One day at a time

3 janeiro, 2009 · Imprimir

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011Pensei na maior perda que tivemos este ano e cheguei a uma conclusão um tanto óbvia para quem acompanha este blog. A maior PERDA de 2008 foi a morte de David Foster Wallace. Tiago A pensa o mesmo (ele não diz isso explicitamente, A MAIOR PERDA DE 2008 e tal, mas eu posso afirmar que ele sente o mesmo). E ele diz algo que eu costumo comentar com amigos e transeuntes dispostos a ouvir:

Dave Wallace foi o maior ensaísta surgido nos últimos 50 anos. Em mesas de bar, costumo palpitar embriagadamente que, em 2108, ele será lembrado mais por sua obra não-ficcional do que por Infinite Jest. Depois que um assunto era tema de um artigo de DFW, minha cabeça só conseguia pensar nele lembrando (1) que DFW já tinha escrito sobre aquilo e (2) o modo como ele tinha feito isso. Sua assinatura está presente em cada palavra, parágrafo, seção; é como uma marca-d’água. A leitura de seus ensaios e reportagens produz uma experiência transformadora

A afirmação de Tiago A. pode, também, ser aplicada à ficção de Foster Wallace. Após ler um conto qualquer dele (estou pensando em Para sempre em cima e A pessoa deprimida, ou o conjunto de contos intitulados Breves entrevistas com homens hediondos) tudo MAIS perde o interesse, e você começa a se perguntar como você conseguia viver antes de deparar-se com esse autor, tal como fazemos ao nos apaixonarmos e reavaliarmos o ANTES e o DEPOIS, e concluirmos que a vida só passa a ter sentido agora, com a presença desse OUTRO que é parte de NÓS.

Ninguém escrevia como David Foster Wallace. Ninguém escreve como David Foster Wallace. Eu sei que você costuma ouvir isso um bocado de vezes, o que te leva a pensar que isso não passa de uma frase de efeito ingênua, criada com o intuito primeiro e último de te seduzir, o que não deixa de ser verdade por um lado, mas que esconde o intuito VERDADEIRO da sentença, que é o de dizer que realmente ele era ÚNICO e que perdê-lo causou em mim (prepare-se, lá vem pieguice) uma hecatombe interna de proporções ainda não assentadas (o impacto foi semelhante à perda de um ente muito querido).

Escrevo isso aqui para ressaltar a importância de DFW em minha vida, e de como ela foi ALTERADA pela leitura de seus escritos em 2007-2008, embora eu saiba que nada do que eu venha falar aqui modifique o fato de sua perda precoce, o que só agrava ainda mais essa SENSAÇÃO estranha e sem nome que estou sentindo enquanto escrevo e penso no que ele provavelmente nos legaria futuramente.

De acordo com o laudo da polícia1, ele pregou o cinto de cor negra em um suporte de madeira do telhado de um alpendre no pátio dos fundos do quintal da casa e preparou uma forca. Depois, amarrou os próprios punhos com fita adesiva para evitar que pudesse desistir. Seu método escolhido foi morrer lentamente sufocado. Era uma noite de chuva. Usava uma bermuda cinza e uma camiseta azul. Os cabelos, crescidos até a altura do pescoço, estavam soltos. No rosto, a barba por fazer. Tinha à mostra no braço direito a tatuagem de um coração, sobre a qual estava escrito um nome: Karen. A morte foi declarada às 21h23 do dia 12 de setembro, cerca de quatro horas depois que a esposa saiu de casa e viu-o vivo pela última vez. Tudo ocorreu em Claremont, nos Estados Unidos. (…)

A morte de DFW foi ignorada pela imprensa escrita. A revista Piauí contribuiu com a tradução do seu discurso (parte dele) como paraninfo do Kenyon College. Uma notinha esparsa aqui, um comentário acolá, e finito. Sepultaram-no antes mesmo do sepultamento em si. À época, fiquei puto, esbravejei, babei, disse que precisava de um dossiê em todos os periódicos de CREDIBILIDADE disponíveis no Brasil (doce ingenuidade), e tudo mais a que tivesse direito, afinal ele escreveu isso, e isso, e mais isso aqui, e Infinite Jest (que estou lendo), e Para sempre em cima (prometo postá-lo na íntegra num futuro próximo), que é um dos contos mais AWESOME dos últimos anos, e por isso TUDO não poderiam, não deveriam colocá-lo na vala comum da seção de obituários nunca lidos. Mas, como  haveria de ser, colocaram-no na vala comum, e assim permanece quase desconhecido por estas bandas (alguns citam dizendo que é o autor que cometera suicídio enforcando-se em sua casa envolto aos seus cachorros durante uma noite chuvosa).

Era MAIS ou MENOS isso que eu tinha pra dizer, e já é 3 de janeiro de 2009, e eu deveria terminar o post desejando felicidades e agradecendo o ano que passou, e você provavelmente sorriria do outro lado enquanto saboreava algum naco de carne da noite anterior, mas eu prefiro deixar um presente (não precisa agradecer) e um sorriso à Buster Keaton, e acrescentar o uivo triste do meu cachorro quando na virada do ano, que como se antevisse o já fatídico 2009, só fazia uivar e andar em círculos e mais CÍRCULOS.

Aqui o presente em PDF; aqui em versão folheável (o único dossiê declaradamente tupiniquim acerca de DFW; e de lambuja um ensaio de fôlego sobre Mãos de Cavalo e uns textinhos SABOROS envolvendo literatura. Um aperto de mão e um abraço a Não Editora e a Antônio Xerxenesky, e um pedido: apressem, por gentileza, a feitura da número 2).

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