Drops #10

30 novembro, 2009

Pensei na minha vida. Às vezes faço isso. Do lado de fora o ralo continua a expelir (transbordar) água podre (não se trata de figura de linguagem não, viu; é bosta mesmo). Pensei na minha vida novamente. E daí voltei a olhar para o ralo. Pois é: há dias em que precisamos literalmente ter contato com a merda.

Hotel Atlântico/ No Meu Lugar

27 novembro, 2009

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★☆☆☆☆  Hotel Atlântico

Suzana Amaral faz uso de dentadura (tal como minha vó), utiliza as estrelinhas da Folha pra dizer se um filme é bom ou ruim (acerca de Amantes, um dos maiores filmes do ano, disse o seguinte: drama romântico sem reverberação; em outras palavras, duas estrelinhas de um total de 4), e, no mais, dirigiu A Hora da Estrela (minha avó não). Suzana, como minha vó, tem 70 e tantos anos. Maturidade? Pois sim. Minha vó, vez por outra, como Suzana Amaral, faz e diz bobagens. Hotel Atlântico é um drama existencialista-onírico sem reverberação, para usarmos um termo caro à crítica-cineasta Suzana Amaral. Vovó assistiu ao filme do meu lado, e antes que os créditos enfim aparecessem, disse-me: Quando não é favela é essa gente perdida, hedonista ou que só sabe trepar… Antes que vovó concluísse, pedi mais uma porção de pipoca, e enveredamos por um assunto qualquer (talvez Lee Van Cleef, que ela adora), a fim de dar alguma serventia àqueles assentos tão confortáveis do Espaço Unibanco.

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★★★☆☆  No Meu Lugar

Eduardo Valente é dos críticos brasileiros que mais leio (na internet, obviamente). Gosto do cara. Gosto dos curtas. Gosto das críticas. No meu Lugar é um filme de alguém que viu muitos filmes. Isso é bom e ruim. O lado bom: Eduardo sabe posicionar a câmera no lugar certo e, sobretudo, sabe que um plano deve ter uma duração bem particular (quase exata). O lado ruim: o excesso de racionalidade, o esquematismo, a perfectibilidade artificiosa e os não-respiros. É tudo tão engenhosamente calculado que mesmo os atores (competentíssimos) parecem marionetes. Embora isso não quer dizer que Eduardo não seja um hábil diretor de atores, pelo contrário: é pelos atores que o filme parece existir. E o filme tende a crescer mais e mais quando volto a pensar nele.

Drops #9

26 novembro, 2009

1. Sonhei, noite passada, que era protagonista de um dos filmes do Wes Anderson (minha esposa esbofeteou-me repetidas vezes, assegurando assim minha integridade física e moral). A vida já está difícil tal e qual, livre de entropias familiares e risos melancólicos. Tudo o que eu mais precisava agora era ser protagonista de um dos filmes do Capra.

2. Queria poder escrever (literalmente) meus sonhos com uma antecedência segura (vai que eu caio num filme qualquer do Abel Ferrara…). Digamos que com 24 horas entre um sonho e outro. É isso: amanhã estarei num filme do Lubitsch e no final de semana entro de sola num Billy Wilder de tintas mais cômicas.

3. A vida pode continuar sendo um caos absurdo e tal (e geralmente triste & tétrica), mas ainda somos capazes de sonhar.

if you’re good at something it’s very hard not to do it.

24 novembro, 2009

Wall Street Journal: The last five years have seemed very productive for you. Have there been fallow periods in your writing?

Cormac McCarthy: I don’t think there’s any rich period or fallow period. That’s just a perception you get from what’s published. Your busiest day might be watching some ants carrying bread crumbs. Someone asked Flannery O’Connor why she wrote, and she said, “Because I was good at it.” And I think that’s the right answer. If you’re good at something it’s very hard not to do it. In talking to older people who’ve had good lives, inevitably half of them will say, “The most significant thing in my life is that I’ve been extraordinarily lucky.” And when you hear that you know you’re hearing the truth. It doesn’t diminish their talent or industry. You can have all that and fail.

Daqui.

Não riam de mim #8

23 novembro, 2009

Sabe aquelas caixas de papelão que usamos para acomodar coisas quando não queremos mais essas coisas ou quando essas coisas não servem mais pra nada ou quando decidimos, então, mudar essas mesmas coisas de um lado para o outro?

Pois é: comprei uma dessas caixas. Não penso em colocar coisas nela. Tampouco irei me mudar ou algo que o valha, mas comprei e agora ela está aqui. Estou em dúvida se coloco um pedaço da minha vida ali ou se coloco o bastante pra não ter que me preocupar mais daqui pra frente.

Enquanto decido, ouço Marvin Gaye e a vida parece ter realmente um propósito.

Diário da Mostra #3

22 novembro, 2009

vicio frenético

★★★★½ Vício Frenético

Fazer um remake de um filme de Abel Ferrara? De um dos maiores e melhores filmes de Abel Ferrara? Pois sim. Sabíamos que Herzog é um selvagem, mas nem de longe poderíamos esperar algo como isso. Ainda hoje tenho pesadelos com aquele pranto niilista de Harvey Keitel (pense em um homem que descobre que Deus é um engodo, e daí se põe a chorar por todos nós) em Bad Lieutenant. Lembrete necessário: aos sujeitinhos que insistem em afirmar a irrelevância desse belíssimo ator (Nicolas, e não Keitel), minhas lágrimas; desculpai-os, desculpai-os, afinal eles não sabem o que é atuação. Um Herzog cínico. Tal como o nosso tempo.

a família wolberg

★★★★☆ A Família Wolberg

Um debut incontornável. Uma peça de câmara escrita por Tchecov.

abraços

★★★☆☆ Abraços Partidos

Está a se repetir, como todos os grandes. A arte, diferentemente da vida, permite reestréias. Eis a lição de Almodóvar.

o que resta

★★★½☆  O Que Resta do Tempo

Suleiman é um fanfarrão. Da próxima vez que tiver de explicar ironia aos meus caríssimos alunos, darei-lhes Suleimam de bandeja. Sublime.

making

★★★½☆ Making Plans for Lena

Honoré está habitando outras paragens, mas isso não diminui em nada seu mundo particular. Making Plans for Lena é irmão bastardo de Horas de Verão. De longe a melhor atuação de Chiara.

A elegância de Woody Allen

16 novembro, 2009

Falo pouco de Woody por aqui. Sim, falo pouco. Woody (estou a me repetir, sei disso) é o responsável por minha educação sentimental (e por outras educações). Quantos pais conseguem dar isso a seus pequenos monstrinhos? Poucos. Ou muitos. Sei lá. Sei que Woody é uma refeição completa. Ovos mexidos, suco, bacon, panquecas, mel etc.

Woody mora aqui, no meu quartinho. Mora também nas minhas melhores lembranças. Nas mais verdadeiras e sonoras risadas. Nos momentos em que tive certeza que tudo (a vida e tal) não passava de uma brincadeira de mau gosto pra me afrontar, recorria a Woody. Nos momentos mais alegres também. Woody embalou-me algumas noites. Visitou-me outras tantas. Secou minhas lágrimas. Deu-me conselhos. Repreendeu-me. Quantos pais conseguem dar isso a seus pequenos imbecis? Raríssimos. Estou a me repetir, sei disso. Woody sempre está a se repetir. No entanto, é impossível afastar-se de Woody. Woody diz pra não prestarmos atenção no que as pessoas dizem, mas sim na maneira como agem. Pois sim, Woody, pois sim.

Aqui a programação geral da retrospectiva (integral) de sua filmografia. Estarei por lá, revendo tudo na telona e participando de alguns debates. Durante a semana, e sempre após a exibição dos filmes, vou postando as minhas já conhecidas impressões. Espero não precisar dizer que se trata do evento cultural do ano. Digo: se trata do evento cultural do ano. Portanto, se você não é o Caetano, apareça.

What is your definition of love?

13 novembro, 2009

Satyrianas

12 novembro, 2009

Depois de um dia todo e de um início de madrugada a deambular pela Roosevelt, dei-me por vencido: isso não é pra mim. Não bebo, falo pouco, sou agorafóbico e, nos últimos tempos, ando com problemas de incontinência urinária. Atrelados a estes nada pequenos poréns, a já habitual e desgastante surdez progressiva. Um adendo: noite retrasada, escova de dente numa mão e pasta noutra, a escuridão total. Imaginei o pior: além de surdo, agora cego. Gritei por socorro, e ainda na cama, sem qualquer sobressalto na voz, minha esposa balbuciou queda na luz, o que me fez respirar aliviado.

Velhice precoce? Neurose? Ansiedade? Crises intermitentes de pânico? Percepção aguda da nulidade da vida?

Um pouco de tudo isso e um bocado de outras piscadelas geriátricas, e daí minha total aversão à festa promovida anualmente na Praça Roosevelt. Antes aceitava o bacanal com certa resignação e entusiasmo, mas só se é virgem uma vez, e a ingenuidade (acreditem) vai embora sem dizer adeus.

Festa do teatro?

Faz-me rir. Festa etílica? Precisamente. Adoro que as pessoas bebam e fumem e compartilhem suas desbragadas felicidades ao ar livre, mas prefiro, por ora, manter-me um tantinho afastado desse convescote todo, apenas bebericando (cá no sofá de casa) um copo de iogurte com duas gotas de mel.

E, no entanto, vi algumas coisas, às quais tentarei descrever logo abaixo com o máximo de brevidade e o mínimo de objetividade:

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David Foster Wallace

Sergio Mello bebe Shepard. Quem me disse isso? Sua dramaturgia. Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno já dizia isso, e David Foster Wallace (texto curto) reitera essa afirmação. Mais uma conversa com DFW do que uma releitura de sua obra, e menos ainda uma adaptação de um de seus contos, David Foster Wallace (a peça, ok) está para Shepard assim como Bukowski está para a bebida. E como é bom ouvir um dramaturgo que sabe escrever (pois é: a maioria não sabe). Algo no texto alude à Mente Mentira, e à cena mais emblemática dessa mesma peça, uma espécie de duelo entre pai e filho, que, ao invés de usarem ambos uma Winchester algo prateada, usam copos e bebidas e bares e a possibilidade da fronteira. Ao fim e ao cabo, pai morto na estrada e filho enchendo a cara no próximo bar. Não há como fugir da família, seu merdinha, diz Shepard. Não há como fugir dos seus genes, lembra Sergio Mello.

Corrente

Nunca tinha lido/ouvido/visto nada da Priscila Nicolielo. Agora vi/ouvi e não senti. A cena toda se sustenta numa linha tênue (a iminência de um assassinato), e entrega logo de cara o final fatídico e sem peso (que fique claro que entregar o final de uma peça logo no primeiro embate verbal não é de todo ruim – desde que o desenvolvimento dê conta de ser minimamente envolvente, ou satisfatório, ou  revelador, ou algo que o valha). Só não gargalhei em respeito às atrizes, que são esforçadas. Imagino que Priscila almejasse não o riso, mas sim aquela sensação que nos deixa um filme qualquer de Haneke ou mesmo uma sucessão de diálogos de Richard Price ou Elmore Leonard, embora tudo que reste após a Corrente seja um estado de indiferença, banalidade e torpor semelhante a uma segunda-feira pela manhã.

Aqui, Fora

Gosto deveras do ator Otávio Martins. Gosto ocasionalmente do dramaturgo Otávio Martins. Perdoem-me o trocadilho infantil, mas dessa vez eu realmente fiquei FORA.

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Saco de Ratos

como aquelas coisas que julgávamos indispensáveis

e que depois de muitos anos

encontramos no vão do sofá.

Sacou? Sacou. Puta show bacana. Puta poeta. Puta dramaturgo. Puta artista.

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Sad Christmas

Todos os natais são tristes (ou alegres, depende da maneira que olharmos pra eles), sabemos bem disso. Bortolotto subverte as edulcoradas histórias natalinas e nos faz sentir pena do elefantinho que fugiu novamente da manada. O único clássico inequívoco das Satyrianas, e o mesmo pode ser dito dos atores carecas.

Who is this guy?

7 novembro, 2009

Woody, noite passada, ligou aqui em casa, e como de costume perguntou como vou indo, como andam as coisas… (trocamos alguns, poucos, elogios). Lá pelas tantas, meio sem jeito, disse ao meu velho amigo que Caetano Veloso criticou-o formalmente, e que teria escrito coisas como é um careta, um cineasta pequeno, mas é um cara legal.

Woody ficou em silêncio por um breve instante (Soon-Yi o repreendia por ele não ter aparecido na sala para cumprimentar seus pais), e depois pediu desculpas a mim.

Disse novamente que Caetano Veloso criticou-o formalmente.

Who is this guy?, perguntou Woody.

Ninguém importante, Woody, ninguém importante.

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