Algumas coisas fazem a vida valer a pena

30 novembro, 2008

Vale a pena viver? Bem, algumas coisas fazem a vida valer a pena. Coisas como… bem, vamos ver… Groucho Marx, Willie Mays e… o segundo movimento da Sinfonia Júpiter e… a gravação de Potato Head Blues de Louis Armstrong… filmes suecos, naturalmente… A Educação Sentimental, de Flaubert… Marlon Brando, Frank Sinatra… aquelas incríveis maçãs e pêras de Cezanne… o caranguejo no Sam Wo’s… o rosto de Tracy…

Leitor obeso

29 novembro, 2008

Como fazer para ficar em casa e terminar a leitura de um livro que comecei na semana passada? Mais de uma semana lendo um livro de menos de 200 páginas é um sacrilégio, um atentado à literatura e aos seus rígidos critérios de LEITOR OBESO. A saber: leitor obeso é aquele que jamais consegue sentir-se bem com aquilo que está no prato, ou na estante, e então continua comprando e comendo antes mesmo de mastigar o resto de comida que vai sendo regurgitado aos poucos.

James Salter e a Última Noite está aqui há dois meses e meio, e nada além de uma breve leitura da orelha e do início do conto Akhnilo. Manoel Carlos Karam e seu Comendo bolacha maria no dia de são nunca foi apenas folheado, e olha que o livro está coberto de pó já faz um bom tempo. Paraíso Perdido (Cees Nooteboom) e Austerlitz (W. G. Sebald) seguem o mesmo percurso. Dentes Brancos (Zadie Smith) faz aniversário de um aninho, e o badalado Filho Eterno sequer foi manuseado. Outros figuram nas estantes feitas sob medida aqui do quartinho, e isso não quer dizer que eles foram devidamente lidos e relidos. Não obstante, a lista de futuras aquisições continua crescendo desavergonhadamente.

O que fazer, leitor parrudo?

Ler. É o que pretendo fazer nas férias. Ler e dormir. E iniciar um regime, afinal ninguém mais suporta seus ataques e surtos quando informado que um livro qualquer acaba de sair do prelo.

Daniel & Simone

28 novembro, 2008

Pude, enfim, ler Simone Campos e seu livrinho (devido ao tamanho) No Shopping. Li também Mãos de Cavalo, de Daniel Galera, que está na minha lista de leitura há dois anos. Do segundo havia lido Dentes Guardados (ótima estréia) e a novela Até o Dia em que o Cão Morreu (relato de um amor; relato da solidão; relato de uma parcela jovem que perdeu as esperanças coletivas e mergulhou de cabeça numa experiência autodestrutiva; relato de um encontro…).

Simone é talentosa (17 aninhos e um livro como No Shopping, uau!). Daniel era talentoso nos pequenos contos de Dentes Guardados, ainda talentoso na novela Até o Dia em que o Cão Morreu, e, como esperado, um ESCRITOR com o romance Mãos de Cavalo.

Da Simone só li No Shopping, e não vejo ali mais do que uma garota com certa intimidade com a palavra. Algumas passagens soam infantis, e dizer que a narradora é adolescente não é salvo-conduto para ninguém. O vaivém da narrativa, por vezes, causa engulhos; tenho certa rixa com discurso direto, algo que Simone usa  de maneira intermitente (jovens escritores têm costume de utilizar o discurso direto como muleta; favor desconsiderar Luiz Vilela).

Essa história será contada como me foi contada. Por essa menina. A memória jovem dela confunde os fatos. Prometo que às vezes eles vão soar confusos e dispersos.

Embora ela avise do caráter fragmentário de seu texto, e das peças que necessariamente não se encaixam, o sabor é de Coca-Cola sem gás em dia de verão. A narrativa não flui. A estrutura engole a história – o fiapo de história. A impressão é que estamos lendo um diário furtado da garota introspectiva do Colégio São Luís. As descobertas dessa garota, quando muito, arrancam um risinho sem graça, quase indiferente.

O prazer da leitura vem antes da “análise crítica”, algo que não ocorreu com a leitura de No Shopping. Repetidas vezes interrompia a leitura e começava a analisar o texto, o que é por demais estranho em se tratando de uma primeira leitura. Embora não seja exagero repetir: ela é TALENTOSA; No shopping foi escrito quando tinha 16 para 17 anos, e isso tem de ser levado em conta (com 16 anos eu só fazia peidar e jogar videogame e assistir filmes).

Daniel é outro prodígio: participou do Cardosonline, foi dono de uma editora (Livros do Mal), blogueiro,  web designer, viciado em videogame e tradutor requisitado. Mais: O cara é filho da Companhia das Letras, autor de um livro de contos, uma novela e dois romances. Isso é um feito para um autor de apenas 28 (29?) anos.

Mãos de Cavalo (isso não é um spoiler): um garoto de 10 anos em sua bicicleta; um adolescente de 15 e as descobertas da sexualidade, da amizade e da vida REAL, livre de anteparos; um homem meticuloso e perfeccionista, casado com a profissão e insatisfeito com sua vida conjugal.

(ISSO NÃO É UMA RESENHA; ISSO NÃO É UM SPOILER.)

Mãos de Cavalo é um grande romance não pela riqueza descritiva (e que riqueza descritiva!) ou  pela articulação engenhosa de três momentos distintos de uma vida pautada por um não-fazer, mas por uma história contada de maneira um tanto retrógrada, “clássica” mesmo. Por que antes de um escritor de raro talento, Daniel é um simples (no bom sentido) contador de histórias. Talvez estava sentindo falta de uma narrativa que fosse desenvolvida de maneira prosaica e sem piruetas e exibicionismos estruturais e de linguagem, e daí minha identificação quase automática com Mãos de Cavalo. Outra: as referências do livro remetem ao período da  minha adolescência, de filmes como Mad Max, videogame Phanton System, bicicleta Caloi Cross, tênis M2000 e pequenas rusgas à porta da escola, que acabavam por mobilizar grupinhos que, armados com paus e pedras, digladiavam-se até que um adulto, devidamente respeitado, interviesse, suspende-se por breves instantes o que seria uma guerra sempre iminente e não raro trágica.

Como todo Bilgdungsroman (romance de formação), a descrição dos ritos de passagem constituem boa parte dos grandes momentos de Mãos de Cavalo:

Por algum tempo, Hermano tentou compreender por que eles estavam lá e ele ali, sentado na cadeira. Não compreendeu. Depois tentou decidir se estava satisfeito ou insatisfeito com o fato de estar sentado na cadeira, longe da pista de dança. Não conseguiu decidir. Talvez ele quisesse sair dali e se juntar aos outros. Talvez ele devesse fazer isso, mesmo não querendo. Talvez ambas as coisa fossem falsas. Talvez devesse estar em casa. Talvez devesse voltar para a casa agora mesmo, trocar a calça de brim por uma bermuda, prender o walkman na cintura e pôr os fones nos ouvidos e tirar a bicicleta da garagem e pedalar alucinadamente pela madrugada escutando Motörhead no volume máximo, até suas pernas amolecerem e as panturrilhas se contraírem em câimbras. Ao avaliar essa possibilidade, não tinha certeza se era realmente o que queria fazer ou se era somente o que achava que devia ser feito, ou ainda se era o que ele gostaria que os outros soubessem que ele tinha feito. Ou era o que ele gostaria, de alguma forma, de ser visto fazendo? Pensava que em algum ponto desses questionamentos, ou no próprio gesto de uma pelada sem sentido pela madrugada, estava a pista definitiva  para a sua identidade, a síntese de quem ele era, quem imaginava ser e quem todos os outros enxergavam.

Ao ler passagens desse tipo (há outras tão boas quanto, e até melhores) é inevitável a lembrança do garoto deslocado e sem norte, que preferia videogames a festas, filmes ao invés da rua, e brincadeiras solitárias com amigos imaginários em detrimento dos amigos REAIS.

A história de Hermano reaviva sua própria HISTÓRIA pessoal, mobilizando mais do que simples indagações do tipo eu poderia ter mudado algumas coisas, esquecido outras, pulado outras… E ao final, Mãos de Cavalo desperta um algo que você tinha claro conhecimento mas parece ter esquecido com o passar dos tempos: narrativas existem, sobretudo, para nos lembrar do que SOMOS FEITOS.

Mãos de Cavalo é mais do que um mero acerto pontual: trata-se da confirmação de um escritor jovem e maduro.

Coda: O autor de Mãos de Cavalo é tão distante daquele que escreveu Até o Dia em que o Cão Morreu que não seria exagero afirmar que são autores distintos. Sim, autores evoluem, amadurecem… Se alguém quiser me presentear com A Feia  Noite, de Simone Campos, prometo escrever algo aqui, falando das diferenças de tom, estilo etc. entre o primeiro livro de Simone e esse último.

2046

28 novembro, 2008

Acabo de rever. Confirmado: é um dos MAIORES filmes desse século.

26 novembro, 22h10, TV Globo

26 novembro, 2008

Desistir de desistir

25 novembro, 2008

Taí uma das coisas que tenho praticado pouco. Desistir de desistir. Nos últimos anos o que mais tenho feito é desistir. E tenho desistido com uma convicção inabalável, apostando todas as fichas numa decisão sempre tomada de maneira racional e, julgava eu, correta. Correta por permitir que esse sujeitinho reticente aqui pudesse esconder-se atrás da bela capa do não-fazer, resguardando e mantendo lacrada a suspeita nunca confirmada de sua inaptidão para toda e qualquer coisa que envolvesse um processo natural de seleção. O pessimismo é um grande combustível para que você opte sempre pelo caminho mais fácil (o pessimismo é tão-somente um anteparo, é só um anteparo para que você proteja-se de suas imperfeições). É preciso dar início ao movimento, é preciso mexer-se de vez em quando. Talvez seja isso mesmo: não começo ALGO verdadeiramente faz um bom tempo. Foi preciso que uma amiga dissesse para você que já estava cansada de DESISTIR para que notasse que anda fazendo isso com uma regularidade incomum e injusta. Desistir deveria ser opção, não regra.

DESISTIR, insisto, deveria ser uma opção, não um hábito.

Ser: nada

24 novembro, 2008

Nunca fiz teste vocacional. Sempre desconfiei da idéia de alguém dizendo no que você deve INVESTIR sua vida.

Esse daria um bom médico, esse um ótimo professor, aquele um cientista…

Quando você diz que não quer ser nada ninguém entende.

Como assim, nada?, pergunta sua mãe. Nada é NADA. É difícil explicar para alguém que quer ser ALGO que você não quer ser nada. É como dizer para um católico fervoroso que Deus não existe. Você entende que ele precisa de um Deus, mas ele jamais entenderá que você não precisa de um Deus pessoal.

Não ser nada implica um esforço sobre-humano e um estoicismo só comparável a resignação de monges tibetanos. Mamãe e papai nunca compreenderão tal escolha. Pois ser nada é sobretudo uma escolha. Não uma escolha do tipo sorvete de kiwi ao invés de pistache. Escolher não ser NADA desestabiliza e interfere a escolha do outro que decidiu ser TUDO.

Para resumir e dar esse assunto por encerrado, afinal já passa das 23:45, e hoje é só-ainda segunda-feira, fica com esse trechinho de um texto do Brodsky:

A poesia é uma arte nômade. A diferença entre um nômade e um colono não é a diferença; o motivo pelo qual o colono teme o nômade não é tanto porque este pode destruir sua casa, sua vida, mas porque o nômade compromete a sua idéia de horizonte.

Day off

23 novembro, 2008

Nenhuma tragédia grega foi capaz de provocar catarses tão efetivas quanto uma única cena de Day off.

Alguns Leões Falam

22 novembro, 2008

Havia dado o ponto final ao texto não-resenha escrito para Alguns Leões Falam, e então fui incluir a foto junto ao texto, o que fez com que o texto desse lugar à foto e não existisse mais texto. Tentei vasculhar o rascunho automático que é feito enquanto o texto está sendo escrito, mas até mesmo essa ferramenta parece ter conspirado contra, e no final resta a foto e esse desabafo de um cara que só não quebrou o teclado e a impressora Hp PhotoSmart C3180 all-in-one porque lembrou, impressora na mão e teclado pendurado à boca, que os míseros centavos restantes do seu ordenado de professor contra todos não mais lhe pertencem porque foram MUITO BEM gastos na noite derradeira de ontem, e assim restam a ele (eu) apenas um pouco de dignidade e fiapos de racionalidade, e por isso manter  as coisas como estão é um caminho mais acertado, não necessariamente o  melhor, mas uma opção minimamente satisfatória diante de fato algo ODIOSO quanto escrever um texto large e perdê-lo na boca da área para um goleiro manco.

A não-resenha falava, entre outras coisas, da infância e de seu caráter DEFINITIVO, da necessidade demasiada humana de fabular, bem como do elenco coeso e dos elementos mínimos que compõem a montagem e lhe dão o estofo necessário para que alce vôo e nos pegue pela garganta e sacuda nossa cabeça pra frente e pra trás, assim, quase dizendo  WAKE UP, ANYBODY HOME?!, tal como um amigo fez repetidas vezes com você antes que pudesse dizer odeio que dêem croques na minha cabeça.

Ah, sim, o espetáculo é FIVE STARS.

Amigos de verdade não esperam pra ir embora, eles simplesmente vão

22 novembro, 2008

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