A Falecida Vapt-Vupt

8 setembro, 2009 · Imprimir

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a falecida 1

★★★½☆  A Falecida Vapt-Vupt

Eu tinha uma lembrança viva de A Falecida (o filme, com direção de Leon Hirszman e tal). A leitura do texto fiz há pouco mais de três anos (quando da tentativa de ler toda sua obra), e dos textos que li do Nelson, este é um dos maiores. Mesmo no teatro não vi muito Nelson (6 montagens, apenas), o que é bom, por duas razões bem simples. (1) Não é fácil fazer um Nelson, e vê-lo poucas vezes faz com que você, antes de optar por vê-lo, seja um tantinho seletivo. (2) Sempre há um Nelson em cartaz, mesmo que o texto não seja de sua autoria, e isso pode ser desastroso, quando não terrível; portanto, quando escolher um Nelson, procure escolher um Nelson.

Enfim.

Antunes acaba de montar A Falecida, dando-lhe um subtítulo pra lá de irônico. Vapt-Vupt parece título de novela do Walcyr Carrasco, o que, em certa medida, atesta o caráter herético da montagem. Ao programa da peça, uma carta explicativa do encenador. Entre outras coisas, esboça uma tentativa de interpretar a obra para um público condicionado a programas de auditório.

Sobreposições de realidade, bidimensionalidade, descentralização e demais conceitos (o blábláblá de sempre). Em suma: Antunes quer que acreditemos que ele realmente está disposto a quebrar com seu padrão estético e com seu milenar fazer teatral. Isso não é verdade, ao menos não da maneira que ele diz ser.

Não há sobreposições de realidades, mas fotografias cênicas. Quanto à bidimensionalidade, ok, temos bidimensionalide (nada de novo no front). O mesmo não se pode dizer do conceito de descentralização, que, nesse caso específico, ao invés de descentralizar, acaba por centralizar e direcionar o olhar de maneira imperativa. E se me disserem que os ruídos aqui e ali são dispositivos descentralizadores, ou mesmo as fotografias-pessoas, direi (não sem antes gargalhar e verter duas lágrimas de misericórdia) para verem mais cinema, arte contemporânea e, sobretudo, literatura. Sim, literatura.

Por outro lado há os atores (e a excelência de sempre). Bruna Anaute faz uma Zulmira desfalecida e saída de um filme de Woody Allen (tal como a garçonete Cecília de A Rosa Púrpura do Cairo, Bruna habita uma instância de irrealidade-alienante-e-compulsória, e isso adquire em sua composição interpretativa um quê de indiferença ao dito mundo real; os detalhes sutis, o timing cômico e o rosto trágico que diz o que não pode ser dito, apontam uma intérprete capaz de ir de um extremo ao outro com invejável desenvoltura). Lee Thalor pode se dar ao luxo de fazer o que quiser. Um virtuose, sem dúvida. Emprestando corpo e  voz a Tuninho, Lee estabelece, num primeiro momento, o que podemos chamar de terreno sólido para que sua personagem adquira, no epílogo da  montagem, o páthos de tragicidade que fica ecoando quando deixamos o teatro (mais: é tão bom ver um ator que expressa a dor ou a força ou o que quer que seja sem que com isso pareça um cantor de ópera acometido por uma gripe;  a “emoção verdadeira”, no teatro, não reside no excesso de expressividade, mas na contenção; quando Lee exige o montante de dinheiro para sepultar Zulmira, todo o seu corpo reverbera o pedido, e faz com que cada um de nós seja tragado para a cena; traídos numa sorveteria qualquer. Exteriormente, nenhum grito. Internamente, todos os gritos do mundo). E não podemos esquecer Marcos de Andrade (uma surpresa das mais agradáveis). Seu Timbira é subversivo. Rouba as situações para si, vai contra o ritmo natural de cada deixa. É aquela velha história: alguns atores causam empatia e outros não. Marcos não só causa empatia geral com sua personagem como desenha com o corpo. É uma interpretação sobretudo calcada no corpo, no gesto. É como ver um desenho do Pica-Pau. Taí: Marcos constrói uma personagem de desenho animado, tamanha a consciência corporal e compreensão do que poderia e deveria ser feito para que a personagem Timbira não fosse eclipsada pelo casal de intérpretes. E com isso não digo que temos um embate ególatra entre eles (apenas sublinho que a personagem Timbira ganha contornos e relevos que o texto não lhe confere). Nesse caso, o mérito é todo de Marcos de Andrade, uma verdadeira animação em espaço realista.

Mas nem por isso é uma “peça de atores”, como andei lendo-ouvindo por aí. Tudo bem que Antunes não dialogue com a videoarte, como diz.  E o mesmo podemos ressaltar acerca das sobreposições, que diz fazer mas não faz. O que também pode ser facilmente estendido aos ruídos, que necessariamente não são ruídos, embora procurem verdadeiramente ser. Todavia, A Falecida Vapt-Vupt está entre as melhores montagens do ano. Isso não é pouco.

Comentários

5 comentários em “A Falecida Vapt-Vupt”

  1. mdv em 09/09/09 - 2:12 am

    difícil dizer como cheguei até aqui. mas gostei e muito, abs mdv
    PS; ah, lembrei que foi pelo A Vida de Tiago A. Naõ sei mais como cheguei a ele, que tb é brilhante, abs M

  2. mdv em 09/09/09 - 2:14 am

    Vcs dois têm me dado indiretamente dicas preciosas de alguns autores, tks mdv

  3. Lucas Mayor em 09/09/09 - 10:11 pm

    Oks. Volte sempre.

  4. Fernado em 29/01/10 - 1:57 am

    Você disse que foi uma das melhores montagens de 2009. No entanto não disse o que o espetáculo tem de diferente que te chama a atenção… O texto inteiro foi só explicando que A falecida Vapt-Vupt não tem nada a ver com videoart

  5. Lucas Mayor em 29/01/10 - 4:30 pm

    De certo quando falo dos atores falo do espetáculo, coisas indissociáveis e tal (embora haja controvérsias). E tratei de falar sobre expedientes outros pra ressaltar que o espetáculo é grande não pelo suposto diálogo com outras artes (que não ocorre mesmo), mas sim pelo apuro técnico tanto das interpretações quanto dos demais elementos a compor a cena. E no mais, é louvável ver um Nelson de dicção tão jovial assim, quase dando pulinhos (Antunes, mais do que ninguém, sabe muito bem como ler-transpor um Nelson; e só por isso, Fernando, já valeria as cinco pilas). E só não assoviei ao final da montagem porque sou sujeitinho reservado e porque mamãe disse que quem assovia em local público “é tudo marginal”.

    Abraços.

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