Prêt-à-Porter Cult Nº1

13 maio, 2009 · Imprimir

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★★★½☆  Prêt-à-Porter Cult Nº1

Prêt-à-Porter Cult Nº1. Pensei longamente acerca do cult Nº1 aqui inserido, mas não cheguei a nenhuma conclusão reveladora. Minto. Uma conclusão: outros cults virão, já que esse intitula-se Nº1. Nada mais ou além. Consultei papai, que foi taxativo: Meu pequeno imbecil, cult é toda obra que fracassou na estréia mas que, paulatinamente, ganhou um sem-número de admiradores mundo afora com o passar dos anos.

Silenciei. A dúvida, no entanto, persistia. Como uma obra é cult antes mesmo de vir a público? Antes mesmo da primeira saraivada de tomates? Antes mesmo de os atores serem tomados por libertinos ou vanguardistas inócuos? Não sei. E então, depois da encenação, e já tendo dormido duas noites e após um gole de Coca-Cola estupidamente gelado, eis que a epifania surge num estalo: Antunes é cult. A casa tremeu. Repeti: Antunes é cult!, Antunes é cult!

Sim, toda angústia evaporou-se, e pude seguir com minha vidinha. Antunes é cult e pronto.

Mas então papai retorna do jardim, e com olhar inquiridor indaga: O que achou dos pupilos daquele velho asqueroso e esclerosado?

Ah, papai, papai, eles já são atores! Quer dizer, quase todos já o são em certa medida.

Sei. Novos?

Sim, papai, novos. Bem novos. E com entusiasmo e vontade e sopro de vida. E verdade, sobretudo.

Também estão lá há séculos, alguma coisa devem ter aprendido além de varrer o chão e limpar o banheiro e vender ingressos e servir de babá para aquele velhaco.

Aí é que você se engana. Entraram lá em 2008, e se formaram há pouco mais de seis meses, salvo engano.

Sei. E as cenas, boas?

Ah, papai, a primeira cena chama-se Coisas do silêncio, e lida com um aspirante a pintor que é surdo-mudo e uma garota que decide posar pra ele.

Nada de novo no front.

Enganou-se novamente: o garoto, um tal de Marcos Medeiros, esculpe o silêncio, sabe, pai? Esculpir o silêncio é coisa de veterano, pai, não coisa de moleque que acabou de sair da escola de atores. Mas ele esculpe. E a garota, lindinha, daquele tipo que a gente sente vontade de sentar num café e ficar horas e horas admirando, não fica atrás não. Os dois lidam com o silêncio e o impulso e o desejo de maneira tão aguda e verdadeira que a gente sente vontade de morar na cena, sabe?

Sei. A segunda deve ser uma bosta.

Nada disso, resmungão. A segunda é boa. Muito boa também. Ela não nos seduz inicialmente, como a primeira cena, mas depois vamos notando as nuances, e lá pelo meio entendemos do que são feitas aquelas personagens. E  tem um tal de Fernando Aveiro, que faz uma das personagens, que é uma coisa meio híbrida, uma coisa lasciva, e  que tem uma voz e uma presença cênica que já fariam daquele encontro um acontecimento. Teatro é tempo e verdade, né, pai. E tanto o Fernando quanto a Carol Meinerz sabem como trabalhar com o tempo. E o final, pai, ah, o final…

Qual é a do final?

Mais não conto.

Tá. A primeira é ótima, já entendi. A segunda é boa, ok. Aposto uma grana que a última é uma merda.

Velho bobinho. A última é a mais frágil, sim, mas não é ruim não. Ela tem um clima muito bacana, e a Flávia Strongolli, que faz uma prostituta, é talvez a atriz mais preparada, mais viva das três cenas. O problema é o texto, pai. O texto a deixa meio caricata, meio puta de novela, meio puta sem humanidade, sem precariedade no sentido mais cru da palavra. Só não fica toda estereótipo porque a Flávia tira leite de pedra, e faz a cena tipo Gena Rowlands, tipo atriz que sabe que a situação não é favorável mas não tá nem aí, tipo falando pra gente que aquela personagem ali mereça ser ouvida.

E o ator que contracena com ela?

Ah, pai, aí é mais complicado. O cara chama Babu Rodrigues, e faz uma personagem que se apaixona pela prostituta.

Bacana a idéia.

É sim, pai. O problema é que o Babu segue um tom monocórdio, e faz seguindo uma linha da personagem “tipo”, unidimensional, reconhecível e aceita, meio que padronizada, enlatada, e aí não consegue nem beirar o ridículo, que deveria ser a intenção primeira dele, e nem soa dramático, pois a personagem não está ali, pai, não está. Sabe quando você percebe que o ator está pensando demais em cena? É isso. Fica tudo coordenado, sabe? Se a gente gritar da platéia ele assusta, porque na verdade ele não está ali. Sabe como é, né, pai?

Sei, filho, sei. Mas então o saldo é negativo. Eu sabia.

Não, pai, claro que não. O saldo é pra lá de positivo. Mais: os garotos tiveram peito pra apresentar o único Prêt-à-Porter onde o desejo, o sexo, a libido, enfim,  a pulsão da “carne” assume-se como deve ser, sem anteparos e recalques.

Ah, filho, você nunca vai aprender mesmo, né? Teatro bom é aquele que a gente sai rindo, e não pensando. Pensar muito só traz tristeza, filho. Presta atenção, moleque!

Comentários

2 comentários em “Prêt-à-Porter Cult Nº1”

  1. Eliana Bronzi em 21/05/09 - 8:44 pm

    Eu tenho acompanhado meio que em off os ensaios deste primeiro cult, e como mãe não conta porque o sentimento está envolvido, falo como expectadora e que comprometida com o teatro, estou muito orgulhosa deste primeiro round pelos “meninos novos” e esse comentário sobre as cenas foi muito original e verdadeiro. Tem um ponto muito importante: preocupem-se com o segundo round…
    Eliana Bronzi

  2. Lucas Mayor em 21/05/09 - 11:33 pm

    Bacana seu comentário, Eliana. Gostei bastante da encenação, pode ter certeza. E os meninos, pelo que notei, não jogarão a toalha tão cedo. Perdoe a curiosidade, mas é mãe de qual deles?

    Abraços.

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