Up and Down
14 junho, 2009
Minha filha, semanalmente, traça o itinerário que deveremos seguir. Disciplinada e atenta, anota os pormenores mais insignificantes. Perspicaz, sabe o que vale e o que não vale a pena em termos culturais. A saber: semanada passada, disse-lhe que veríamos A pequena sereia, ao que ouvi, de chofre, um nem pensar, papai!, apenas duas estrelas no Guia da Folha, ademais há outras encenações mais interessantes, decretou com um sorrisinho inabalável. Sorri em contrapartida, e perguntei-lhe o que tinha em mente. Discutimos brevemente, e entramos num acordo.
Como havíamos perdido Cannes e sua abertura com a animação Up, ela decidiu (não eu, que sequer tinha idéia de quem abriu ou fechou Cannes) que o sábado à noite seria agradabilíssimo se pudéssemos ver Up seguido de uma ou outra imagem de Coraline e o mundo secreto. Disse ok para Up e não para Coraline. É a terceira vez numa única semana que estaríamos a assistir o mesmo e cansativo filme, disse-lhe com ar de tédio e desaprovação. Ok, papai, ficamos apenas com Up, então.
Ao final da animação, ambos a chorar copiosamente. Fingi que estava com sono, afinal não queria deixar transparecer que era tão ou mais frágil do que ela. Não funcionou. Quer que eu pegue um lenço pra você, papai, disse enquanto vertia algumas lágrimas derradeiras. Não, filhinha, estou bem. Estou bem. É óbvio que não estava. É a animação com o prólogo mais triste da história do cinema (esqueça o mutismo de Wall-e). Algo na linha de um Philip Roth para crianças.
Explico: o velhinho, já no início da narrativa, perde a mulher, o amor da sua vida. Não tem filhos. Não realizou um sonho de juventude adiado por conta das vicissitudes da vida. Agora está irremediavelmente solitário e melancólico. Para piorar, o bairro está sendo revitalizado, por assim dizer, e por isso querem que venda sua propriedade a um desses barões do mercado imobiliário. Resta ao velhinho vendedor de balões uma única saída: voar. Literalmente. Mais não conto. Apenas acrescento que é a mais bem realizada animação a lidar com humanos a que se tem notícia.
Fim do sábado.
Início do domingo:
- Acabei de ver uma peça interessante aqui no Guia, papai, o que acha?
- Você sabe que tenho dificuldade pra escolher peças infantis, filha. Escolha você.
- Tudo bem. O armário mágico.
E lá fomos nós a madrugar num Sesc lotado. E tal como Up, a peça é de uma tristeza sem igual, com momentos de gelar o coração (não exagero, é a mais cristalina verdade o que estou a dizer). Lembrei-me do garoto que fui. Quase chorei por uma ou duas vezes. Minto: chorei.
Uma pergunta assaltava-me ao final da montagem: por que será que as narrativas contemporâneas, mesmo voltadas para o público infantil, precisam tratar de temas tão áridos?
Minha filha dá de ombros e diz que o próximo final de semana será ainda mais emocionante. Espero que menos doído, filha. Menos.
Os televisores nos reinventaram
12 abril, 2009
Sejamos HONESTOS: não existiriam casamentos não houvesse televisores. Não atualmente. Desconsidere o casamento dos seus avós e dos seus tios, que beira um centenário. Falo da vida CONTEMPORÂNEA. Do VAZIO dela. No passado esse vazio existia, claro. Mas não existiam cartões de crédito. E daí a explicação para os suicídios em massa. As pessoas precisam de algo para depositar suas frustrações. O consumo é um grande AMORTECEDOR. E os televisores nos reinventam diariamente.
Já imaginou se você tivesse de chegar em casa todos os dias e a sua mulher estivesse no sofá o aguardando para conversar sobre mais um dia de sua TEDIOSA vida. Os televisores nos dão o alívio do silêncio. Você pode entrar, tomar uma ducha, abrir o jornal e, quem sabe, até COCHILAR. Talvez sua esposa nem o note na sala. Talvez ela vá para a cama e não perceba que você chegou. Agora, pense nos seus filhos. O que eles fariam sem aqueles programas MATINAIS? Você não teria paciência ou talento para emular os atores do Hi-5.
Sem a televisão você não teria o que falar nos elevadores. Ou na casa da sua sogra. A televisão economiza DESPESAS. Sem ela você não teria desculpas caso sua mulher insistisse para que vocês saíssem para dançar no sábado à noite. Reviver o baile de formatura responsável pela união de vocês. Já imaginou ter de sair sábado à noite para dançar? Reviver o baile de formatura?!
Meu Deus!, a TV é melhor do que SEXO.
Não acredite nos intelectuais que dizem que a televisão é um dos males da modernidade. Ou da PÓS-modernidade. Você já visitou a casa de um intelectual? Eles têm televisores que mais se parecem telas de cinema. Caso contrário, como conseguiriam escrever seus ensaios, teses e artigos. Afinal eles também acabaram se casando. A inteligência não os libertou da tradição do matrimônio. Pior: domesticou-os. Ensinou-os a ser complacentes. Nenhuma pessoa em sã consciência suportaria conviver com outra, na mesma casa, por mais de três anos.
Sim, as relações têm prazo de validade. Sartre sacou isso bem cedo, e por isso pulou fora da jangada.
- Um apartamento pra mim, outro pra você, Castor (Sartre, carinhosamente, chamava Simone de Castor).
- Tudo bem, querido.
Nem todas as feministas são tolas. Simone sabia que Sartre era feio, estrábico, baixo e idiossincrático. Mas sabia, sobretudo, que era um dos homens mais inteligentes que já conhecera.
(A inteligência e o dinheiro são afrodisíacos dos mais poderosos.)
Caso ela não topasse, outra toparia. Ela não estaria disposta a discutir Hegel com um cara que confundisse METAFÍSICA com problemas no miocárdio. Simone tratou logo de travar uma parceira vitalícia com o pai do EXISTENCIALISMO. Foram relativamente felizes. Ela menos. Ele mais. Ao menos é o que diz a biografia de Hazel Rowley, Tête-à-Tête.
Mas enfim. Os TELEVISORES.
A televisão é a maior invenção da humanidade. Sem ela estaríamos perdidos. Toda vez que saio para pagar a conta da TV a cabo, eu não penso em quanto isso onera do meu salário. A TV a cabo é um investimento dos mais rentáveis.
Portanto, antes do apartamento decorado ou da escolha do faqueiro, compre um belo televisor. E invista numa TV a cabo digital.
Os televisores nos salvaram de nós mesmos. Aleluia!
Ops!
1 abril, 2009
Ainda tenho PAVOR quando a ouvir as palavras parque de diversões. Jamais entendi esse NOME: parque de diversões (nunca senti alegria ou qualquer sensação de prazer num lugar desses; medo SIM). Tudo que fazia era chorar & VOMITAR.
Numa mesma excursão, VOMITEI duas vezes no Caio. Caio era gordo e o MENOR aluno da classe.
(1) Na primeira vez estava no banheiro, e Caio IMPEDIU que chegasse à privada. Um garoto gordo e BAIXO lavado dos pés à cabeça por uma secreção de resíduos indefinidos. À época, adorava COMER língua de BOI e mortadela. Caio mais puto AINDA por odiar MORTADELA. No banheiro por duas horas, até que a professora o arrastou pra fora. Os garotos não arredaram pé. GORDO e baixo & LAVADO por vômito. Os garotinhos não perdoam.
(2) Já a segunda foi por pura MALDADE (os garotinhos não perdoam). Os GAROTOS me fizeram prometer (Ou vomita nele ou apanha…) que SE mais uma vez sentisse qualquer LEVE sensação de mal-estar, ENTÃO que regurgitasse no Caio. Eu queria dizer Não, é o Caio, pô, ele acabou de se… mas não tive escolha. Caio era meu colega de classe. O único a me levar bolinhas de gude e figurinhas repetidas. Não tinha amigos. Não chamava a atenção das garotas. Não era INTELIGENTE, e vez ou outra mijava nas calças. Sempre o ÚLTIMO a ser escolhido para qualquer atividade esportiva.
Caio no último banco do ônibus, arrumando os cadarços do seu M2000 ainda VIRGEM. Caio só teve tempo de dizer um ops! quase inaudível, quase como se pedisse desculpas por ser gordo & BAIXO e por estar ali, fedendo a vômito no meio dos outros garotos magricelas.
Caio morreu afogado aos 18 anos. Às vezes tenho a sensação de ouvi-lo dizendo ops!
One day at a time
3 janeiro, 2009
Pensei na maior perda que tivemos este ano e cheguei a uma conclusão um tanto óbvia para quem acompanha este blog. A maior PERDA de 2008 foi a morte de David Foster Wallace. Tiago A pensa o mesmo (ele não diz isso explicitamente, A MAIOR PERDA DE 2008 e tal, mas eu posso afirmar que ele sente o mesmo). E ele diz algo que eu costumo comentar com amigos e transeuntes dispostos a ouvir:
A afirmação de Tiago A. pode, também, ser aplicada à ficção de Foster Wallace. Após ler um conto qualquer dele (estou pensando em Para sempre em cima e A pessoa deprimida, ou o conjunto de contos intitulados Breves entrevistas com homens hediondos) tudo MAIS perde o interesse, e você começa a se perguntar como você conseguia viver antes de deparar-se com esse autor, tal como fazemos ao nos apaixonarmos e reavaliarmos o ANTES e o DEPOIS, e concluirmos que a vida só passa a ter sentido agora, com a presença desse OUTRO que é parte de NÓS.
Ninguém escrevia como David Foster Wallace. Ninguém escreve como David Foster Wallace. Eu sei que você costuma ouvir isso um bocado de vezes, o que te leva a pensar que isso não passa de uma frase de efeito ingênua, criada com o intuito primeiro e último de te seduzir, o que não deixa de ser verdade por um lado, mas que esconde o intuito VERDADEIRO da sentença, que é o de dizer que realmente ele era ÚNICO e que perdê-lo causou em mim (prepare-se, lá vem pieguice) uma hecatombe interna de proporções ainda não assentadas (o impacto foi semelhante à perda de um ente muito querido).
Escrevo isso aqui para ressaltar a importância de DFW em minha vida, e de como ela foi ALTERADA pela leitura de seus escritos em 2007-2008, embora eu saiba que nada do que eu venha falar aqui modifique o fato de sua perda precoce, o que só agrava ainda mais essa SENSAÇÃO estranha e sem nome que estou sentindo enquanto escrevo e penso no que ele provavelmente nos legaria futuramente.
De acordo com o laudo da polícia1, ele pregou o cinto de cor negra em um suporte de madeira do telhado de um alpendre no pátio dos fundos do quintal da casa e preparou uma forca. Depois, amarrou os próprios punhos com fita adesiva para evitar que pudesse desistir. Seu método escolhido foi morrer lentamente sufocado. Era uma noite de chuva. Usava uma bermuda cinza e uma camiseta azul. Os cabelos, crescidos até a altura do pescoço, estavam soltos. No rosto, a barba por fazer. Tinha à mostra no braço direito a tatuagem de um coração, sobre a qual estava escrito um nome: Karen. A morte foi declarada às 21h23 do dia 12 de setembro, cerca de quatro horas depois que a esposa saiu de casa e viu-o vivo pela última vez. Tudo ocorreu em Claremont, nos Estados Unidos. (…)
A morte de DFW foi ignorada pela imprensa escrita. A revista Piauí contribuiu com a tradução do seu discurso (parte dele) como paraninfo do Kenyon College. Uma notinha esparsa aqui, um comentário acolá, e finito. Sepultaram-no antes mesmo do sepultamento em si. À época, fiquei puto, esbravejei, babei, disse que precisava de um dossiê em todos os periódicos de CREDIBILIDADE disponíveis no Brasil (doce ingenuidade), e tudo mais a que tivesse direito, afinal ele escreveu isso, e isso, e mais isso aqui, e Infinite Jest (que estou lendo), e Para sempre em cima (prometo postá-lo na íntegra num futuro próximo), que é um dos contos mais AWESOME dos últimos anos, e por isso TUDO não poderiam, não deveriam colocá-lo na vala comum da seção de obituários nunca lidos. Mas, como haveria de ser, colocaram-no na vala comum, e assim permanece quase desconhecido por estas bandas (alguns citam dizendo que é o autor que cometera suicídio enforcando-se em sua casa envolto aos seus cachorros durante uma noite chuvosa).
Era MAIS ou MENOS isso que eu tinha pra dizer, e já é 3 de janeiro de 2009, e eu deveria terminar o post desejando felicidades e agradecendo o ano que passou, e você provavelmente sorriria do outro lado enquanto saboreava algum naco de carne da noite anterior, mas eu prefiro deixar um presente (não precisa agradecer) e um sorriso à Buster Keaton, e acrescentar o uivo triste do meu cachorro quando na virada do ano, que como se antevisse o já fatídico 2009, só fazia uivar e andar em círculos e mais CÍRCULOS.
Aqui o presente em PDF; aqui em versão folheável (o único dossiê declaradamente tupiniquim acerca de DFW; e de lambuja um ensaio de fôlego sobre Mãos de Cavalo e uns textinhos SABOROS envolvendo literatura. Um aperto de mão e um abraço a Não Editora e a Antônio Xerxenesky, e um pedido: apressem, por gentileza, a feitura da número 2).
O homem sem utopias
13 dezembro, 2008
A Bela (minha esposa) e a Fera (eu) versão reloaded 2008
Titio Julio Groppa (o melhor professor de Psicologia da Educação que tive na vida) dizia, dedo em riste, Não sejam homenageados, não sejam homenageados… Os piores professores com que tive contato eram sempre sorridentes e homenageados ao final do ano, e por isso, se forem homenageados alguma vez na vida, abandonem a educação e tratem de escrever livros de auto-ajuda ou coisa que o valha.
Fui homenageado na noite de quinta-feira última. Eu e outra professora fomos escolhidos os PROFESSORES DO ANO, por assim dizer. É como ganhar a Bola de Ouro da Fifa, disse o professor de Educação Física enquanto soltava um risinho abafado. Algo dizia que Titio Julio estava naquela sala enquanto eu era aplaudido pelos presentes. Caminhei lentamente até o proscênio. Tive de dizer algumas palavras, poucas, e depois receber um mimo e mais palmas. Fiquei EMOCIONADO por ter sido escolhido, embora Titio Julio permanecesse à espreita, gargalhando e balançando a cabeça de um lado para o outro, censurando minha amabilidade e disposição para tal ocasião vexatória.
Nunca precisei ser amável ou sedutor (no sentido ruim) nas minhas aulas, Titio Julio, EU JURO! Jamais passei por um TIPO professor relações-públicas para que fosse ouvido ou respeitado. Contudo, Titio Julio não saia de mim, assim como Bergman não conseguia afastar Deus de suas eternas divagações.
Corro em direção ao banheiro. Uma rápida lavada no rosto fez com que eu tivesse uma epifania à Clarice Lispector. Ao invés da barata e de um quarto asséptico, um espelho e esse rosto combalido que vos escreve. EU e EU. E então tudo pareceu mais claro, nítido. Titio Julio era minha consciência pessimista e insatisfeita. Titio Julio era um personagem de Beckett, que só fazia esperar. Titio Julio era um desistente por natureza, um homem sem utopias. EU NÃO! EU NÃO! Titio Julio era o cancro que devia ser extirpado a todo custo. Tratei de lavar o rosto mais e mais vezes, e lá pela décima quinta lavada, eis que surge Titio Julio, sorrindo e dançando no banheiro, como se festejasse em minha homenagem.
Titio Julio, O HOMEM SEM UTOPIAS, MORREU. Já o homem que dançava no banheiro, envolto aos barulhos costumeiros do lavabo, era uma versão condescendente do professor que não sorria e me chamava pelo sobrenome. Que venham mais e mais homenagens, afinal eu mereço.
Respect the cock!
20 novembro, 2008
Estava eu, aqui, pensando em escrever um texto sobre o que leva algumas pessoas na internet a terem atitudes de filisteus. O texto demandaria um tempo que não tenho, ou que não quero abrir mão, por ora, e por isso limito-me a escrever um singelo comentário:
Os homens, principalmente, tornam-se sujeitinhos deploráveis, mentirosos, torpes de uma maneira difícil de imaginar. As mulheres, por sua vez, como os homens, sim, põem-se a mentir de maneira descabida e um tanto patológica. Ambos mentem. De maneira distinta e muito particular.
Os homens tendem ao cabotinismo e, vez por outra, ao elogio desmesurado ao sexo aposto, numa atitude clara de sedução, que, quando não beira o histrionismo, peca por lirismo exacerbado. As mulheres, com rara percepção de síntese, limitam-se a concordar ou acrescentar um adjetivo a mais na já monótona conversa onde um elogia (o homem, claro) e o outro (a mulher, sim), quase nas nuvens, assente com interjeições e exclamações.
Isso na primeira fase do bate-papo. Agora íntimos (as pessoas ficam íntimas já na segunda conversa), o lirismo cai por terra dando lugar ao sexo virtual. Eu chamo esse segundo blind date às avessas de Respect the cock!, já que o homem se mostra HOMEM (viril, potente, dotado de atributos antes vistos somente em atores de filme pornô) e a mulher, estranhamente, mostra-se mais atraída quanto maior for o grau de exposição e vulgaridade e masculinadade esteróides anabólicos esse homem-hominídeo apresentará.
Tenho para mim que a distância física e o anonimato proporcionado pela tela do computador colabore para o surgimento de tipos como esse. Embora acredite que atrás da tela, sentados em suas cadeiras de escritório, e rindo alto enquanto escrevem banalidades sobre aspectos dos mais variados, algo neles quer que as mentiras e a persona criada com o intuito primeiro e único de atrair a garota solitária do quarto ao lado, tome corpo, exista de verdade.
Estamos, portanto, numa rua de mão dupla: jamais seremos, realmente, aquilo que desejaríamos ser. E daí a necessidade de mentirmos, e mentirmos, e mentirmos… ad aeternum.
…
Os filisteus, citados acima, costumam adorar Frank T.J. Mackey :
Eu, um tipo de nerd-loser-decadente-penabundeado, fico com Alvy Singer:
P.S.: O mais engraçado disso tudo é que ambos (o homem e a mulher) sabem que não são aquilo que dizem ser. Existe, portanto, um pacto tácito entre as partes. Nem eu digo que você está mentindo, e nem você diz que eu estou mentindo. Uma troca de favores, pois. Ou, ainda, uma maneira de amortecer o tédio da vida.
À procura de Mário Bortolotto
6 novembro, 2008
Nossa vida não vale um chevrolet… Primeiro texto que eu comprei do Mário, lá no sebo do Bac. Andei metade das livrarias de São Paulo em busca de um texto do cara, mas nada. Algumas livrarias, quando muito, e depois de uma insistência pra lá de vergonhosa, procuravam seu nome no catálogo. “Mário o quê?”, diziam. “Bortolotto, cara. Mário Bortolotto”, eu dizia como se conhecesse o dramaturgo há décadas.
Depois de muito andar, e já quase desistindo, adentro mais um pequeno sebo na Paulista. Vasculho o acervo disponível na prateleira de dramaturgia: Nelson, Nelson, Nelson e mais Nelson. E algum Plínio escondido atrás de um Callado. Procuro o vendedor. Nada. O sebo lembra um saloon abandonado – só falta o John Wayne e um baralho. Na falta de um pistoleiro renomado, um vendedor vestindo andrajos. Um sujeitinho exótico, diria Nicholson, um grande amigo (quando meu amigo diz que alguém é exótico, na verdade, ele está sendo educado, polido, simpático; exótico, pra ele e pra mim, tenho certeza, é sinônimo de freak, homem elefante).
O vendedor me olha dos pés à cabeça, e o silêncio instaura-se. O primeiro a puxar o revólver ganha um prêmio, eu penso. Nunca fui bom em apresentações. Mas qual o motivo para apresentações se você só quer saber a respeito de um autor? Não sei. Algo nesse homem me deixou travado. Pessoas exóticas provocam fascínio, e por isso a perda da fala é um dentre inúmeros sintomas presentes em ocasiões desse tipo.
Eu digo um Oi entredentes, praticamente inaudível. Ele continua estático. Dou-lhe as costas e finjo estar olhando livros de culinária. Um bafo quente, de respiração ofegante e pesada torna a me virar na direção desse Rutger Hauger sem dentes e com olho de vidro. Ele diz algo que eu não entendo. Através do seu olho é possível olhar a rua. Lembro-me de histórias apavorantes com personagens que usavam olho de vidro. Alguns filmes também me passam pela cabeça. Nunca sonhei em ficar frente a frente com um tipo desses.
A situação, e o sujeito, são aterrorizantes. Não estou exagerando. Imagine: uma pessoa entra num sebo, começa a procurar um livro, não o encontra, procura o vendedor, e nada do vendedor ou de uma viva alma, e então, do nada, surge essa cara saído de um filme de ficção científica, que não fala, só te olha e faz pequenos movimentos com a cabeça. Usa roupas estranhas, puídas. De um lado da face, um olho de vidro; do outro, uma cicatriz em forma de adaga. Você tem duas opções: a) puxa conversa, pergunta sobre o livro e finge estar calmo; b) sai correndo e gritando, à procura de um posto policial. Caso o cara seja um psicopata assassino e amante de bons livros, você tem uma chance. Caso ele seja um psicopata assassino, que mata por prazer donos de sebo, e fica aguardando o primeiro cliente após a morte para, ao invés de matar apenas o dono, concretizar um plano macabro qualquer, que inclui sempre o dono e um primeiro cliente, você está ferrado.
Psicopatas são meticulosos, inteligentes. Qualquer movimento brusco pode significar uma vida. A sua vida. Mantenha a calma. Mantenha a calma.
Ele volta a falar coisas das quais você não entende. Sua cabeça gira em rotações vertiginosas. MORTE, MORTE, MORTE. Você está desesperado, mas ele não pode notar. O seu olho. É isso: você coloca na cabeça que ele está atrás de um olho. O seu OLHO, meu Deus!
Mantenha a calma.
- Posso ajudar?
Dessa vez você decodifica ambas as palavras. Talvez o medo tenha feito com que você não entendesse o que ele falava anteriormente.
- Eu… eu…
- Um livro. Você está atrás de um livro.
- Sim. (calmo) Um livro.
- Qual?
- De teatro.
- Qual?
- O livro?
- É. O livro.
- Eu confundo os nomes, pode ser por autor?
- Não temos separação por autor, só por título.
- Humm…
- É do Nelson que você precisa?
- Não. Do Bortoletto.
- Bortoletto?
- Desculpa. Eu estou meio nervoso, dever ser o calor, sabe? É abafado aqui, não?
- Eu não acho.
Você sorri. Um sorriso amarelo, como se não esperasse essa resposta.
- Ah… Olha, o nome correto é BORTOLOTTO. MÁRIO BORTOLOTTO.
- (Gritando) Marião?
- É. Mário Bortolotto.
- Por que não falou de uma vez? É claro que eu conheço o Mário, porra!, a gente até já bebeu junto.
- Que bom. E onde ficam os textos deles?
- Como assim?
- Eu quero comprar os textos dele.
- Eu disse que conheço o cara, não que tenho os textos dele.
- Então você não tem?
- Não.
- Porra!
- Porra?! Cê tá maluco, é? Me xingando agora?
- Desculpa. Não é nada disso. O porra! é força de expressão.
- (com um leve ar de ironia) Ah, é força de expressão. Saquei.
- Não sabe onde eu posso encontrar, certo?
- Errado. Eu sei onde pode encontrar.
- Onde?
- No Bactéria. Só ele tem os textos do cara.
- Bactéria?
- É. O cara tem um sebo lá na Praça Roosevelt. Vai preparado. O cara supervaloriza tudo.
- Sei.
- Como assim, SEI?
- Não, quero dizer eu não sei como faço pra chegar lá.
Ele explica. Eu, obviamente, não entendo.
- Então cê vira à esquerda e… não, vira à direita depois da igreja. É mole.
- E qual o endereço certinho do sebo desse cara aí?
- Não sei. Sei que é lá na Roosevelt. Chega lá e pergunta assim: “Onde fica o sebo do Bac?”… Entendeu?
- Sim… Entendi.
- (gargalhando) Vai sacar rápido quem é o cara.
- Ah, é?
- Claro. Por que você acha que o cara tem um apelido desses?
- Não faço idéia.
- O cara parece uma bactéria. (rindo à beça) O cara é feio, foi cuspido, escarrado, nasceu de uma crise de diarréia… Saca? Crise de diarréiaaaa… hahahahahahahaha
- Saquei. Obrigado.
Assim eu passei a conhecer o Bac.
De chofre adquiri Nossa vida não vale um Crevrolet (autografada pelo Mário; eu não queria autógrafo nenhum, mas o Bac tanto insistiu que acabou ganhando) e Doze peças de Mário Bortolotto. Li de cabo a rabo. E reli a maioria das peças. Nossa vida… devo ter lido umas 5 vezes. Gosto bastante desse texto. Gosto, sobretudo, da personagem Sílvia. Solitária, carente, melancólica.
A certa altura da peça, ela diz ao Lupa, um tipo desengonçado e abobalhado e puxador de carros, qual o problema real das coisas:
Tá bom, cara, eu vou dizer qual é o problema. O problema é a hora do rush, o forno de microondas estragar quando você mais precisa dele, o problema é os caras que vendem carnês da felicidade, o problema é os filmes que saem de cartaz justamente quando eu decido assistir, o problema é o carro afogar no meio do trânsito, o problema, cara, é a gente nunca ter com quem dividir o guarda-chuva.
A aparente ingenuidade do diálogo toca em coisas profundas. O problema real não é o forno de microondas estragar, os carnês da felicidade ou os filmes que saem de cartaz justamente quando você decide assistir. O problema (e agora estou parecendo a Sílvia) é a solidão. O problema, cara, é não ter para quem contar como foi o seu dia de merda na empresa. O problema, cara, é esse vazio que ninguém preenche.
E o mais interessante é que o Mário não pesa a mão. Ela sabe colocar os intervalos cômicos no momento exato. É o típico exemplo de tragicomédia bem dosada, que alterna o choro e o riso sem nunca resvalar demais só para um dos lados da balança. Mesmo quando beira a comédia sem compromissos, eis que surge um diálogo ruidoso, inteligente, irônico.
A quase jornada por um texto do Mário fez com que me deparasse com um artista inquieto, irreverente, singular, sincero, sensível e nada, NADA medroso diante do desconhecido ou do salto sem rede de proteção. Sem sequer imaginar, ele me ensinou coisas pra burro; a principal: faça o que acha que tem de ser feito, ligue o botão do FODA-SE e meta as caras, afinal você não tem muito a perder mesmo.
É verdade: eu não tenho muito a perder.
Rewind and slow motion
19 setembro, 2008
Minha esposa adora filmes violentos. Violência pura mesmo, não psicológica. Cabeças decepadas, pernas destroçadas, estômago eviscerado. E tudo isso com bastante refrigerante e pipoca. Dentro dessa fornada, addictions movies e skinheads. A outra história americana é seu filme de cabeceira. Não tanto pelo filme, acredito, mas por Edward Norton desfilar sem camisa durante 1/3 da película. Ela diz que adora as tatuagens do cara. Tatuagem = musculatura + olhinhos azuis + cabeça raspada + irmão Furlong + armas de fogo + atitude altiva.
- Puta bom ator, ele, hein.
- Sim. Bom ator.
Antes de seguir elogiando a atuação e os bíceps de Norton, ela engole mais duas porções de pipoca amanteigada.
- Olha lá, ó… O cara é foda, meu. Mó firmeza.
- Firmeza. Sim, firmeza.
A cena firmeza a que se refere é a da tentativa de assalto na casa do personagem de Norton. Após ser interrompido durante uma sessão de sexo… animal, digamos assim, (a Jack diz que é paixão e loucura e tesão, uma trinca infalível, acrescenta) ele surpreende dois ladrões, negros, que tentavam roubar seu carro. O primeiro é alvejado nas costas, se não me engano; O segundo, após ser atingido não sei mais onde, cai e, milimetricamente posicionado no meio-fio, com a boca escancarada, praticamente comendo a mesma pedra que desenha a guia, é atingido na cabeça. Morte instantânea. Gritos e pipocas e manteiga e expressões efusivas de imensa alegria por parte da Jack. Eu, mão no olho esquerdo, corpo mole e sensação de desespero, fico sem entender ao certo a pequena Hitler que assiste Lazytown e dorme todos os dias abraçada com bichinhos de pelúcia.
- Como você pode se entusiasmar com uma cena dessa?
Ela continua vidrada no filme e, sem ao menos virar a cabeça na minha direção, pede que eu dê rewind e slow motion na cena.
- (indignado) Você deve estar bêbada.
Eu não deveria ter dito isso, não dessa maneira. Lentamente ela mastiga uma última pipoca do potinho decorado por personagens dos Ursinhos Carinhosos.
- Olha aqui, Lucas: eu assisto seus filmes iranianos com aquelas formigas e tal (O grito das formigas)… Eu vejo aquele homem horrível, de cabelo ensebado, perambular durante mais de duas horas pedindo para alguém jogar terra em seu corpo quando ele resolver deitar-se numa cova (Gosto de cereja; obra-prima)… Eu assisto o filme daquele tal de Kriestfolovski (Krzysztof Kieslowski), e fico vendo aquele… aquele… aquele sujeitinho nerd, neurótico e que só é infeliz porque não transa (Woody Allen)… e… E mais nada.
Um casamento é como uma partida de tênis entre amadores: você não quer jogar a bola forte demais, caso contrário o jogo não flui.
É óbvio que eu não discuto.
- Então rewind and slow motion, querida. Quer mais alguma coisinha pra beliscar?
Estou otimista quanto ao futuro da humanidade
16 setembro, 2008
Contrariando um conjunto vasto de convicções adquiridas ao longo dessa vidinha, a minha vidinha, percebo, nariz de palhaço e lágrima desenhada na maçã da bochecha, um jovem – eu, não tão jovem assim, vá lá – mais otimista. Não otimista-ong e carteirinha de sindicato e vota direito e passeata na Paulista. Otimista do tipo olha de novo para as coisas e não vê só o lado negro da força. Antes imaginava desfechos apocalípticos e pessoas matando umas às outras. Agora, mais otimista, penso tão-somente num acordo tácito do silêncio. O fim dos tempos não será destruição inflamada e meteórica ou revolta da flora, mas silêncio. Um sombrio e profundo silêncio. Cada qual preso a seus afazeres. Todos trabalhando em casa. Nada de saídas para barzinhos. Nada de vida noturna. Nada de passeios bucólicos com a família em dias ensolarados. As ruas desertas. Sem trânsito ou saques noturnos. Tudo virtual, nada de contato. Aos poucos, nem vida virtual. Não mais discussões inócuas sobre um futuro promissor ao lado de alguém e apartamentos com sacada. Nada de planos. Tudo será dito e entendido de maneira particular, individual, subjetiva. A verborragia dando lugar ao pequeno gesto. E o fim será dado com um leve e sugestivo movimento de negação. Silêncio, apenas.
Carta aberta a Mr. Sirk, desolação e os filmes da Mostra
15 setembro, 2008
Prazer, meu nome é Lucas, tenho 26 anos e acabo de assistir seu filme, Imitação da Vida. Sei que pode parecer bobo, Mr. Sirk, mas escrevo com o intuito único de lhe agradecer pela sensível história de uma mãe negra e sua filha branca em meio a uma sociedade imersa em preconceito. Mas o filme não é só isso. O senhor fala dos sonhos frívolos, da aparência em detrimento da essência, de não enxergar o próximo enquanto próximo, da eterna pequenez humana que só vê a si próprio refletido no espelho etc.
O seu filme é um melodrama, dizem. O melodrama, hoje, é visto como algo terrível, ingênuo e apelativo. Arte menor, pois. Ou puro entretenimento lacrimoso. Se Imitação da Vida for ingênuo, o mundo carece de sua ingenuidade. Não iria dizer isso aqui, mas já que o senhor foi tão honesto em sua narrativa, faço uma confissão: eu chorei. Como há muito não fazia num filme. Por sorte estava sozinho, o que ajudou e muito a apreciação de sua obra. Espero que o senhor esteja bem aí, onde quer que esteja. O seu filme, diferentemente de nós, não envelhecerá. Aos que dirão o contrário, minhas lágrimas.
Abraços sinceros.
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Ontem, após saber da morte de David Foster Wallace, o domingo, não raro tedioso, ficou mais nublado do que de costume. A saída: ver filmes e reler A Pessoa Deprimida (um dos principais contos do livro Breves Entrevistas com Homens Hediondos). A leitura, acrescida da sensação da perda recente, aprofundou ainda mais a desolação que, estranhamente, estava sentindo. Pessoas distantes, as quais você sequer viu ou trocou algumas palavras, podem ser mais próximas e decisivas em sua vida do que a maioria das pessoas que fazem parte do seu cotidiano. Isso é novo para mim. Não a idéia, mas o sentimento.
A pessoa deprimida estava com uma dor terrível e incessante e a impossibilidade de repartir ou articular essa dor era em si um componente da dor e fato de contribuição para o seu horror essencial.
(A Pessoa Deprimida, David Foster Wallace)
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Lista completa do Festival de Cinema do Rio, e lista parcial da Mostra de São Paulo, aqui.







