Up and Down

14 junho, 2009 · Imprimir

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Minha filha, semanalmente, traça o itinerário que deveremos seguir. Disciplinada e atenta, anota os pormenores mais insignificantes. Perspicaz, sabe o que vale e  o que não vale a pena em termos culturais. A saber: semanada passada, disse-lhe que veríamos A pequena sereia, ao que ouvi, de chofre, um nem pensar, papai!, apenas duas estrelas no Guia da Folha, ademais há outras encenações mais interessantes, decretou com um  sorrisinho inabalável. Sorri em contrapartida, e perguntei-lhe o que tinha em mente. Discutimos brevemente, e entramos num acordo.

Como havíamos perdido Cannes e sua abertura com a animação Up, ela decidiu (não eu, que sequer tinha idéia de quem abriu ou fechou Cannes) que o sábado à noite seria agradabilíssimo se pudéssemos ver Up seguido de uma ou outra imagem de Coraline e o mundo secreto. Disse ok para Up e não para Coraline. É a terceira vez numa única semana que estaríamos a assistir o mesmo e cansativo filme, disse-lhe com ar de tédio e desaprovação. Ok, papai, ficamos apenas com Up, então.

Ao final da animação, ambos a chorar copiosamente. Fingi que estava com sono, afinal não queria deixar transparecer que era tão ou mais frágil do que ela. Não funcionou. Quer que eu pegue um lenço pra você, papai, disse enquanto vertia algumas lágrimas derradeiras. Não, filhinha, estou bem. Estou bem. É óbvio que não estava. É a animação com o prólogo mais triste da história do cinema (esqueça o mutismo de Wall-e). Algo na linha de um Philip Roth para crianças.

Explico: o velhinho, já no início da narrativa, perde a mulher, o amor da sua vida. Não tem filhos. Não realizou um sonho de juventude adiado por conta das vicissitudes da vida. Agora está irremediavelmente solitário e melancólico. Para piorar, o bairro está sendo revitalizado, por assim dizer, e por isso querem que venda sua propriedade a um desses barões do mercado imobiliário. Resta ao velhinho vendedor de balões uma única saída: voar. Literalmente. Mais não conto. Apenas acrescento que é a mais bem realizada animação a lidar com humanos a que se tem notícia.

Fim do sábado.

Início do domingo:

- Acabei de ver uma peça interessante aqui no Guia, papai, o que acha?

- Você sabe que  tenho dificuldade pra escolher peças infantis, filha. Escolha você.

- Tudo bem. O armário mágico.

E lá fomos nós a madrugar num Sesc lotado. E tal como Up, a peça é de uma tristeza sem igual, com momentos de gelar o coração (não exagero, é a mais cristalina verdade o que estou a dizer). Lembrei-me do garoto que fui. Quase chorei por uma ou duas vezes. Minto: chorei.

Uma pergunta assaltava-me ao final da montagem: por que será que as narrativas contemporâneas, mesmo voltadas para o público infantil, precisam tratar de temas tão áridos?

Minha filha dá de ombros e diz que o próximo final de semana será ainda mais emocionante. Espero que menos doído, filha. Menos.

Comentários

3 comentários em “Up and Down”

  1. Jaque em 15/06/09 - 12:15 am

    lindos meus!

  2. Jaque em 17/06/09 - 11:59 am

    Foi a animação mais linda que eu já vi. O velhinho rabugento lembra você, Mr. Tinkles.

    Só a caráter de ilustração, um adendo: encha a geladeira de cerveja, tô voltando em breve. Seu pijama velho e sua cara amassada me desejando bom dia me fazem bem.

    Acho que posso escrever isso aqui. Já virou Brasil, não é mesmo?

    Fica a dica, amor.

    Beijo. Beijo. Beijo.

    hahahahaha

  3. Lucas Mayor em 18/06/09 - 9:05 pm

    Beijos!

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