Cultura é tudo isso que criamos para ocuparmos o pensamento, assim que nos demos conta de que um dia iríamos morrer. Cultura é invenção de uns magrelos feiosos para roubar as moças dos guerreiros fortões. Cultura é tudo aquilo que nós entregaríamos de bom grado em troca de uma nadadora olímpica.