O Que Eu Gostaria de Dizer

30 setembro, 2008

“No silêncio podem estar todos os ruídos e isso não é bom.”

Um dos temas que mais me atrai qualquer seja a linguagem, é o das relações amorosas. O desgaste próprio delas. E daí meu interesse inicial por O Que Eu Gostaria de Dizer, encenação a quatro mãos, trabalho colaborativo entre  Luis Melo, Márcio Vito, Bianca Ramoneda e Márcio Abreu. Este último diretor do espetáculo.

Tomando de empréstimo fragmentos do livro O Homem ou É Tonto ou É Mulher, de Gonçalo M. Tavares, e apoiando-se nos textos trazidos pelos atores, a encenação funciona de maneira circular e aberta, dando vazão e margem para interpretações das mais variadas, já que não podemos dizer ao certo quem é a personagem de Luis Melo (irrepreensível) dentro daquele inferno-afetivo-sartriano tão bem conduzido por pausas e variações minimalistas a cargo da intérprete feminina, e de uma verborragia assustadora e nunca aleatória por parte de Márcio Vito, ator que dosa de maneira precisa os tons da personagem.

Um fiapo de história delineia a narrativa de um casal náufrago e de um quase-velho, digamos, que optou pela solidão de maneira deliberada e nada impulsiva. Algo liga o casal a esse filósofo urbano, que irá pontuar com ironia e uma dose cavalar de pessimismo até mesmo as passagens mais relevantes de sua vida.

É preferível a angústia nos momentos em que estamos parados do que quando viajamos. Quando estamos parados a angústia é mais lenta.

A música, outro ponto forte da montagem, é linguagem. Cirúrgica, instalando-se nos momentos certos e alimentando de expressividade e dramaticidade o vaivém das cenas.

Declaradamente poética, de um lirismo que não beira em momento algum a pieguice própria de relações em frangalhos, onde um segura a ponta do lençol de maneira desesperada enquanto o outro corre para a saída de emergência, a montagem sai ilesa e com uma força que eu não imaginava ser possível diante de temática não raro cansativa e de apelo freqüente ao melodrama rasgado e de ingestão palatável. No mais, trata da solidão permanente e da precariedade humana.

Tenho flores a sair da porta dos armários e nunca tive um armário na minha vida.
Isto, claro, é muito estranho.
O normal seria eu ter um armário e não ter flores a sair dele.
Mas a verdade é que é tudo ao contrário.
Tenho flores a sair da porta de um armário que nunca tive.

O Que Eu Gostaria de Dizer/ Márcio Abreu

★★★★☆

100 Machado

29 setembro, 2008

Hoje, 100 anos sem Machado de Assis. Dito isso, faço uma confissão: gosto menos de Machado do que deveria, ou do que dizem que eu deveria gostar. Li seus principais romances na Faculdade, e gostei pouco. Reli alguns mais tarde, e gostei deveras. Os contos, vez por outra, saco da estante. A Cartomante, O Alienista e Missa do Galo, mais de uma vez, tive de analisar, reler, fazer conjecturas absurdas e constatar, ao fim e ao cabo, a grandeza do escritor. Em sua homenagem, relerei Uns braços, conto que pode ser encontrado no livro Várias Histórias.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) não teve filhos, mas transmitiu às novas gerações o legado de sua obra. É o pai da literatura brasileira e não apenas num gênero, o do romance, principalmente a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). É também o pai da crônica – se Rubem Braga foi o príncipe, é porque antes houve um rei -, o pai do ensaio – pois de seu Instinto de Nacionalidade (1873) nasceram os Sérgios Buarques e Antonios Candidos – e o pai do conto – que sua primeira biógrafa, Lúcia Miguel Pereira, considerou exageradamente como o melhor de sua obra. Por isso tudo e mais alguns motivos, ele é, enfim, o pai da prosa brasileira moderna.

Mais aqui, e aqui.

Wagner Moura

29 setembro, 2008

O Roda Viva de hoje entrevista Wagner Moura. Recomendaria o programa sem restrições, mas as últimas vezes em que tomei tal atitude, me arrependi. O programa, ultimamente, anda patinando sem parar. Não sei qual o critério para a seleção dos entrevistadores (no geral, péssimas escolhas). E nem mesmo a apresentadora, Lillian Witte Fibe, parece saber muito bem o que perguntar ou como mediar a sabatina (ainda fico corado de vergonha ao lembrar da pergunta de abertura, feita pela apresentadora, quando na entrevista com Tom Stoppard).

Sem fazer juízo de valor ou algo que o valha, dêem uma olhada na lista dos entrevistadores: Cristina Padiglione, editora do suplemento de TV do jornal O Estado de S.Paulo; Mônica Bergamo, colunista do jornal Folha de S. Paulo; Nina Lemos, repórter especial da revista TPM; Luís Antônio Giron, editor de cultura da revista Época.

Preciso dizer mais alguma coisa?


Update: Dizer que o programa foi morno ou minimamente interessante seria um eufemismo dos mais patéticos.

Antônio Fraga

28 setembro, 2008

Hoje, no Estado:

O homem é um animal em eterno cio; a mulher só entra no cio quando ama.

Eu bebo, fumo, adoro a noite e faço sexo – proteções que retardam a velhice e a loucura.

Certeza mesmo, só tenho uma: a de morrer na mesa de um boteco cercado de amigos e mulheres – estas bem mais amadas que amigas.


Maria Célia conheceu Fraga no bar Bia House, em meados dos anos 1980. Ele morava em Queimados, na Baixada Fluminense. “Para ganhar sua confiança foi terrível”, diz. “Ele era bem difícil com os amigos, criticava a todos, mas vivo, não era como um Brás Cubas, que falava o que bem entendia porque estava morto.” Tal atitude, ao mesmo tempo que lhe dava liberdade, o jogava mais para a margem. “Ele se magoou com o isolamento, considerava-se um rejeitado.” Com Fraga, a professora pôde vagar pelos roteiros boêmios, fonte das histórias do ficcionista, que tinha a bebida e o cigarro por companheiros.

Mais aqui.

Paul Newman (1925-2008)

27 setembro, 2008

Soube há pouco da morte de Paul Newman. Paul Newman me lembrava Paulo Autran. Dois belos tipos. Dois belos atores. Dia desses revi uma entrevista que ele concedeu ao Actors Studio. Falou, entre outras coisas, da parceria e da amizade com Robert Redford. Eram irmãos – palavras dele. Dessa parceria destaco Butch Cassidy & Sundance Kid. De alguma forma algumas imagens ficam impregnadas em nossa memória. A cena do passeio de bicicleta, com aquela canção maravilhosa ressoando estridente ao fundo, faz parte das minhas lembranças. A vontade é de cantar com Burt Bacharach:



Raindrops keep fallin' on my head
And just like the guy whose feet are too big for his bed
Nothin' seems to fit
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'

So I just did me some talkin' to the sun
And I said I didn't like the way he got things done
Sleepin' on the job
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'

But there's one thing I know
The blues they send to meet me won't defeat me
It won't be long till happiness steps up to greet me

Raindrops keep fallin' on my head
But that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red
Cryin's not for me
'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'
Because I'm free
Nothin's worryin' me

O mentiroso

26 setembro, 2008

As pessoas mentem. É uma constatação óbvia e um tanto ordinária, eu sei. Óbvia por ser uma necessidade humana tão essencial quanto respirar – explico, calma lá. Ordinária por ser algo corriqueiro, espécie de vício consentido entre as partes, a saber, a que está disposta a ouvir a mentira e a que se coloca a mentir.

Mentimos para não desagradar um amigo. Mentimos para fazer parte de alguns lugares que pedem senha na porta e crachá de identificação. Mentimos para agradar ou desagradar alguém. Mentimos para manter relações afetivas que não suportariam o peso imperativo da verdade do dia-a-dia. Mentimos para  continuar mantendo soterradas as coisas no subsolo. Mentimos para ter um pouco de paz. Mentimos por não termos algo mais interessante ou oportuno para fazer no momento em que os pensamentos clandestinos tornam-se mentiras divertidas. Mentimos para fazer ou desfazer amizades. Mentimos por dinheiro e mulheres de capa de revista e algum tipo de notoriedade transitória. Mentimos por amor. Mentimos por cólera desenfreada. Mentimos para fazer da asfixia diária um contraponto ideal minimamente satisfatório. Mentimos como que para não enxergar a verdade primeira das coisas. Mentimos para continuar apostando cada vez mais alto. Mentimos para não revelar nossa precariedade absurda. Mentimos para sustentar certos padrões adquiridos. Mentimos por não termos nada verdadeiramente relevante para contar ao outro. Mentimos por sermos demasiadamente solitários e perdidos. Mentimos numa tentativa desesperada de se fazer notar como sujeitos atrativos dentro de um aquário de peixes mortos e água suja. Mentimos para criar mundos que não existem. Mentimos porque a realidade tal como é não basta. Mentimos e criamos outras vidas. Mentimos e conquistamos alguém que não nos notaria caso falássemos a verdade. Mentimos para estabelecer contato.  Mentimos e prejudicamos alguém. Mentimos e trazemos alegria a um outro. Mentimos para acreditar, nem que por um instante, na própria mentira. Mentimos para não perder. Mentimos para ganhar. Mentimos involuntariamente e de maneira sincera. Mentimos porque ninguém diz a verdade o tempo todo. Mentimos para manter o equilíbrio da balança. Mentimos docemente. Mentimos para que as mentiras de hoje sejam verdades futuras. Mentimos por não saber o que dizer no calor do momento. Mentimos porque aquela garota de sardas jamais olharia duas vezes para um tipo como o nosso. Mentimos por saúde e bem-estar social.  Mentimos por ter não termos a coragem de um John Wayne e nem a beleza de um Marlon Brando. Mentimos por ter a certeza irrevogável de que jamais seremos um alguém que mereça ser lembrado. Mentimos porque, intimamente, sabemos do que somos e do que não somos capazes de fazer. Mentimos para fingirmos que não somos mais crianças. Mentimos para abafar o choro. Mentimos para sobreviver. Mentimos para não desistir. Mentimos porque desaprendemos a lidar com novas relações. Mentimos porque a vida não tem o mínimo de sentido ou razão de ser. Mentimos porque o suicídio é para os corajosos e nós não passamos de adultos reticentes. Mentimos porque de certa maneira queremos continuar acreditando que em algum lugar, na merda de algum lugar, as coisas são para sempre. Há de haver uma verdade por trás de cada mentira. Há.

Pomona College

26 setembro, 2008

Da salon.com:

Those who knew him personally speak of his kindness: Longtime agent Bonnie Nadell recalls how he stood on line at FedEx the week before Christmas to mail an autographed book to a fan. “He would just do things like that because he was a really sweet person,” she says. His students at Pomona College in Claremont, Calif., remember the committed, engaged teacher: Amanda Shapiro had taken writing classes with him the past three years, and recalls the copious comments she got back from him about her assignments. “He would write five pages of notes on a six-page story,” she says, “and put so much care and thought into helping us as writers. He would type out the letters, and then annotate them, in pen, with little smiley faces and notes and corrections*.


Se tivesse direito a um pedido, com gênio da lâmpada e tudo, pediria para retroceder o tempo e me dar um passe livre nas aulas de redação criativa de David Foster Wallace, no Pomona College. Para quem dizia, e ainda diz, não acreditar em aulas de redação criativa, isso pode soar como um paradoxo. Não é. Não em se tratando de ter aulas com David Foster Wallace.

* Grifo meu.

DFW no Folhateen?

22 setembro, 2008

Como ninguém se manifestou na informada e querida Folha de S. Paulo, o Álvaro Pereira Júnior, que tem uma coluna no Folhateen, intitulada Escuta Aqui, resolveu falar. É provável que não tenha lido nada do DFW, mas ao menos pesquisou sobre. Falou umas asneiras – normal – sobre o visual e o comportamento do escritor, mas você pode pular essa parte do texto e pensar que ao menos alguém naquele jornaleco contribuiu para que amanhã, bem cedo, David Foster Wallace esteja zanzando numa dessas movimentadas banquinhas da feira e servindo para embrulhar algum peixe qualquer.

Leiam:

Enforcamento sob o céu sem nuvens

EM MEIO A queda das bolsas, caos na Bolívia e outras hecatombes, uma notícia importante e muito triste passou despercebida na semana passada: o suicídio, por enforcamento, do escritor americano David Foster Wallace, aos 46 anos.

Que um escritor se suicide não chega a ser novidade: Hemingway, Virginia Woolf, Hunter Thompson, Maiakóvski. A lista é longa, e Wallace, apenas seu mais novo integrante. Mas dois detalhes causam estranhamento nessa história de morte.

Primeiro, o lugar: o ensolarado, próspero e feliz sul da Califórnia, mais precisamente a cidade de Claremont, nas imediações de Los Angeles. Lá fica a instituição onde Wallace dava aula, o Pomona College, uma dessas faculdades pequenas, mas de alta qualidade, que nos EUA são chamadas de “liberal arts colleges”.

Professores universitários às voltas com os fantasmas da mente são personagens comuns na literatura. Para ficar em dois exemplos de que lembro agora, temos Coleman Silk, em “The Human Stain” (de Philip Roth), e Jack Gladney, em “White Noise” (de Don DeLillo). Esses dois casos da ficção são de acadêmicos que ensinam em pequenas cidades geladas do norte do país, sem nada relevante por perto além da própria faculdade. O isolamento e a natureza inóspita criam a moldura perfeita para os atos extremos desses intelectuais sem rumo.

Segundo detalhe estranho: a razão da morte. Wallace tomava remédios contra depressão havia 20 anos. Mantinha-se produtivo e, me atrevo a dizer, até um pouco chato: falante demais em entrevistas, extravagante demais no visual etc. Após tanto tempo de uso, os remédios começaram a causar efeitos colaterais, e um médico decidiu retirá-los. Como resultado, ele mergulhou na mais profunda depressão, e dela nunca mais consegui sair.

Wallace morreu cercado de um mundo tão perfeito quanto possível, destruído por uma doença quimicamente tratável.

A morte de David Foster Wallace foi tão incomum quanto sua literatura.

Shame on you

20 setembro, 2008

Um dos maiores escritores desse século morreu e os jornais mais parrudos de São Paulo não deram sequer uma notinha fim de página para ilustrar o fato. Nem os Cadernos especiais de Cultura desses mesmos jornais legaram um simplório texto sobre o dia trágico. Tudo bem que 90% 99% da crítica literária desses mesmos periódicos desconhecia a existência desse escritor da mesma envergadura de um Philip Roth, por exemplo, mas daí a não se informar sobre a morte desse escritor de 46 anos é algo vergonhoso. Ao menos a blogosfera, em partes, manifestou-se e salvou a imbecilidade disseminada em nossa imprensa de cobertura de festas de casamento de menininhas virgens e inocentes.

Rewind and slow motion

19 setembro, 2008

Minha esposa adora filmes violentos. Violência pura mesmo, não psicológica. Cabeças decepadas, pernas destroçadas, estômago eviscerado. E tudo isso com bastante refrigerante e pipoca. Dentro dessa fornada, addictions movies e skinheads. A outra história americana é seu filme de cabeceira. Não tanto pelo filme, acredito, mas por Edward Norton desfilar sem camisa durante 1/3 da película. Ela diz que adora as tatuagens do cara. Tatuagem = musculatura + olhinhos azuis + cabeça raspada + irmão Furlong + armas de fogo + atitude altiva.

- Puta bom ator, ele, hein.

- Sim. Bom ator.

Antes de seguir elogiando a atuação e os bíceps de Norton, ela engole mais duas porções de pipoca amanteigada.

- Olha lá, ó… O cara é foda, meu. Mó firmeza.

- Firmeza. Sim, firmeza.

A cena firmeza a que se refere é a da tentativa de assalto na casa do personagem de Norton. Após ser interrompido durante uma sessão de sexo… animal, digamos assim, (a Jack diz que é paixão e loucura e tesão, uma trinca infalível, acrescenta) ele surpreende dois ladrões, negros, que tentavam roubar seu carro. O primeiro é alvejado nas costas, se não me engano; O segundo, após ser atingido não sei mais onde, cai e, milimetricamente posicionado no meio-fio, com a boca escancarada, praticamente comendo a mesma pedra que desenha a guia, é atingido na cabeça. Morte instantânea. Gritos e pipocas e manteiga e expressões efusivas de imensa alegria por parte da Jack. Eu, mão no olho esquerdo, corpo mole e sensação de desespero, fico sem entender ao certo a pequena Hitler que assiste Lazytown e dorme todos os dias abraçada com bichinhos de pelúcia.

- Como você pode se entusiasmar com uma cena dessa?

Ela continua vidrada no filme e, sem ao menos virar a cabeça na minha direção, pede que eu dê rewind e slow motion na cena.

- (indignado) Você deve estar bêbada.

Eu não deveria ter dito isso, não dessa maneira. Lentamente ela mastiga uma última pipoca do potinho decorado por personagens dos Ursinhos Carinhosos.

- Olha aqui, Lucas: eu assisto seus filmes iranianos com aquelas formigas e tal (O grito das formigas)… Eu vejo aquele homem horrível, de cabelo ensebado, perambular durante mais de duas horas pedindo para alguém jogar terra em seu corpo quando ele resolver deitar-se numa cova (Gosto de cereja; obra-prima)… Eu assisto o filme daquele tal de Kriestfolovski (Krzysztof Kieslowski), e fico vendo aquele… aquele… aquele sujeitinho nerd, neurótico e que só é infeliz porque não transa (Woody Allen)… e… E mais nada.

Um casamento é como uma partida de tênis entre amadores: você não quer jogar a bola forte demais, caso contrário o jogo não flui.

É óbvio que eu não discuto.

- Então rewind and slow motion, querida. Quer mais alguma coisinha pra beliscar?

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