Do direito à infelicidade
3 julho, 2009 · Imprimir
Visto 203 vezes, 1 apenas hojeUma amiga, semanas atrás, disse que eu era infeliz. Você é um sujeito infeliz, é isso! (com ar exclamativo mesmo), e soltou um risinho leve, quase imperceptível. Eu quis parecer mais forte do que sou, e revidei: Não sou infeliz, apenas menos empolgado, menos alienável diante da possibilidade ínfima do que você, inadvertidamente, chama de felicidade (acredito que não usei alienável, embora quisesse, e por isso uso aqui).
Você é um sujeito infeliz, é isso. A frase e o risinho continuam aqui, ao meu lado, enquanto bebo a quarta caneca de chá com canela. Ela tem razão. Sou infeliz. De uma maneira deliciosamente agradável, admito. Alguns não sabem lidar muito bem com a infelicidade. Eu sei. Ou melhor: estou aprendendo. A cada dia sinto que tudo mais pode ruir, mas continuo inabalável. Os infelizes são os sujeitinhos mais refratários do mundo perante às desilusões. Praticantes inveterados do estoicismo. Pugilistas sem fama em fim de carreira.
(Pensei em mais duas sentenças-imagem capazes de iluminar e dar conta de sujeitos infelizes, mas paro por aqui, sobretudo porque quero que você exercite sua imaginação e desenvolva outros seres melancólicos.)
Aprendi a lidar com o não e com o nunca. É mais fácil estar por baixo do que por cima, afinal ninguém está disposto a cair. Estar por baixo é estar seguro (alguns dirão covardia; outros, menos apressados, dirão que é cautela excessiva; eu, num ato de reflexão ligeira, digo que é inaptidão para a combatividade). Prefiro permanecer na dita área de conforto (a visão daqui é panorâmica, pode ter certeza). É assim que eu vivo (ou desvivo, como quiserem). Não é a única forma de se manter respirando, mas é a que escolhi. E por isso tenho de pedir desculpas diárias aos ditos sujeitos felizes (riso entrecortado).
Quando percebem que você está no extremo oposto, querem convertê-lo: seja feliz!, sorria!, basta um abraço!, pense positivo! etc. etc. etc. e mais algumas coisinhas de igual irrelevância e peso. Foda-se (deguste essa palavra) o cartão de visitas encimando em letras garrafais que a vida só tem sentido se você buscar a felicidade. Não quero buscar absolutamente (segmente essa palavra) nada. Nada (por favor, soletre). E com isso não quero dizer que só os infelizes é que são verdadeiramente felizes. Não. Quero dizer que os infelizes, como todo o resto, têm direito à infelicidade.
É isso aí, amiga. É isso aí.




Lavou minha alma.
“proponho já de minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor”
Dostoiévski, F. “Memórias do subsolo”