Jarmusch a criar um anti-thriller e um assassino leitor de Camus-Sartre e saído à revelia de um Antonioni the passenger.

29 dezembro, 2009

★★★★☆  Os Limites do Controle

É tudo que Hotel Atlântico não é. Deambular, deambular, deambular.

de como (e com quem) passei o dia de Natal.

26 dezembro, 2009

Abracei e fui abraçado. Não por parentes & familiares, nada disso. Falo, novamente, de Cassavetes. Revi três de seus filmes (Uma Mulher Sob Influência, Noite de Estréia e Maridos, respectivamente; há uma razão muito clara para eu ter  feito a revisão nessa ordem, obviamente, mas não explico hoje). Das 14 às 21 eu passei ao lado, ao chão e aos pés de Cassavetes. Conversamos, rimos um bocado e, como de costume, choramos. Eu mais do que ele, claro.

Quantos de vocês tiveram um Natal tão verdadeiro e prodigioso quanto o meu?

Poucos.

É uma pergunta retórica, evidentemente, mas responda caso sinta-se um tanto quanto aviltado ou diminuído, coisas desse tipo. (As pessoas, pobres pessoas, não aceitam quando dizemos a elas que a tradição é só tradição e não precisa ser seguida se você não vê algo de real ou significativo nela; pobres pessoas)

Separei essa fala (assista ao vídeo abaixo; todo ele; ao menos do 29s aos 42s, tá?) do Cassavetes pra que você entenda o porquê optei por dividir os restos do pernil com esse sujeito e não com uma tia qualquer e distante.

é por essas e outras que digo: saiba escolher a companheira certa e terá Bellow como desjejum no Natal

25 dezembro, 2009

Sou americano, nascido em Chicago – Chicago, aquela cidade sombria -, e faço coisas do jeito que aprendi sozinho a fazer, estilo livre. Então, vou fazer o registro ao meu modo: a primeira ideia que bater será também a primeira a entrar; às vezes uma batida inocente, outras nem tanto. Mas o caráter de um homem é seu destino, como diz Heráclito, e no fundo não há como disfarçar a natureza das batidas, nem fazendo um tratamento acústico na porta nem cobrindo o nó dos dedos com luva.
Todo mundo sabe que não existe precisão nem apuro na supressão; se você corta uma coisa, acaba amputando o que está ao lado.

Sad Christmas

24 dezembro, 2009

Eu até pensei em escrever alguma coisa sobre o Natal, mas daí lembrei que são 16:16 e eu ainda não achei a minha agendinha, e é lá que estão os nomes das pessoas que eu costumo ligar no dia 24. E afinal as pessoas esperam ligações minhas no dia 24. Minto. Sim, minto. As pessoas não esperam ligações minhas no dia 24, e nem eu costumo ligar pra quem quer que seja no dia 24, mas é importante dizermos que realmente há pessoas que esperam ligações nossas. O Natal serve para aproximar as pessoas. Minto novamente.

Sei lá.

Reli uns contos natalinos, todos altamente recomendáveis, e cheguei a separar trechos desses mesmos contos pra despejá-los aqui hoje, mas eu fui perdendo a vontade, sabe? Não, não sabe. Então, eu perdi. Desculpa aí.

Eu vou ali procurar a minha agendinha porque eu preciso fazer ligações e afinal as pessoas estão esperando ligações minhas, sabe como é, né? (depois de dizer isso eu soltei um risinho sem graça e amarelo mesmo).

Aí, abaixo, tem um presente de Natal adiantado (um texto curto & breve & engraçado & triste do Bortolotto; o texto está na íntegra e eu não creio que o Bortolotto vá lá se importar por eu ter decalcado o texto todo aqui; é isso aí).

SAD CHRISTMAS

Texto de Mário Bortolotto

Personagens : Marcos e Emerson

(Marcos está sozinho em casa. Barulho de campainha. Ele atende. Aparece Emerson na porta segurando um pacote de supermercado)

EMERSON : Sua mulher tá aí?

MARCOS : Não. Foi passar o natal com a família.

EMERSON : Sinto muito.

MARCOS : A gente não precisa escrever uma novela por causa disso. Você nem gosta dela.

EMERSON : É.

MARCOS : Muitos amigos meus não gostam. Outros gostam até demais.

EMERSON : Eu sou seu amigo?

MARCOS : O que você tem aí?

EMERSON : Ah, é cerveja.

MARCOS : Hum.

EMERSON : Quer uma?

(Marcos pega uma latinha. Abre e dá um gole)

MARCOS : Tá quente. Coloca o resto na geladeira. (Emerson vai até a cozinha. Pausa. Marcos senta-se em uma poltrona. Emerson volta segurando uma latinha de cerveja) Você já tá meio alto.

EMERSON : É. Eu andei bebendo.

MARCOS : Hum.

EMERSON : (senta-se em outra poltrona) Faz uma semana que eu tô bebendo. Sabe como é.

MARCOS : Hum.

EMERSON : É. Com pequenos intervalos sóbrios. (pausa) Muito pequenos. Escuta, não tem perigo dela voltar de repente?

MARCOS : Não. Ela gosta da família dela.

EMERSON : Sabe, Marcos, eu estive pensando.

MARCOS : Na irmã do Jarbas?

EMERSON : Como é que você sabe?

MARCOS : Acho que todos os caras da Bela Vista pensam na irmã do Jarbas.

EMERSON : Pobre Jarbas. (pausa) Mas eu não sou da Bela Vista.

MARCOS : Os pensamentos maliciosos a respeito da irmã do Jarbas não conhecem fronteiras.

EMERSON : Ela é um negócio, não é?

MARCOS : Você pôs a cerveja no congelador?

EMERSON : Na gaveta.

MARCOS : Vai demorar uma semana pra gelar.

EMERSON : Eu vou passar pro congelador.

MARCOS : Faz isso. Como é que você conseguiu dinheiro pra cerveja?

EMERSON : Ah, é uma longa história.

MARCOS : Eu não pretendo ir a lugar algum nas próximas 48 horas. Tente ser sucinto. Se não, eu agüento.

EMERSON : Você sabe, aquela garota com quem eu tava morando em Campinas.

MARCOS : Sei. O que é que tem ela?

EMERSON : Ela me pagou pra ir embora da casa dela.

MARCOS : É mesmo, é?

EMERSON : É. Ela falou: Não agüento mais você. Não agüento mais a sua cara. Não agüento mais seu mau humor. Não agüento mais ver você destratando minhas amigas. Quero que você saia da minha casa. Eu então falei: Eu não vou não. Não tenho pra onde ir. Ela então disse: Quero que você se dane. Eu vou sair. Quando eu voltar, não quero encontrar você aqui.

MARCOS : Será que a cerveja tá melhor?

EMERSON : Você quer dizer, mais gelada?

MARCOS : Menos incandescente. (Marcos levanta-se e vai até à cozinha)

EMERSON : (andando atrás dele. Para na porta da cozinha. Não é possível ver Marcos em cena. Só ouve-se a voz dele) Quando ela voltou eu tava lá.

MARCOS : Foi o que eu imaginei.

EMERSON : Tava lá, sentado no sofá, assistindo Nathional Geographic. Cara, eu adorava aquela tv a cabo.

MARCOS : (entrando na sala segurando uma latinha de cerveja. Entrega outra lata à Emerson) E o que foi que ela fez?

EMERSON : Ela disse: Eu não falei que era pra você ir embora? Eu disse: Eu não vou. Não vou. Não tenho pra onde ir. Ela disse que ia chamar a polícia.

MARCOS : (voltando a sentar-se na poltrona) Hum.

EMERSON : Eu falei: Chama. Pelo menos lá eu tenho lugar pra comer, pra dormir. Ela percebendo que não ia conseguir nada, resolveu apelar.

MARCOS : Foi aí que ela te deu uma grana?

EMERSON : É. Ela falou: Se eu te der uma grana, você vai embora? Eu disse: Aí pode ser. Eu ainda banquei o difícil, mas deixei claro que estava aberto a negociações.

MARCOS : Sei como é.

EMERSON : Ela então pegou o talão de cheques da sua bolsa. Quando vi aquilo, fui categórico e conclusivo: Cheque eu não aceito.

MARCOS : Você disse isso? Cheque eu não aceito?

EMERSON : É isso aí. Cheque eu não aceito.

MARCOS : E ela?

EMERSON : Saiu pra trocar o cheque. Você tem que considerar que estamos falando de um fato que aconteceu no período noturno quando os bem aventurados e prósperos negociantes já estão repousando em seus sagrados lares.

MARCOS : Claro.

EMERSON : Ela saiu pra trocar o cheque.

MARCOS : Ela não tinha cartão? Não podia passar num banco 24 horas?

EMERSON : Não existem mais bancos 24 horas. Você sabe disso.

MARCOS : Eu não sei. Eu não tenho conta em banco.

EMERSON : Não existem mais bancos 24 horas. Os caras se borram com medo dos assaltos. Era uma boa idéia essa dos bancos 24 horas. Mas eles não existem mais. O mercado informal do latrocínio acabou com mais essa livre iniciativa do sistema bancário.

MARCOS : E aí ela trocou o cheque, te deu o dinheiro e você foi embora?

EMERSON : Foi mais ou menos assim. Antes eu acabei de ver o programa do Nathional Geographic. Tinha que saber o que ia acontecer com o elefantinho que havia se perdido da manada.

MARCOS : Eles vivem fazendo isso.

EMERSON : Como é que pode, Marcos? Os pobres elefantinhos. Eles sempre se perdem das manadas.

MARCOS : Sempre.

EMERSON : Eu realmente não suporto isso. Pobres elefantinhos. Fico deprimido o dia inteiro quando acontece esse tipo de coisa.

MARCOS : E aí você comprou cerveja e ficou bebendo.

EMERSON : É…quer dizer, não apenas cerveja, você sabe.

MARCOS : Você é um merda mesmo.

EMERSON : E você se acha muito, não é, Marcos? Você sempre se achou pra caramba. Sempre sentado na merda e se comportando como se fosse um rei, um lord inglês ou qualquer um desses caras posudos.

MARCOS : Você veio aqui pra me ofender?

EMERSON : Qualquer hora dessas eu vou pisar na sua cabeça. Vou acabar com você.

MARCOS : Você tá bêbado.

EMERSON : É. E daí? Mesmo bêbado eu ainda acabo com você. Eu piso na sua cabeça. Eu te destruo. Eu pulverizo você.

(Marcos levanta-se e anda devagar em direção à Emerson. Fica frente a frente com ele, muito próximos)

MARCOS : Emerson.

EMERSON : O que é?

MARCOS : Eu vou te dar uma porrada.

(pausa. Emerson mostra-se sinceramente ofendido)

EMERSON : Eu vou embora. Nunca me senti tão ofendido. Eu só volto aqui no ano que vem.

MARCOS : Não se apresse. O ano que vem é daqui há cinco dias.

(Emerson sai. Marcos fica sozinho. Liga a tv. Ouve-se nitidamente a voz da locutora do Nathional Geographic)

Arieta Corrêa a cortar pedaços de bolo em pequenos cubinhos e acomodá-los edulcoradamente na bocarra (linda, pois sim) de Aline Moraes.

22 dezembro, 2009

Primeiro, a surpresa: Arieta Corrêa (ou Correia, não sei ao certo) na novela Viver a Vida. Imagino que você talvez não conheça Arieta, por isso clique aqui e depois leia esse breve parágrafo que escrevi sobre a pequena notável. Fez diversas pontas na televisão (e uma personagem pra valer em Tudo de Novo, minissérie da Globo), e não há surpresa alguma que o grande público mal a note. Não os culpo. Menos ainda Arieta, que deve ganhar algum dinheiro pelas aparições esporádicas. Mas me incomoda deveras vê-la em Viver a Vida.

Um pequeno diálogo que travei com minha esposa noite dessas, a caráter de ilustração:

- Arieta tá fazendo Viver a Vida?!

- Tá falando da Laura?

- Como é, Jaq?

- Tá falando da Laura, a enfermeira?

- É… Você conhece?

- Ela costuma aparecer…

- Então, que bacana, ela é uma atriz e tanto… Ficou anos com o Antunes!

- É, ela sabe sorrir bem.

- Tá tirando sarro de mim?

- Não. Toda vez que ela aparece ou tá rindo ou tá com cara de ascensorista de shopping pêra com leite.

- Pêra com leite?

- É, shopping chique e tal.

- Saquei. É uma pena isso.

- Pena por quê? Tá ganhando algum e aparecendo no horário nobre.

- Mas é figuração, Jaq!

- Figuração, sim, mas remunerada. E a personagem dela tem até nome. E outra: ela tá contracenando com essa coisa linda que é a Aline Moraes.

- É, tá sim. Olha lá: tá dando cubinhos de bolo na boca dela… Se ao menos ela falasse alguma coisa durante as cenas…

- Mas ela fala.

- Sério?

- Ela chama a colega pra mudar a Aline de posição.

- Ah, Jaq!

- Tô dizendo. E daqui a pouco ela, se for boa do jeito que você diz, vai ganhando mais espaço e tal.

- Como enfermeira no canto do quarto?

- Claro! A Juliana Paes fazia a empregada do tipo gostosona uns anos atrás e agora foi escolhida atriz do ano.

- Atriz do ano?!

- É! Puta que pariu, Lucas, cê precisa ver mais televisão.

- Mas até a empregada dessa novela tem um papel de maior relevância que a Arieta, Jaq.

- Taí: começou por baixo, quase nem falava, e agora já fica uns cinco minutos desfilando pra lá e pra cá de lingerie.

- Não, Jaq, não, isso não é pra Arieta. A Arieta fez Medéia, O Canto de Gregório, Prêt-à-Porter, tudo isso só com o  Antunes, fora o filme com o Masagão e a peça com o Hirsch…

- Cê nunca vai entender, Lucas, nunca. Na televisão a gente começa por baixo.

Depois desse diálogo algo epifânico com minha esposa, pus-me a pensar debaixo do chuveiro (é onde costumo pensar melhor). As sinapses & neurônios a rebelar-se contra mim. Talvez a Jaq esteja certa, afinal é só uma novela. E uma pessoa (como sabemos há tempos) não é uma escolha. Uma pessoa (não custa repetir) é um conjunto delas. E a Arieta é, sim, uma grande atriz. Asseguro-lhes.

- (Às gargalhadas): Lucas! Corre, Lucas! A sorrisinho (Arieta) falou pra Luciana ficar calma… (imitando-a) ‘Luciana, fica calma, fica’… Taí, Lucas, uma frase completa. Isso aí até eu falava melhor que a sorrisinho…

E eu também sorri, que é na verdade a última coisa que resta pra fazer numa situação dessas.

precisamente: aceita-se presentes de Natal.

21 dezembro, 2009

Os amigos sempre reclamam que não sabem ao certo como me presentear, que sou exigente, irascível, rabugento, neurótico etecétera. Por isso, sem mais delongas, alguns (poucos) presentes (livros) que aceitaria sorrindo:

- As Aventuras de Augie March (Saul Bellow)

- A História do Amor (Nicole Krauss)

- Extinção (Thomas Bernhard)

- Bartleby e Companhia (Enrique Vila-Matas)

- Hitchcock/Truffaut (François Truffaut)

- The Stories of John Cheever (John Cheever)

P.S.: Não há ordem de preferência, mas se for escolher apenas um (o que não é pouco), fique com Extinção, tá? Tá.

Felicidade conjugal

20 dezembro, 2009

Recebo uma ligação altas horas da noite (22:36). Um amigo aflito, aos soluços, pede-me conselhos acerca do matrimônio. Ele: um futuro marido. Eu: um marido assentado. Não saberia dar conselhos a ninguém sobre o casamento, e meus amigos sabem muito bem disso, esse inclusive, daí a minha preocupação: deve estar mesmo desesperado.

Sim, estava. Disse-me que como eu era uma pessoa sensata e casada, poderia aconselhá-lo, fazendo-o declinar ou não antes do sim fatídico. Refleti brevemente enquanto ouvia a cantilena de pontos positivos-negativos que ele elencava do outro lado da linha. Ele tinha mais respostas do que eu, um cônjuge cindido, sempre à cata de soluções para os impasses da vida a três (você, a mulher e os anseios contrastantes). Por fim, chegamos à mesma conclusão: relacionamentos são como loteria: pouquíssimos ganham e a maioria, evidentemente, passará o resto dos dias tentando. Não satisfeito, antes de dizer até logo, pediu-me algo mais concreto, e não as abstrações & divagações costumeiras.

Sorrimos, ambos. E então pedi que ele anotasse o nome de uma peça, um romance e dois filmes, que deveriam ser lidos e assistidos antes do sim ou não. Ei-los (respectivamente):

1. Who’s Afraid of Virginia Woolf? (Edward Albee)

2. Revolutionary Road (Richard Yates)

3. Faces (John Cassavetes)

4. Love Streams (John Cassavetes)

Espero tê-lo ajudado. E a você também.

Funny People

18 dezembro, 2009

funny 1

★★★½☆  Funny People

É incrível como esse filmeco me pegou de jeito. Estava desarmado e tudo, mas não costumo cair nas maquinações (leia-se, também, escatologias) de Apatow. Dessa vez, sem muito alarde, fui fisgado. É uma história triste. Precisamente: é uma história triste (outros dirão o contrário; não os ouça). Falo do Apatow de O Virgem de 40 anos (que já é um filme triste, sim) e  Ligeiramente Grávidos (outro exemplo de um filminho nada joy-JOY e tal; falo sério, ok). Crescer é uma barra, nos lembra Apatow. Crescer e ser rico e famoso pode ser pior ainda.

Adam Sandler (tão bem quanto em Punch-Drunk Love) faz um comediante que descobre estar nas últimas (não adianto nada, fica frio, isso é mostrado após a abertura, que é hilária). Um comediante mundialmente reconhecido. Falo de fama & dinheiro & mulheres. Enfim, o pacote todo. Deveria ser feliz, não?

Pois não é. Não só a doença terminal o arrasta de volta ao passado (que é pra onde sempre retornamos quando o presente nos diz que daqui pra frente tudo tende a piorar ainda mais), mas também suas escolhas, hum, um tanto quanto “idiossincráticas”.

Pois sim: doença terminal, fama & dinheiro, infelicidade etc., e tudo nos dizendo que as pessoas, mesmo as idiossincráticas, merecem uma segunda (ou terceira e quarta) chance. Piegas sobremaneira? Melodrama à Manoel Carlos?

Não me faça rir. Apatow não é nem de longe o maior piadista, comediante, diretor, produtor, roteirista, dono de cabaré, proxeneta ou mesmo fazedor de cafés  norte-americano que já houve ou há, mas é um sujeito que sabe muito bem dispor de seu material e tocar os instrumentos com certa desenvoltura. E é isso que temos: um filme de falsas segundas chances que faz rir e chorar em 150 minutos. Disse 150 minutos?

Engano meu: 146 minutos. Cravados. Sem tira nem pôr. Reconheço: o filme se arrasta depois dos 110 minutos, e Apatow não deveria ser tão complacente assim com seu clímax-desfecho e tal, mas acabo aceitando, afinal é aquele filme que o cara segredou durante anos o roteiro, burilando-o durante as noites insones, e o desejo de colocar-tudo-agora-ao-mesmo-tempo quando feito com verdade deve também ser aceito com certa dose de resignação. Pois aceito não só resignado mas feliz. É a obra mais tocante e divertida de Apatow, o filme definitivo (até o momento; dessa década, vai) sobre a vida dos stand-up e comediantes de ocasião. E seria a Comédia do Ano se os distribuidores tivessem culhões para lançar o filme no cinema. Alegaram que não é um filme com tempero latino, coisas desse tipo, e daí que o filme chega às locadoras em 6 de janeiro.

Reitero: é um filme triste. Outros dirão o contrário; não os ouça.

como descrever pra você a relação (identificação) que tenho com Uma Pilha de Pratos na Cozinha? Sei lá. Há coisas que você escreveu sem ter escrito, sabe? Sabe. Taí:

16 dezembro, 2009

BRENO : Você então tá dizendo que tem medo?

JULIO : Medo é o segundo estágio. Pra eu ter medo, primeiro eu tenho que ter interesse. Pode até ser legal, mas eu não tenho interesse, só isso. Por exemplo, pular de buggie jumping pode ser legal, mas eu não tenho o menor interesse. Se eu tivesse interesse, aí eu teria que pensar se eu tinha medo ou não. Medo é sempre o segundo estágio.

(…)

BRENO : Me esclarece uma dúvida, Julio. O Misantropo é necessariamente um cara triste e infeliz?

JULIO : Meia garrafa de whisky, dois filmes do Cassavetes, dois shows do Van Morrison. Existe um tipo de felicidade subterrânea que você não vai conseguir entender no seu dialeto. Você sequer faz idéia de quantas sílabas ela tem, Breno. Tenta pronunciar e sua vaidade de sujeito que aplica multas nos condôminos vai te fazer acreditar que você tem problemas de dicção.

FlyerPilhadePratos21h00

(…)

JULIO : Ela aparecia por aqui, tirava minha cabeça da privada, limpava meu vômito, esvaziava os cinzeiros e cantava Billie Holiday pra eu dormir. Aí um dia apareceu um cara que foi logo tirando o casaco e colocando em cima da cadeira. Ele tinha aquele olhar confiante dos caras que andam com medalhões no pescoço. Ele disse que tinha certeza sobre as coisas. Não há como competir com alguém assim. Ela colocou o casaco dele sobre os ombros e foi embora. Ele foi atrás dela. Eu fiquei aqui, o gato de apartamento olhando pela janela. De vez em quando um pombo desorientado se espatifava na janela. Alguns tem mais sorte que outros.

(…)

CRISTINA : O Júlio. Eu nunca tirei o anel. Amor não devia ser uma coisa que a gente coloca num dedo e fica olhando embevecido um pro outro. Mas quando a gente tira a fora a merda do anel, aí a gente tem certeza que aquela coisa abandonou você de vez, sabe como é? Não é como interromper um vício qualquer. Parar de fumar maconha ou comprar histórias em quadrinhos. É um corte profundo que abstinência nenhuma vai dar jeito. É um esvaziamento, um pneu furado, o carro parando no meio da rodovia. E ninguém com uma merda de estepe no porta-malas, aí você sai do carro com náusea, se ajoelha na beira da estrada e vomita. O fim da coisa toda.

continuo a tratar de banalidades e deixo as coisas sérias para pessoas sérias.

15 dezembro, 2009

Revi Bananas há pouco, e separei essas duas cenas (logo abaixo, calma lá) antológicas para que você também, assim como eu, possa sorrir em plena terça-feira:

1.

2.

O vídeo apresenta um borrão inicial, o que não dificultará em nada suas gargalhadas histéricas e ruidosas, que certamente virão (e sim, sim, esse é mesmo Stallone; e sim, sim, esta é uma das suas primeiras vezes no ecrã)

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