De repente a vida é isso aí
6 outubro, 2008
De repente a vida é isso aí: você acordando no meio da noite e cobrindo sua pequena que resmunga e dorme de sandália. Tudo calmo do lado de fora. Os instintos permanecem alerta. Algo diz pra você ficar quietinho, ouvindo o barulho da noite. A noite é ruidosa. A brisa calma da noite. Tudo calmo. Você, inclusive. Metade das coisas que você planejou não aconteceram – ainda. A outra metade não irá acontecer, você sabe disso. É assim pra todo mundo. Ou pra maioria. Há dias que você quer abrir a porta da saída de emergência, gritar, pedir socorro. Há dias que… há dias que tudo fica assim, calmo. De repente a vida é isso aí.
No shopping
5 outubro, 2008
Coisas estranhas acontecem o tempo todo, basta estar atento aos sinais. Hoje, quase absorto na escada rolante do shopping, uma garota, 25 anos, presumo, passa gritando e quase sem fôlego ao meu lado. Gritando mesmo, não falando alto. Não costumo ver garotas de 25 anos esbaforidas e gritando e escalando escadas rolantes. A surpresa inicial torna-se curiosidade. Eu fui demitida, putaquepariu!,eu fui demitida, putaquepariu!, era o que eu mais queria nessa vida, ser demitida, gritava e girava e gritava e girava mais uma vez e abraçava os amigos (suponho) de outras lojas. Aos solavancos, fui galgando as escadas e acompanhando o martírio dessa Joana d’Arc assalariada. Era desesperador ver a sua estranha alegria misturada a lágrimas e risos em meio a soluços contidos. Permaneci ao longe vendo-a sentar-se numa poltrona confortável situada no centro de um dos corredores do shopping. Gargalhava e chorava ao mesmo tempo, num ritmo que parecia não ter fim. Os seguranças, trogloditas, arrancaram-na da poltrona e levaram-na para uma sala qualquer no subsolo do prédio. Os gritos permaneceram no ar, ricocheteando a vidraça.
Coisas estranhas acontecem o tempo todo, basta estar atento aos sinais.
Assim, como quem não quer nada
1 outubro, 2008
PERFEITO!, em letras garrafais, com ênfase no FEI, acrescentando um leve sorriso ao final da pronúncia. É como um clique, um toque no interruptor e a lâmpada acende. Basta ouvir PERFEITO! para que a Medéia aqui cometa assassínios com os já freqüentes requintes de crueldade. As palavras têm uma força descomunal. PERFEITO!, assim, como quem não quer nada, desperta um lado que procuro manter escamoteado, tipo O.J. Simpson prejulgamento ou face to face com a mídia. Todos temos um lado O.J. Simpson, basta um clique. Basta um gesto. Basta alguém, repetidas vezes, e com um arzinho de alegria irritante, soltar um PERFEITO!, assim, como quem não quer nada.
Shame on you
20 setembro, 2008
Um dos maiores escritores desse século morreu e os jornais mais parrudos de São Paulo não deram sequer uma notinha fim de página para ilustrar o fato. Nem os Cadernos especiais de Cultura desses mesmos jornais legaram um simplório texto sobre o dia trágico. Tudo bem que 90% 99% da crítica literária desses mesmos periódicos desconhecia a existência desse escritor da mesma envergadura de um Philip Roth, por exemplo, mas daí a não se informar sobre a morte desse escritor de 46 anos é algo vergonhoso. Ao menos a blogosfera, em partes, manifestou-se e salvou a imbecilidade disseminada em nossa imprensa de cobertura de festas de casamento de menininhas virgens e inocentes.
Pequim – 08
12 agosto, 2008
O relógio nunca desperta no horário agendado na noite anterior. Maldito fuso horário. Malditos orientais. Uma Olimpíada ocorrendo durante a madrugada é um misto de tortura e sadismo para pessoas do tipo vão pra cama depois da novela das oito. Nem mesmo as misturebas lendárias de Coca-Cola+café+banho gelado dão conta do meu sono patológico. Arrisco algumas pílulas, indicação do vigilante aqui da rua. Zero de efeito. Mentira: 25 minutos de ganho entre o dia antes da pílula e o dia depois da pílula. Míseros 25 minutos. Ao invés de 22:30, 22:55. Penso que uma dose cavalar me manteria acesso por 12 horas ininterruptas. Desisto: não sou inconseqüente, sei dos riscos que uma dosagem excessiva de psicotrópicos é capaz de ocasionar (vide Heath Ledger). Solução: 15 fitas VHS devidamente organizadas para futuras gravações – data, esporte e tudo mais. Não que eu seja um viciado em esportes, longe disso, mas são as Olimpíadas de Pequim e tal. Eu sei, eu sei, é uma bobagem. Ultimamente ando vivendo de bobagens.
O outro
10 agosto, 2008
Caso me perguntassem como vejo as relações humanas, diria, sem pestanejar, que são loucuras deliberadas e de alto teor inflamável. Não nos bastamos, e por isso o OUTRO. E então nos relacionamos, nos apaixonamos e nos casamos. Mas passado o período de encantamento, ilusão ou coisa que o valha, percebemos que o OUTRO não nos supre uma falta ancestral, maquiavélica. O OUTRO só nos interessa no limite de nossas idealizações. O OUTRO não existe enquanto pessoa. O OUTRO é uma criação de nossa própria e mesquinha incapacidade. O OUTRO, de certa forma, e de todas as formas, sou EU. E daí a impossibilidade das relações. De sua imperativa inconstância e fragilidade. Somos compostos de materiais perecíveis e autodestrutivos.
Filho de Macunaíma
9 agosto, 2008
Lendo e ouvindo e assistindo… Ouvindo, lendo, assistindo. Os dias de chuva finalmente chegaram. Poucas coisas são tão deliciosas quanto ler um livro, ouvir uma música e assistir um filme embalado pelo barulho da chuva insistente do lado de fora. A imagem ficaria perfeita se tivesse um gato roçando minha perna entre um relâmpago e outro. Mas, infelizmente, odeio felinos. E isso soaria muito clichê, tal como filme de escritor à beira da falência intelectual. Prefiro a imagem real: eu, encostado confortavelmente no sofá, com os pés apoiados no chase, os telefones, todos, desligados, e uma caneca de chá estupidamente quente. Dado os últimos boletins meteorológicos, a chuva, e esse frio suave, vieram para ficar. Ai, que preguiça!
Síndrome de Peter Pan
2 agosto, 2008
Sinto saudades. Saudades de coisas que não sei dizer ao certo. Do meu pai no portão assoviando na data do meu aniversário. Das brigas com meus irmãos. Das partidas de futebol na escola. Dos filmes que assistia na Sessão da tarde. Das histórias que criava com o auxílio de borrachas e canetas e cadernos. Da minha mãe me colocando para dormir e dizendo boa-noite de uma maneira doce como só as mães sabem dizer. Do meu avô, que escondia doce embaixo do travesseiro e sempre tinha uma fábula na ponta da língua. Da Izilda, que nos levava para a escola. Dos passeios em família. Do zoológico. Das tardes que pareciam nunca acabar. Das noites estreladas, que nunca duravam o quanto deveriam durar. Sinto saudades, sobretudo, do que eu era. Do que fui.
É uma merda ter de crescer.
Drugs and spirits
31 julho, 2008
Nunca tomei um porre. Nunca ingeri drogas de qualquer tipo. Não acredita? Minha esposa pode confirmar estas afirmações – ela, sim, uma addict confessa. Eu até gostaria de ser uma Winehouse versão masculina, mas não passo de um abstêmio com tendências ao alcoolismo. Explico: jamais aconselhei alguém a não beber ou fumar; aliás, sou um dos signatários em favor da descriminalização das drogas. Uma das razões para eu não fazer uso de alucinógenos ou bebidas alcoólicas, se deve, em grande parte, a um problema congênito: meu estômago. Nasci com um tipo de estômago que não admite drugs and spirits. Nada. Nem bombom de licor. Fanta uva é só um tipo de veneno para o meu combalido organismo. H2O, idem. Água tônica provoca náuseas. Cheiro de cerveja, diarréia. Cigarro, dor de cabeça. Suco de uva, indisposição. Vinho, alucinações. A lista é quase infinita. Ao fim e ao cabo, constato, tristemente, que o meu último suspiro se dará com uma taça de Coca-Cola e uma fatia de limão. Não podemos ter tudo.
Na contramão
24 julho, 2008
Em alguns pontos da cidade existem pistas exclusivas para motocicletas. Motocicletas, não bicicletas ou pedestres com talento para maratonistas. Nestas pistas, exclusivas para motocicletas, vale ressaltar, originou-se uma guerra velada entre carros, passantes e vendedores. Sim, agora, para piorar, há um comércio indiscriminado nesses corredores. E os motociclistas ficam onde? Ora, ficam atrapalhando as vendas, a corridinha do gordinho executivo e saudável, o passeio da mamãe com os seus pequenos rebentos, o casal de namorados que decide fazer uma parada romântica seguida de um rodopio antes da buzina. Entre o grito do vendedor de camundongos amestrados e a babá de silhueta invejável, uma moto. A vontade é de morrer na contramão e atrapalhar o tráfego.



