Diário da Mostra #1

27 outubro, 2009

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★★★★☆  Mother

Dois filmes e um média (dos que pude ver). 40 anos. É pouca idade e pouca experiência para nos dar tanto, pensava eu. Imaginava que um velhinho mais sábio fosse o verdadeiro responsável pelo conjunto de filmes de Joon-ho Bong. Imaginava mal. Um velhinho sábio talvez não brincasse tanto quanto Bong, e daí o interesse que seus filmes andam despertando por aí. Não há um gênero, mas vários. Não há um diretor, mas muitos.

Mother é o atestado que os críticos aguardavam para a autenticação definitiva. Drama policial, comédia, tragédia grega? Sim e não. Bong reatualiza gêneros e o faz de maneira tão fluida e passional que é impossível fugir de seu mundo. Mother é uma releitura de Medéia às avessas. Um Édipo Rei escrito por Nelson Rodrigues. Desnecessário dizer (embora diga) que a abertura e o desfecho (bem como a  atriz Hye-ja, que faz a mãe do título) continuam aqui, num cantinho especial.

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★★★☆☆ Ricky

É como se Gabo escrevesse o roteiro e a direção ficasse a cargo dos Dardenne.

Tony esteve por aqui e eu estive na lua.

26 outubro, 2009

Não riam de mim #7

22 outubro, 2009

Eu sempre tive medo de me relacionar. Medo de não conseguir voltar dois passos para trás e dizer ok, eu não vivi aquilo, aquilo não foi comigo. Ninguém foi (ou é) capaz de nos ensinar a fracassar no amor. Não há culpados, baby. E se você insiste em acreditar que há um culpado nessa história toda, pense novamente.

All the Real Girls é um dos filmes mais doces a falar sobre o fim das histórias românticas. Das histórias onde as princesas são despertadas com beijos e os príncipes ainda são príncipes. Depois de All the Real Girls não há mais Cinderela, não há mais amores imaculados. Há, sim, um casal e o que foi feito deles.

Revi o filme ainda há pouco, e daí a vontade de compartilhar isso aqui. All the Real Girls é como uma peça de Tchecov. As personagens continuam a habitar o espaço mas o espaço acabou por desistir delas. Tchecov nos ensinou a crescer. All the Real Girls nos ensinou que as coisas (todas elas) têm de acabar.

Eu quero é ser feliz pra sempre!

17 outubro, 2009

Todo mundo quer ser feliz pra sempre (de certa maneira). Por isso mesmo não ri (exteriormente, ao menos) quando uma professora de matemática disse (tom algo estridente) que queria na verdade era ser feliz pra sempre. Taí: eu quero um bocado de coisas, mas não quero de jeito nenhum ser feliz pra todo o sempre. Eu sei como as pessoas felizes lidam com a vida, e daí o medo natural que sinto de ser eu uma pessoa do tipo feliz em tempo integral (há pobres-diabos que ainda acreditam que isso é possível; tal como um garotinho de 5 anos crente de que a luz do abajur seja capaz de mantê-lo em segurança dos monstros escondido  embaixo da escada).

É saudável manter nalguns momentos as zonas sombrias no horizonte, caso contrário estaríamos à mercê do que a dita felicidade-tempo-integral taxa como essencial e indispensável pra uma vida plena e satisfatória. Mesmo o mais imbecil dos seres é abençoado por momentos de iluminação (evito a palavra epifania por motivos pessoais), e é exatamente nesses momentos que o quadro geral da vida se abre e você, um imbecil contumaz, percebe que a longevidade da felicidade não é só um engodo dos mais ridículos mas uma deliberada saída de emergência para o caminho mais fácil (alienante) e de tijolinhos amarelos.

Eu queria ter dito isso pra senhora professora de matemática, mas sabe como é, né?

Papai ensinou que não devemos impedir as pessoas de sonharem.

Mas como descrever na tela que uma mulher pode enlouquecer por ter ficado sozinha por trinta segundos?

17 outubro, 2009

Por outro lado, alguns fenômenos muito complexos, delicados ou que se encontram entre os mais arcaicos na história da representação sofrem aqui um tratamento resolutamente claro, não mais sendo trabalhados por valores indefinidos, mas agora da definição: a loucura, a fraternidade, o que significa ser um ator. Encontram-se assim implicados, de forma surpreendente mas com grande rigor, certos procedimentos descritivos típicos do cinema. Cassavetes assinala um dentre eles, que identifica o trabalho de construção de seu filme à tradição de experimentações modernas sobre a estruturação de uma obra, por exemplo, a força que uma síntese temporal atribui a temporalidades frágeis ou da discrição que é conveniente na abordagem de fenômenos devastadores: “Quando vemos esta mulher sozinha ao telefone durante dois minutos, é preciso sentir que ela pode enlouquecer.Na vida, o orgasmo ou o tédio podem nos levar à loucura. Mas como descrever na tela que uma mulher pode enlouquecer por ter ficado sozinha por trinta segundos?” A obra de John Cassavetes pertence à tradição de Faulkner e Schoenberg , obras que trabalham as profundezas das formas, dinamizada por esta idéia inicial de que “as formas da arte registram a história da humanidade com mais exatidão que os documentos”, uma vez que, escrevia ainda Adorno, “ a arte se dirige ao sofrimento real”, e não a uma aparência das paixões.

Ah, Coutinho…

13 outubro, 2009

Sei que isso está ficando um tanto repetitivo, mas o que posso fazer se Coutinho é o único cronista que ainda levo para o trono (isso é um elogio). Ademais, semana sim, semana não, lá está Coutinho fazendo com que eu fique a recortar sua coluna e guardá-la numa pastinha de elástico e tons suaves. É duro admitir que o nosso melhor colunista é um português de 33 anos, mas é verdade. Enfim.

Eis que hoje Coutinho tratou de falar acerca de Bastardos Inglórios (não escrevi sobre o filme por pura preguiça), e disse tudo o que queria dizer mas não disse. Três parágrafos:

O meu reino não é deste mundo. Envio apenas um conselho aos filistinos: quem quer saber história, estuda e lê história. Salas de cinema são salas de cinema. Repitam comigo. E repitam também: “Bastardos Inglórios” é, primeiro que tudo, um filme sobre o cinema. Ou, precisando, um filme sobre o poder literalmente salvífico e redentor que o cinema tem sobre a história.

Começa por ter esse poder na própria transfiguração da verdade. Vocês, caros leitores, estão habituados a filmes sobre o Holocausto onde os judeus são meros carneiros nas matanças nazistas? Filmes de um sentimentalismo vulgar que apenas diminui o sofrimento real e inimaginável, e por isso mesmo infilmável, dos judeus na Segunda Guerra?

“Bastardos Inglórios” começa por subverter o clichê: os judeus, agora, não são apenas vítimas; também são vingadores, matando nazistas com uma violência paródica e catártica. Liderados por um “redneck” da América profunda (Brad Pitt, primoroso), eles aterram na França ocupada para matar alemães como se matam ratazanas. À paulada.

Mais dois parágrafos (devidamente negritados) e dou por encerrada nossa conversa:

Disse humor, disse violência, disse extravagância exatamente por essa ordem. Reitero. Esse trio explica a minha estima literária por Tarantino, um diretor que, antes de pensar com imagens, pensa com palavras. Haverá algum diretor vivo que escreva diálogos como Tarantino?

Sim, Woody Allen seria um nome válido. Mas Woody Allen é um mestre do “punch line”, essa procura desesperada da piada inesperada. Tarantino é um mestre das preliminares. Ele sabe que a piada está no adiamento da piada. Por isso os diálogos de Tarantino nos parecem tão luminosos, no sentido espiritual do termo: eles são a última exibição de racionalidade antes da carnificina irracional.

Leia na íntegra aqui.

A mostra do Rio vista do lado de cá #2

11 outubro, 2009

500

★★★☆☆  500 Dias com Ela

Pelo hype criado em torno desse singelo filme açucarado, por Roger Ebert usar termos como transgressão/subversão da comédia romântica, e por uma quase necessidade/obrigação de saciar o desejo da Jaq por filmes que falam de garotos e garotas que não sabem muito bem o que querem, a não ser amar e ser amados, fui de encontro (expectativa lá na lua) a esse filme-evento, que poderia facilmente ser descrito como uma das canções de Mallu Magalhães quando esta  descobriu estar perdidamente apaixonada por Marcelo Camelo.

Pois é: é o típico filme adolescente-juvenil-adulto embalado por uma trilha pop e por um conjunto de diálogos que sairia facilmente da pena de um Hornby inspirado. Minto: de um Hornby com 50 por cento de sua capacidade criativa, como disse recentemente o bobalhão Von Trier. E digo mais: o diretor além de decalcar a cena final de A Primeira Noite de um Homem (esse sim um filmaço) faz uso do expediente tela-dividida (de um lado expectativa, do outro realidade), recurso caro a Woody Allen. Mas isso, assim, não quer dizer nada. Chega mais perto que eu explico o porquê você deve perder 90 e tantos  minutos da sua vida com esse filme-canção-Mallu. Isso, mais perto. Agora, sim: é um filme pra ser visto com carinho. Não pelas referências-influências explícitas e/ou implícitas. Menos ainda por Ebert usar palavras como SUBVERSÃO & TRANSGRESSÃO. Isso tudo é besteira, coisa pouca, panfleto. Ao que interessa:

Talvez você se lembre daquele dia em que conheceu aquela garota de aparelho algo rosado, e sem mais nem menos sentiu aquela sensação delicada e apavorante, e daí em diante notou que, por mais que tudo pareça fadado ao fracasso, há sempre uma primeira vez pra tudo; e, melhor ainda, há também uma porção de segundas vezes.

O Rio é bem bacana

6 outubro, 2009

Não dei a mínina quando soube que o Brasil iria sediar as Olimpíadas de 2016. Até fiz beicinho de reprovação e tudo mais.

Copa em 2014 e Olimpíadas em 2016?

Não dá pé. Peido embaixo do cobertor, espinha na nádega direita, café amanhecido, banheiro sem papel higiênico etc. Pense em assistentes sociais visitando casas de pais que acabaram de adotar um casal de vietnamitas. Tudo funciona de maneira exemplar. A sujeira encoberta por um tapete persa. É assim que vejo dois eventos dessa magnitude  sendo geridos em espaço de tempo tão curto. Mas mudei de opinião. O motivo?

Woody Allen. Isso mesmo: WOODY ALLEN. A irmã de Woody (produtora também) e o produtor (que não é irmão) foram recebidos pelo prefeito e o governador do Rio esta manhã. O que antes não passava de um boato dos mais agradáveis agora se mostra uma evidência capaz de me fazer reavaliar meus senãos. A irmã de Woody não é de ficar batendo perna por aí (sei do que falo, conheço a família). Muito menos os produtores de Allen. Isso quer dizer (e agora não me contenho) que Woody, possivelmente em 2011, estará no Brasil.

E eu não estarei longe. Sei ser discreto. Woody aprecia discrição. Imaginem: eu de sunguinha branca nas praias do Rio, tal como um Rodrigo Santoro saindo do mar em As Panteras. A diferença entre mim e Rodrigo é clara: tenho miolos e compleição menos robusta, o que só depõe a meu favor, já que Woody dá preferência a tipos ordinários, prosaicos.

Pois sim. Acham que brinco?

Então continuem achando. Em 2011 não se esqueçam dos noticiários locais. Procurem por Lucas Mayor sunguinha branca e Woody Allen.

tudo o que você sempre quis saber sobre como “chegar” numa mulher mas tinha medo de perguntar.

5 outubro, 2009

A mostra do Rio vista do lado de cá #1

4 outubro, 2009

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★★★½☆  Distante Nós Vamos

Quem diria, hein: Dave Eggers escrevendo roteiros. Nada bobo: é lá que está o dinheiro. Escreveu (adaptou) o novo trabalho do Spike Jonze também, Onde Vivem os Monstros, que pelo trailer me deixou a pensar na infância. Mas falemos de Sam Mendes. Gosto do cara. A crítica desceu a lenha em Apenas um Sonho. Escolheram o filme errado. Escolheram o cara errado. Tudo bem que Beleza Americana, quando revisto, dá um certo engulho, um quê de indiferença, de artificialismo, de profundidade piscina de bolinha, e é totalmente contrária à reação que tive quando no primeiro contato, mas daí a dizer que o pobre Sam é um engodo vai um longo caminho. Repito: gosto do cara. Mais: ele sabe escolher uma esposa. E dessa vez soube escolher o roteirista certo, a história certa e o casal de protagonistas certos (realmente esse John Krasinski é um ator para se acompanhar de perto).

Distante Nós Vamos é um road movie típico, a não ser pelo casal mais doce do ano. Um road movie, tal como um Bildungsroman, lida com o conceito de aprendizagem ao longo do percurso, e é isso que temos aqui. Um casal aprende a ser casal quando se põe na estrada em busca de um lar seguro e distante de uma sociedade onde ninguém mais sabe ao certo dar e receber amor. É um filme pequeno e que fala de coisas pequenas. Sam deixou de tentar abarcar o mundo mas não deixa de colocar o mundo nesse pequeno universo de pais disfuncionais e amores patológicos.

A distopia americana ainda permanece no horizonte de Sam, mas agora ele acertou a mão. Os críticos já estão pedindo desculpas. Não aceite, Sam. Não aceite.