Maridos, por Pauline Kael
10 março, 2010
Estou lendo de maneira arbitrária o 1001 noites no cinema, da Pauline Kael. É um apanhado de críticas rasteiras, breves, dessa crítica norte-americana tomada por alguns (não poucos) como a crítica das críticas. Exageros à parte, a mulher é mesmo uma coisa. Em tom levemente informal ela vai desmistificando alguns mitos e criando outros. Mesmo quando torço o nariz pra um dos seus escritos (como o que vem a seguir) ela me faz sorrir baixinho, em tom de cumplicidade.
Maridos (Husbands, 1970) – Três atores (John Cassavetes, Peter Falk e Ben Gazzarra) fazendo três maridos de classe média num filme semi-improvisado dirigido por Cassavetes. Os atores têm ocasionais momentos intensos e comoventes, passando por emoções que despertam uns nos outros, mas Cassavetes é daqueles homens que se dedicam a despir as pessoas de seus fingimentos e desnudar suas almas. Inevitavelmente, os resultados são de agônica banalidade. Columbia. cor (Ver Deeper into movies.)
prefiro não fazê-lo.
9 março, 2010
Papai, sempre pessimista, costuma dizer que as pessoas (no geral mesmo) desistem. Eu ainda conservo dúvidas. Ou melhor: conservava. Dia desses, um professor de uma das escolas em que estou, decidiu desistir (não estou a usar metáforas). Desistiu ali, na nossa frente. 50 anos biológicos e 10 de magistério. 10 anos de magistério equivale a 56 anos humanos (de vida útil). Sim, os caninos (nós, professores, não somos lá muito diferentes). A sala de aula, as reuniões, as discussões inócuas, a lousa, o giz, o coordenador de área, o semanário, os diários, os latidos, o xixi a fim de demarcar território. Enfim. Mas falava do professor que desistiu.
Segure o choro aí, a história é triste; e curta; e verdadeira. Esse professor de matemática está em depressão, mas permanece ali. Os alunos o tomam por inapto. Não é verdade. Algumas vezes é impossível continuar. Ele, numa tentativa absurda mas humana, optou pelo silêncio. Não quer mais dividir nada, mas permanece ali. Entra e sai da sala em silêncio. Explicações na lousa, tão-somente. Conheço os indícios. Apatia, desinteresse, sensação de fracasso. Eu mesmo esqueci o som da sua voz. É motivo de chacota pelos alunos. Eles ainda não sabem como é difícil crescer e perceber que na verdade não há maneiras seguras de manter a felicidade ou algo parecido. Eles ainda não foram avisados o quão duro é procurar sentido num dia após o outro (fala aí DFW).
Ele desistiu. Assim, de um dia para o outro. Papai tem razão. As pessoas, infelizmente, desistem.
assiste aí, vai. (rest in peace)
8 março, 2010
mas permaneço de pé.
7 março, 2010
Confesso: adoro assistir um Oscar. Sei que é tudo fachada, jogo político, propaganda, engodo. Mas todo ano ano é igual: vou ao supermercado pela manhã, abasteço a despensa (Coca-Cola, batatinha, sorvete, bolacha etc.) e preparo a poltrona. Tento dormir um pouco, guardar energia (nunca consigo). Quem não precisa de sonhos regularmente que atire a primeira pedra (sim, aquilo é um sonho do tipo huge mesmo). Sou cafona, e por isso adoro ver os desfiles no tapete vermelho. As estrelas e os novatos, todos por ali, adentrando minha sala. Quem ganhará o título de mais bem vestida da festa? Quem cometerá a gafe mais esdrúxula? Alguém irá tropeçar? Os apresentadores conseguirão ser engraçados dessa vez? Woody Allen estará na platéia?
São por estas pequenas coisinhas que ainda assisto o Oscar. Não pelo filmes, obviamente (todos já conhecemos as cartas). Embora esteja cruzando os dedos pelo filme de Audiard. Enfim, enfim.
Nota desnecessária: no único Oscar que Woody esteve presente eu não sei o que estava fazendo da vida (provavelmente dormindo, que é uma das minhas especialidades). Por isso sempre revejo esse video aí (logo abaixo) e fico saltitante. Ao ver o vídeo, note os presentes (a maioria pensou que Whoopi estava de brincadeira). Ron Howard fica estático e depois bate palma de maneira entusiasmada, de pé. Todos de pé. E eu, do lado de cá, faço o mesmo. Minha esposa acha um absurdo, ri, diz aos amigos que temos em comum (poucos) que eu estou a delirar. Confesso novamente: estou a delirar. Mas permaneço de pé (e bato palmas).
Carver
6 março, 2010
Há inúmeras maneiras de descrever os personagens de Raymond Carver: fracassados, desiludidos, perdidos, resignados, estacionados, descrentes, alcoólatras, divorciados, etc. Muito já se falou desses personagens. Caipiras de shopping center, nas palavras do editor de Carver. Embora não me lembre de ninguém falar sobre Henry Kuhlken.
Henry é um personagem mais do que secundário. É daqueles tipos que abre e fecha portas, e diz até logo, e só. Faz parte de um conto que ninguém dá lá muita bola, mas que é tão bom quanto Uma coisinha boa, Diga às mulheres que a gente já vai ou Iniciantes.
Se vocês não se importam é o nome do conto. Um casal vai jogar bingo todas as sextas-feiras. O marido era alcoólatra e agora faz tricô. A esposa sangra. Isso é Carver, rapaz. Mas não quero falar do conto e sim de Kuhlken. Ele aparece dado momento e diz boa noite ao casal. Só isso? Sim, só isso. E então o narrador nos diz quem é Henry Kuhlken.
Kuhlken era um homem corpulento e grisalho, que tinha perdido um filho num acidente de barco, anos antes. Sua esposa o deixou por outro homem, pouco depois disso. Passou a beber muito, depois de um tempo, e mais tarde foi parar nos Alcoólicos Anônimos, onde James o conheceu e soube da sua história. Agora, era dono de um dos dois postos de gasolina da cidadezinha e às vezes fazia uns reparos de mecânica no carro deles.
É, já falaram um bocado acerca da temática e da literatura e dos personagens de Carver. Se tivesse que resumir pra alguém o que é ou sobre o que trata Carver, falaria de Kuhlken.
Pride and Prejudice
5 março, 2010
Pois é. Não falo de Jane Austen, infelizmente. Menos ainda de Joe Wright, responsável por levar Pride and Prejudice para o cinema. Falo da escola. Infelizmente. Não gosto de escrever sobre o que faço pra ganhar a vida. Deveria gostar de escrever sobre, e sei que renderia alguns posts engraçadinhos e/ou polêmicos, mas prefiro não fazê-lo (Bartebly again!). Não por receio, obviamente. Não faço porque não sinto prazer em escrever sobre alunos & educação. Simples assim. Talvez por estar imerso nisso, talvez por achar desinteressante, não sei mensurar ao certo. Sei que não, e pronto. Mas hoje é diferente.
Há um nono ano na escola. Nonos anos são os mais confrontadores e rebeldes de uma escola, sei bem disso. Vivem naquele período intermediário e nebuloso entre a pujança da adolescência e os primeiros uivos da pós-adolescência. Em outros termos: vivem o dilema das escolhas e descobertas e primeiras vezes pra tudo. É uma fase de experimentações, e eles estão abertos a revelações outras. Ao novo e ao que vier no pacote. É por isso mesmo que sempre os tomei por pequenos rebeldes franceses maio de 68 e não por caminhada dos carolas rumo ao Vaticano. Julguei apressadamente. Julguei mal.
Trabalhávamos argumentação. Levei alguns textos, apresentei-lhes bons “argumentadores”, bons argumentos. Lemos um bocado, e depois lancei alguns temas controversos. No geral, argumentavam com coerência e desenvoltura e vocabulário invejável (pensei em Obama quando um deles pediu uma tréplica). Fora alguns ânimos exaltados, tudo corria bem. E então veio a surpresa. A pauta, agora, era o homossexualismo. Primeiro, esgares faciais. Em seguida, risos. E mais risos. Um deles pede a palavra:
- Não gosto de gay, professor.
Ponderei alguns poucos segundos, e pedi razões coerentes do motivo que o levava a não gostar de homossexuais. Ele não sabia muito bem o porquê não gostava, embora soubesse que não deveria gostar. Para ele, e para alguns poucos, bastava. Não para mim. Não para outros ali. Pedi um argumento, e não generalizações. Daí em diante o que ouvi foram platitudes e mais platitudes (poupo-lhes dos detalhes). A sala tomada por frases de efeito e lugares-comuns. Pensei em levantar argumentos, ilustrar com alguns casos, sugerir idéias e material para refletirem, mas não o fiz (ao menos por ora). Preferi atiçá-los. Queria saber até onde seriam capazes de ir. Pelas discussões, notei que alguns manteriam-se atrás de outros, e o que me interessava, àquela altura, eram esses outros. Era com eles que promoveria o que entendo por aula (uma aula digna envolve confronto, entre outras coisas). Enfim. Aticei-os o quanto pude. Até que veio a surpresa.
Quando questionados acerca do que fariam se colocados numa sala diminuta com um homossexual qualquer, munidos com taco de beisebol, sendo que a vítima não dispunha de nada a não ser seu corpo e voz, foram taxativos: Bateremos nele, professor, sem dúvida!. Internamente, perguntava-me Como assim? Como assim?
Repetiram: É isso mesmo, professor, eu metia o taco na fuça dele. Não sou de ficar surpreso, juro. Mas aqueles garotos não poderiam estar falando sério tudo aquilo, não poderiam (eu acreditava realmente que os conhecia bem). Mas estavam. E era pra valer, se é que vocês me entendem. Não havia ali, necessariamente, o conceito de bando a sustentar a defesa de um. Falavam por si e pra si. Era como uma sessão de terapia em grupo. Os demônios todos ali, sobrevoando nossas cabeças. Hannah Arendt, a um canto, encarava-me com olhar plácido, como se dissesse que não havia surpresa alguma naqueles comentários, apenas a comprovação de que o ser humano era como um animal qualquer, com a diferença de que fora instrumentalizado para a destruição.
- Eu matava, professor, na boa.
A frase veio de um garotinho miúdo, lá no fundo da sala, espremido entre duas garotas que mal pronunciam seus nomes. Como?, perguntei mais para que ele voltasse a repetir, já que o ouvira muito bem.
- Eu porrava ele até matar, sem chance.
Ductilissimo+DFW= presta atenção aí, vai.
4 março, 2010
Por que é tão dificil escrever bem? Assim, muito bem mesmo. Ao ponto de ser reconhecido enquanto um escritor de primeira.
Desisti de tentar escrever uma resposta para esta pergunta. De todo modo, lê isso daqui:
I know that you know as well as I do how fast thoughts and associations can fly through your head.You can be in the middle of a creative meeting at your job or something, and enough material can rush through your head just in the little silences when people are looking over their notes and waiting for the next presentation that it would take exponentially longer than the whole meeting just to try to put a few seconds’ silence’s flood of thoughts into words. This is another paradox, that many of the most important impressions and thoughts in a person’s life are ones that flash through your head so fast that *fast* isn’t even the right word, they seem totally different from or outside of the regular sequential clock time we all live by, and they have so little relation to the sort of linear, one-word-after-anotherword English we all communicate with each other with that it could easily take a whole lifetime just to spell out the contents of one splitsecond’s flash of thoughts and connections, etc. — and yet we all seem to go around trying to use English (or whatever language our native country happens to use, it goes without saying) to try to convey to other people what we’re thinking and to find out what they’re thinking, when in fact deep down everybody knows it’s a charade and they’re just going through the motions.What goes on inside is just too fast and huge and all interconnected for words to do more than barely sketch the outlines of at most one tiny little part of it at any given instant. [...] Words and chronological time create all these total misunderstandings of what’s really going on at the most basic level. And yet at the same time English is all we have to try to understand it and try to form anything larger or more meaningful and true with anybody else, which is yet another paradox. [...] And of course all this time you’ve probably been noticing what seems like the really central, overarching paradox, which is that this whole thing where I’m saying words can’t really do it and time doesn’t really go in a straight line is something that you’re hearing as words that you have to start listening to the first word and then each successive word after that in chronological time to understand, so if I’m saying that words and sequential time have nothing to do with it you’re wondering why we’re sitting here in this car using words and taking up your increasingly precious time, meaning aren’t I sort of logically contradicting myself right at the start. [...] That’s OK, it doesn’t really matter what you think. I mean it probably matters to you, or you think it does — that isn’t what I meant by *doesn’t matter*.
What I mean is that it doesn’t really matter what you think about me, because despite appearances this isn’t even really about me. [...] . . . and yet of course look how much time and English it’s seeming to take even to say it. It’s interesting if you really think about it, how clumsy and laborious it seems to be to convey even the smallest thing. How much time would you even say has passed, so far?
(WALLACE, David Foster. “Good Old Neon”. in: Oblivion. New York: Little, Brown and Company, 2004, p. 150-153)











