Quartett

25 setembro, 2009 · Imprimir

Visto 259 vezes, 1 apenas hoje

quartett

★★★★★  Quartett

Primeiro, Heiner Müller. Segundo, Bob Wilson. Terceiro, Isabelle Huppert. É muito? Sim, é muito. Cada qual é (ou foi) um virtuose no que faz, e não é nada agradável presenciar um trio de virtuoses ocupando um mesmo ambiente. Explico: os gênios estão escassos, daí que reunir dois vivos (Isabelle & Wilson) e um morto-vivo (Müller) pra contar uma não-história (dentro dos padrões aristotélicos, que fique claro) de lascívia e poder e vingança e os meandros do desejo e das pulsões mais primárias, e, por que não, animalescas, pode tanto corroborar a genialidade do trio como demonstrar, tal como um teorema ou uma equação de segundo grau com números desencontrados, que mesmo os gênios podem (e não raramente) ser uns belos de uns imbecis.

Por sorte o casamento foi feliz. Eu e os demais convivas concordamos, caso contrário a saraivada (sic) de palmas não seria ouvida pelo flanelinha, que, curioso, indagou-me: Show de rock?.

Não. Mas quase. Quase. Assustado?

Pode ficar. Eu fiquei. É como sentar no ateliê de Picasso e vê-lo pintar. É como estar no banheiro com Frank Sinatra (ele debaixo do chuveiro; você no trono) cantarolando My Way; e, nota de rodapé, Frank não está resfriado, para ficarmos mais próximos de Talese. Acha que me excedo?

Pois sim. É preciso lembrar que sou garoto ingênuo, e fico deveras impressionado com coisas desse tipo. Mas não peço desculpas. Excedo-me com razão. Excedo-me, sobretudo, porque vi a luz. Bob Wilson não só ilumina, mas cria o mundo. Acrescento: cria o mundo e não descansa no sétimo dia. No sétimo dia cria as cores, os tons e os meio-tons. E, como num passe de prestidigitador experiente, apresenta os truques mais herméticos com uma transparência de mover maxilares.

Eu senti os corpos. Eu senti os ruídos, os sons. E, nalguns momentos, senti os não-respiros, o tempo como que dilatado e pairando longe dali, deixando-nos saborear lentamente o anti-naturalismo da coisa toda. E, não me furto de dizer, no oitavo dia eis que Bob (Bob, sim, afinal já estamos íntimos) cria Mademoiselle Huppert. E uso criar no sentido literal.  Ao menos para todos que, como eu, a conhecem no escuro de salas acarpetadas e assentos com descanso para copos.

Confesso que quando assisti A Professora de Piano pela primeira vez fiquei dias a fio tendo pesadelos com Huppert faca no peito e andar de rainha que perdera o reinado. Nas salas escuras, Huppert é, ao lado de algumas poucas, imbatível, soberba. Já na ribalta, Huppert é famélica, monstruosa. De uma perfectibilidade a colocar por terra qualquer crítico engraçadinho que ouse dizer que o tom maquinal de Huppert carece de maior senso de “verdade cênica”, como se estivessem a dizer que lhe falta um pormenor qualquer de humanidade precedente.

Humanidade precedente?, perguntaria Huppert, com seu ar blasé característico. E depois ambos ririam. Ela e o crítico abobalhado e levemente envergonhado pelo escorregão ingênuo.

Mais: é no teatro, e não no cinema, que notamos a potência de perversidade destilada a conta-gotas por Mademoiselle Huppert. Agora compreendo a cadeia de afinidades e ligações entre Isabelle e o não menos violento (leia-se, também, terror psicológico) Michael Haneke.

Mas ainda quero falar de Bob. Meu Bob.

Bob, Bob… Que filho-da-puta talentoso! E não, Bob, não vou chorar. Escute bem. Sei que falei das cores, dos sons-ruídos e da luz, mas quero deixar registrado que, além de pintor, Bob arquiteta sonhos. Sonhos meus. Nossos. A encenação é um quadro tomado de assalto de um dos Sonhos de Akira Kurosawa. É um Van Gogh com as duas orelhas e o impulso criativo em seu paroxismo absoluto. Enfim. Enfim. Faltam substantivos. Sobram adjetivos (e imagens).

O axioma presente em dez de dez camarins acentua que o teatro é a arte do ator. Pois sim. Desde que Mister Bob não seja o titereiro.

Touché!

Comentários

Faça seu comentário