Satyrianas

12 novembro, 2009 · Imprimir

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Depois de um dia todo e de um início de madrugada a deambular pela Roosevelt, dei-me por vencido: isso não é pra mim. Não bebo, falo pouco, sou agorafóbico e, nos últimos tempos, ando com problemas de incontinência urinária. Atrelados a estes nada pequenos poréns, a já habitual e desgastante surdez progressiva. Um adendo: noite retrasada, escova de dente numa mão e pasta noutra, a escuridão total. Imaginei o pior: além de surdo, agora cego. Gritei por socorro, e ainda na cama, sem qualquer sobressalto na voz, minha esposa balbuciou queda na luz, o que me fez respirar aliviado.

Velhice precoce? Neurose? Ansiedade? Crises intermitentes de pânico? Percepção aguda da nulidade da vida?

Um pouco de tudo isso e um bocado de outras piscadelas geriátricas, e daí minha total aversão à festa promovida anualmente na Praça Roosevelt. Antes aceitava o bacanal com certa resignação e entusiasmo, mas só se é virgem uma vez, e a ingenuidade (acreditem) vai embora sem dizer adeus.

Festa do teatro?

Faz-me rir. Festa etílica? Precisamente. Adoro que as pessoas bebam e fumem e compartilhem suas desbragadas felicidades ao ar livre, mas prefiro, por ora, manter-me um tantinho afastado desse convescote todo, apenas bebericando (cá no sofá de casa) um copo de iogurte com duas gotas de mel.

E, no entanto, vi algumas coisas, às quais tentarei descrever logo abaixo com o máximo de brevidade e o mínimo de objetividade:

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David Foster Wallace

Sergio Mello bebe Shepard. Quem me disse isso? Sua dramaturgia. Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno já dizia isso, e David Foster Wallace (texto curto) reitera essa afirmação. Mais uma conversa com DFW do que uma releitura de sua obra, e menos ainda uma adaptação de um de seus contos, David Foster Wallace (a peça, ok) está para Shepard assim como Bukowski está para a bebida. E como é bom ouvir um dramaturgo que sabe escrever (pois é: a maioria não sabe). Algo no texto alude à Mente Mentira, e à cena mais emblemática dessa mesma peça, uma espécie de duelo entre pai e filho, que, ao invés de usarem ambos uma Winchester algo prateada, usam copos e bebidas e bares e a possibilidade da fronteira. Ao fim e ao cabo, pai morto na estrada e filho enchendo a cara no próximo bar. Não há como fugir da família, seu merdinha, diz Shepard. Não há como fugir dos seus genes, lembra Sergio Mello.

Corrente

Nunca tinha lido/ouvido/visto nada da Priscila Nicolielo. Agora vi/ouvi e não senti. A cena toda se sustenta numa linha tênue (a iminência de um assassinato), e entrega logo de cara o final fatídico e sem peso (que fique claro que entregar o final de uma peça logo no primeiro embate verbal não é de todo ruim – desde que o desenvolvimento dê conta de ser minimamente envolvente, ou satisfatório, ou  revelador, ou algo que o valha). Só não gargalhei em respeito às atrizes, que são esforçadas. Imagino que Priscila almejasse não o riso, mas sim aquela sensação que nos deixa um filme qualquer de Haneke ou mesmo uma sucessão de diálogos de Richard Price ou Elmore Leonard, embora tudo que reste após a Corrente seja um estado de indiferença, banalidade e torpor semelhante a uma segunda-feira pela manhã.

Aqui, Fora

Gosto deveras do ator Otávio Martins. Gosto ocasionalmente do dramaturgo Otávio Martins. Perdoem-me o trocadilho infantil, mas dessa vez eu realmente fiquei FORA.

sacoderatossaty8

Saco de Ratos

como aquelas coisas que julgávamos indispensáveis

e que depois de muitos anos

encontramos no vão do sofá.

Sacou? Sacou. Puta show bacana. Puta poeta. Puta dramaturgo. Puta artista.

alexgrulinelsinho1

Sad Christmas

Todos os natais são tristes (ou alegres, depende da maneira que olharmos pra eles), sabemos bem disso. Bortolotto subverte as edulcoradas histórias natalinas e nos faz sentir pena do elefantinho que fugiu novamente da manada. O único clássico inequívoco das Satyrianas, e o mesmo pode ser dito dos atores carecas.

Comentários

4 comentários em “Satyrianas”

  1. mdv em 16/11/09 - 10:12 pm

    Não sei por que, mas estranhei o elogio ao Bortoloto. No mais, impecável como sempre, abs M

  2. Lucas Mayor em 17/11/09 - 12:34 am

    Estranhou? Sério? Reitero o elogio. E você permanece gentil como sempre.

    Abraços!

  3. mdv em 18/11/09 - 4:36 pm

    Olá. Eu gosto de algum teatro do Bortoloto, mas esses malditos blogs hehe… o dele, em que ele elogia Deus e o mundo e muitos poderosos (“meu amigo fulano, meu amigo beltrano”), mas faz alinha anti-establishment, não me soa bem. Tem um povo no Brasil – e nem me refiro a ele – que fica tentando decalcar a vida pessoal dos Beats, Bukowski, etc e acha que com isso cria uma obra.. preguiça, abs continue mandando bala, please, gosto muito dos seus textos,

  4. Lucas Mayor em 19/11/09 - 5:39 pm

    Não vejo ele desse jeito, mesmo.

    Abraços!

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