In On It

3 fevereiro, 2010 · Imprimir

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★★★★★  In On It

Não confie em atores. Não seja ingênuo a tal ponto. Eles estão ali para serem amados. Sei do que falo. Fui ator durante um mês, dois dias, três horas e alguns minutos. Antes e depois de qualquer ensaio ou apresentação, perguntava aos amigos e inimigos (principalmente aos inimigos):

Estou bem, não?

E aí, funciona?

Estou esplêndido? Paulo Autran sentiria inveja?

Fico bonito no palco, uh (sorrisinho cínico e sedutor)?

Deveria ser menos expressivo? Anrã.

Em outras palavras: elogios. Atores são egoístas. Críticas? Nem pensar. Dicas? Não ouse. Comparações? Sim, sim, desde que entre os nomes surja Pacino, Brando ou Isabelle Huppert.

Lembro Day-Lewis, sério? Taí, eu pensei em Day- Lewis mesmo enquanto compunha (semblante de grande ator, sobrancelhas arqueadas) a personagem.

Grandes serezinhos assustadiços, correndo de um lado para o outro, tentando agradar um diretor pernóstico, um colega de palco afetado e um público geralmente acéfalo.

Pobres atores. Repito: pobres atores. Ególatras? Pois é. Vaidosos? Evidentemente. Individualistas? Pois sim. Embora existam exceções. E quero falar delas.

Há atores nus e todo o resto. Quando digo nu digo nu metaforicamente, que fique claro. Todos os atores anseiam por palmas. Os nus a querem sobretudo como encontro, comunhão, diálogo (essas coisas um tanto cafona mas que fazem o ofício valer a pena). Os outros, pernilongos ruidosos, querem apenas a sensação imediata e idiotizada de se sentirem palco e centro de um jogo que possivelmente  (decididamente) nunca entenderão.

In On It é uma peça de para e com atores. Explico. O título é dúbio (estar por dentro; estar dentro; o que eu traduziria por dentro e fora, fora e dentro, estar e não estar, ser e não ser). O texto engenhoso (há um sem-número de pequenas histórias sobre quase nada; um nada que é tudo e mais alguma coisa, sabe?; perdoe a tosquice do joguinho de palavras). Ambicioso. Calculado. Mas nunca frio. Pelo contrário: Daniel Macivor (autor) vai do drama (lírico) à comédia (refinada) com naturalidade e ritmo precisos. Há os respiros cômicos e as punhaladas de canivete na zona da barriga. Autores assim merecem nossa atenção. Não por lidar satisfatoriamente com a metalinguagem e dominar a sintaxe dramatúrgica e cênica como poucos, mas por ir fundo nas coisas. Ir fundo nas coisas não é coisa simples. Daniel faz parecer simples. Tal como Jon Fosse e Arne Lygre. A linguagem a serviço da encenação e nunca o contrário (o tipo de autor que não quer parecer inteligente ou sofisticado, embora seja). Mas falava dos atores.

Fernando Eiras e Emílio de Mello a criar 10 personagens. Duas cadeiras a esboçar um espaço. Um casaco a criar identidades. Tão pouco, diria eu, apressadamente. Tanto, digo eu, calmamente, ainda folheando o programa da peça e tentando entender racionalmente e tecnicamente (não ria) o porquê a montagem havia me tocado sobremaneira. Nada de explanações teóricas e conceitos e técnicas de desconstrução ou viewpoints. Nada. A técnica está ali, sem dúvida, e Enrique Diaz também, mas de certo escamoteados, que é onde os encenadores (e as técnicas) deveriam sempre estar. Não os atores. Não Eiras e Mello.

Tergiverso: uma vez papai, fumando seu indefectível charuto enquanto via um filme noir qualquer da década de 50, disse-me que um ator deveria saber fumar. Exatamente: um ator deve saber fumar.

- Por qual razão, papai?

- Porque um ator pode enganá-lo de diferentes maneiras, mas nunca enquanto fuma.

Bingo. No teatro ou não, observo fumantes. As pessoas mentem. Os atores mentem. O vício não. É fácil perceber um não-fumante tentando se passar por fumante. Da mesma maneira que notamos quando um ator forja um sentimento, uma dor, uma alegria. Todos forjam em certa medida, não se iluda, rapaz. Mas nem todos sabem o valor do vício. Como notar um ator que sabe o valor do vício? Observe Gena Rowlands, Harvey Keitel em Bad Lieutenant, Cassavetes em Husbands, Geraldine Page, Elizabeth Taylor em Who’s Afraid of Virginia Woolf?, Sean Penn em She´s so Lovely, Robert Mitchum, Dafoe em New Rose Hotel, e tantos outros. O vício, se tivesse outro nome, seria cada um deles. Eles fazem a coisa parecer como na vida real, como dizem por aí. É como se realmente estivessem a morrer diariamente (a cada apresentação, cena, instante). É a já batida questão da histeria. Não há como forjar isso sem ser um pouco isso. Dentro e fora. In On It.

Repito: é uma peça de para e com atores. Reitero: há atores nus e todo o resto. Ressalto: observe Fernando Eiras e Emílio de Mello. Não é todo dia que trombamos com atores assim, viciados.

Comentários

2 comentários em “In On It”

  1. roberta em 02/03/10 - 4:44 pm

    Adorei!
    Posso postar no blog da peça?
    Sou a produtora aqui em São Paulo.
    Vi que vc escreveu sobre a minha outra produção, Corte Seco.
    Venha ver A Mulher que matou os peixes… e outros bichos no Sesc Av. Paulista – sáb e dom as 16h.

    abs,
    Roberta Koyama
    produtora executiva
    11 82593094

  2. Lucas Mayor em 02/03/10 - 6:26 pm

    Oi. Pode sim, Roberta. Vou rever Corte Seco, aí escrevo algo. Eu ia levar minha filha pra ver A Mulher… , mas ainda não tomei coragem.

    Abraços.

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