2x Patrice Chèreau & Hamlet-Máquina
18 setembro, 2009 · Imprimir
Visto 203 vezes, 1 apenas hoje



Le Grand Inquisiteur
Antes de Le Grand Inquisiteur, conhecia Chèreau em razão de A Rainha Margot. Portanto, conhecia apenas o cineasta, e não o encenador (sendo a última sua atividade mais prodigiosa, o que só soube há poucos dias). Chèreau (o próprio, em carne e voz) fez duas apresentações relâmpago em São Paulo (Sesc Consolação), e fui vê-lo como um House persecutório em busca de dados relevantes para a possível cura de sua paciente. A cada inflexão (tratava-se de uma leitura dramática) desse texto brilhante de Dostoiévski (extraído de Os Irmãos Karamazov), as cordas iam sendo habilmente puxadas. Vi um sem-número de leituras dramáticas, mas poucas tão eloqüentes (ou passionais, vá lá) quanto a que propôs Chèreau. De chofre, assim, lembro que no ano passado o Grupo Vertigem fez uma leitura dramática de relevância aproximada, embora não engula aquilo como leitura e tal. Enfim.
Chèreau não é um ator convencional. É um leitor-autor-ator, sobretudo. Lê como se escrevesse, como se estivesse a compor aquilo que diz. Um escritor-encenador que usa o palco para livrar-se de pensamentos impróprios a horas impróprias. Antes de subir ao proscênio, afirmou (num periódico qualquer) que não se tratava de uma leitura simplória, mas de uma leitura adequada ao texto; isto é: da sua visão de como aquilo deveria ser lido-ouvido-compreendido. Os leitores que lá estiveram agradecem, e muito.




La Douleur
Chèreau dirige. Dominique Blanc atua. Marguerite Duras escreve. Repito: Marguerite Duras escreve. Não vou fazer o trabalho de casa pra você não, então, caso nunca tenha lido-assistido Marguerite Duras, pesquise (e rápido). O texto é autobiográfico, retirado de um diário de Marguerite enquanto esta aguardava o marido retornar da guerra. Atemporal e de uma contemporaneidade assustadora, Marguerite fala de uma espera. De sua espera. A guerra, o esvaziamento dos campos de concentração, a estação D”Orsay, tudo isso não passa de distração. O fulcro ali é a espera. É o que torna o texto universal, como afirmou, em entrevista para o Estado, Dominique. Em outras palavras, é uma história de amor. Das mais belas, sim. Por ser incompleta, ainda mais aguda, mais lancinante. No palco: uma mesa e algumas cadeiras. Nada de acompanhamento musical a sugestionar climas e ambiências ou sentidos. Dominique, apenas. Dominique, acima de tudo e todos. É das maiores intérpretes femininas que estes olhos já viram. Acham que exagero?
Pois sim, exagero com razão. O rosto de pedra, a firmeza no dizer e no como dizer, as modulações e intenções nunca acima ou abaixo do ponto exato, e tudo isso soando de maneira natural e com leveza, secura e distanciamento adequados. A personagem sente enquanto a atriz assiste. Frieza? Nada disso. Sobriedade. Repito: SOBRIEDADE. Estivesse Dominique aqui, ao meu lado, enquanto estou à cata das palavras certas para descrever o que senti ao vê-la, beijar-lhe-ia a testa, dir-lhe-ia obrigado e pediria desculpas por um dia eu, um pobre-diabo, ter tido a veleidade de ser ator. Vê-la no palco é como ler Cormac McCarthy e depois sentar-se para escrever. A inocência e a ingenuidade vão embora, e resta aquele medo que estagna ou o respeito que nos afasta daquilo que pensávamos, escondidos em nossos quartos, sermos capazes de desempenhar com facilidade e um certo ar de arrogância. Dominique Blanc tem a capacidade de nos lembrar o quão precários e medíocres somos.




Hamlet-Máquina
Pense em Bergman. Pense em Max Von Sydow. Pense em Tarkovsky. Pense em Beckett. Pense em Shakespeare. Pense.
Pense.
Pense.
Ok, não é pra tanto, mas o búlgaro Dimiter Gotscheff promove um verdadeiro tour de force ao montar esse Heiner Müller pós-pós-pós-teatro-dramático. Dizer que montar Müller é das empreitadas mais árduas seria o mesmo que dizer que Shakespeare é um gênio. Redundância por redundância, prefiro redundar e reafirmar a hermeticidade em dar corpo a esse Hamlet-Máquina.
Pois não é, provou Gotscheff numa quinta-feira intransitável.
Em tom de galhofa, Gero Camilo surge, tal como um bobo da corte ou um mestre-de-cerimônias em registro afetado. Não se intimida, dá a cara e usa texto de sua lavra em diálogo zombeteiro com uma dramaturgia sarcástica e apocalíptica, reconhecida nos quatro (ou cinco, seis, não sei bem) cantos do planeta. Sai Gero, não sem antes mascar repetidas vezes seu chiclete, e entra Gotscheff. Pense num filme sueco mudo (não é necessário ressaltar a melancolia presentes nesses filmes, certo? Certo). Pense num encontro entre um Max Von Sydow saído de O Sétimo Selo e o escritor do filme Stalker. É desse mundo que foge Hamlet-Gotscheff-Müller. Foge pra pensar e pra agir. E age? Nada. Só faz pensar. É um Hamlet da inércia, da inação (não que o outro não o seja, de certa maneira). Enquanto Ofélia-Cohen é toda volúpia e altivez. É uma montagem corajosa, feita por um trio de ases. O público, desavisado, esperava uma historinha início-desenvolvimento-clímax-desfecho, e saiu batendo o pé e vociferando. Esperavam uma interpretação-com-sentido (mamãozinho amassadinho na boquinha, sabe?) búlgara de algo que eles leram e não entenderam.
E se disser que nem o próprio Müller tem o segredo da combinação, será que os filisteus aceitam?
Tampouco. Tampouco.







Comentários
Faça seu comentário