O amor segundo B. Schianberg

5 julho, 2009 · Imprimir

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Oi. É o seguinte: sintonize às 22h na TV Cultura (nos três próximos domingos, faça o mesmo).  A TV Cultura tem um projeto para revitalizar (palavra horrível) a dramaturgia televisiva. Há dois anos, aos domingos, eles vêm tentando. Ainda não houve nada realmente inovador (outra palavrinha horrível), ou artístico, ou mesmo empolgante nesses dois anos. Mas, como disse, eles vêm tentando. Pensei em falar de uma ou outra minissérie em particular, mas declinei ao rememorar o quão ruim foram essas tentativas de revitalizar a linguagem televisiva.

Enfim.

Depois de acompanhar Além do horizonte (Satyros), decidi: vendo a tevê na próxima semana. Não consegui comprador. Minha tevê é de tubo, 21 polegadas, chia em dias ímpares e, por vezes, fica em fade out durante minutos. Um artefato de museu, pois. Agora, dedo no controle remoto, sorrio. O motivo? Beto Brant.

Não conhece. Sei muito bem como é isso. Não vou mastigar pra você, mas leia isso aqui e então vai ter uma vaga dimensão de quem é o sujeito de que vos falo.

Leu? Ok, prossigamos. Ah, antes assista esse “debate”. Tape os ouvidos quando o crítico de televisão (um filisteu aprumado) abrir a boca, e foque apenas no que disser Beto Brant e Marçal Aquino.

A empreitada, segundo o próprio Brant, é uma coisa híbrida entre televisão, cinema e videoarte. Nada de reality show, como o crítico de televisão (outro) da Folha de S.Paulo enquadrou (eles, os críticos, quando diante de algo novo, e por não se sentirem a par dos mecanismos apresentados nesse objeto, procuram uma gavetinha capaz de dar conta do que eles, os críticos, não conseguiram dar). Graças a esse mesmo crítico da Folha, meu ânimo, que não era pouco, aumentou de maneira estratosférica (se um crítico desanca algo, avidamente trato de ver esse algo). Um pitaco do que o ilustre crítico falou:

Por não ter roteiro nem as intrigas plantadas que o diretor Beto Brant vê nos reality shows, O Amor Segundo B. Schianberg apresenta momentos sonolentos, chatos, com closes em formigas, papos-cabeça, longos minutos de jogos de cartas. Tudo isso apenas com o barulho de carros, buzinas, cães e pássaros ao fundo.

Ainda bem que o crítico não frequenta mostras de cinema. Já imaginou se tivesse de resenhar um filme de Manoel de Oliveira, ou mesmo de Pedro Costa e Lisandro Alonso? Acho que ele diria: Eles filmam o chão e o vento, e deixam a câmera estática… e nada acontece. Realmente, nada acontece. O que ele quer dizer, suponho, é que ninguém sai voando pelos ares, e não há explosões ou carros desgovernados em vias públicas. Realmente, não há.

Deixemos o crítico em paz.

E o que faz Beto Brant aqui, além de observar? Beto Brant edita. E faz intervenções. E só. Ele (Schianberg) instalou oito câmeras “robotizadas” num apartamento, e colocou Gustavo Machado e Marina Previato numa espécie de semiconfinamento. Não há roteiro, apenas uma sinopse (extraí a sinopse da Folha): Benjamin Schianberg, psicanalista e professor universitário, convence a própria filha a seduzir um rapaz e levá-lo para um apartamento, onde será observado como um objeto de estudo.

A minissérie é baseada numa personagem (Benjamin Schianberg) do livro Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. O livro é uma pérola. De uma sensibilidade e ironia rasgadas (li o livro há mais de três anos, então não me peça para ser didático). Ainda hoje sorrio quando me lembro do Careca, um sujeitinho que esperou o amor da sua vida como quem espera um ônibus que mudou o seu itinerário. Além da minissérie, a obra já rendeu uma montagem (Amor de Servidão; ótima, por sinal) e um filme (em breve, calma lá), dirigido pelo mesmo Beto Brant, parceiro e amigo de Marçal Aquino.

Ao fim e ao cabo, digo: não sei muito bem se vou gostar ou não do resultado (e isso importa pouco), mas acho estimulante o conceito, e isso já é deveras um passo mais largo do que as demais propostas gestadas nesse mesmo projeto intitulado Direções.

Comentários

11 comentários em “O amor segundo B. Schianberg”

  1. CAMILA em 07/07/09 - 12:06 am

    À partir deste “filminho” pude perceber o amor em uma forma bem mais simples do que imaginava ! sim sempre soube que o amor era algo bem mais complexo , mas isto apenas dependia da propria pessoa que o estava , compartilhando . pois bem , digo que o amor é algo que nós mesmos vamos o “repassar” ou seja nós mesmos o sentimos , cada um em tua forma !

    agradeço e ao mesmo tempo elogio , pois esta foi uma criação muito fantastica e criativa …

  2. Lucas Mayor em 07/07/09 - 12:25 am

    Oi, Camila.

  3. Marco em 07/07/09 - 3:22 pm

    Não entendo tanta crítica. Nu frontal, palavrões são vistos diariamente na televisão e ninguém diz nada. Acredito que esse projeto é uma revolução na dramaturgia brasileira.

  4. Lucas Mayor em 07/07/09 - 5:08 pm

    Crítica da parte do Daniel Castro, né, Marco? Da maneira que você colocou, parece que eu é que tenho alguns senãos em relação à obra, o que não é verdade. Também acredito que esse projeto seja inovador dentro de ambiente tão desprovido de imaginação e autocrítica.

    Abraços.

  5. Camila em 15/07/09 - 2:44 am

    olá Lucas , já que tu estas tão informado assim meu caro , me diga , perdi o segundo programa , e pelo que sei é apenas 3 (certo?) então tu sabe onde consigo , ve-los ? beijos grata !

  6. Lucas Mayor em 15/07/09 - 3:01 am

    Olá. 4 episódios, no total. A reprise ocorre na virada de quarta para quinta, 00h10.

    Beijos.

  7. jeferson em 15/07/09 - 8:05 pm

    os dialogos sao muito particulares, trazem uma condição tão proxima da realidade que parece estarmos na historia, muito interessante….na questao do nudismo acho td muito bem feito e de bom gosto sem aviltar a linguagem metodica do autor….

  8. mauricio em 17/07/09 - 12:38 am

    Gostei muito! a interpretação dos atores foi muito real…

  9. beto brant em 30/07/09 - 1:31 am

    valeu Lucas, obrigado por sua apreciação. Da mesma maneira que você acompanhou os episódios, fiquei a espera dos seus posts. Foi uma curtição ter feito essa viagem. Abraços a todos que se ligaram nela.

  10. Lucas Mayor em 30/07/09 - 5:05 pm

    Baita alegria ouvir isso de você. Parabéns pela minissérie.

    Abraços.

  11. Patrícia em 01/08/09 - 3:40 am

    Li a crítica na folha e tbm senti um veneninho. Assisti o primeiro capítulo no site da tv cultura. Gostei dos diálogos, da luz, do cenário e dos atores. Como não gosto de nada mastigado, aprendi que o melhor sempre está nas entrelinhas.

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