Para Jaq, com carinho

29 junho, 2009

Annie e eu almoçamos juntos tempos depois, e recordamos os velhos tempos. Só. Depois ficou tarde e tivemos de ir embora. Mas gostei muito de vê-la. Percebi que era uma pessoa fantástica e que foi bom conhecê-la. E me lembrei da velha anedota, do tipo que vai ao psiquiatra e diz: “Doutor, meu irmão é maluco. Acha que é uma galinha.” E o médico diz: “Por que é que não o interna?”. E ele responde: “Até internaria, mas preciso dos ovos”. É mais ou menos o que sinto sobre relacionamentos. São totalmente irracionais, loucos e absurdos. Mas nós vamos agüentando porque precisamos dos ovos.

P.S.: Legendei pra você. Sei que entenderia, mas fiz questão.

Um beijo, linda.

Autoficção. Leia. Assista.

25 junho, 2009

Não é tarefa simples definir o conceito de autoficção, vem de um desejo de capturar a realidade de uma forma que não tenha sido reduzida a fórmulas, à mera técnica. Remonta a uma tradição iniciada nos romancistas ingleses do século 18 que pavimentaram o caminho do realismo literário, passa pelo naturalismo francês, para chegar à recente onda documentarista. A questão é que essas linguagens, que são revolucionárias em sua origem, chegam a um ponto em que se reduzem à técnica, ao domínio do fazer, e perdem o que têm de verdadeiro [...] Ao embaralhar ficção e realidade, de modo subjetivo, perde-se a fórmula e ganha-se em verdade.

Jean Claude Bernardet

Atores, por Aguinaldo Silva

24 junho, 2009

Abro a Folha de S.Paulo vulgarmente, como um fumante a lançar uma bagana qualquer numa esquina. Leio as manchetes, e percorro com os olhos o caderno Ilustrada. Tenho medo quando ao ler comentários de autores de novela. Sim, tenho medo. Leio que Aguinaldo Silva tem blog. E que escreve. E que revelou uma lista de atores que podem compor o elenco de Cinquentinhas, minissérie de sua autoria. Pasmem: Fábio Assunção, Tarcísio Meira, Danielle Winits, Ângela Vieira, Reynaldo Gianecchini, Luiz Mello… E JESUS LUZ. Reli a notícia três vezes, e fui tomar um gole de água com açúcar. Mais calmo, li o restante da matéria: se ele, JESUS LUZ, não tiver a língua presa e se sair bem no teste, abocanha o papel, diz Aguinaldo.

Teste? Ir bem? JESUS LUZ atuando? Perco o fôlego só de pronunciar o nome do modelo.  Modelo não é ator (é preciso que se diga isso). Repita comigo: MODELO NÃO É ATOR.  Tento ficar calmo, respiro de maneira ritmada, mas as sinapses se debatem pra lá e pra cá. Atores do Brasil, fiquem atentos: imbecis de toda categoria acreditam que atuar é modelar, e vice-versa. Não é. Modelar é trancar o ânus e andar em linha reta. Atuar é outra coisa. Qualquer jackass é capaz de travar o reto e sorrir de maneira plástica enquanto é bombardeado por flashes. JESUS LUZ  é bonito e sarado e é capaz de trancar o cu, e só.

Pronto, falei. Até amanhã.

Ainda Two Lovers

23 junho, 2009

Estava pensando em Two Lovers dia desses, enquanto procurava avidamente na videoteca aqui de casa algo similar, algo que  fosse moderno, por assim dizer, mas que mantivesse diálogo com o clássico. Algo que falasse de amor. De escolhas. E que trouxesse o prenúncio trágico anunciado desde o plano inicial, como escreveu lindamente José Oliveira, dono do melhor blog de cinema luso-brasileiro (se é que posso chamar assim) a que se tem notícia.

Eis um pitaco:

Desde o plano inicial que “Two Lovers” transporta o peso e o cheiro da tragédia. Sempre em crescendo, sempre na mais discreta serenidade – gravíssima serenidade – tudo ao longo do filme nos faz adivinhar que aquilo irá correr muito mal, que as coisas não vão acabar de boa maneira. Já agora, não acabam mesmo bem, parecendo que não, é dos finais mais abertos, incertos e negros que James Gray já filmou. O filme não se fecha, obviamente. Recuando. Qual a história deste filme? A mais simples, a mais conhecida, tal como a metáfora bíblica do anterior “We Own the Night”. Ou seja: um homem instável conhece, num mesmo hiato temporal, duas raparigas, duas amantes, uma delas belíssima e instável, a outra mais secreta, mais comum. A rapariga belíssima e instável gosta de outro e só o quer como amigo. A rapariga “normal” está disposta a dar-lhe tudo. Coisas velhíssimas, clássicas, que Gray vai tratar com aquele minimalismo de prenúncio de tragédia, com aquele simbolismo – cinematográfico sim, mas acima de tudo religioso, místico – que já praticamente ninguém ousa.

Mais:

Two Lovers” é assim legítimo e forte porque dedicado e justo para com aquilo que filma e que capta, com o que está em questão. O que não o impede dos mais furiosos (discretos mas furiosas) e vibrantes rasgos, por exemplo, a cena da discoteca, mais uma vez uma discoteca, em que o cineasta demonstra uma voracidade e uma vitalidade, uma fome mesmo, de captação de ambiências e atmosferas, que a estes níveis e sensações, só Michael Mann anda a par. Câmara pelas estaturas e pelo peso dos homens e das coisas, sons aos níveis do mundo, coisas dessas, coisas fundamenteis. Magnifico.

Aviso aos iletrados que caírem aqui por acaso: leiam o texto integralmente.

Uma história sem Happy End

20 junho, 2009

Ou não quero ter de voltar pra casa nunca mais se você não estiver me esperando com uma xícara de chá e uma toalha manchada de geléia de morango

Para Jaq

A verdade é que sabia que não daria certo. Isso desde o início. Desde que disse algo como eu não tenho nada para lhe dar, a não ser um ou dois sorrisos. Bastava. E ela sorriu, como se tivesse sido acariciada, como se ele a entendesse, como se dois sorrisos fossem tudo que uma garota como ela gostaria de receber esta noite. Você é diferente, ela disse. E ele disse o mesmo, dando mais ênfase ao termo diferente. Ele 39. Ela 36. Ilusões não mais como antes. Só o agora no lugar do depois. Eram apenas duas pessoas tentando não ir pra casa. Tentando ficar um pouco mais por ali, isoladas,  distantes dos outros. De si mesmas. Ele bebia enquanto ela fumava. A coisa toda deve ter durado um ou dois meses. Nunca se sabe ao certo quanto duram essas coisas. Nem quando acabam. O certo é que estavam ali agora, e isso era tudo. Pediu mais uma bebida, e ganhou um beijo. Do tipo molhado, do tipo singelo, do tipo que garotas como ela não costumam dar. Ela quem tomou a iniciativa, e ele só fez o que tinha de fazer. Abriu a boca menos do que de costume (uma briga na noite anterior; um dente a menos e o lábio lacerado), e mexeu lentamente a cabeça em movimentos circulares, em seguida sinuosos. Precisa de alguém pra cuidar de você, meu querido. Ele dá o primeiro sorriso. Nenhuma mulher é capaz de cuidar de um homem, e enquanto diz isso sai na direção do banheiro. Volta, dança sozinho no meio daquele cantinho apertado entre o palco improvisado e umas mesinhas de plástico. Não sabia muito bem o que fazer com os braços e as pernas, e resolveu balançar freneticamente a cabeça. Não era solitário nem um ermitão desiludido com o rumo que  sua vida tomou, apenas não sabia o que fazer depois de ter passado dos 30. Ele adora Pink Floyd (saberia, duas semanas depois, que ela tivera uma bandinha escolar de nome Hey You; ela nunca teve coragem de cantar pra ele). Queria descarregar a tensão, amortecer o tédio, e puxou briga com um homenzinho que não tinha pescoço mas um tique irritante no olho direito. Dois golpes certeiros naquilo que parecia um nariz, e então um segurança o colocou pra dormir. Acordou todo mijado do lado de fora, e ela ao seu lado, dormindo e fazendo do seu ombro um travesseiro. Nem sol ou chuva nesse dia. Opacos. Pequeno calçamento algo arenoso e corroído pelo odor da urina dos passantes (lembrou de seu pai dizendo que o centro não era lugar para um garoto: Uma privada a céu aberto). A vida numa garrafa de isopor jogada numa fogueira. Ele nunca quis ser alguém. Ela sonhava em ser bailarina ou cantora: hoje, não. Na primeira noite em que passaram juntos,  diálogo. Ela disse que jamais havia conhecido um homem que falasse tanto sobre nada. Estranhou o fato de ele não a atacar no sofá e depois levá-la para o quarto. Gostou da impassividade dele. E choraram bastante juntos. E transaram nos lugares mais inóspitos. E nunca brigas ou desentendimentos. Quando no fim, poucas palavras e nenhuma expressão a indiciar que estava perto do fim.

Era um maldito dia de setembro, onde as esperanças não pipocam e os filhos não nascem, e ele ficou por ali, observando as pessoas apressadas indo em direção ao serviço. Imaginou como seria se tivesse que ir prum lugar desses, todos os dias, e fazer sempre as mesmas coisas, e pensou nela ali, deitada no seu ombro, pedindo para ser protegida, e então sorriu mais uma vez.

Up and Down

14 junho, 2009

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Minha filha, semanalmente, traça o itinerário que deveremos seguir. Disciplinada e atenta, anota os pormenores mais insignificantes. Perspicaz, sabe o que vale e  o que não vale a pena em termos culturais. A saber: semanada passada, disse-lhe que veríamos A pequena sereia, ao que ouvi, de chofre, um nem pensar, papai!, apenas duas estrelas no Guia da Folha, ademais há outras encenações mais interessantes, decretou com um  sorrisinho inabalável. Sorri em contrapartida, e perguntei-lhe o que tinha em mente. Discutimos brevemente, e entramos num acordo.

Como havíamos perdido Cannes e sua abertura com a animação Up, ela decidiu (não eu, que sequer tinha idéia de quem abriu ou fechou Cannes) que o sábado à noite seria agradabilíssimo se pudéssemos ver Up seguido de uma ou outra imagem de Coraline e o mundo secreto. Disse ok para Up e não para Coraline. É a terceira vez numa única semana que estaríamos a assistir o mesmo e cansativo filme, disse-lhe com ar de tédio e desaprovação. Ok, papai, ficamos apenas com Up, então.

Ao final da animação, ambos a chorar copiosamente. Fingi que estava com sono, afinal não queria deixar transparecer que era tão ou mais frágil do que ela. Não funcionou. Quer que eu pegue um lenço pra você, papai, disse enquanto vertia algumas lágrimas derradeiras. Não, filhinha, estou bem. Estou bem. É óbvio que não estava. É a animação com o prólogo mais triste da história do cinema (esqueça o mutismo de Wall-e). Algo na linha de um Philip Roth para crianças.

Explico: o velhinho, já no início da narrativa, perde a mulher, o amor da sua vida. Não tem filhos. Não realizou um sonho de juventude adiado por conta das vicissitudes da vida. Agora está irremediavelmente solitário e melancólico. Para piorar, o bairro está sendo revitalizado, por assim dizer, e por isso querem que venda sua propriedade a um desses barões do mercado imobiliário. Resta ao velhinho vendedor de balões uma única saída: voar. Literalmente. Mais não conto. Apenas acrescento que é a mais bem realizada animação a lidar com humanos a que se tem notícia.

Fim do sábado.

Início do domingo:

- Acabei de ver uma peça interessante aqui no Guia, papai, o que acha?

- Você sabe que  tenho dificuldade pra escolher peças infantis, filha. Escolha você.

- Tudo bem. O armário mágico.

E lá fomos nós a madrugar num Sesc lotado. E tal como Up, a peça é de uma tristeza sem igual, com momentos de gelar o coração (não exagero, é a mais cristalina verdade o que estou a dizer). Lembrei-me do garoto que fui. Quase chorei por uma ou duas vezes. Minto: chorei.

Uma pergunta assaltava-me ao final da montagem: por que será que as narrativas contemporâneas, mesmo voltadas para o público infantil, precisam tratar de temas tão áridos?

Minha filha dá de ombros e diz que o próximo final de semana será ainda mais emocionante. Espero que menos doído, filha. Menos.

Domingos Oliveira escreve sobre Woody Allen

13 junho, 2009

Acabei de ler, no blog do Domingos Oliveira, texto belíssimo acerca de Woody Allen.  É sabido há tempos o que acho e qual a importância de Woody em minha vida (paro por aqui para que o texto não venha acompanhado por lágrimas). Pensei em destacar um fragmento qualquer do texto, a caráter de ilustração, e depois indicar-lhes a leitura completa do mesmo, mas não consegui destacar apenas um trecho, e por isso reproduzo-o na íntegra. É uma delícia.

Um dos maiores prazeres de minha vida é quando o jornal anuncia um novo filme de Woody Allen. Meu coração bate, sabe que vai encontrar uma alma tão romântica quanto a minha. Não resisto. Estou sempre na pré estréia. Que, por falar nisso, nunca está lotada, como eu sempre imagino que estará. W.A. não é um sucesso de bilheteria em praticamente nenhum lugar no mundo. Sua platéia não inclui os burros. E os inteligentes são poucos.

Woody Allen é quem pensa melhor o mundo moderno. Quando quero compará-lo, lembro de Dostoievski e Brecht. Allen é uma junção impossível desses dois estilos. De Dostoievski, a noção de que o homem é imprevisível, surpreendente. Algo inimaginável. E de Brecht, a certeza de que o paradoxo é o melhor campo de ação para o escritor. É sobre o paradoxo da condição humana que Allen todo o tempo fala.

Para mim, ele é um caso particular. Ele faz um cinema igualzinho o que eu faço. Não na forma, a dele é infinitamente melhor. Mas na linguagem e no conteúdo. Penso tramas de Woody Allen antes que ele tenha pensado. Além disso, conheço todas as música que ele usa. W.A. fazia “Pussycat” ao mesmo tempo em que eu rodava “Todas as Mulheres do Mundo”, que poderia perfeitamente ser um filme dele.

“Sonhos de um Sedutor” (“Play it again, Sam”), 1972, que não é dele, mas é tipicamente dele, poderia ter sido feito ontem. Depois deste, que o consagra como ator, vem uma série de filmes menores, comédias mais convencionais. São as chanchadas do cinema americano. A partir de Annie Hall ele define seu estilo e faz 15 filmes, cada um melhor que o outro, até chegar à matéria deste artigo, o intenso “Maridos e Esposas”, em 1992. Até hoje são cerca de 45 filmes, cada um melhor que o outro. Quem não gosta de Woody Allen está doente do pé.

Cabe observar que o artista já tinha passado por pelo menos quatro inegáveis obras primas (“Zelig”, 1983, onde a realidade é uma ficção; “Broadway Danny Rose”, 1984, que marca segundo penso, o auge de sua paixão por Mia Farrow; “The Purple Rose of Cairo”, 1985, um dos prediletos do autor, um clássico; e “Crimes and Misdemeanors”, 1989, um violento comentário sobre a impunidade, tema ao qual ele retornaria em seus mais recentes filmes ingleses.) Nesta mesma fase, incluem-se suas duas obras “sérias” (“Interiors”, 1978, melhor filme de Bergman e “September”, 1987, onde demonstra que o cinema não precisa de exteriores). A fase 83-89, entre 48 e 54 anos, contem cinco dos filmes citados. Observamos que Woody conheceu Mia Farrow, ex gatinha de Sinatra, por volta de 83. Um homem é aquilo que as mulheres que ele ama fazem dele.

Gostaria de poder dizer que o assunto desse artigo, “Maridos e Esposas”, é o início de uma nova fase do gênio Allen, seria talvez um exagero, mas me parece evidente nesse filme o prenúncio de sua atração pelas moças bem jovens, a escandalosamente sedutora Juliette Lewis. Teenager sex symbol. Nos três anos seguintes, ele faria dois de seus melhores filmes: “Bullets Over Broadway”, o melhor filme de Bertold Brecht, “Mighty Aphrodite”, a reiteração da atração pelas jovens (Mira Sorvino).

Mas deixemos a vida do homem em paz e estudemos a obra, que sempre conta mais que o homem.

“Maridos e Esposas”. Um dos maiores de Woody Allen. A primeira atenção é chamada pelo desrespeito ao “rigor técnico”, câmera na mão e ideia na cabeça, como no cinema novo. Talvez para contar a instabilidade dos casados: Ele com Mia Farrow, Judy Davis com Sydney Pollack, também diretor e figura humana de alto gabarito. Não deveria ser necessário, para falar de um filme, contar a sua estória. Mas no caso de Allen, a dramaturgia é a alma dos filmes. “A partir do roteiro, são tudo perdas”, diz ele. O que ele tem que os outros não tem? Uma capacidade espantosa de reduzir as cenas ao mínimo necessário para contar a estória. E sempre filmá-las de um modo inesperado. Ou seja, uma soberba inteligência voltada para a dramaturgia. Filho direto de Moliére, lanço aqui essa tese.

A maior parte, senão todos os filmes de Woody Allen se baseiam no gag básico de Moliére. No qual eles falam do acaso, esse deus brincalhão. O gag é o seguinte: O autor, cúmplice da platéia, revela para ela e não para os personagens, um grande segredo. A platéia ri do fato de saber mais que eles. Assim é na maioria das peças de Moliére e nos filmes de Woody. Confiram isso.

“Maridos e Esposas” tem como principal aliado sua básica previsibilidade. Dois casais de amigos. Na primeira cena, um deles anuncia que vai se separar (Pollack e Davis) para os atônitos e casadíssimos Farrow e Allen. Sabemos, espectadores, as conseqüências naturais. A ideia da separação contaminará os casados, que se separarão também. No final o casal que se separou volta e os casados permanecem separados. Isto é uma trama clássica que qualquer escritorzinho de novela pode bolar. Porém o desenvolvimento do filme é que denota o gênio do cineasta. Existem dois tipos de roteiristas. Os que partem de uma boa estória e aqueles mais comuns que partem de personagens. Woody Allen tem sempre uma estória ótima na qual enfia, sem trair a narrativa, personagens complexos e raros. Um professor de literatura que acha que a literatura não pode ser ensinada: W.A. Uma mulher descrita como a passivo-agressiva: Mia Farrow. Um homem telúrico mas que no fundo precisa de um lar: Sydney Pollack. Uma histérica e inibida que volta para o ex-marido depois de vivências sexuais mal sucedidas: Judy Davis. O romance de Farrow dá certo e o dele… o protagonista de quem se ri, dá errado. O filme todo é contado a partir dos personagens dando uma entrevista. Não se sabe a quem. Tudo isso é muito engraçado e de uma tristeza indizível. Mas o filme não é bom por nada disso. E sim por outros motivos: É que de vez em quando Allen alça numa escala mágica e toca a membrana do útero do mistério. E as estrelas brilham! É como em Shakespeare. Você vai lendo a estória e de repente aparece um verso que te põe desacordado de tanta beleza. Um filme vale, assim como a vida, pelos seus momentos inesquecíveis. O resto é o trabalho, a humana lida.

Voltando ao filme, sabendo que com sua idade não vai ter sucesso no seu romance com a jovem Lewis, beija-a ardentemente sob o fragor dos relâmpagos de uma tempestade. O primeiro e último beijo. Antes, Lewis, sem cair do charme, perde os originais do romance que ele escrevia, o que significa para um escritor uma facada nas costas. O telúrico Pollack briga com a namorada burra aos socos, coisa avessa ao seu feitio, e invade a sua antiga casa, tendo de conversar com o namorado de sua ex esposa, educadíssimo e nu. E mais uma dúzia de momentos assim, românticos, inesquecíveis e simbolicamente significativos. Que causam a gargalhada, elevam a alma e resultam num sorriso triste.

Este é o destino do gênio W.A. Criar situações que nos explicam o que a vida é: misteriosa, comovente, maior que tudo.

Esse tipo de cena, ao contrário da trama, é absolutamente imprevisível. Acontece quando deus (seja lá isso o que for), toca delicadamente a cabeça do autor. E embora Woody Allen, em seu recente livro de entrevistas, afirme que não é um cineasta importante, que nunca fez filmes sobre assuntos relevantes, que é apenas um comediante do Bronx bem sucedido, é evidente que deus, seja lá isso o que for, gosta de tocar sua cabeça semi calva.

Scorsese & Lehane

12 junho, 2009

Eastwood filmou Mystic river e fez o que podemos chamar de a sua última masterpiece até a presente data (tudo bem que Gran Torino é seu inventário, mas obra-prima OBRA-PRIMA mesmo, nessa década, só Mistic river). Mystic river é um romance primoroso de Dennis Lehane. Dennis é tido como autor policial. Não é. Nas obras de Lehane o crime existe tão-somente como expediente acessório. E agora Shutter Island (Paciente 67), do mesmo Lehane, ganha versão cinematográfica que leva a assinatura do nanico Scorsese. Scorsese fez duas obras-primas na década de 90 (Os bons companheiros e Cassino), e depois entrou numa maré de filmes medianos e alguns exemplares, grandes mesmo. Nada como Cassino ou Os bons companheiros, mas manteve-se sempre acima da média. Acredito (pelo trailer, e sobretudo pelo material literário que é Shutter Island) que Lehane tenha ajudado Scorsese a reencontrar a década de 90.  Veja o trailer, logo abaixo, e diga se estou mentindo.

Além de dormir, filmes #3

12 junho, 2009

Nas últimas semanas vi alguns filmes, mas só vou falar de quatro, afinal meus dedos e parte do meu intelecto estão sendo sugados todas as manhãs por adolescentes vegetarianos e que mais se comunicam com celulares e estojos de maquiagem do que com seres com cartilagem e que emitem códigos de linguagem e não apenas ruídos sonoros indecifráveis.

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★★★☆☆  Um jogo de vida ou morte

Perdi o filme na época do lançamento (2007), mas guardei nomes. Kenneth Branagh na direção, Harold Pinter como roteirista e Jude Law e Michael Caine como intérpretes. Não são meros nomes. Ter Harold Pinter como roteirista é sonho de 10 entre 10 cineastas (depois de sua morte, sonho de 11 entre 10 cineastas). E temos Sir Branagh Shakespeare por trás das lentes.  O filme é baseado na peça teatral de Anthony Shaffer, e, como se sabe, transpor dramaturgia para a sala escura é pedra de sísifo.  O resultado é um filme teatral. No bom sentido. Ainda assim, aquém das minhas expectativas (quem mandou criar expectativas, não é mesmo?).

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★★★★★  Minnie and Moskowitz

Revi Minnie and Moskowitz porque precisava amar novamente. Nem que fosse um amor de mentirinha,  e por uma  personagem de ficção, precisava (não julgue minhas atitudes). Estou apaixonado por  Minnie como da primeira vez em que nos encontramos. Tinha 22 anos à época, e lembro que chorei. Hoje, não. Sorria e praticamente dançava na sala, como que desejando ser Moskowitz, ao menos de vez em quando.

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★★☆☆☆ Coraline e o mundo secreto

Gaiman dependesse de adaptações cinematográficas para ser reconhecido, estaria atolado em dívidas (as duas estrelas traduzem apenas um pedido de minha filha, que ficou apaixonada por Coraline).

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★★☆☆☆  O exterminador do futuro: A salvação

McG me fez rir com As panteras. McG me fez dormir com O exterminador do futuro: A salvação.

P.S.: Só Cassavetes pode dispor de música noiva no altar e não soar piegas ou old fashioned. Só Cassavetes.

Até amanhã

7 junho, 2009

Olá. Sei que está com saudade dos meus escritos. Não se sinta culpado por isso. Eu mesmo, dia desses, senti-me culpado por não atualizar o blog com a freqüência costumeira de outrora, mas daí um pensamento intruso, seguido de uma reflexão leve, acalmou-me os ânimos: você tem dois leitores, e eles não são do tipo leitores vorazes, portanto, vá com calma. A reflexão leve já está embutida na frase que acabou de ler. Dito isso, ouça/veja o vídeo abaixo e  salve seu domingo. Até amanhã.