Da arte de se manter descendo

22 agosto, 2008 · Imprimir

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Sou compulsivo. Há uma pilha de livros e filmes aqui ao lado, aguardando serem lidos e vistos. Postergo a  leitura. Postergo  os filmes.  Postergo  a vida. Coloco a culpa na correria do dia-a-dia e, assim, vou empurrando as pilhas à direita, longe do meu campo de visão. Graças a esse artifício, a sensação de culpa por deixar um Pynchon e seu arco-íris à mercê de ácaros não me assalta durante a noite.

Poderia, facilmente, passar batido pelas promoções de livros vendidos em bancas de frutas no supermercado próximo à minha casa. Mas a compulsão, insisto, é mais forte. O racional entra em parafusos. Sobram cartões de crédito e parcelas a perder de vista.

9,90 por um livro do Javier Cercas é algo ultrajante, um sacrilégio. É como cuspir na hóstia quando o padre lhe estende a mão com um daqueles sorrisinhos de perdôo tudo, meu filho, tudo, mas não esqueça o dízimo.

Sim, comprei o livro (na verdade, OS LIVROS). Não conseguiria pegar no sono caso tivesse o deixado ali, prensado em meio a tomates e pés de alface.

A garota do caixa, entre ingênua e sorridente, pergunta:

- Você realmente gosta desses livros?

- Dos autores.

- E dos livros?

- Ainda não. Vou saber depois de lê-los.

- (meio sem graça) Ah, claro… (falando pra si) depois de ler os livros.

- Sim. Depois.

Saio do supermercado. Numa das mãos, salame e Coca-Cola. Na outra, Javier Cercas, Fernando Bonassi e Kenneth Tynan. A pilha aumenta um degrau. Eu continuo descendo.

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