A Última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras I
30 maio, 2009 · Imprimir
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A Última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras I
Em primeiro lugar, Sergio Britto. A razão primeira da minha ida ao teatro foi para ver Sergio Britto antes que esse fosse para algum lugar distante e inóspito. E agora posso afirmar, de maneira peremptória, o que já imaginava quando ouvia críticos dizendo que ao lado de Autran, só Brito. Realmente, só Brito. Nunca vi Autran (lugar inóspito e tal). Sei que serei alvo de chacota quando no leito de morte o padre perguntar qual meu último e irrevogável desejo, e eu, olhos moribundos e lábios ressequidos, sussurrar Paulo Autran. Um homem não deve ser julgado pelo seu desejo derradeiro. E o meu desejo é ver Paulo Autran travestido de Hamlet e a soliloquiar entre um cigarro e outro. É uma bela imagem para servir de alento quando a morte, enfim, morder-me os calcanhares.
A segunda razão, Beckett. Beckett é um comediante pessimista. O maior do século passado, ao lado de Woody Allen e Kafka (serei chicoteado por essa afirmação, mas para ser um tantinho enfático, e estimular ainda mais o ânimo de ortodoxos e críticos de pantufa, repito: os maiores comediantes pessimistas do século passado foram Beckett, Kafka e Woody Allen).
Pronto, falei. Prossigamos.
Isabel Cavalcanti, a encenadora, por vezes, e quando percebe que o essencial ali se encontra em aspectos dramatúrgicos e interpretativos, atinge o riso esquizofrênico (termo cunhado por papai), que ri do absurdo das nossas imperfeições e escolhas tortuosas e tentativas inócuas por sentido. Em outras palavras, ri do que chamamos de a condição humana (caixa alta). Tivesse um ator qualquer, Isabel estaria perdida. Mas ela tem Sergio Britto. Portanto, 90% do trabalho já estava concluído antes mesmo dos primeiros ensaios. Restava, ainda, 10%. E 10% é um bocado de trabalho quando falamos de Beckett.
Há duas cenas, e a primeira (A Última Gravação de Krapp) é irrepreensível. Britto respira, e come uma banana, e outra, e caminha, e nós já estamos entregues. Antes de soltar a primeira palavra, já estabeleceu os termos, e nos resta apenas contemplar. Não fiz outra coisa além de contemplar e soltar alguns risos abafados. O artifício sonoro, despertado a cada novo caminhar da personagem Krapp, e o silêncio beckettiano, presente de maneira aguda, como sói acontecer quando diante de alguém que sabe traduzir e compreender que Beckett está no indizível, proporcionam à cena, e conseqüentemente a seu intérprete, Sergio Britto, momentos de rara beleza (perdoe-me o lamúrio piegas, mas é verdade).
Já a segunda cena (Ato sem palavras I) fica no meio do caminho. Há o humor característico de Beckett. Há o absurdo e a falta de sentido que rege a vida. Há o humano-chimpanzé que age e responde tão-somente a estímulos. E por que então a cena não desperta nada além de um ok, e daí? Talvez o cenário seja cool demais, e isso realmente causa certo desagrado e esgares faciais de rejeição; contudo, enfim, entretanto, porém, ademais, isso está longe de ser uma resposta satisfatória. Sobrancelhas arqueadas e mão no queixo, ponho-me a refletir: a verdade é que talvez esperasse uma coisa e tenha recebido outra. É difícil receber Beckett em ambiente tão luminoso e à sombra de um coqueiro, admito. E por isso, alimento dúvidas. Sim, dúvidas. Mas não quero desancar a cena antes de uma revisão, que farei na próxima semana.
Adendo: Sergio Britto é um ritual de um tempo que morreu, um xamã, uma divindade. Ajoelharia se pudesse, mas o espaço entre os assentos e a fileira seguinte era tão exíguo que mantive a compostura.





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