Diário da Mostra (2)

31 outubro, 2008

Lugares vagos no HSBC. Lugares vagos no Cine Bombril. Lugares vagos no Espaço Unibanco Pompéia. Comprar ingressos antecipadamente, correr desesperadamente de um ponto a outro, comer qualquer besteira, sorrir para as pessoas na fila, consultar pela centésima vez o mesmo guia da Mostra, manchado de Coca-Cola e gordura de coxinha, e continuar a ouvir pontos de vista diametralmente opostos ao seu, continua sendo uma delícia. Vez por outra você perde a cabeça, isola-se no banheiro, sente vontade de fugir, dizer que Rohmer está gagá e que Hsiao-Hsien Hou é um engodo. No mais da vezes, é uma sensação estranha, de deslocamento, de correria vazia, inócua mesmo – pense numa fila composta de 1000 cabeças, você é a número 999, sendo que a número 1000 é uma velhinha que mais se parece com uma violeta que ficou sem água durante um mês, presa numa gaveta de cuecas. Ela pede seu lugar na fila, e dizer não, assim, estou na mesma que você, e não estou a fim de ser a número 1000 e etc. e tal, implica em ir contra um conjunto ético-moral caro a sua formação católica missa aos domingos e teatrinho JESUS É A SALVAÇÃO. E, apesar de ser uma pessoa abnegada, você não cede seu lugar, afinal ninguém quer ser a número 1000; a velhinha poderia, muito bem, ser a número 1000 (velha, já viveu bastante, não tem lá muita pressa, diferente de você e dos outros, esses sim afoitos, prestes a engolir o mundo). Você não deve ceder seu lugar. 999 está de bom tamanho. Alguém ficaria atrás de você. Isso é um alívio. Antes 999 do que 1000. Antes penúltimo do que último. Antes a velha-violeta do que o jovem cinéfilo babaca deslumbrado com a variedade de pratos e saladas das mais variadas.

999, esse é o seu lugar. Posicione-se de maneira altiva, rapaz! Não titubeie! Procure ver o maior número de filmes, ganhe tempo, fure fila, não detenha-se mais de 1min conversando com alguém, ou olhando uma vitrine, ou comendo, ou utilizando o banheiro, ou checando seu e-mail, ou lendo sinopses de filmes, ou escutando conversa alheia, ou trocando olhares com transeuntes tão apressados quanto você, enfim, corra! Não olhe para trás, há inúmeros filmes a serem vistos, e não importa que a partir do terceiro filme do dia sua cabeça já esteja em outro lugar, provavelmente perdida em imagens do primeiro e do segundo filme, e mesmo que seus amigos digam ah, sai dessa, é loucura!, ver mais de quatro filmes por dia, nem comer direito e tal, o que importa, o que IMPORTA  mesmo, é o número de filmes vistos ao final da Mostra. 70, 80, talvez 90 filmes. Quem sabe ultrapassar seu recorde pessoal de 82 filmes e meio (só não foram 83 em razão de uma súbita contração do estômago aliada a intermitentes crises de pânico)?

O mundo é dos que se arriscam. E por mais prosaica e segura que possa parecer sua aventura imagética, trata-se de uma aventura, pois. Um feito heróico. Insano e um tanto despropositado, sim, mas um ato de bravura e estoicismo. Quase uma lavagem cerebral deliberada. Mas o que é, pergunto, uma lavagem cerebral e seqüelas pelo resto da vida diante de uma marca indelével, uma plaquinha com seu nome e foto indicando a proeza de 90 filmes em menos de duas semanas, incluindo aí dois debates sobre cinema oriental e um tratado-estético-cinematográfico somando mais de 14 horas sobre a República  de Weimar e seus desdobramentos…

Vale o esforço todo?

Respondo: não. 2x não. Não ao quadrado. A nulidade da experiência se reflete ao final do dia com você irritadiço e sem vontade de falar duas palavras qualquer com a mocinha que lhe serve uma xícara de café embalada por duas gotas de adoçante. O pior é reencontrar a velhinha número 1000 e perceber, sorriso de orelha a orelha, sua efusiva alegria.

- Olá.

- Oi, filhinho.

- Parece feliz.

- Bastante.

- Uma porção de filmes.

- Nada, filho, nada disso.

- Nada?

- Um filme.

- (apreensivo) Qual?

- Bye Bye Blackbird.

- Sei.

- Você viu?

- Não.

- Então, como notei que não conseguiria comprar o ingresso, desisti. Muita gente pra ver o mesmo filme. Calor. Tudo muito apertado…

- Qual mais a senhora viu?

- Como?

- Quais OUTROS FILMES a senhora viu?

- Somente este.

- Só?

- Sim.

- Pelo jeito deve ser um puta filme, né?, toda alegre, cara boa e tal…

- Um bom filme. A sala estava tranqüila, quase ninguém comentando durante a exibição… e depois… e depois tive tempo de absorver o filme, ficar um pouquinho com ele, sabe?

- Claro. Claro que sei.

- Nos vemos amanhã, filhinho.

- Peraí, vai perder as outras sessões de hoje?

- (dando um sorriso maroto, de quem faz arte) Sim, vou perder, filhinho, vou perder.

E põe-se a andar vagarosamente em direção à saída.

Moral da história: ????????????

* A foto que ilustra o texto foi retirada daqui, ó.

Sabe planta, vegetal, objeto inanimado ou algo que o valha? É mais ou menos assim que ando me sentindo; tal como o espúrio bonsai que adorna meu projeto de varanda: inerte, seco e um tanto desbotado em decorrência do calor excessivo. Daí a pouca vontade de fazer qualquer coisa (assistir filmes, inclusive). Mas deixemos a existência um pouquinho de lado e falemos de coisa séria.

Segue os filmes vistos na Mostra (as estrelas, mais do que as palavras, dão o tom):

★★★★☆  Horas de Verão

A sutileza de Assayas na condução de um drama familiar, de origem e ocaso, culminando com um desfecho mezzo solar mezzo melancólico.

★★★★☆  O Casamento de Rachel

Um Festa de Família americano filmado por Cassavetes.

★½☆☆☆  Feliz Natal

Decepção. Esperava tanto desse filme, dessa história, desse ator-cineasta que tem como referência Sganzerla, Cassavetes, Lucrecia Martel… Não fosse a alta expectativa em torno do filme, poderia ser mais complacente. Não é o caso. A cena em volta da piscina (quase decalque de O Pântano; decalque de O Pântano), a câmera esquizofrênica comportada colocada de maneira precisa nos pontos marcados, num registro Cassavetes (que de Cassavetes não tem nada), e a exploração do acaso, do improviso como material fílmico, funcionam, no geral, de maneira ingênua, canhestra, tal como tique de diretor estreante, que utiliza o referente não como referente mas como a coisa em si. Conclusão: não basta ser bom ator ou cinéfilo para ser diretor. Não basta.

★★★☆☆  Bye Bye Blackbird

Um Artista da Fome romântico levado às telas.

★★☆☆☆  Ninho Vazio

Burman parece ter perdido o jeito. Esperemos o próximo.

★★★½☆ Rebobine, Por Favor

Ode ao cinema, à imaginação, à memória coletiva, à vida e tudo mais. O melhor Gondry de todos os tempos.

★★★★½  Se Nada Mais Der Certo

Aquele jogo na Barra Funda não deu certo, aquele serviço com o Gordo não deu certo, aquele truque do Antenor não deu certo, aquele negócio com o padre também não deu certo, aquele cara que o Abílio pediu pra votar não deu certo, aquele trabalho era incerto, aquele DVD pirata que comprei não funcionou, aquele final de semana não deu certo… Mas tudo vai dar certo.

Candidato a melhor filme brasileiro do ano (e da mostra). Não esperava tanto assim do Belmonte.

★★★☆☆ Rock’n'Rolla – A Grande Roubada

Divertidíssimo. Por vezes só eu ria, o que não é nada estranho em se tratando de mim. Arrisco dizer que é o filme mais divertido de Guy, sendo que acho seus filmes anteriores bem, BEM divertidos. Fora os diálogos, que, sem dourar a pílula e tal, estão entre os mais saborosos do ano.

Só.  Só? É, só. Alguém espera mais de um Guy Ritchie?

Eu não.

★★☆☆☆  Romance

Guel continua Guel, diferente do que disseram. E nem por isso o filme deixa de ser witty.

★★★☆☆  A Erva do Rato

A ironia de Machado aliada à erudição hermética de Bressane. A piada do ano.

☆☆☆☆☆  Choke

Jim Uhls roteirizou o romance Clube da Luta (Chuck Palahniuk), dirigido por David Fincher. Senão uma obra-prima, um EXEMPLO de adaptação (e de direção, por que não). E então Clark Gregg (o tipo de ator que vemos em diversos filmes e que nem por isso se faz notar ou deixa algo além de uma vaga e indefinida lembrança) assina o roteiro e direção de Choke, outra adaptação de um romance de Chuck Palahniuk. Não precisei ler o Clube da Luta para notar que se tratava de uma boa adaptação; você sabe que está diante de uma boa adaptação quando diante de uma boa adaptação (um dia, quem sabe, explico essa afirmação). Há dois anos li No Sufoco (Choke), e recomendo deveras a leitura. O livro está esgotado há um ano na Livraria Cultura (disponível em inglês), e nem na Estante Virtual é possível encontrá-lo. Então, se você está mesmo a fim de ler o livro e tal, ou aprende inglês ou manda um e-mail para lucasmayor.com2003@yahoo.com.br e tenta me convencer a te emprestar o livro (pra falar a verdade terei de pedir o livro a um amigo, o mesmo que me emprestou o livro há dois anos).

Leia o livro, caro cinéfilo, leia o livro.

Por que assistir Quantum of Solace

30 outubro, 2008

Game Over

29 outubro, 2008

O homem faz-se; ele não está pronto logo de início; ele se constrói escolhendo a sua moral. Estamos sós, sem desculpas. O homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo e como, no entanto é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo que faz.

(Jean-Paul Sartre)

É algo apavorante estar diante de uma escolha irreversível, capaz de alterar rotas, mudar vidas, modificar sua habitual maneira de tocar sua nada funcional vidinha. Um passo após o outro, um passo após o outro, sussurra meu amigo QUASE imaginário.

Qual o motivo de fazer planos se a vida REAL, sim, esta que estamos vivendo agora, eu e você, é demasiadamente incerta?

Não escolher é uma escolha… Não escolher é uma maldita e dolorosa escolha.

- E aí, rapaz, escolhe o quê?

- Pular da ponte.

GAME OVER.

Ah, se a vida fosse um videogame…

O primeiro ano do resto de nossas vidas…

28 outubro, 2008

Na maior parte do tempo eu não me divirto muito. O resto do tempo eu não me divirto nada.

(Woody Allen)

A literatura não é democrática

27 outubro, 2008

FOLHA – O sr. costuma dizer que sua formação literária caminha entre Macbeth e Dom Quixote. Como define essa mistura ?
ISMAIL KADARÉ
- Trata-se sempre de caminhar entre o trágico e o grotesco. É um bom coquetel. A literatura precisa dos dois. Na vida é a mesma coisa, ainda que nem tudo que está na vida precise estar na literatura. A literatura é mais importante do que a vida.

FOLHA – Cabe aos grandes escritores juntar realidade e irrealidade?
KADARÉ -
Os escritores são uma raça à parte. A literatura não é democrática. Ela é baseada na desigualdade. Se você escutar que a França tem mil escritores, isso não é boa notícia. Esse número precisa diminuir. A literatura é baseada numa seleção sem piedade, que guarda o grande valor. Até aceito a literatura medíocre ou média pois ela cumpre uma função, atrai e garante leitores que um dia poderão ir em direção à grande literatura. O perigo começa quando a literatura mediana quer impor suas leis. É preciso que esses universos fiquem bem separados, sem intervir um no outro, como castas.

Aceitar essa verdade é algo doloroso, mas necessário. E é raro ler uma entrevista tão sóbria e sem meias palavras.

* Grifo meu.

I like kids and, ah, older people

26 outubro, 2008

Jamais voltou a acontecer

23 outubro, 2008

(…) e em determinado momento intuiu que estava fodido, que no seleto grupo de seus objetivos primários entraria manter aquela guria feliz do jeito que estava agora. E sentiu uma necessidade de dizer isso. “Sabe esse jeito que tu tá se sentindo agora?” “Que que tem?” “Eu quero fazer com que tu continue te sentindo assim pelo maior tempo possível.” Cerca de um ano depois, semanas após sua graduação, estavam casados, morando num antigo apartamento de um quarto de propriedade da mãe dela, numa quadra nobre do bairro de Petrópolis. E a verdade que seu objetivo de estender a felicidade daquelas horas da madrugada na Praia do Lami pelo maior tempo possível pode ser considerado o maior fracasso de sua trajetória, pois nada parecido com aquilo jamais voltou a acontecer.

Trecho do livro Mãos de Cavalo, de Daniel Galera.

Eu quérô, eu quérô, eu quérô…

23 outubro, 2008

One afternoon, April of sophomore year, Costello came back to the dorm they shared and found Wallace seated in his chair. Desk clean, bags packed, even his typewriter, which weighed as much as the clothes put together.

“Dave, what’s going on?” Costello asked.

“I’m sorry, I’m so sorry,” Wallace said. “I know I’m really screwing you.”

He was pulling out of college. Costello drove him to the airport. “He wasn’t able to talk about it,” Costello recalls. “He was crying, he was mortified. Panicky. He couldn’t control his thoughts. It was mental incontinence, the equivalent of wetting his pants.”

“I wasn’t very happy there,” Wallace told me later. “I felt kind of inadequate. There was a lot of stuff I wanted to read that wasn’t part of any class. And Mom and Dad were just totally cool.”

Wallace went home to hospitalization, explanations to his parents, a job. For a while, he drove a school bus. “Here he was, a guy who was really shaky, kind of Holden Caulfield, driving a school bus through lightning storms,” Costello recalls. “He wrote me a letter all outraged, about the poor screening procedures for school-bus drivers in central Illinois.”

Wallace would visit his dad’s philosophy classes. “The classes would turn into a dialogue between David and me,” his father remembers. “The students would just sit looking around, ‘Who is this guy?’ ” Wallace devoured novels — “pretty much everything I’ve read was read during that year.” He also told his parents how he’d felt at school. “He would talk about just being very sad, and lonely,” Sally says. “It didn’t have anything to do with being loved. He just was very lonely inside himself.”

[Mais]

No prelo

21 outubro, 2008

On a wet summer night, Danny Coughlin, a Boston police officer, fought a four-round bout against another cop, Johnny Green, at Mechanics Hall
just outside Copley Square. Coughlin-Green was the final fight on a fifteen-bout, all-police card that included flyweights, welterweights,
cruiserweights, and heavyweights. Danny Coughlin, at six two, 220, was a heavyweight. A suspect left hook and foot speed that was a few steps
shy of blazing kept him from fighting professionally, but his butcher-knife left jab combined with the airmail-your-jaw-to-Georgia explosion of his right
cross dwarfed the abilities of just about any other semipro on the East Coast.
The all-day pugilism display was titled Boxing & Badges: Haymakers for Hope. Proceeds were split fifty-fifty between the St. Thomas Asylum for
Crippled Orphans and the policemen’s own fraternal organization, the Boston Social Club, which used the donations to bolster a health fund for
injured coppers and to defray costs for uniforms and equipment, costs the department refused to pay. While flyers advertising the event were
pasted to poles and hung from storefronts in good neighborhoods and thereby elicited donations from people who never intended to actually attend
the event, the flyers also saturated the worst of the Boston slums, where one was most likely to find the core of the criminal element—the
plug-uglies, the bullyboys, the knuckle-dusters, and, of course, the Gusties, the city’s most powerful and fuck-out-of-their-minds street gang, who
headquartered in South Boston but spread their tentacles throughout the city at large.
The logic was simple:

The only thing criminals loved almost as much as beating the shit out of coppers was watching coppers beat the shit out of each other*.

Autor de gênero policial?

Faz-me rir. Não que um livro de 720 páginas não possa, facilmente, pertencer ao nicho reservado a romances policiais… A questão é que Lehane (basta ler Coronado) há tempos deu de ombros ao logotipo ROMANCES POLICIAIS e seus similares.

É literatura, ponto. E isso não quer dizer que romances policiais não sejam literatura de boa qualidade; o problema, real, é o GÊNERO.

Camisa-de-força serve para louco e crítico literário.

* Grifo meu.

Put to sleep (2)

21 outubro, 2008

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