Cloaca

31 agosto, 2009

clo

★★☆☆☆  Cloaca

Seguinte, ó: fui ao Teatro Nair Belo (muito bom, por sinal) pra ver Cloaca, nova montagem do Grupo Tapa. Aqui, cá entre nós (chega mais perto): o Tolentino tem todo o direito de, ao adentrar o panteão do TEATRO BRASILEIRO, se render ao establishment, mas seria bom que ele tivesse publicado antes uma carta aberta, para avisar o público cativo dele (eu merecia ao menos um e-mail, Tolentino!). Cloaca é TEATRÃO. Isso é necessariamente ruim?

Não. Mas se soubesse que teria de sair de casa depois das 20h (algo que não costumo e muito menos gosto de fazer), pagar um preço que eu não pago pra ver teatro no geral, e ter de ouvir duas senhoras, durante todo o espetáculo, comparando as ações do palco às suas vidinhas íntimas, e palpitando sobre a construção das personagens, como se estivessem na varanda de suas moradias com pé direito num fim de tarde de verão, eu teria continuado aqui, lendo Richard Price e tomando Coca-Cola.

Não que o texto de Maria Goos seja fraco, nada disso. É como estar diante de uma novela do Manoel Carlos. As novelas do Maneco não são ruins, RUINS, só não me interessam. E eu até acho (de coração) que o texto seja melhor do que a leitura que o Tolentino fez dele. Não que o Tolentino não saiba ler, pelo contrário. Leu e foi concessivo. É teatro pra gente que sequer sabe o título da peça depois de pisar na rua, ele pensou. Mais: então, pensou ele, ao fazer esses babacas soltarem uns risinhos aqui e ali, coloco o essencial (o ESSENCIAL, sim, por que não? Não vale rir, ok), aquilo que realmente me motivou a montar esse texto. É teatro pra gente que depois vai pra pizzaria e quer falar de tudo, menos do que acabou de ver, então preciso meio que entrar no jogo deles e depois lançar umas bofetadas críticas na cara gorda deles, ele pensou. Essa gente (perdoem minha falta de modos) não vai dar valor para o que a Maria Goos quer discutir, eu pensei, e o Tolentino pensou o mesmo. Porque a Goos pontua umas coisas bem bacanas (notem bem: pontua, tal como o Maneco, nada de aprofundamento ou comparações com Shakespeare, como andaram dizendo por aí; embora George Steiner, o crítico dos críticos, só para espezinhar, disse que se Shakespeare estivesse vivo, estaria às voltas com as sitcoms etc.), mas que acabam diluídas em meio a uma busca desesperada pelo riso. O riso ali, penso baixinho, de um eu prum eu mesmo, deveria estar a serviço da dramaturgia, e não a dramaturgia a serviço do riso. Presumo, melhor, afirmo, que essa fosse a intenção de Goos. Alguém deveria dizer isso ao Tolentino. E rápido.

Adendo desnecessário: os atores merecem aplausos mais do que calorosos.

taí, fodeu.

29 agosto, 2009

Papai diz que até os 27 anos você tem de escolher o que fazer da vida, do contrário a vida escolhe pra você. E quando ela escolhe pra você (a vida e tal), continua papai, ah, filho, fodeu. É, papai, fodeu. Porque a gente sabe (lá no fundo) o que vai ser de nós se olharmos um pouquinho para os nossos pais. Mamãe, agora há pouco, enquanto eu preparava um copo de leite com bastante açúcar, gemia na sala. Imaginei o pior. Subitamente fui ao seu encontro. No sofá, em posição fetal, e com esgares faciais de causar inveja a Stallone-Balboa, mamãe entoava, em tom monocórdio, uma prece. Fiquei a observar atentamente. Não queria despertá-la do transe no qual se encontrava. Um tipo singular de sonambulismo, pensei. Nada disso. O tom, antes linear e sem sobressaltos, agora ganhava contornos trágicos e operísticos. Um barítono passional na sala de minha casa. Aos poucos, mas ainda conservando o algo ritualístico nos gestos, mamãe percebe a minha presença. O olhar de Virgem Maria a sentenciar minha vida desregrada. Na tela do televisor, Edir Macedo. Mamãe, até semanada passada, e até onde lembro, era católica. Agora estava ela ali, quase um pastiche de si mesmo. Pensei em como as pessoas podem ser sugestionáveis em momentos-limite. A falta de resposta absoluta nos faz acreditar na implausibilidade de Deus. Mamãe, já renascida, pergunta: Você ainda insiste em não acreditar?. Eu sorrio, um sorriso que diz o que não fui capaz de dizer. Ela sabe o que e como sou. Ao fundo, Edir. À frente, mamãe. Ao lado, papai e seu sarcasmo indefectível perguntando se eu já havia assinalado a escolha definitiva.

Taí, fodeu.

lembrei-me dessa resposta do Raduan hoje, enquanto desejava silenciosamente um travesseiro e uma cama. a vida pode ser mais simples do que parece.

27 agosto, 2009

Veja – O que o senhor gosta de fazer nas horas vagas?

Nassar – Gostar, gostar para valer, eu gosto mesmo é de dormir. Dormir é a melhor coisa deste mundo. Nem leitura, nem diversão, nem uma boa mesa, nada se compara. Sexo então é fichinha perto. É um momento de magia quando você, só cansaço, cansaço da pesada, deita o seu corpo e a sua cabeça numa cama e num travesseiro. Ensaio, prosa, poesia, modernidade, tudo isso vai para o brejo quando você escorrega gostosamente da vigília para o sono. É o nirvana!

Enfim um longa

26 agosto, 2009

Pelo teaser, parece promissor. Espero que além da bela fotografia (o câncer do cinema brasileiro recente) exista realmente um filme aqui.

Lendo crônicas, pois

25 agosto, 2009

Leio crônicas. Diariamente. É um vício. Na mesa de cabeceira, um livro de Coutinho. Coutinho é o maior cronista a escrever por estas bandas. Sei do que falo. Leio todos os cronistas, Folha e Estado e demais periódicos. Repito:  João Pereira Coutinho é o maior cronista a escrever em nossa imprensa. Av. Paulista é uma coletânea de suas melhores crônicas lançadas na Folha de S. Paulo e na Folha Online. Não só recomendo veementemente a leitura como receito como antídoto à mediocridade reinante que domina os escritos neutros e imparciais. Um bom escrito é parcial. Coutinho é parcial.  Nada de auto-ajuda, nada de afagos e acenos. Coutinho bate antes e depois.

Eis um pitaco:

Botton não é Montaigne, e eu não enlouqueci completamente. Mas Botton aprendeu com Montaigne a lição essencial: aprender a viver é a única preocupação de uma mente civilizada. A nossa inteligência vale o que vale a nossa vida.

Negritei para você a parte relevante. Não precisa agradecer.

Enquanto palitava os dentes, hoje pela manhã, na sala dos professores, lembrei-me dessa outra passagem (logo baixo), que de certa maneira (de todas as maneiras) me traduz. Uma boa crônica é capaz disso, às vezes.

Pergunto às vezes se vale a pena sair de casa. Pergunta retórica, claro. Eu sei que não vale. Mas então cedo, por motivos sentimentais: uma amiga exige “vida social” e eu, com ânimo de cão, compareço a uma festa qualquer, povoada por dezenas de estranhos que exibem uma alegria efusiva que me deprime terrivelmente.

E ele continua. Eu paro por aqui. Leio Coutinho sorrindo, sempre. Ele não nos ensina a viver melhor (que bom), mas nos faz sorrir. E pensar.

Onde investir R$ 264,80?

24 agosto, 2009

Aqui e aqui.

Sing for me

23 agosto, 2009

Estou ouvindo algumas coisas por conta de outras coisas, e no geral tudo soa insípido. Sei muito bem que deveria dar mais tempo para algumas músicas e bandas, assim, quem sabe, algo pudesse me tocar pra valer e tal.

Pois é, pois é.

Ouvi tudo que pude do Fiery Furnaces, e Sing for me ficou por aqui, ruminando. Sei que não há nada de especial na música, mas sei lá.

Revisão

22 agosto, 2009

Revi Two Lovers na noite passada, e o filme continua todo ali, de pé. Agora há pouco revi Se Nada Mais der Certo, e a revisão só confirma o que disse aqui quando no primeiro contato com esse belo filme do Belmonte.

tá.

18 agosto, 2009

Jaq e Rafa, sentadas em posição de flor de lótus:

- (Séria e levantando uma das sobrancelhas) Filha, a gente precisa conversar.

- (De maneira displicente) Ahãn…

- Conversar, entendeu?

- Sim.

- Amanhã nada de discussão pela manhã, tá?

- Tá.

- Eu disse nada, nadinha mesmo.

- Tá. Agora vai lá fazer minha mamadeira, tá.

- Tá.

A Rafa cai no sono. A Jaq fica pela sala, pensativa.

- Qual o problema, Jaq?

- A Rafa ontem tava assistindo Café Filosófico, acredita?

- Que bacana, né?

- Ela só tem dois anos e meio.

- E daí?

- (Colérica) Ela não entende nada daquilo. Eu não entendo nada daquilo. Você também não entende nada daquilo…

- Hum…

- Dia desses ela falou que tava se sentindo sufocada…

- Deve ter engasgado.

- Não, ela falou num sentido existencial mesmo, sabe?

- Sei.

- E agora, quando a reprimo, ela é lacônica. Deve ter aprendido isso com você, sei lá.

- É.

- Eu vou ali fumar que eu tô precisando, tá.

- Tá.

A Inveja dos Anjos

15 agosto, 2009

inveja 1

★★★☆☆ A Inveja dos Anjos

Aprendi há algum tempo que alta expectativa não dá pé. Não mesmo. Alimentado pelo coro das críticas elogiosas, e por comentários hiperbólicos (super!, incrível!, um verdadeiro tour de force!) de pessoas que admiro, fui ver a montagem como quem vai à casa de um amigo de longa data e espera ser recebido com a mesma efusiva alegria dos tempos de outrora.

Resultado: o amigo envelheceu. Ou então vocês ficaram distantes durante tanto tempo que o algo que os unia não mais os une. Sei lá. É uma situação estranha, desconfortável, incômoda mesmo. E essa mesma sensação foi vivenciada semana passada, enquanto acompanhava mais um espetáculo do Armazém Companhia de Teatro.

Saí insatisfeito (não tanto pelo resultado do que vi) e temeroso. Os críticos todos amaram e tal, e o mesmo pode ser dito dos seus amigos,  e dos amigos dos seus amigos, então ou você é um imbecil contumaz ou o restante o é.

Aposto na primeira opção e sigo em frente, treinando o olhar e o coração, que anda descompassado e mais gelado do que um frigorífico abandonado. Piegas demais, certo?

Certo. A Inveja dos Anjos é tão piegas (no bom sentido) quanto. Daí meu senão inicial. Daí minha limitação (e aversão) pessoal. Daí que assumir esse caráter piegas talvez seja o acerto da peça, e eu gostando ou não é impossível não ser enredado por aqueles trilhos e por aquela trilha sonora. E daí também que o teor confessional da dramaturgia aproxima o público e o faz um leitor-criador. Disse leitor?

Certamente. A estrutura deve muito ao cinema e a literatura, justapondo quadros-planos-capítulos. A Inveja dos Anjos aposta alto na imaginação, na necessidade irrevogável de contar e ouvir e vivenciar histórias, e se você não estiver disposto a embarcar no trem, não compre o bilhete.

Adendo desnecessário: por acreditar que a montagem seria maior (mais ambiciosa, sabe como é?), menos simplória (e olha que prefiro coisas menores, mais simples e tal) e mais inusitada, tanto do ponto de vista estético quanto interpretativo e textual, fiquei a admirar a paisagem mais do que a ser transportado para dentro dela. É coisa minha, não fique preocupado. Esperar algo a mais de algo muito bom é capricho de menino mimado e que perdeu a chupeta.

Vai lá ver, vai.

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