Anatomia Frozen
1 julho, 2009 · Imprimir
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Anatomia Frozen
Não conhecem Bryony Lavery? Pois é. Eu, há pouco mais de uma semana, também não conhecia. Desliguei a tevê (mas não sem antes rir um bocado do reality da Record), não coloquei as meias e fui cantarolando daqui até o Teatro Imprensa (pensei no Sílvio Santos assistindo Anatomia Frozen, e ri mais um bocado). Estava a fim de dar uma olhada em Joca Andreazza e Paulo Marcello. Sabia que eram bons atores, mas não esperava aquilo. Mas vamos, por ora, nos ater a Bryony, ok?
Bryony é dramaturga inglesa, e Frozen é seu texto mais premiado. Traduzido por Rachel Ripani, e tendo como encenador Márcio Aurélio, que, sabiamente, apenas descortinou Frozen e disse agora prestem atenção nesse trio (de vozes e personagens, e não de atores, que fique claro), ouçam atentamente (!) cada palavra. Não tivesse um encenador cônscio como Aurelio, talvez o texto ficasse escamoteado por trás de adereços banais e pouco funcionais. Isso não ocorre. O espaço é clean, e os atores são mais importantes do que a iluminação (embora isso devesse ser algo natural, os atores serem mais importantes do que iluminação e etc., não é dessa maneira que as coisas ocorrem no dito teatro REAL). E toda a lógica da peça funciona como se estivéssemos diante de blocos textuais enormes, monólogos apartados e que, aos poucos, vão ganhando corpo dentro de um único e notável conjunto.
O enredo é áspero: violência contra crianças. Um psiquiatra, uma mãe vitimizada e um assassino. A corda vai sendo puxada lentamente e sem muito alarde. Bryony me deixou impressionado não por transitar em tema reconhecido como intratável, mas por lidar com o assunto sem golpes baixos ou apelos melodramáticos. É tudo dito de maneira direta e nada artificiosa, e o impacto do relato adquire densidade sobretudo pela forma.
A certa altura, estamos ali, tateando as palavras. Em seguida já estamos imersos, tomados pela dramaturgia refinada e crua de Lavery e a presença luminosa de Andreazza e Marcello.
Sílvio Santos sequer deve saber quem é Márcio Aurélio ou Bryony Lavery ou Joca Andreazza e Paulo Marcello, mas o teatro do homem do baú está desenvolvendo um “projeto experimental”, com renda convertida em ações sociais. Anatomia Frozen faz parte desse projeto intitulado Vitrine Cultural. Basta levar uma lata de leite em pó e ganhar um assento do “tipo duro”. Depois da peça, voltei ao supermercado e comprei mais três latas, afinal há outras três montagens da Vitrine Cultural que ainda não vi. Bryony ainda está comigo.





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