Drugs and spirits
31 julho, 2008
Nunca tomei um porre. Nunca ingeri drogas de qualquer tipo. Não acredita? Minha esposa pode confirmar estas afirmações – ela, sim, uma addict confessa. Eu até gostaria de ser uma Winehouse versão masculina, mas não passo de um abstêmio com tendências ao alcoolismo. Explico: jamais aconselhei alguém a não beber ou fumar; aliás, sou um dos signatários em favor da descriminalização das drogas. Uma das razões para eu não fazer uso de alucinógenos ou bebidas alcoólicas, se deve, em grande parte, a um problema congênito: meu estômago. Nasci com um tipo de estômago que não admite drugs and spirits. Nada. Nem bombom de licor. Fanta uva é só um tipo de veneno para o meu combalido organismo. H2O, idem. Água tônica provoca náuseas. Cheiro de cerveja, diarréia. Cigarro, dor de cabeça. Suco de uva, indisposição. Vinho, alucinações. A lista é quase infinita. Ao fim e ao cabo, constato, tristemente, que o meu último suspiro se dará com uma taça de Coca-Cola e uma fatia de limão. Não podemos ter tudo.
Escola da Praça
31 julho, 2008
A melhor notícia da semana saiu na Folha de hoje:
“Um prédio abandonado de 12 andares na praça Roosevelt, em SP, vai virar centro de capacitação para o teatro até julho do ano que vem. Financiado pela Secretaria Estadual da Cultura, o projeto Escola da Praça – Centro de Formação das Artes do Palco vai abrir oito cursos, de iluminação a dramaturgia, com bolsas de R$400 mensais. O ator e diretor Ivam Cabral, de Os Satyros, é um dos idealizadores do projeto.”
Trecho da entrevista com Ivam:
Folha – Haverá remuneração?
Cabral – Sim, para professores e alunos. As aulas serão de segunda a sexta, com duração de dois anos. Então os estudantes receberão uma bolsa de cerca de R$400. Para cada um dos oito cursos haverá de 15 a 25 vagas. O investimento será de cerca de R$4milhões por ano.
…
Ser remunerado para estudar é tudo que o teatro poderia pedir a Baco. Evoé!
Felizes para sempre (dramaturgia)
30 julho, 2008
Lendo mais duas peças de Mário Bortolotto (Felizes para sempre e À queima roupa), as fichas começam a cair. Lentamente, admito. Porque não há nada melhor do que ler um dramaturgo experiente e constatar, lá pela décima lauda, que o caminho é sempre o mesmo, e que a busca, por uma verdade recôndita, por vezes áspera e dolorida, é o único ponto que agrega escritores tão díspares. Essa VERDADE, nos textos do Mário, é cuspida, escarrada violentamente, sem filtro ou anteparo moral capaz de julgar personagens e ações tão prementes e paradoxais.
É da boca de uma personagem que ouvimos como os escritores, e seus escritos, devem ser tratados:
Você gosta de Gertrude Stein. Uma mulher que gosta de Gertrude Stein não pode gostar de mim. Eu não admito isso. Você nunca entendeu Gertrude Stein. Você lê os livros dela e não entende nada. Você nunca chamou ela pruma briga. Nunca arrancou ela de dentro do livro dela, da comodidade das páginas do livro dela, e cuspiu na cara dela. É assim que um escritor tem que ser lido. Por isso você gosta da porra da Gertrude Stein. Você não entende porra nenhuma. Você só lê. Não entende porra nenhuma. Eu levei tanta porrada na cabeça que eu não leio mais. Dói minha cabeça quando eu tento ler. Eu não posso pensar. Pensar dói. Então o médico falou: Vê novela, aí não vai doer. Cê percebeu? Cê percebeu o que sobrou pra mim? Eu achei que ia ser um grande pugilista e um grande escritor.
Ao final de um texto como Felizes para sempre, e o título é de uma ironia rasgada, algo em você parece ficar mais vivo, confiante. Não se trata de dizer que, a partir da leitura desse texto, encontrou sua voz. Não, “pelamordeDEUS”, não. Talvez, e isso é realmente incerto, tenha encontrado uma maneira de dizer o que queria dizer, e esse texto é só a confirmação de que o que você escreveu pode ser dito da maneira que você imaginava. A estrutura, mais do que o vocabulário ou a temática, sugere aspectos semelhantes à estrutura pensada e, em partes, criada por você.
Do conjunto variado de textos do Mário que eu pude ler, este Felizes para sempre (que, entre outras coisas, fala sobre o amor e sua imperativa impossibilidade), conjuntamente com Homens, Santos e Desertores, e a montagem de Uma pilha de pratos na cozinha, apontam facetas de um dramaturgo que não comporta rótulos do tipo marginal, excluído ou qualquer generalização reducionista e preconceituosa. O Mário dramaturgo é maior do que qualquer rotulação “nota de rodapé”.
Um dramaturgo urbano? Sim. Marginal não. A não ser que a vida e suas implicações sejam marginais. Não acredito nessa hipótese.
Diário de um homem comum
29 julho, 2008
6:53 – Rola de um lado para o outro na cama. Pesadelos, você teve pesadelos durante a noite.
7:42 – Alguém deixou um copo cair na cozinha. Sua esposa não toma café em casa. Não cozinha. Provavelmente o armário tenha ficado entreaberto na noite anterior, e por isso forçado algum tipo de louça mais para frente, fazendo-a estatelar-se agora, às 7:42.
8:20 – O calor o deixa irritado. Estar na cama às 8:20 de uma terça-feira não é tão bom quando você não possui ao menos um reles ventilador.
8:46 – Alguém grita o seu nome no portão. Você sabe que após o quarto grito a pessoa irá desistir.
9:00 – Você está no banheiro. Enquanto lava o rosto o chuveiro começa a gotejar – isso o irrita de tal maneira que o faz pegar o primeiro objeto à sua frente, uma pasta de dente, e lançá-lo na direção do barulho.
9:10 – O barulho persiste.
9:20 – Sua filha acorda, balbucia duas palavras ininteligíveis e liga a televisão.
9:30 – Sua garota traz nas mãos cacos de um vidro azulado. Algo lhe diz que isso tem uma ligação direta com o estrondo ouvido às 7:42.
10:00 – Escreve mais uma lauda para a composição da tão falada peça que seria escrita até meados de julho.
10:41 – Uma angústia costumeira anula sua possível iniciativa de preparar o café.
10:53 – Mais uma vez escuta seu nome ser vociferado no portão. Aguarda. Os gritos cessam.
11:17 – Silêncio.
11:59 – Após dar banho na sua pequena, prepara o arsenal de textos e jornais e canetas e diários.
12:25 – Uma satisfação estranha preenche seus movimentos. O trabalho, após três semanas de descanso, pode ser uma salvação.
13:00 – Um baque estranho seguido de outro e outro. A moto derrapa, e você tem a clara certeza de que a vida, ao menos essa vidinha que você acostumou a ter, está se dissolvendo, sendo engolida por um acaso qualquer. Alguém não consertou o cárter do carro, passou nessa esquina próxima à escola que você ministra aulas, e, de um pequeno orifício do deteriorado compartimento que armazena o óleo dessa máquina que percorreu seus pesadelos, um jato de óleo faz uma pequena trilha no asfalto. A senhora gorda grita meu Deus! duas vezes. Nada pode impedir sua fatídica e performática queda. Ambos, você e a senhora gorda de guarda-chuva a tiracolo, se olham antes de um 360º que causaria inveja aos rapazes da Força e Ação.
13:05 – Você está atrasado para a sua primeira aula.
18:00 – Ao abrir sua caixa de e-mails, um recado de uma amiga: Lendo seus textos, eu chorei, ri, muitas vezes me faltou o ar!
18:02 – Você, olhando para a tela do computador, sorri.
18:05 – A vida não é assustadoramente ruim. Ao menos de vez em quando.
…
A imagem em destaque é de Rafael Grampá.
11 escritores brasileiros que não saem da minha cabeceira
28 julho, 2008
1. Caio Fernando Abreu
2. Clarice Lispector
3. João Guimarães Rosa
4. Raduan Nassar
5. Nelson Rodrigues
6. Roberto Piva
7. João Antônio
8. Dalton Trevisan
9. Milton Hatoum
10. Rubem Fonseca
11. Graciliano Ramos
Nunca mais é muito longe
27 julho, 2008
Ao invés de vasculhar álbuns de fotografia esmaecidos e tomados pela pátina do passado, investigo arquivos que minha memória insiste em apagar. As fotografias encontradas ativam uma parte de mim que acreditava estar solapada pelo pessimismo insistente e por uma parcela de ceticismo alimentada pela descrença no OUTRO.
A tecnologia nos legou a possibilidade de reviver o passado através de uma tela de cristal líquido – e que, aliada a uma trilha sonora composta para nos deixar em estado de letargia, cria o ambiente propício para nos fazer crer que o passado, intocável, foi e será o melhor período de nossas vidas. Não é verdade. Ao menos eu quero continuar acreditando que não pode ser verdade.
O passado é um cavalo selvagem e belo. Comporta a juventude e a inocência da escolha motivada pelo impulso.
Indiferente à indução desses programas lacrimosos de slideshow, me pego quase chorando ao ver um conjunto de fotos da Jack e da minha filha. A trilha faz a sua parte, e as faces rosadas de ambas parecem saltar da tela. Você não acredita que algumas fotografias são capazes de lhe trazer lembranças tão fortes. Mesmo porque esta sensação de felicidade e nostalgia não se liga necessariamente a este pequeno painel de fotos. Estas imagens aludem outras imagens, e assim sucessivamente.
Uma imagem ganha mais corpo do que as outras, e isso o faz criar detalhadamente o cheiro, os olhos e as roupas dessa pessoa. 8 anos é um espaço curto de tempo, e por isso a memória permanece bem viva.
Ela está parada junto ao corrimão de segurança próximo da piscina. Você procura disfarçar a vergonha com movimentos labiais que mais se parecem com sorrisos forçados. A palavra fica engatilhada e falha quando ela se aproxima. Sua mão trêmula toca-lhe a cintura, fazendo com que ela cole ainda mais seu corpo junto ao corrimão. Um beijo é algo iminente, isto está escrito em seus olhos de menina que acredita que as coisas são para sempre. Pergunto se ela não se enganou, se sou eu realmente o garoto que ela disse ter visto e se interessado. Ela quase sorri, e esse quase sorriso fica preso num lugar onde as coisas são eternas, hão de ser eternas.
Pontualidade, rapaz!, pontualidade
26 julho, 2008
Dois telefonemas estranhos perturbam meu sono diurno. Numa das ligações, um garoto, presumo, pelo tom da voz, pede que eu o acompanhe até o DETRAN. Estou de férias. Férias deveriam ser respeitadas. Ele insiste, diz que eu vendi uma moto para uma tal de Madalena. O garoto está com problemas para retirar a moto que fora apreendida por um policial insatisfeito com o salário que não o permite sair nos finais de semana com a família numerosa. Uma coisa leve à outra: policial insatisfeito, garoto sem dinheiro para pagar o licenciamento da moto, e por isso pego numa dessas blitz da lei seca, e, agora, a ligação para o antigo proprietário de uma moto vendida há 5 anos para uma senhora com o nome da prostituta que se envolveu com Jesus.
Tento argumentar, digo que a minha filha preenche todas as lacunas ociosas do meu dia, e que, caso ele tope, uma procuração possibilitaria a retirada da moto e a preservação de meus hábitos misantropos. Ele acede. Marcamos um horário; ele não comparece. Horas depois, ouço meu nome ser gritado repetidas e incansáveis vezes. Penso que uma campainha, sugestão de um amigo, facilitaria a vida desse garoto, mas, por outro lado, tiraria o prazer de acompanhar a irritação do mesmo, que permanece gritando, talvez gesticulando, com certeza salivando entre uma investida e outra.
Marcamos um horário, garoto. Aguardá-lo acordado não foi fácil. Então, volte amanhã. No horário combinado, ok!
Batman – O cavaleiro das trevas (2)
25 julho, 2008
A revisão de um filme pode ser uma faca de dois gumes. Ou continua amando ou passa a odiar ainda mais. No caso do Batman – O cavaleiro das trevas, encontramos um meio-termo. Nem amor nem ódio. Um pouco dos dois, eu diria.
O roteiro, visto agora, livre do calor do impacto provocado numa primeira impressão, reforça a idéia que esbocei no texto anterior. Foge dos clichês das costumeiras adaptações de quadrinhos para o cinema, e isso é louvável, mas cria, ao mesmo tempo, um elefante cor-de-rosa, altivo e desesperado, prestes a engolir até mesmo os grandes momentos de lentidão tão raros ao filme.
O Homem-Morcego parece preso atrás daquele vozeirão afetado de transexual que esqueceu a bolsa dentro do táxi. Escondido na maioria das cenas, ou em movimento circular esquizofrênico em razão do uso excessivo da “câmera giratória” (por falta de expressão mais adequada), Batman não passa de um morceginho resmungão e reprimido (Michael Caine merece um Oscar por salvar a maioria das cenas em que Bruce Wayne aparece). Na outra ponta, nas bordas, no centro e nas alamedas, o Curinga de Heath Ledger, que já nasceu lendário.
Destaco três cenas antológicas: o interrogatório (alguns se lembrarão de Apocalypse Now, e do rosto de Marlon Brando na penumbra), o hospital, antes e após ser dinamitado, e o último encontro entre Batman e Curinga, no alto do edifício, no que seria a única cena onde realmente notamos a presença do Homem-Morcego sem a armadura artificial e a voz empostada que carrega durante todo o filme.
Não fosse Heath Ledger, Nolan estaria encarcerado em suas divagações herméticas e vazias. Mas não podemos deixar de reconhecer o mérito do cineasta que nos presenteou com o maior vilão desse século.
Rest in peace, Ledger.
Na contramão
24 julho, 2008
Em alguns pontos da cidade existem pistas exclusivas para motocicletas. Motocicletas, não bicicletas ou pedestres com talento para maratonistas. Nestas pistas, exclusivas para motocicletas, vale ressaltar, originou-se uma guerra velada entre carros, passantes e vendedores. Sim, agora, para piorar, há um comércio indiscriminado nesses corredores. E os motociclistas ficam onde? Ora, ficam atrapalhando as vendas, a corridinha do gordinho executivo e saudável, o passeio da mamãe com os seus pequenos rebentos, o casal de namorados que decide fazer uma parada romântica seguida de um rodopio antes da buzina. Entre o grito do vendedor de camundongos amestrados e a babá de silhueta invejável, uma moto. A vontade é de morrer na contramão e atrapalhar o tráfego.
O melhor mecânico do Brasil
22 julho, 2008
Quando jovem, trabalhei numa mecânica. Motivado pelos funcionários, e pelo Big Boss, decidi investir na carreira. Dois belos cursos no Senai e a certeza de que poderia me tornar um dos melhores mecânicos que o Brasil já teve. Levava jeito pra coisa. Desmontei o carburador do carro da mamãe duas vezes. A primeira vez, ok, tudo se encaixou e funcionou perfeitamente. Na segunda, mais experiente e não menos ingênuo, esqueci um parafuso dentro de um compartimento que não aceitava parafusos sobressalentes. Resultado: um carburador novo e a revelação precoce de que o melhor mecânico do Brasil teria de se contentar com uma lousa negra, giz e palavras. Diria que foi uma troca justa.





