Don’t answer, ok
30 julho, 2009
A vida é uma fila de banco. Alguns desistem no meio. Outros já de largada. Outros, ainda, observam durante um bom tempo, e ficam por ali, nem na fila nem fora dela. Os tipos mais estranhos e mais comuns; os mais abastados e os nem tanto; alguns feios, outros belos; mulheres altas e anões; dedos dos pés sem acabamento, rostos disformes, trajes socias e chinelos havaianas.
Uma fila de banco é um mundo. Penso que algumas pessoas precisam de filas de banco como eu preciso estar completamente sozinho vez por outra. Não é normal deparar-se com as mesmas pessoas todos os dias, quase sempre nos mesmos lugares que você as viu no dia anterior. As mesmas roupas do dia anterior. As mesmas e mesmas e mesmas conversas do dia anterior.
Filas de banco são como despedidas de amigos. Estarão todos, sem exceção, lembrando o que foram ou o que poderiam ter sido, mas nunca o que são.
Uma fila de banco é uma doença terminal. Nunca temos a medida exata do fim da dor. E como doem as filas de banco com senhoras obesas usando blusas de cetim. Obesas não deveriam usar blusinhas de cetim. Mamãe tem razão: poucas pessoas sabem realmente o limite entre o público e o privado. Não me contem suas fantasias e desejos, eles não me interessam. Prefiro observar o aspirante a gerente boa-pinta que causa frisson nas meninas que vendem títulos de capitalização. Ele, sim, tem um objetivo ali: a gerência. Acompanhar tipos desse é um dos meus esportes favoritos. O poder que eles exercem nos demais. Ah, o poder. O poder é maior do que o dinheiro ou um rosto de medidas perfeitas.
Enfim.
Onde poderia participar silenciosamente de uma briga entre um casal com direito a topless senão numa fila de banco?
Não responda. Pense.
Nada de terapeutas me dizendo como devo direcionar meus impulsos. A dona Clotilde, 85 anos, aposentada, é o Buda. Quem precisa de terapeutas quando tem à disposição a dona Clotilde falando coisas como Não se iluda com algo tão abstrato quanto o amor. Acredite na morte, meu filho, alerta dona Clotilde, dando ênfase às palavras morte e amor.
A dona Clotilde, dia sim, dia não, estaciona seu Fiat 147 na esquina paralela ao banco.
Acredite na morte, meu filho, essa sim é palpável e vista no espelho (pigarreia), o amor não, o amor não, diz dona Clotilde enquanto conta as moedinhas amealhadas no decorrer do mês.
E agora lhes pergunto: onde encontrar tamanha parcela de humanidade e sabedoria popular senão em filas de banco?
Não responda. Pense.
A histeria da representação (ou, numa mera inversão de termos, a representação da histeria)
28 julho, 2009
Leia com atenção, ok:
A histeria é a própria forma do amor, de uma exigência de amor fundamental e excessivo.
Ok até aí? Ok.
Como reagir diante da possível simulação da histérica? Como frustrar essa teatralização do corpo? Pois simulação não é sinônimo de falsidade. O fato de a cena ser super-representada não significa que o problema não seja real, muito pelo contrário. É que a própria histérica não sabe, com clareza, até que ponto simula. Daí a diferença entre teatro e histeria, e a confusão de Myrtle Gordon em Opening Night… Myrtle, como atriz, deverá poder, pela graça da representação, colocar seu afeto (no duplo sentido do termo) à distância, fazendo a distinção entre o real e o imaginário.
Calma, estou chegando ao ponto certo. Calma.
É a função terapêutica do teatro – mas, quando representada todo o tempo, na vida como no palco, ou não mais representada, de sorte que qualquer divisão entre a histeria e o teatro é impossível. Ela perde a consciência de que a representação é representação, e é isto que constitui sua própria histeria.
Para que não pairem dúvidas no ar, repito: Ela perde a consciência de que a representação é representação, e é isto que constitui sua própria histeria.
Todos os filmes de Cassavetes, em menor ou maior grau, são marcados pela histeria da representação, ou a representação da histeria. Em outras palavras, ocorre um curto-circuito. Não é representação tão-somente (como nunca é mesmo, sabemos bem disso), e não é a realidade tampouco. E o que é isso, então?
Thierry Jousse dá o nome de histeria. Eu penso, sobretudo, em Artaud. Eu penso em coisas que vi ou li ou vivi. A matéria essencial do teatro é a vida. E isso mais do que um lugar-comum, encerra uma verdade absoluta. O teatro não suplanta a vida, mas a recria.
* As citações foram retiradas do livro John Cassavetes, de Thierry Jousse.
Não riam de mim #2
27 julho, 2009
Era garoto. 12, 13 anos. JCVD era Deus pra mim. Maior do que Deus, pra ser sincero. Eu e meus irmãos lutávamos na varanda de casa. Cada um era um ator daquela geração. Eu sempre fui JCVD. Além do balé dos movimentos sinuosos e circulares, achava-o de uma beleza sem pares no mundo. Ainda hoje acho JCVD simpático. Sim, simpático.
Confesso, com certa vergonha, que emulávamos, quinzenalmente, cenas de filmes que nos eram caros à época. Entre os filmes, alguns ganhavam contornos mais míticos, digamos assim. Bloodsport era um deles. Eu: Frank Dux. Era treinado por um shidoshi. Obrigado a mostrar, repetidas vezes, o toque da morte, sentia-me um garoto diferenciado. Parêntesis: o toque da morte consistia em destruir tijolos utilizando apenas a lateral de uma das mãos. Fecha parêntesis. Numa dessas tentativas, perdi o movimento da mão direita por uma semana. Antes que comece a gargalhar, eis a cena que recriávamos (a critério de ilustração: eu usava regata preta, como a que JCVD veste no filme; note o efeito sonoro disparado a 1 minuto e 40 segundos, algo que me fazia entrar em transe, e que hoje é tão kitsch e ingênuo que me deixa cabisbaixo e pensativo quanto ao rumo que dei a minha fase iniciática; todos já fomos crianças um dia, ok; a dublagem é top five):
O amor segundo B.Schianberg #5 (epílogo)
26 julho, 2009
Os dois últimos episódios só confirmam o que disse anteriormente. É um avanço diante de tanta idiotia televisiva. Isso quer dizer que a minissérie é impecável, uma obra-prima e essas coisas? Não. Longe de ser uma obra irretocável, há muito a ser discutido. Os prós e os contras e os alguma coisa.
Há no último capítulo (na segunda metade) uma complacência e um sentido de arte que não me agradam. Um tipo de hermetismo que não sai do lugar. Uma certa simbologia que não quer dizer absolutamente nada. Os “exercícios de videoarte” de Marina Previato formam o que se pode chamar de Os piores momentos do O amor segundo B. Schianberg.
Enfim.
O que fica? Sobretudo os momentos de inação e o tão fugidio conceito de representação, não-representação, autoficção e metalinguagem. Não só os conceitos, obviamente. Ficam aqueles lances onde você se questiona se os limites fronteiriços entre a realidade e a ficção ainda são barreiras nítidas ou tão-somente caminhos que se interseccionam.
É mais do que estamos habituados a receber, pois.
he knew what he didn’t want.
25 julho, 2009
Estou perdendo tempo. Não que eu vá desenvolver/fazer/criar algo genial nos próximos anos ou meses que se seguem, mas estou perdendo tempo. As férias (as minhas, claro) estão chegando ao fim. Até o dia 26/07 estarei a deambular do banheiro para o quarto e do quarto para a geladeira, e depois, novamente, estarei no sofá, moído pelo tédio (um tédio muito bem administrado, vale dizer) e rodeado por canecas de chá e filmes e livros e um sem-número de coisinhas sem nome, às quais costumo chamar de sensações e/ou sentimentos paradoxais. Mas falemos de coisas boas, ok.
Sinto que estas férias foram melhores. Maiores, se é que você me entende. Noto as bochechas corarem ao dizer isso, mas digo: dei início a alguns planos. Não fique curioso e nem seja indelicado ao ponto de inflar minha caixa de comentários com perguntas do tipo quais planos?, conta, vai. Não seja indelicado.
Por ora, repito: dei início a alguns planos. Não, não pensei em suicídio filmado e transmitido live na rede. Sou sujeitinho prosaico, e meus planos não poderiam ser diferentes. E o suicídio é por demais grandioso para pessoas assim, como eu, reticentes.
Enfim.
Não fazia planos e abominava pessoas que elencassem coisas para serem feitas antes do fim do mundo, ou da sua morte, ou o que vier primeiro. Mas mudei. Tornei-me aquilo que fazia questão de ridicularizar quando ao lado de amigos que entendiam e aceitavam e agiam de forma parecida. Tornei-me um coisas para serem feitas antes de.
Afixei uma lista no quarto que, inapropriadamente, chamo de videoteca-escritório-biblioteca. E lá permaneço, contemplando a lista. Filmes, livros, músicas, lugares, coisas e mais coisas para serem feitas em tais dias e horários rígidos. Prioridades e mais prioridades. Aquilo que costumo chamar de conjunto essencial e significativo. Afinal, a pergunta definitiva que recai sobre mim (e por extensão sobre você, quando ao tomar uma ducha quente e demorada) é sempre a mesma: o que é realmente relevante para você? Quais são as suas escolhas? O que irá fazer do resto de sua vida?
Dúvidas e mais dúvidas.
Parafraseando Cristina (personagem de Vicky Cristina Barcelona), reforço minhas convicções atuais: sei muito bem o que não quero. Mais uma vez: sei muito bem o que não quero. Isso pode parecer simples. Não é. Saber o que não quer significa ter percorrido metade do caminho.
Já o que quero é uma outra história.
Os 11 melhores filmes de 2009 (1º semestre)
23 julho, 2009
(Foto: Vocês, os Vivos, de Roy Anderson)
1. A Bela Junie, de Christophe Honoré
2. Entre os Muros Da Escola, Laurent Cantet
3. O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme
4. Gran Torino, de Clint Eastwood
5. Horas de Verão, de Olivier Assayas
6. Vocês, Os Vivos, de Roy Andersson
7. Desejo e Perigo, de Ang Lee
8. Loki – Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle
9. O Lutador, de Darren Aronofsky
10. Valsa com Bashir, de Ari Folman
11. A Erva do Rato, de Júlio Bressane
Contemplados apenas os filmes que fizeram parte do circuito convencional. Caso contrário, a lista seria muito diferente.
P.S: O filme Vocês, os Vivos já fez parte de outra lista de melhores de 2008, mas como só entrou no circuito no primeiro semestre de 2009, faz parte também desta lista.
As 11 maiores peças teatrais de 2009 (1º semestre)
21 julho, 2009
(Foto: Réquiem)
1. A Última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras I
2. Ele Precisa Começar
3. Thom Pain – Lady Grey
4. Viver sem Tempos Mortos
5. Avenida Dropsie
6. Prêt-à-Porter Cult nº1
7. Réquiem
8. Doido
9. Anatomia Frozen
10. Agreste
11. Comunicação a uma Academia
P.S.: Não há ordem classificatória nesta e nas demais listas que faço aqui no blog, portanto o número 1 equivale ao número 11 e vice-versa. Possivelmente esqueci algumas encenações, o que torna esta lista in progress.
Não quero que aquilo que gosto em você mude: ou Da necessidade de partir
18 julho, 2009
- O que está fazendo aqui?
- Bem, eu corri. Eu tentei ligar, mas estava ocupado. Eu sabia que seriam duas horas… Não consegui um táxi, então, eu corri. Para onde está indo?
- Londres.
- Vai para Londres agora? Como assim? Se eu chegasse dois minutos depois, você estaria indo para Londres? Bem, vou direto ao assunto. Eu não acho que deve ir. Acho que cometi um erro. Eu preferiria que você não fosse. É verdade. Sei que parece ruim, mas… Você está saindo com alguém? Está namorando alguém? Você ainda me ama ou já passou?
- Meu Deus! Você aparece… não me liga e de repente aparece. O que aconteceu com a mulher que conheceu?
- Estou dizendo… não estou mais com ela. Eu me enganei. O que quer que eu diga? Acho que não deve ir para Londres.
- Eu tenho de ir. Tudo já está planejado. Meus pais estão lá agora, procurando um lugar para eu morar.
- Você ainda me ama ou o quê?
- Você me ama?
- Sim, é o que eu… Sim, claro. Por isso estou aqui.
- Adivinhe o quê? Fiz 18 anos outro dia. Já sou legal, mas ainda sou nova.
- Não é tão nova. Tem 18 anos de idade. Eles podem alistar você. Em alguns países você seria… Você está bem?
- Você me machucou.
- Não foi de propósito. Foi apenas a maneira como enxerguei as coisas na época.
- Eu voltarei em seis meses.
- Seis meses? Está brincando? Você vai ficar seis meses?
- Já chegamos aqui. O que são seis meses se nós nos amamos?
- Não seja tão madura. Seis meses é muito tempo. Você vai trabalhar no teatro. Estará com atores e diretores. Você irá ao teatro e vai conviver com essas pessoas. Almoçarão juntos. Mais rápido do que imagina, vai estar se envolvendo… não vai querer fazer isso. Você vai mudar. Você será… Dentro de seis meses, será uma pessoa diferente.
- Você não quer que eu tenha esta experiência? Há um tempo atrás você foi tão convincente.
- É claro que quero… Mas não quero que aquilo que gosto em você mude.
- Preciso pegar o avião.
- Vamos. Você… Você não precisar ir.
- Por que não falou isso na semana passada? Seis meses não é tanto tempo. Nem todos se corrompem.Você precisa ter um pouco de fé nas pessoas.
Não riam de mim #1
16 julho, 2009
Estou aqui, de bobeira. E daí pensei em algumas músicas que eu ouvia na adolescência (nada de Nirvana), sobretudo por causa dos meus pais. Sou brega, já adianto. Pensei, e logo Everybody´s Talkin surgiu na memória. Mesmo o Nilsson com essa roupinha cafona e esse jeitinho singular de segurar o microfone e mover o corpo me deixam com uma sensação boa, sabe?
Não, eu sei que você não sabe. Há coisas que são nossas. Harry Nilsson, de certa maneira, é meu.
Além de dormir, filmes #4
16 julho, 2009




Tinha que ser você
Harvey Shine é um merda. Um cara que abdicou dos seus sonhos. Mesmo a filha prefere que o padrasto a leve para o altar (nada pior prum pai). Mas aí ele encontra Kate. Kate também não vive. Ou vive a vida da mãe (isso acontece nas melhores e nas piores famílias). É de uma segunda chance que estamos falando aqui. Ou, para ser fiel ao título, de uma última chance (evito falar das interpretações, que são a cereja do bolo). Os clichês estão todos lá, mas com uma graça particular. E, para ser honesto, faço uma confissão: simpatizei-me deveras com Harvey Shine. Ele é um merda (entenda merda como alguém que descarta a possibilidade da tentativa) igual a mim – encantador, mas um merda. O amor maduro já tem seu filme de verão: Last Chance Harvey.




Killshot
Não faz juz ao material de origem (romance de Elmore Leonard; o pior é que o autor do roteiro é o mesmo Leonard), mas ainda temos Mickey Rourke fazendo Mickey Rourke, o que por si só já valeria o filme.




Apenas o fim
Milk-shake de referências da cultura de massa, atores improvisando, um casal em fim dos dias, um nerd carismático e atraente às avessas, uma garota que não sabe muito o que quer, um diretor à procura de um mote, exercício inócuo de metalinguagem, diálogos com timing adequado, comédia romântica vintage para adolescentes e adultos, enfim, enfim, enfim um Annie Hall à brasileira.
Nota desnecessária: Mateus Souza não possui um décimo da capacidade criativa de Woody Allen, e nem o sentimentalismo kitsch exacerbado de Domingos Oliveira (para citar apenas duas referências caras ao jovem cineasta), mas há, sim, talento e, sobretudo, conteúdo, o algo a dizer, aquilo que fica depois que os créditos tomam a tela.
Nota desnecessária 2: Ele só tem 20 anos! 20 anos!




A era do gelo 3
Já alertei os amigos: filmes para crianças devem ser filmes para crianças, e filmes para adultos devem ser filmes para adultos. A era do gelo 3 é decididamente um filme para crianças, embora um adulto qualquer, do tipo normal, se apaixone facilmente pela trupe mais desengonçada e anárquica e cômica dos últimos tempos (a célula familiar atípica continua sendo o chão de A era do gelo). Sid era minha personagem favorita, mas aí surge Buck (mistura de capitão Ahab e capitão Jack Sparrow), uma doninha com poder de atração e dona de histórias mirabolantes e aventuras ímpares. Nada é frouxo ou desprovido de inventividade nesse A era do gelo 3, o que só vem atestar a genialidade de Carlos Saldanha.




Up
Como havia dito, é a animação com o prólogo mais triste da história do cinema (esqueça o mutismo de Wall-e). Algo na linha de um Philip Roth para crianças. Assisti pela segunda vez, e concluí (lágrimas nos olhos): obra-prima. OBRA-PRIMA.




Paris
Cédric Klapisch deveria rever Albergue Espanhol e se perguntar onde foi que começou a degringolar. Um filme próprio de romances de aeroporto.




Mickey and Nicky
Elaine May dá a Cassavetes sua melhor interpretação. Um filme de e para atores, sobretudo. É como rever Perdidos na Noite à luz do cinema europeu, digamos assim. De uma força e de uma dimensão tão profunda e avassaladora que não há como ficar indiferente. Cinema claustrofóbico e de verdades essencias, demasiadamente humanas. É um filme de explosões interiores. Em outras palavras: implode-se a narrativa e cavouca-se os sentimentos mais arcaicos, mais universais e particulares. Elaine May pode morrer sossegada, afinal já nos legou um momento.




A Janela
Sorín era um sujeito tão agradável. Guardo boas recordações de Histórias mínimas e O cachorro. Aí ele resolve caminhar ao lado (e acima) de Bergman. Woody Allen tentou isso mais de uma vez. Não dá pé.




Presságio
Seguindo a trilha de O nevoeiro e Fim dos tempos (filmes melhores, sim), Alex Proyas dá seqüência a uma carreira de pontos altos (O corvo), regulares (Dark City) e baixos (Eu, robô). É um filme corajoso, pois.




Powder Blue
De um primarismo absurdo. Algo próximo de um roteiro de Paul Haggis com direção de Iñárritu. Algo próximo, eu disse. Perto de Powder Blue, Crash e Babel são obras-primas.















