A Última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras I

30 maio, 2009

sergio

★★★★☆  A Última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras I

Em primeiro lugar, Sergio Britto. A razão primeira da minha ida ao teatro foi para ver Sergio Britto antes que esse fosse para algum lugar distante e inóspito. E agora posso afirmar, de maneira peremptória, o que já imaginava quando ouvia críticos dizendo que ao lado de Autran, só Brito. Realmente, só Brito. Nunca vi Autran (lugar inóspito e tal). Sei que serei alvo de chacota quando no leito de morte o padre perguntar qual meu último e irrevogável desejo, e eu, olhos moribundos e lábios ressequidos, sussurrar Paulo Autran. Um homem não deve ser julgado pelo seu desejo derradeiro. E o meu desejo é ver Paulo Autran travestido de Hamlet e a soliloquiar entre um cigarro e outro. É uma bela imagem para servir de alento quando a morte, enfim, morder-me os calcanhares.

A segunda razão, Beckett. Beckett é um comediante pessimista. O maior do século passado, ao lado de Woody Allen e Kafka (serei chicoteado por essa afirmação, mas para ser  um tantinho enfático, e  estimular ainda mais o ânimo de ortodoxos e críticos de pantufa, repito: os maiores comediantes pessimistas do século passado foram Beckett, Kafka e Woody Allen).

Pronto, falei. Prossigamos.

Isabel Cavalcanti, a encenadora, por vezes, e quando percebe que o essencial ali se encontra em aspectos dramatúrgicos e interpretativos, atinge o riso esquizofrênico (termo cunhado por papai), que ri do absurdo das nossas imperfeições e escolhas tortuosas e tentativas inócuas por sentido. Em outras palavras, ri do que chamamos de a condição humana (caixa alta). Tivesse um ator qualquer, Isabel estaria perdida. Mas ela tem Sergio Britto. Portanto, 90% do trabalho já estava concluído antes mesmo dos primeiros ensaios. Restava, ainda, 10%. E 10% é um bocado de trabalho quando falamos de Beckett.

Há duas cenas, e a primeira (A Última Gravação de Krapp) é irrepreensível. Britto respira, e come uma banana, e outra, e caminha, e nós já estamos entregues. Antes de soltar a primeira palavra, já estabeleceu os termos, e nos resta apenas contemplar. Não fiz outra coisa além de contemplar e soltar alguns risos abafados. O artifício sonoro, despertado a cada novo caminhar da personagem Krapp, e o silêncio beckettiano, presente de maneira aguda, como sói acontecer quando diante de alguém que sabe traduzir e compreender que Beckett está no indizível, proporcionam à cena, e conseqüentemente a seu intérprete, Sergio Britto, momentos de rara beleza (perdoe-me o lamúrio piegas, mas é verdade).

Já a segunda cena (Ato sem palavras I) fica no meio do caminho. Há o humor característico de Beckett. Há o absurdo e a falta de sentido que rege a vida. Há o humano-chimpanzé que age e responde tão-somente a estímulos. E por que então a cena não desperta nada além de um ok, e daí? Talvez o cenário seja cool demais, e isso realmente causa certo desagrado e esgares faciais de rejeição; contudo, enfim, entretanto, porém, ademais, isso está longe de ser uma resposta satisfatória. Sobrancelhas arqueadas e mão no queixo, ponho-me a refletir: a verdade é que talvez esperasse uma coisa e tenha recebido outra. É difícil receber Beckett em ambiente tão luminoso e à sombra de um coqueiro, admito. E por isso, alimento dúvidas. Sim, dúvidas. Mas não quero desancar a cena antes de uma revisão, que farei na próxima semana.

Adendo: Sergio Britto é um ritual de um tempo que morreu, um xamã, uma divindade. Ajoelharia se pudesse, mas o espaço entre os assentos e a fileira seguinte era tão exíguo que mantive a compostura.

É por essas e outras que admiro o Mário

29 maio, 2009

Minha casa tá destroçada. Sou um sujeito que não consegue manter porra nenhuma em ordem. Minhas roupas estão jogadas em vários lugares e eu mijo constantemente no chão do banheiro, porque tô bêbado e não tenho a menor condição de acertar o vaso sanitário. Então quando levanto de manhã pra ir mijar, piso no chão molhado de urina e minhas meias ficam encharcadas. Então olho melancólico para a caricatura de homem que me tornei. E olha que já previa isso há muito tempo. Mas no fundo queria acreditar que tinha alguma chance. Há copos de whisky em lugares estratégicos como se esperassem pela próxima cagada que vou fazer. Sou pior que o personagem de Dostoiévski. Eu ainda queria acreditar em delicadezas, mas estou muito longe disso. Eu sei que tentei, mas tenho que admitir que não consegui. Às vezes fico pensando que os outros também deviam fazer a parte deles, mas isso não interessa. O que importa na verdade é que eu é que tenho que fazer a minha, e eu não tenho a manha. Eu perco toda a razão quando saio do controle. Então eu sou pior. Pior do que imaginei que poderia ser. Então quando chego em casa sozinho, fico tentando entender o que é que aconteceu em determinado momento da minha vida pra que eu me tornasse esse negócio que eu sou. Não tenho nenhum orgulho da minha vida. E esse de maneira nenhuma é um post de autocomiseração. É sim um post de reflexão. Algumas pessoas não precisam fazer isso. Outros devem fazer isso o tempo inteiro. Há alguns que tem consciência que o inferno pode estar mais próximo que a padaria da esquina. Que almas estão sendo torturadas nesse exato momento quando me levanto da mesa do bar e ando pela calçada sozinho. Eu sou pior. Isso eu sei. Mas ainda me sobrou alguma consciência. Espero saber fazer algo com ela. Minha constante vigília depois que sinto minhas meias encharcadas de urina. Eu não tenho cúmplices nessa noite. Eu só tenho uma alma despedaçada que é constantemente barrada em restaurantes finos com pessoas impolutas com sorrisos impecáveis. E olha que eu nem gosto muito do lugar, porque a música é ruim, a comida é pouca e o garçon tem certeza que pode te julgar pela aparência. Mas me incomoda saber que sou barrado mesmo assim. Tiro minhas meias encharcadas de urina. Deito na rede e fico balançando, lentamente. Ninguém é pior, repito várias vezes. E o pior é que eu acredito nisso. Saber é solidão.

Mário Bortolotto

Das Weisse Band

24 maio, 2009

Enfim Haneke leva a Palma de Ouro para casa.

Drops #7

24 maio, 2009

Ao invés de acordar de sonos intranqüilos metamorfoseado num inseto monstruoso, acordei tão-somente e percebi que ainda respirava e podia locomover-me do quarto até o banheiro com invejável desenvoltura, o que só me fez crer que Gregor Samsa, diferentemente de mim, era um sujeito de sorte inegável.

Cardoso, o bem-dotado, o homem de Porto Alegre

24 maio, 2009

Além de bem-dotado, escritor dos mais criativos, é um baita blogueiro.

Sorte & Azar

21 maio, 2009

Oi. Veja o vídeo.

Como é possível, século XXI, descoberta da penicilina, independência sexual, feminismo, existencialismo, ratos de laboratório, presidente preto no estates e tal, alguém ainda desacreditar em SORTE & AZAR?

Explico: saí de casa pela manhã, e só não fui atropelado por uma Cherokee em razão de uma moedinha de 10 centavos. A moeda rolou do meu bolso traseiro, e atingiu uma velocidade média de 10 km/h. Ao correr em direção à moeda, deixei o ponto onde conversava com um colega, que foi atingido em cheio pela Cherokee preta e de calotas douradas. O motorista ouvia Calypso e mascava chiclete. Sei  que isso tem uma relação direta com o fato de ele ter perdido o controle do carro, mas não posso afirmar isso assim, de maneira categórica.

Já foi comprovado que mascadores de chiclete são mais dispersivos que não mascadores de chiclete. E que ouvintes de Calypso mais lerdos que ouvintes de jazz, mas ninguém parece se importar verdadeiramente com coisas importantes, o que só faz crescer o número de acidentes desse tipo. Que fique claro que não estou dizendo para não mascarem chiclete ou deixarem de ouvir Calypso, mas que façam isso em casa. E que, pela graça de Deus, sua casa não seja  próxima da minha.

Enfim.

Meu colega passa bem. Perdeu apenas um dos dedos do pé, o que não lhe fará falta alguma já que jamais sonhou em ser boleiro. A moeda, suponho, permanece ao lado do meio-fio. Ou então foi encontrada por um garotinho e trocada por um pirulito cor-de-rosa e que faz barulho. Todos bem, pois.

E se algum astrólogo ou teólogo ou um desses ólogos me disser algo como estava escrito, soltarei um arroto. Um arroto, e só.

Felizes para sempre

16 maio, 2009

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★★★½☆  Felizes para sempre

Enfim consegui assistir Felizes para sempre. Tivesse que escolher três textos do Bortolotto ficaria com Homens, Santos e Desertores, Uma Pilha de Pratos na Cozinha e Felizes para sempre. Li e reli Felizes para sempre. Tenho carinho pelo texto. Sinto como se tivesse escrito (evidentemente por querer tê-lo escrito).

O conjunto de atores egressos do Macunaíma, em sua maioria, sabe como e o porquê alimentar e gerar aquelas três cenas curtas. Há um cenário prosaico e intimista e criativo a acomodá-los, bem como a iluminação, que serve como linguagem e está ali tão-somente porque tem de estar.

Mais: a encenadora é fiel ao texto e ao mundo daquelas personagens. Não há happy end, mas silêncio.

E felicidade, há?

Ouço o Mário sorrindo ao fundo, como se dissesse que merda é isso?

Amigas que fazem sucesso

14 maio, 2009

Prêt-à-Porter Cult Nº1

13 maio, 2009

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★★★½☆  Prêt-à-Porter Cult Nº1

Prêt-à-Porter Cult Nº1. Pensei longamente acerca do cult Nº1 aqui inserido, mas não cheguei a nenhuma conclusão reveladora. Minto. Uma conclusão: outros cults virão, já que esse intitula-se Nº1. Nada mais ou além. Consultei papai, que foi taxativo: Meu pequeno imbecil, cult é toda obra que fracassou na estréia mas que, paulatinamente, ganhou um sem-número de admiradores mundo afora com o passar dos anos.

Silenciei. A dúvida, no entanto, persistia. Como uma obra é cult antes mesmo de vir a público? Antes mesmo da primeira saraivada de tomates? Antes mesmo de os atores serem tomados por libertinos ou vanguardistas inócuos? Não sei. E então, depois da encenação, e já tendo dormido duas noites e após um gole de Coca-Cola estupidamente gelado, eis que a epifania surge num estalo: Antunes é cult. A casa tremeu. Repeti: Antunes é cult!, Antunes é cult!

Sim, toda angústia evaporou-se, e pude seguir com minha vidinha. Antunes é cult e pronto.

Mas então papai retorna do jardim, e com olhar inquiridor indaga: O que achou dos pupilos daquele velho asqueroso e esclerosado?

Ah, papai, papai, eles já são atores! Quer dizer, quase todos já o são em certa medida.

Sei. Novos?

Sim, papai, novos. Bem novos. E com entusiasmo e vontade e sopro de vida. E verdade, sobretudo.

Também estão lá há séculos, alguma coisa devem ter aprendido além de varrer o chão e limpar o banheiro e vender ingressos e servir de babá para aquele velhaco.

Aí é que você se engana. Entraram lá em 2008, e se formaram há pouco mais de seis meses, salvo engano.

Sei. E as cenas, boas?

Ah, papai, a primeira cena chama-se Coisas do silêncio, e lida com um aspirante a pintor que é surdo-mudo e uma garota que decide posar pra ele.

Nada de novo no front.

Enganou-se novamente: o garoto, um tal de Marcos Medeiros, esculpe o silêncio, sabe, pai? Esculpir o silêncio é coisa de veterano, pai, não coisa de moleque que acabou de sair da escola de atores. Mas ele esculpe. E a garota, lindinha, daquele tipo que a gente sente vontade de sentar num café e ficar horas e horas admirando, não fica atrás não. Os dois lidam com o silêncio e o impulso e o desejo de maneira tão aguda e verdadeira que a gente sente vontade de morar na cena, sabe?

Sei. A segunda deve ser uma bosta.

Nada disso, resmungão. A segunda é boa. Muito boa também. Ela não nos seduz inicialmente, como a primeira cena, mas depois vamos notando as nuances, e lá pelo meio entendemos do que são feitas aquelas personagens. E  tem um tal de Fernando Aveiro, que faz uma das personagens, que é uma coisa meio híbrida, uma coisa lasciva, e  que tem uma voz e uma presença cênica que já fariam daquele encontro um acontecimento. Teatro é tempo e verdade, né, pai. E tanto o Fernando quanto a Carol Meinerz sabem como trabalhar com o tempo. E o final, pai, ah, o final…

Qual é a do final?

Mais não conto.

Tá. A primeira é ótima, já entendi. A segunda é boa, ok. Aposto uma grana que a última é uma merda.

Velho bobinho. A última é a mais frágil, sim, mas não é ruim não. Ela tem um clima muito bacana, e a Flávia Strongolli, que faz uma prostituta, é talvez a atriz mais preparada, mais viva das três cenas. O problema é o texto, pai. O texto a deixa meio caricata, meio puta de novela, meio puta sem humanidade, sem precariedade no sentido mais cru da palavra. Só não fica toda estereótipo porque a Flávia tira leite de pedra, e faz a cena tipo Gena Rowlands, tipo atriz que sabe que a situação não é favorável mas não tá nem aí, tipo falando pra gente que aquela personagem ali mereça ser ouvida.

E o ator que contracena com ela?

Ah, pai, aí é mais complicado. O cara chama Babu Rodrigues, e faz uma personagem que se apaixona pela prostituta.

Bacana a idéia.

É sim, pai. O problema é que o Babu segue um tom monocórdio, e faz seguindo uma linha da personagem “tipo”, unidimensional, reconhecível e aceita, meio que padronizada, enlatada, e aí não consegue nem beirar o ridículo, que deveria ser a intenção primeira dele, e nem soa dramático, pois a personagem não está ali, pai, não está. Sabe quando você percebe que o ator está pensando demais em cena? É isso. Fica tudo coordenado, sabe? Se a gente gritar da platéia ele assusta, porque na verdade ele não está ali. Sabe como é, né, pai?

Sei, filho, sei. Mas então o saldo é negativo. Eu sabia.

Não, pai, claro que não. O saldo é pra lá de positivo. Mais: os garotos tiveram peito pra apresentar o único Prêt-à-Porter onde o desejo, o sexo, a libido, enfim,  a pulsão da “carne” assume-se como deve ser, sem anteparos e recalques.

Ah, filho, você nunca vai aprender mesmo, né? Teatro bom é aquele que a gente sai rindo, e não pensando. Pensar muito só traz tristeza, filho. Presta atenção, moleque!

O Gato diz Adeus

12 maio, 2009

Li o Gato diz Adeus (Michel Laub) num sopro. Narrativa fluente e árida e de distâncias e incompreensões. Dar voz a quatro narradores distintos e intermitentes possibilita uma dimensão e profundidade outras que não seriam alcançadas se apenas um narrador conduzisse a narrativa. Ainda não sei se gostei. A arquitetura da novela (não consegui notar um romance aqui, desculpe) é de precisão exemplar, e desde o início sabe-se que estamos diante de um escritor hábil, mas algo no miolo do livro acaba por incomodar, embora ainda não saiba ao certo o que é esse algo. Espero postar algumas impressões após a releitura, que farei por estes dias.

O gato é um dos bichos mais vulneráveis da natureza. Uma simples mudança de ambiente faz as defesas do organismo despencarem. Uma dose da vacina contra a raiva pode ter como efeito um tumor. Um gato pode ser morto por uma aspirina, fechar a glote se comer certas plantas, ter convulsões se ficar trancado por uma hora num banheiro limpo com Pinho Sol. Quando você põe um gato no colo, sente o coração dele batendo rápido, como se pressentisse todas essas formas de perigo, mas eu ainda não tinha consciência disso quando segurei Valesca pela primeira vez. Eram menos de dois quilos na minha mão, uma altura desproporcional ao tamanho do corpo, um filhote sem unhas, sem dentes, a barriga mole.

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