e no mais eu prefiro sempre a minha cama.

28 fevereiro, 2010

Eu não saio mais à noite (quando digo à noite digo à noite mesmo, tipo depois das 23h). Era uma resolução e tudo, mais por necessidade (fico irascível no dia seguinte) do que por aversão aos já conhecidos gritinhos adolescentes e os caras de carro com step sobressalente em relevo na traseira e música para deficientes auditivos e que mexem com as garotas que mascam chiclete em frente às UNIVERSIDADES e fazem cara de que entendem assuntos como crítica genética e estruturalismo. Abri exceção madrugada última e fui jogar sinuca (lugares fechados são mais seguros, é bom que se diga). Teoricamente, sabia tudo. Vi filmes acerca de. Sobretudo revi as jogadas de A Cor do Dinheiro antes e me vesti tal como Tom Cruise. Levei a Jaq (a saber, minha esposa) pra seduzir os caras, distraí-los, numa versão mais delicada e altiva de Mary Elisabeth Mastrantonio (o único problema é que esqueci de avisá-la).

Observei os caras das mesas adjacentes (todos seguravam os tacos de maneira fleumática e não usavam giz ou se pareciam com Paul Newman, o que achei estranho). Desisti do jogo. Não do lugar.

Antes de voltar pra casa ainda lembro de comentar com os amigos que é fácil perceber quando você não leva jeito pra certas coisas (ainda que insista em outras que no fundo no fundo sei que também não levo jeito algum). Definitivamente não fui feito para a sinuca. E seguramente não fui feito pra noite.

simple escape.

27 fevereiro, 2010

(Via)

Educação

26 fevereiro, 2010

★★★☆☆  Educação

Educação tem roteiro de Hornby, o que quer dizer muito para alguns. Não pra mim. Mas é preciso colocar as coisa no lugar: é um filme de diálogos fluentes e cadência agradável, e isso também não costuma agradar aos críticos mais sisudos e que tomam café antes das exibições. Daí que a obra vem levando, injustamente, pedradas a torto e direito dos exegetas de plantão e de alguns engraçadinhos que tomam Hornby por um tapado que gosta de listas. Hornby é um escritor talentoso, quer gostemos ou não das coisas que escreve. Lone Scherfig dispensa apresentações. O que não esperava é essa tal de Carey Mulligan brincando assim com as palavras e inflexões. É de uma delicadeza e precisão a interpretação da garota que eu fiquei realmente impressionado. Mais: esqueça as resenhas que leu e curta uma história bacana acerca de uma garota que precisa crescer.

Não riam de mim #11

25 fevereiro, 2010

Oi. Antes de continuarmos, veja o trailer:

Viu? Mesmo? Olha lá, hein. Acontece o seguinte: há aqueles filmes que guardamos em lugares especiais não porque sejam grandes filmes ou tenham grandes atores ou façam parte da lista dos cem mais da história do cinema, mas sim porque são pequenos mesmo. Pequenos de uma maneira que nos reconforta e ao qual sempre voltamos quando estamos meio assim, pra baixo. É como rever um bom amigo que nos entende. Que fala certas coisas que queremos ou devemos ouvir. E logicamente há o fator nostalgia na coisa toda. Porque pequenos filmes também nos remetem a pequenas coisas que percebemos ser as maiores coisas na verdade.

A Lula e a Baleia é um desses filmes. Volto a ele frequentemente. Há algo nesse pequeno filme que sempre me toca, me faz pensar na infância, nos meus irmãos, e sobretudo nos meus pais. A cena abaixo, mesmo estando eu com o humor lá em cima, emociona-me deveras. É linda mesmo, sabe.  

Se algo te fez lembrar a cena final de Manhattan, não fique surpreso. Noah Baumbach é um fã cativo de Woody Allen.

constantemente acho o mundo um lugar surpreendente. não por conta das coisas misteriosas, mas por causa das coisas comuns.

24 fevereiro, 2010

Espero sempre ser surpreendido por algo ou alguém (e por mim mesmo), e isso geralmente nunca ocorre. Digo: o mundo é mais plano e bobo mesmo do que nossos anseios. Daí que ando sacando as coisas por um outro ângulo de visão. Nada de mistérios. Nada de metafísica. Nada de física quântica. É tudo muito mais simples. Arroz, bife e batata frita. Minha filha tem razão quando diz que há monstros demais lá fora, e que ela tem medo. Eu também tenho medo. Não dos monstros lá fora ou dos mistérios insondáveis. Tenho cada vez mais medo das coisas comuns.

Corte Seco #1

16 fevereiro, 2010

Há coisas que penso e quero dizer acerca de Corte Seco, mas ainda preciso ver mais vezes, deixar a coisa maturar pra valer, sabe. Não quero falar idiotices aqui e depois ver que eu é que estava sendo inconsequente. Christiane Jatahy merece um olhar mais cuidadoso. Cuidadoso, sim, não generoso.

Faço um recorte aqui da longa conversa-entrevista (de leitura obrigatória para quem se interessa um tantinho assim por teatro e áreas afins) que Jatahy e Cristina Amadeo (atriz, assistente de direção etc.) cederam à revista Questão de Crítica (há outros trechos mais interessantes e/ou reveladores a respeito da montagem, sem dúvida, mas separei esse por acreditar que essa fala resume não só o espírito de Corte Seco mas o quão importante é ter uma artista da envergadura de Jatahy por estas bandas):

CHRISTIANNE JATAHY – E essa questão do tempo está muito presente no trabalho. Tanto na construção como no resultado, até o ponto – e aqui vou fazer um paralelo – que na A falta, no filme principalmente, a gente chegou a filmar três horas contínuas com esse objetivo: O que é que se cria quando você não pode parar? No que é que resulta quando você não sabe onde vai ser o fim? Eu lembro que eu vi uma vez numa matéria, acho que era até sobre o Glauber, eu também já ouvi o John Casavettes falando isso. Eles falavam: “Ele tá com a câmera lá, eu não tinha mais o que fazer e a câmera continuava.” Acho que tem um pouco disso no Corte Seco: não tem mais o que fazer e o olhar do espectador continua lá.

Ah, leia a entrevista todinha (e assista ao espetáculo), caso contrário, fora do contexto, sem você ter visto a peça, esse fragmento pode soar como firulinha retórica de artistinha metido a besta.

Não seja inconsequente.

eis uma breve sinopse da literatura brasileira contemporânea:

11 fevereiro, 2010

Quando não estou por perto, Annita Costa Malufe

Versos sofisticados e inteligentes, construindo uma poética cerebrina e sensível.

(Cerebrina. Legal.)

Perfume do Pau Rosa, Luiz Gonzaga Lauschner

Romance que traça o percurso do pau rosa, da Floresta Amazônica às perfumarias.

(Já me interessei.)

O Homem dos patos, Diana de Hollanda Cavalcanti

Proposta que envolve múltiplas linguagens. A jovem autora se destaca em diversas formas de arte.

(Alguém pode explicar isso pra mim?)

Um útero é do tamanho de um punho, Angélica Aires de Freitas

Poesia ousada com trabalho de texto promissor e original.

(Nem mesmo um aluno de 5º série escreveria sinopse tão primária;  Angélica deve estar gargalhando até agora do resumo que fizeram do seu livro.)

Opisanie swiata, Veronica Antonine Stigger

Novela de linguagem instigante e envolvente que coloca o leitor na mesma posição do estrangeiro tematizado no livro.

(Posso roncar agora? Stigger é maior do que isso.)

Garotos malditos, Santiago Nazarian

Romance juvenil provocativo e original. Prende o interesse do leitor com sua escrita inteligente.

(É o autor de sempre no “romance” de sempre. Taí um “escritor” que é menor que o resumo de sua obra.)

Esses, e outros livros, foram contemplados pelo Programa Petrobrás Cultural 2008/2009. Não sei quanto cada escritor vai morder dos R$ 918 mil alocados para literatura, mas não é pouco. Receber para escrever deve ser uma delícia, embora alguns deveriam pagar para que os lêssemos.

que luz no fim do túnel que nada.

10 fevereiro, 2010

Eu estava almejando me transformar num cara mais profissional. Queria voltar a ter aquele amor que tinha pelo meu trabalho. Nos últimos três anos, quando dava oito da noite, ia pro bar beber e ficava até dez da manhã. Acordava às três da tarde, tentava escrever, mas minha cabeça estava ruim. Sempre escrevi sóbrio. Já cheguei a escrever sete peças num ano. E nesses três últimos anos fiz só Uma pilha de pratos na cozinha, que foi encomendada. Ficou bacana porque sei fazer isso. Como todos os últimos trabalhos, foram na base do talento puro. Faço isso há 30 anos. Mas estava sem alma, era sempre mais um trabalho que eu tinha que acabar logo pra ir beber. Eu estava preguiçoso. É muito mais fácil encher a cara do que escrever. Estava um bunda-mole, achando bonito ser um bêbado querido. Todo mundo vinha: “O Mário é um grande autor, Mário é o cara”. O Mário não era o cara. Estavam falando de um cara que já existiu, agora eu era esse chato que bebe até de manhã. Eu não estava me admirando mais.

O Profeta

9 fevereiro, 2010

★★★★★  O Profeta

Primeiro: é daqueles tipos de filmes que você sente vontade de mostrar para os amigos (só os mais próximos) e depois passar a noite falando sobre e cruzando experiências acerca de possíveis influências e coisa e tal. Segundo: valeria a pena eu perder um bocado de tempo escrevendo a respeito de aspectos técnicos e virtuosismos que o filme evidentemente apresenta, mas isso diria muito pouco (quase nada) desse que é, até agora, 9 de fevereiro de 2010, noite de terça-feira abafada, o maior filme do ano na opinião do sujeitinho aqui. Adianto que não é empolgação juvenil nem falta de critério não, afinal vi todos os filmes concorrentes ao Oscar (o que não quer dizer nada), entre outros (o que quer dizer muito),  e nenhum deles, asseguro-lhes, nenhum deles lambe os calcanhares dessa saga cão come cão; nem mesmo Guerra ao Terror, ou Bastardos Inglórios, ou Um Homem Sério. Sei que exagero. Sei que adjetivo demais, e isso não é bem visto por quem se pretende a fazer críticas imparciais e espertinhas. Mas: não sou crítico, não sou imparcial, e quero mesmo é continuar a falar sobretudo das coisas que me tocam (nada de toque retal, certamente). Do contrário largaria o leme e encaminharia-me à prancha.

Enfim.

Alexandre Desplat compõe a trilha. Mais uma vez: Desplat é responsável pela trilha. Faz cara de surpresa e  felicidade e batuque algo próximo a você (falo sério). Algo te faz pensar na trilha de Inimigos Públicos, imagino. Esquece Elliot Goldenthal. Esquece aquela belezura que é Ten Million Slaves na bocarra do Otis. Imagine Desplat a compor uma trilha que cresce com o personagem. De garotinho imberbe e babão a homem que bate no peito e diz eu quis e eu fiz. Arrisco num cavalo: Desplat estava a rever GoodFellas e o cinema americano todinho e também o cinema italiano e os portentosos filmes de máfia da década de 70 e 80 enquanto compunha o corpo da trilha.

Jacques Audiard fez o mesmo (sobretudo no quesito american way of life), com a vantagem de ser um amante antigo do cinema italiano (ele afirma isso em quatro de cinco entrevistas concedidas). Não vou dizer que vejo Rocco e Seus Irmãos (o maior filme italiano de todos os tempos) em O Profeta, mas negar que há similaridades consangüíneas aqui seria de certo uma burrice. Devo dar um resumo didático agora, assim fica fácil pra você:

Malik é jovem de seus vinte e tantos anos, e vai preso. Medroso, imberbe (não sei por que insisto nisso) e chorão. Como todos os jovens de vinte e tantos anos presos, não sabe como sobreviver na cadeia (você saberia? Não responda). Terá de ser mulherzinha, como na maioria dos filmes passados em prisões? Nada disso. Malik tem de matar. É simples assim: matar pra sobreviver. E é isso que fará até o fim. Não só matar, obviamente, mas sobreviver. Adaptar-se ao meio e fazer o meio jogar a seu favor. Um tipo de bildungsroman na telona. Cresce e aprende na adversidade, tal como nós. Mata e sobrevive na adversidade, diferentemente de nós.

Sei que é infantilidade minha falar ainda mais das influências e dos decalques impressos em O Profeta, mas não dividir esse sorrisinho maroto que agora contamina toda minha face, como se tivesse descoberto o esconderijo de Deus, me deixaria pouco à vontade, sozinho com minhas epifanias (compartilhar epifanias é um desvio de meu caráter, sinto muito). Divido, então: James Gray. Pois sim. Ver O Profeta é como assistir Gray adentrar o sistema penitenciário. É o The Yards francês. É O Caminho Sem Volta europeu. Digo mais: Gray assistirá ao filme e o colocará na lista não só dos melhores filmes dessa década, mas na sua listinha pessoal de filmes indispensáveis (da vida, sim).

Acabo de retirar do baú minha agendinha. 243 filmes para serem vistos antes da chamada oficial divina (não mostro a lista nem pra minha esposa, então por favor, não insista). 244 agora (pois é,  pois é,  O Profeta é o 244).

Audiard fez um filme definitivo (e não me venha dizer que todos os filmes são definitivos). Não sobre o sistema penitenciário ou questões de fundo social/étnico/político, nada disso. Fez um filme definitivo acerca da imponderabilidade de ter não ter escolhas e por isso mesmo ter de “escolher” (paradoxo algum). E Malik, de maneira irrevogável, escolhe. E daí reinventa-se (tudo o que desejamos inconscientemente/conscientemente fazermos sempre quando acordamos ou chegamos ao trabalho ou nos vemos prostrados num sofá de dois lugares e posicionado estrategicamente na frente de um televisor qualquer e diante de uma vida que, bem, você aí sabe que tipo de vida é essa). Poderia tecer variadas considerações sobre mensagens, argh, outras que O Profeta tem/teria, mas isso, como disse acima, diria muito pouco (quase nada) da experiência que é ver esse novo filme de Jacques Audiard.  

natural, humano.

7 fevereiro, 2010

Há uma tendência natural de criticarmos no outro o que geralmente não possuímos ou, pior ainda, de criticarmos exatamente os mesmos possíveis “defeitos” que nós mesmos apresentamos. Natural, humano. Eu faço isso e você aí também faz. Daí que eu só queria levantar a bola aqui e dizer o seguinte: imaginemos que você esteja calmamente andando pela rua, um assovio aqui, outro ali, e então você se senta num banco de praça e começa a observar o entorno, dá comida aos pombos, sorri para um garotinho irritante que masca chiclete mostrando o céu da boca, e de repente acontece: um cara de aparência normal acaba de chupar um picolé de uva, olha em volta, percebe que ninguém o nota, e então lança o palito ao lado de um canteiro de flores algo amarelas, e você, internamente, num acesso colérico indescritível mas discreto, vocifera pra si mesmo miserável, miserável, tanto cesto de lixo por aí e esse crápula faz isso. Natural, humano. Todavia, você se levanta, retira do bolso uma pastilha de hortelã e, atento mais uma vez ao entorno, deposita o dejeto (é como você gosta de se referir a esse papelote) em via pública. Tal como o cara de aparência normal que você acabara de criticar.

Esse pequeno conto imbecil de moralidade (civilidade, cidadania, bons costumes) aparente foi para nos lembrar que o BBB 10 é dos programas televisivos mais interessantes da tevê brasileira, quer gostemos ou não.

Explico.

Uilliam (sic), na academia, comentando a última formação do paredão, diz que Cadu é um burro, só tem músculos, cérebro falta. Natural, humano. Infelizmente, uma imagem (lugar-comum horrendo) vale mais do que mil palavras. Pois é. Uilliam (mães do Brasil, tenham dó das nossas crianças; nomes nos acompanham por toda a vida), enquanto adjetivava Cadu, fazia exercícios para manter o corpanzil nada magricela em forma (não estamos a falar de saúde nesse caso, mas de questões estéticas mesmo; Uilliam malha não pra manter a saúde ou em razão de sua profissão, e está claro que o objetivo são músculos, tal como Cadu). E não me recordo, em momento algum, de verificar qualquer indício de cérebro ou mesmo apartes espirituosos oriundos de Uilliam (sic). Estamos, portanto, a falar de gêmeos siameses, com a diferença de que esse último acredita possuir algo que falta ao outro.

Só rindo mesmo.

Posto o vídeo abaixo para que você (re)veja (adiante e veja do 1:55 aos 2:02).

Próxima página »