Educação

26 fevereiro, 2010

★★★☆☆  Educação

Educação tem roteiro de Hornby, o que quer dizer muito para alguns. Não pra mim. Mas é preciso colocar as coisa no lugar: é um filme de diálogos fluentes e cadência agradável, e isso também não costuma agradar aos críticos mais sisudos e que tomam café antes das exibições. Daí que a obra vem levando, injustamente, pedradas a torto e direito dos exegetas de plantão e de alguns engraçadinhos que tomam Hornby por um tapado que gosta de listas. Hornby é um escritor talentoso, quer gostemos ou não das coisas que escreve. Lone Scherfig dispensa apresentações. O que não esperava é essa tal de Carey Mulligan brincando assim com as palavras e inflexões. É de uma delicadeza e precisão a interpretação da garota que eu fiquei realmente impressionado. Mais: esqueça as resenhas que leu e curta uma história bacana acerca de uma garota que precisa crescer.

O Profeta

9 fevereiro, 2010

★★★★★  O Profeta

Primeiro: é daqueles tipos de filmes que você sente vontade de mostrar para os amigos (só os mais próximos) e depois passar a noite falando sobre e cruzando experiências acerca de possíveis influências e coisa e tal. Segundo: valeria a pena eu perder um bocado de tempo escrevendo a respeito de aspectos técnicos e virtuosismos que o filme evidentemente apresenta, mas isso diria muito pouco (quase nada) desse que é, até agora, 9 de fevereiro de 2010, noite de terça-feira abafada, o maior filme do ano na opinião do sujeitinho aqui. Adianto que não é empolgação juvenil nem falta de critério não, afinal vi todos os filmes concorrentes ao Oscar (o que não quer dizer nada), entre outros (o que quer dizer muito),  e nenhum deles, asseguro-lhes, nenhum deles lambe os calcanhares dessa saga cão come cão; nem mesmo Guerra ao Terror, ou Bastardos Inglórios, ou Um Homem Sério. Sei que exagero. Sei que adjetivo demais, e isso não é bem visto por quem se pretende a fazer críticas imparciais e espertinhas. Mas: não sou crítico, não sou imparcial, e quero mesmo é continuar a falar sobretudo das coisas que me tocam (nada de toque retal, certamente). Do contrário largaria o leme e encaminharia-me à prancha.

Enfim.

Alexandre Desplat compõe a trilha. Mais uma vez: Desplat é responsável pela trilha. Faz cara de surpresa e  felicidade e batuque algo próximo a você (falo sério). Algo te faz pensar na trilha de Inimigos Públicos, imagino. Esquece Elliot Goldenthal. Esquece aquela belezura que é Ten Million Slaves na bocarra do Otis. Imagine Desplat a compor uma trilha que cresce com o personagem. De garotinho imberbe e babão a homem que bate no peito e diz eu quis e eu fiz. Arrisco num cavalo: Desplat estava a rever GoodFellas e o cinema americano todinho e também o cinema italiano e os portentosos filmes de máfia da década de 70 e 80 enquanto compunha o corpo da trilha.

Jacques Audiard fez o mesmo (sobretudo no quesito american way of life), com a vantagem de ser um amante antigo do cinema italiano (ele afirma isso em quatro de cinco entrevistas concedidas). Não vou dizer que vejo Rocco e Seus Irmãos (o maior filme italiano de todos os tempos) em O Profeta, mas negar que há similaridades consangüíneas aqui seria de certo uma burrice. Devo dar um resumo didático agora, assim fica fácil pra você:

Malik é jovem de seus vinte e tantos anos, e vai preso. Medroso, imberbe (não sei por que insisto nisso) e chorão. Como todos os jovens de vinte e tantos anos presos, não sabe como sobreviver na cadeia (você saberia? Não responda). Terá de ser mulherzinha, como na maioria dos filmes passados em prisões? Nada disso. Malik tem de matar. É simples assim: matar pra sobreviver. E é isso que fará até o fim. Não só matar, obviamente, mas sobreviver. Adaptar-se ao meio e fazer o meio jogar a seu favor. Um tipo de bildungsroman na telona. Cresce e aprende na adversidade, tal como nós. Mata e sobrevive na adversidade, diferentemente de nós.

Sei que é infantilidade minha falar ainda mais das influências e dos decalques impressos em O Profeta, mas não dividir esse sorrisinho maroto que agora contamina toda minha face, como se tivesse descoberto o esconderijo de Deus, me deixaria pouco à vontade, sozinho com minhas epifanias (compartilhar epifanias é um desvio de meu caráter, sinto muito). Divido, então: James Gray. Pois sim. Ver O Profeta é como assistir Gray adentrar o sistema penitenciário. É o The Yards francês. É O Caminho Sem Volta europeu. Digo mais: Gray assistirá ao filme e o colocará na lista não só dos melhores filmes dessa década, mas na sua listinha pessoal de filmes indispensáveis (da vida, sim).

Acabo de retirar do baú minha agendinha. 243 filmes para serem vistos antes da chamada oficial divina (não mostro a lista nem pra minha esposa, então por favor, não insista). 244 agora (pois é,  pois é,  O Profeta é o 244).

Audiard fez um filme definitivo (e não me venha dizer que todos os filmes são definitivos). Não sobre o sistema penitenciário ou questões de fundo social/étnico/político, nada disso. Fez um filme definitivo acerca da imponderabilidade de ter não ter escolhas e por isso mesmo ter de “escolher” (paradoxo algum). E Malik, de maneira irrevogável, escolhe. E daí reinventa-se (tudo o que desejamos inconscientemente/conscientemente fazermos sempre quando acordamos ou chegamos ao trabalho ou nos vemos prostrados num sofá de dois lugares e posicionado estrategicamente na frente de um televisor qualquer e diante de uma vida que, bem, você aí sabe que tipo de vida é essa). Poderia tecer variadas considerações sobre mensagens, argh, outras que O Profeta tem/teria, mas isso, como disse acima, diria muito pouco (quase nada) da experiência que é ver esse novo filme de Jacques Audiard.  

Zumbilândia

29 janeiro, 2010

ZOMBIELAND

★★★☆☆  Zumbilândia

Na orelha do romance Areia nos Dentes (Antônio Xerxenesky), Daniel Galera é direto: Se tem zumbis no meio, só pode ser bom. Acrescento: só pode ser divertido. Acrescento ainda: sem tem Bill Murray no meio (e aqui tem), basta comprar a pipoca e se refestelar no sofá. E digo mais: os americanos estão assistindo Joon-ho. Zumbilândia comprova isso. É um filme bicho-papão de gêneros, tal como O Hospedeiro.

Eu ri. Tomei alguns sustos. Fiquei apaixonado. E, como não poderia deixar de ser, chorei.

Minto. Mas ri mais do que esperava e merecia. Desde Whatever Works não soltava gargalhadas assim, com tanto entusiasmo. E inteligência, tá ok. IN-TELI-GÊN-CIA. Porque acima de tudo é um filme que sabe se aproveitar de cada situação aparentemente desnecessária. E mesmo as digressões, um tanto longas para os padrões hollywoodianos, mas nunca despropositadas ou acidentais, são a cereja do bolo. Clichê demais para você?

Pois sim. É de clichês e  referências e lugares-comuns que Zumbilândia retira um bocado de sua graça. Mas não só. Os diálogos não fazem feio a nenhum Apatow  e demais genéricos. Diria até que Apatow deveria contratar as quatro mãos que escreveram Zumbilândia para escrever seu próximo filme. Kevin Smith disse aos amigos íntimos (aos prantos) que nem o seu Balconista (um filme assentado sob e por diálogos) fazia par ao brilhantismo de Zumbilândia. Minto novamente, claro, mas Smith, asseguro-lhes, sentiu inveja.

A mesma inveja que os atores de 20 e tantos anos estão sentindo de Jesse Einsenberg. Desde O Clube do Imperador estou atento a Einsenberg. Mas foi em A Lula e a Baleia que fiquei a colecionar elogios e guardar seu nome. Revi o filme inúmeras vezes, e a cada revisão Einsenberg me surpreendia mais. Explico: Jesse atua em registro “naturalista falseado”, e dá a impressão (falsa, logicamente) de que o que faz o seu Josias da quitanda faria se pedíssemos com jeitinho. Ledo engano (confiram Adventureland e digam se estou equivocado). O que Jesse faz poucos atores nessa faixa de idade são capazes de fazer (Ryan Gosling é um nome e Paul Dano outro, mas em chaves opostas). Por fim: Jesse é um típico personagem de Woody Allen, um tanto abobalhado e desprovido da assertividade tão comum aos Ashton Kutcher da vida. Daí a graça involuntária (e o sentimento natural de empatia) que seus personagens despertam.

Por fim 2: Bill Murray faz Bill Murray. Eu realmente preciso falar mais alguma coisa?

Funny People

18 dezembro, 2009

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★★★½☆  Funny People

É incrível como esse filmeco me pegou de jeito. Estava desarmado e tudo, mas não costumo cair nas maquinações (leia-se, também, escatologias) de Apatow. Dessa vez, sem muito alarde, fui fisgado. É uma história triste. Precisamente: é uma história triste (outros dirão o contrário; não os ouça). Falo do Apatow de O Virgem de 40 anos (que já é um filme triste, sim) e  Ligeiramente Grávidos (outro exemplo de um filminho nada joy-JOY e tal; falo sério, ok). Crescer é uma barra, nos lembra Apatow. Crescer e ser rico e famoso pode ser pior ainda.

Adam Sandler (tão bem quanto em Punch-Drunk Love) faz um comediante que descobre estar nas últimas (não adianto nada, fica frio, isso é mostrado após a abertura, que é hilária). Um comediante mundialmente reconhecido. Falo de fama & dinheiro & mulheres. Enfim, o pacote todo. Deveria ser feliz, não?

Pois não é. Não só a doença terminal o arrasta de volta ao passado (que é pra onde sempre retornamos quando o presente nos diz que daqui pra frente tudo tende a piorar ainda mais), mas também suas escolhas, hum, um tanto quanto “idiossincráticas”.

Pois sim: doença terminal, fama & dinheiro, infelicidade etc., e tudo nos dizendo que as pessoas, mesmo as idiossincráticas, merecem uma segunda (ou terceira e quarta) chance. Piegas sobremaneira? Melodrama à Manoel Carlos?

Não me faça rir. Apatow não é nem de longe o maior piadista, comediante, diretor, produtor, roteirista, dono de cabaré, proxeneta ou mesmo fazedor de cafés  norte-americano que já houve ou há, mas é um sujeito que sabe muito bem dispor de seu material e tocar os instrumentos com certa desenvoltura. E é isso que temos: um filme de falsas segundas chances que faz rir e chorar em 150 minutos. Disse 150 minutos?

Engano meu: 146 minutos. Cravados. Sem tira nem pôr. Reconheço: o filme se arrasta depois dos 110 minutos, e Apatow não deveria ser tão complacente assim com seu clímax-desfecho e tal, mas acabo aceitando, afinal é aquele filme que o cara segredou durante anos o roteiro, burilando-o durante as noites insones, e o desejo de colocar-tudo-agora-ao-mesmo-tempo quando feito com verdade deve também ser aceito com certa dose de resignação. Pois aceito não só resignado mas feliz. É a obra mais tocante e divertida de Apatow, o filme definitivo (até o momento; dessa década, vai) sobre a vida dos stand-up e comediantes de ocasião. E seria a Comédia do Ano se os distribuidores tivessem culhões para lançar o filme no cinema. Alegaram que não é um filme com tempero latino, coisas desse tipo, e daí que o filme chega às locadoras em 6 de janeiro.

Reitero: é um filme triste. Outros dirão o contrário; não os ouça.

Hotel Atlântico/ No Meu Lugar

27 novembro, 2009

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★☆☆☆☆  Hotel Atlântico

Suzana Amaral faz uso de dentadura (tal como minha vó), utiliza as estrelinhas da Folha pra dizer se um filme é bom ou ruim (acerca de Amantes, um dos maiores filmes do ano, disse o seguinte: drama romântico sem reverberação; em outras palavras, duas estrelinhas de um total de 4), e, no mais, dirigiu A Hora da Estrela (minha avó não). Suzana, como minha vó, tem 70 e tantos anos. Maturidade? Pois sim. Minha vó, vez por outra, como Suzana Amaral, faz e diz bobagens. Hotel Atlântico é um drama existencialista-onírico sem reverberação, para usarmos um termo caro à crítica-cineasta Suzana Amaral. Vovó assistiu ao filme do meu lado, e antes que os créditos enfim aparecessem, disse-me: Quando não é favela é essa gente perdida, hedonista ou que só sabe trepar… Antes que vovó concluísse, pedi mais uma porção de pipoca, e enveredamos por um assunto qualquer (talvez Lee Van Cleef, que ela adora), a fim de dar alguma serventia àqueles assentos tão confortáveis do Espaço Unibanco.

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★★★☆☆  No Meu Lugar

Eduardo Valente é dos críticos brasileiros que mais leio (na internet, obviamente). Gosto do cara. Gosto dos curtas. Gosto das críticas. No meu Lugar é um filme de alguém que viu muitos filmes. Isso é bom e ruim. O lado bom: Eduardo sabe posicionar a câmera no lugar certo e, sobretudo, sabe que um plano deve ter uma duração bem particular (quase exata). O lado ruim: o excesso de racionalidade, o esquematismo, a perfectibilidade artificiosa e os não-respiros. É tudo tão engenhosamente calculado que mesmo os atores (competentíssimos) parecem marionetes. Embora isso não quer dizer que Eduardo não seja um hábil diretor de atores, pelo contrário: é pelos atores que o filme parece existir. E o filme tende a crescer mais e mais quando volto a pensar nele.

Diário da Mostra #3

22 novembro, 2009

vicio frenético

★★★★½ Vício Frenético

Fazer um remake de um filme de Abel Ferrara? De um dos maiores e melhores filmes de Abel Ferrara? Pois sim. Sabíamos que Herzog é um selvagem, mas nem de longe poderíamos esperar algo como isso. Ainda hoje tenho pesadelos com aquele pranto niilista de Harvey Keitel (pense em um homem que descobre que Deus é um engodo, e daí se põe a chorar por todos nós) em Bad Lieutenant. Lembrete necessário: aos sujeitinhos que insistem em afirmar a irrelevância desse belíssimo ator (Nicolas, e não Keitel), minhas lágrimas; desculpai-os, desculpai-os, afinal eles não sabem o que é atuação. Um Herzog cínico. Tal como o nosso tempo.

a família wolberg

★★★★☆ A Família Wolberg

Um debut incontornável. Uma peça de câmara escrita por Tchecov.

abraços

★★★☆☆ Abraços Partidos

Está a se repetir, como todos os grandes. A arte, diferentemente da vida, permite reestréias. Eis a lição de Almodóvar.

o que resta

★★★½☆  O Que Resta do Tempo

Suleiman é um fanfarrão. Da próxima vez que tiver de explicar ironia aos meus caríssimos alunos, darei-lhes Suleimam de bandeja. Sublime.

making

★★★½☆ Making Plans for Lena

Honoré está habitando outras paragens, mas isso não diminui em nada seu mundo particular. Making Plans for Lena é irmão bastardo de Horas de Verão. De longe a melhor atuação de Chiara.

Diário da Mostra #2

2 novembro, 2009

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★★★☆☆  A Falta que Nos Move

Os acordes aqui não soam como na peça (a qual vi três vezes, e que ainda hoje não consigo arrancá-la dos melhores momentos que tive no teatro) que originou esse filme, mas tudo bem, tudo bem. Christiane Jatahy salda sua dívida com Rohmer e Cassavetes, e nós (EU, pelo menos) agradecemos.

L096

★★½☆☆  London River

Não fosse o casal de protagonistas (sublimes) a enquadrar essa quase crônica do que ficou conhecido como o atentado do metrô de Londres, o filme seria um documentário educativo, didático mesmo. Mas não: há vidas e entre essas vidas há uma história que deve ser contada, independentemente do pano de fundo ter reverberações políticas, sociais, étnicas ou o que quer que seja.

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★★☆☆☆  A Garota Eslovena

O que mais me agrada no filme são as pontas soltas, a incompletude da coisa. E mesmo que haja alguns tiques de cinema independente a borrar o material, há também uma atriz a sustentar a fragilidade e superficialidade de algumas situações. E não podemos nos esquecer do desfecho, digno de nota, tipo um royal straight flush armado à sorrelfa.

Diário da Mostra #1

27 outubro, 2009

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★★★★☆  Mother

Dois filmes e um média (dos que pude ver). 40 anos. É pouca idade e pouca experiência para nos dar tanto, pensava eu. Imaginava que um velhinho mais sábio fosse o verdadeiro responsável pelo conjunto de filmes de Joon-ho Bong. Imaginava mal. Um velhinho sábio talvez não brincasse tanto quanto Bong, e daí o interesse que seus filmes andam despertando por aí. Não há um gênero, mas vários. Não há um diretor, mas muitos.

Mother é o atestado que os críticos aguardavam para a autenticação definitiva. Drama policial, comédia, tragédia grega? Sim e não. Bong reatualiza gêneros e o faz de maneira tão fluida e passional que é impossível fugir de seu mundo. Mother é uma releitura de Medéia às avessas. Um Édipo Rei escrito por Nelson Rodrigues. Desnecessário dizer (embora diga) que a abertura e o desfecho (bem como a  atriz Hye-ja, que faz a mãe do título) continuam aqui, num cantinho especial.

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★★★☆☆ Ricky

É como se Gabo escrevesse o roteiro e a direção ficasse a cargo dos Dardenne.

A mostra do Rio vista do lado de cá #2

11 outubro, 2009

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★★★☆☆  500 Dias com Ela

Pelo hype criado em torno desse singelo filme açucarado, por Roger Ebert usar termos como transgressão/subversão da comédia romântica, e por uma quase necessidade/obrigação de saciar o desejo da Jaq por filmes que falam de garotos e garotas que não sabem muito bem o que querem, a não ser amar e ser amados, fui de encontro (expectativa lá na lua) a esse filme-evento, que poderia facilmente ser descrito como uma das canções de Mallu Magalhães quando esta  descobriu estar perdidamente apaixonada por Marcelo Camelo.

Pois é: é o típico filme adolescente-juvenil-adulto embalado por uma trilha pop e por um conjunto de diálogos que sairia facilmente da pena de um Hornby inspirado. Minto: de um Hornby com 50 por cento de sua capacidade criativa, como disse recentemente o bobalhão Von Trier. E digo mais: o diretor além de decalcar a cena final de A Primeira Noite de um Homem (esse sim um filmaço) faz uso do expediente tela-dividida (de um lado expectativa, do outro realidade), recurso caro a Woody Allen. Mas isso, assim, não quer dizer nada. Chega mais perto que eu explico o porquê você deve perder 90 e tantos  minutos da sua vida com esse filme-canção-Mallu. Isso, mais perto. Agora, sim: é um filme pra ser visto com carinho. Não pelas referências-influências explícitas e/ou implícitas. Menos ainda por Ebert usar palavras como SUBVERSÃO & TRANSGRESSÃO. Isso tudo é besteira, coisa pouca, panfleto. Ao que interessa:

Talvez você se lembre daquele dia em que conheceu aquela garota de aparelho algo rosado, e sem mais nem menos sentiu aquela sensação delicada e apavorante, e daí em diante notou que, por mais que tudo pareça fadado ao fracasso, há sempre uma primeira vez pra tudo; e, melhor ainda, há também uma porção de segundas vezes.

A mostra do Rio vista do lado de cá #1

4 outubro, 2009

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★★★½☆  Distante Nós Vamos

Quem diria, hein: Dave Eggers escrevendo roteiros. Nada bobo: é lá que está o dinheiro. Escreveu (adaptou) o novo trabalho do Spike Jonze também, Onde Vivem os Monstros, que pelo trailer me deixou a pensar na infância. Mas falemos de Sam Mendes. Gosto do cara. A crítica desceu a lenha em Apenas um Sonho. Escolheram o filme errado. Escolheram o cara errado. Tudo bem que Beleza Americana, quando revisto, dá um certo engulho, um quê de indiferença, de artificialismo, de profundidade piscina de bolinha, e é totalmente contrária à reação que tive quando no primeiro contato, mas daí a dizer que o pobre Sam é um engodo vai um longo caminho. Repito: gosto do cara. Mais: ele sabe escolher uma esposa. E dessa vez soube escolher o roteirista certo, a história certa e o casal de protagonistas certos (realmente esse John Krasinski é um ator para se acompanhar de perto).

Distante Nós Vamos é um road movie típico, a não ser pelo casal mais doce do ano. Um road movie, tal como um Bildungsroman, lida com o conceito de aprendizagem ao longo do percurso, e é isso que temos aqui. Um casal aprende a ser casal quando se põe na estrada em busca de um lar seguro e distante de uma sociedade onde ninguém mais sabe ao certo dar e receber amor. É um filme pequeno e que fala de coisas pequenas. Sam deixou de tentar abarcar o mundo mas não deixa de colocar o mundo nesse pequeno universo de pais disfuncionais e amores patológicos.

A distopia americana ainda permanece no horizonte de Sam, mas agora ele acertou a mão. Os críticos já estão pedindo desculpas. Não aceite, Sam. Não aceite.

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