11 destaques do 1° semestre

30 junho, 2008

1. Boarding gate (cinema)
2. Antes que o diabo saiba que você está morto (cinema)
3. O sonho de Cassandra (cinema)
4. A última palavra é a penúltima (teatro)
5. Senhora dos afogados (teatro)
6. Não sobre o amor (teatro)
7. Salão de beleza – Mario Bellatin (literatura)
8. A estrada – Cormac McCarthy (literatura)
9. Homem comum – Philip Roth (literatura)
10. Dig!!! Lazarus Dig!!! Nick Cave & The Bad Seeds (música)
11. Third – Portishead (música)

Fim dos tempos

29 junho, 2008

“Qual o motivo do desaparecimento das abelhas?”, pergunta o professor de ciências a uma sala quase indiferente. A resposta mais sóbria parte do aluno preocupado com a aparência: “Determinados acontecimentos são inexplicáveis” (ele não usa estas palavras, mas a idéia é essa). Da premissa partimos para a construção da narrativa. Nada esquemática, é bom salientar. Ambiciosa, sim, pois lida com o insondável. Estamos no campo ficcional e raros são os cineastas capazes de lidar com filmes-catástrofe sem cair na armadilha do novo plot a cada esquina.

A fé está presente em todos os filmes de Shyamalan. Não a fé paga dízimo. A fé no humano.

Shyamalan constrói sua Guerra dos Mundos sem aliens. Sem Tom Cruise. Apenas o vento. Porque, em chave oposta, temos aqui um filme que não deixa de seduzir o público, num diálogo direto com Hollywood, mas, e daí difere incrivelmente de Spielberg, calcado no humano. Não nos pulos e movimentos de câmera. Tudo isso é borda recheada de pizza portuguesa, e Shyamalan sabe disso. Enquanto Spielberg decora a borda, Shyamalan parte para o recheio, olha seus personagens inseridos no centro.

Eis um exemplo:

John Leguizamo deixa a filha com o casal protagonista. Parte para Princeton em busca da esposa. A cidade fora contaminada. Uma pequena fresta no jipe permite que a toxina seja inoculada pelo grupo. A câmera se afasta. O carro diminui a velocidade, pára. Subitamente volta a acelerar. Bate de frente numa árvore. O motorista e um passageiro são arremessados para o lado de fora. A câmera se mantém estática, observando. Nada de cortes, câmera tremendo ou demais artifícios para rechear a borda. O personagem de John Leguizamo, lentamente, sai do carro. Arrasta-se pelo asfalto. Olha ao redor e pega um pequeno objeto cortante – um pedaço de vidro, talvez. Fade out.

A secura e economia de meios, ao invés de afastar, aproximam e aprofundam o drama. A elipse serve como intervalo silencioso. É uma morte ali, mais uma. Preste atenção!, é mais uma.

Poderia citar outras cenas de igual relevância e peso. E daí a grandiosidade de Fim dos tempos, pois, de maneira incomum, ele se afasta de outros projetos similares de filmes apocalípticos, onde o que interessa num primeiro plano, e num segundo, é a surpresa e o choque. Aqui o interesse, volto a ressaltar, é o humano.

O vento é um fenômeno ciclomático. Tal como a felicidade. Shyamalan é um dos maiores narradores do nosso tempo.

Fim dos Tempos/M. Night Shyamalan

★★★★☆

9mm

27 junho, 2008

Exportamos novelas mundo afora. Podemos criticar o conteúdo das mesmas, e não aprovar o naturalismo rasteiro que domina as interpretações. Mas elas são bem-acabadas. Bem-acabadas significa dizer que é possível acompanhar um capítulo sem franzir demais a testa. O mesmo não ocorre quando nos deparamos com novelas mexicanas ou porto-riquenhas. Lá, tudo é maquilagem borrada. Banho frio.

Mais: eles não decoram as falas. É fácil notar quando um ator não decorou as falas. No teatro, eles erram, ficam nervosos, comem sílabas. Na televisão, o corpo enrijece, o olho salta, e você pode notar claramente que o espertalhão não desgruda do TelePrompTer.

Ao menos no quesito novela, estamos longe desse amadorismo. Ok, eu também gargalhei na cena em que a favela da Portelinha promove uma guerra de facções, mas, mesmo nestes momentos toscos, havia uma certa “excelência” de planos e clima (excelência de planos e clima é exagero, mas suponho que você tenha entendido o que eu quis dizer.)

(O tosco e o overacting, no caso da novela, não são deliberados. Diferentemente de Planeta Terror, por exemplo, que é, desde já, uma pequena obra-prima do cinema de gênero – mesmo que o filme imploda por completo a noção de gênero.)

Tudo isso para dizer o óbvio: estamos engatinhando quando o assunto é sitcom. Exportamos novelas e importamos seriados. Pior: emulamos de maneira canhestra e vergonhosa os tiques e, até mesmo, os defeitos.

9mm vangloria-se de ser a primeira minissérie 100% brasileira. Menos. Muito menos. Os atores são brasileiros, ok. Alguns excelentes. Outros, risíveis.

Sinopse do primeiro episódio: uma ex-participante de reality show é encontrada morta. A mídia e as moscas se aproximam. Em meio a tudo isso, surge um caso de aliciamento infantil. Nada é o que parece ser.

Dália Negra vem à cabeça. Não, eles não assistiram Dália Negra. Caso tivessem assistido o resultado não seria tão desastroso.

Dúvidas:

1) Por que a câmera treme daquela maneira? Mesmo Paul Greengrass ficaria envergonhado.

2) O palavrão é parar criar um aspecto de realidade? Meu Deus!

3) Horácio (Norival Rizzo) é um canastrão por que o papel exige ou por que ele é um canastrão?

4) Eles plagiaram The Shield ou foi mera coincidência?

5) As cenas de luta do último episódio adotaram uma estética à Gus Van Sant? Hilário!

***

Mais dúvidas surgirão nos próximos episódios, tenho certeza.

Não me perguntem o porquê de eu continuar assistindo, ok?

P.S.: Este post inaugura a categoria TV. Espero mantê-la atualizada.

★☆☆☆☆ Aqui se faz, aqui se paga (1º)

★☆☆☆☆ O estreito caminho da lei (2º)

★½☆☆☆ Eu sou o mais forte (3º)

Ficção X Realidade

25 junho, 2008

La Mujer Sin Cabeza é o último filme de Lucrecia Martel. Exibido em Cannes recentemente, recebeu o rótulo de obscuro, incompreensível. Desconfio muito, mas não arrisco opinar sem antes dar uma olhada na película.

Abaixo, uma pequena sinopse (leiam tudo):

Synopsis

A woman is driving on the highway. She becomes distracted and runs over something. On the days following this incident, she fails to recognize the feelings that bond her to things and people. She just lets herself be taken by the events of her social life. One night she tells her husband that she killed someone on the highway. They go back to the road only to find a dead dog. Friends close to the police confirm that there were no accident reports. Everything returns to normal and the bad moment seems to be over until the news of a gruesome discovery again worries everyone.

Agora, o que saiu na Folha de ontem, no caderno Cotidiano:

A Polícia Civil indiciou por homicídio culposo um comerciante que disse ter descoberto, ao chegar em casa, que atropelou e matou um morador de rua. A vítima estava no assoalho do carro, entre o banco do motorista e o de trás. O caso foi no sábado de manhã, em Pirituba (zona oeste).

A suspeita é que, ao ser atropelado, o homem tenha rolado sobre o teto do carro e caído sobre o vidro traseiro, que quebrou.

Marcelo Portásio, 41, disse que ia para casa quando viu um homem na pista e tentou desviar. Ele sentiu o impacto e viu os estilhaços no vidro, mas, ao olhar para trás, não viu nenhum corpo. Portásio disse não ter parado porque temia ser um assalto.

O problema da ficção é que ela precisa ser verossímil. A realidade, não.

God Bless Winehouse

24 junho, 2008

Hoje, na Folha:

MÚSICA: AMY WINEHOUSE TEM ENFISEMA PULMONAR

A polêmica cantora britânica Amy Winehouse foi diagnosticada com um estágio inicial de enfisema pulmonar e alterações nos batimentos cardíacos causados pelo abuso de cocaína, crack e cigarros, segundo o “The Sunday Mirror”. Médicos também disseram que ela tem só 70% da capacidade dos pulmões e terá de usar uma máscara de oxigênio se não parar de fumar.

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Orações, preces, “trabalhos” seriam bem-vindos nessa hora. Por favor, passe pelo Brasil antes de ir para o além. Por favor.

De caricaturas e verdades

23 junho, 2008

A idéia de homenagem é algo tão… desconfortável. Se por um acaso eu fizesse algo que merecesse uma homenagem, uma plaquinha decorativa ou um encontro onde as pessoas iriam me dizer banalidades do tipo eu sempre acreditei no seu talento e por aí afora, eu, provavelmente, declinaria. Não pelas pessoas, pobre delas, estão fazendo o que eu e você fazemos em ocasiões desse tipo. Rechaçaria a homenagem porque não sei fazer cara de ok, acredito, muito obrigado e tal. Não é timidez ou falsa modéstia. Tampouco prepotência. Diria, sem dourar a pílula, que é um ato de extrema humanidade. Humanidade? Sim, humanidade. Nem vocês falseiam e nem eu, ok? Continuo aqui no meu canto, sem tapinha nas costas.

***

Sandra Corveloni é uma das pessoas mais íntegras a que eu tive o privilégio de conhecer.

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Alguns indivíduos, infelizmente, tornam-se caricaturas deles mesmos. Um saco de vômito, por favor!

11 dos maiores filmes de ficção científica

22 junho, 2008

1. Solaris
2. 2001: Uma odisséia no espaço
3. Star Wars
4. Fahrenheit 451
5. Laranja mecânica
6. Stalker
7. Metrópolis
8. La jetée
9. Videodrome – A síndrome do vídeo
10. Alphaville
11. Blade Runner – O caçador de andróides

Cão-guia

21 junho, 2008

Há um ano atrás não usava óculos. Fui tomado pela deficiência quando, num ponto de ônibus bem próximo de casa, não consegui visualizar o letreiro (gigantesco, por sinal) que indica o destino da condução. Fui tomado pela deficiência bem antes, mas só pude notá-la nesse dia. Um gentil velhinho, bengala a tiracolo, serviu-me como uma espécie de cão-guia. Adaptei-me bem às lentes. Às vezes me esqueço de tirá-las antes do banho. Nada de anormal.

Lentes, ok. Agora, audição. Isto mesmo, estou ficando surdo de maneira lenta, progressiva e irreversível.

Aquisições futuras: um cão-guia e um aparelho auditivo. E, talvez, uma corda.

Slapped Actress

20 junho, 2008

Don’t tell my sister about your most recent vision. Don’t tell my family—they’re all wicked-strict christian. Don’t tell the hangers-on, don’t tell your friends. Don’t tell them we went down to Ybor City, again. Don’t tell the dancers, they’ll just get distracted. Don’t tell the DJs. They already suspect us. Don’t mention the bloodshed, don’t mention the scams. Don’t tell them Ybor City almost killed us, again.

We are the theatre, they are the people—dressed up to be seated, lookin’ upwards and dreamin’. We’re the projectors. We’re hosting the screening. We’re dust in the spotlights…we’re just kinda floating.

Don’t drop little hints. I don’t want them to guess. Don’t mention Tampa, they’ll just know all the rest. Don’t mention bloodshed, don’t tell them it hurts. Don’t say we saw angels, they’ll take us straight to the church. They queue up for tickets to see the performance—they push to get closer, lookin’ upwards with wonder. We are the actors. The cameras are rollin’. I’ll be Ben Gazzara, you’ll be Gena Rowlands.

Sometimes, actresses get slapped. Sometimes, actresses get slapped. Sometimes, fake fights turn out bad. Sometimes, actresses get slapped. Some nights, makin’ it look real might end up with someone hurt. Some nights, it’s just entertainment, and, some other nights, it’s real.

They come in for the beating, to see the stadium seating. They’re holding their hands out for the body and blood, now. We’re the directors—our hands will hold steady. I’ll be John Cassavettes—let me know when you’re ready. Man, we make our own movies. Man, we make our own movies. Man, we make our own movies. Man, we make our own movies.

***

Além da belíssima letra, e da musicalidade sui generis, Hold Steady homenageia John Cassavetes. Aí é demais para esse coraçãozinho.

Para ouvir, aqui.

Caixinhas de sapato

19 junho, 2008

Na carteira um bilhete amassado. O papel quase se desfaz antes que eu possa desdobrá-lo por completo. Costumo guardar coisas antigas em caixinhas de sapato. A carteira, puída e parecendo uma sola de sapato, estava lá, esperando ser encontrada. O bilhete guarda um nome ilegível, graças à dobradura do papel e a passagem do tempo. É amor, seu bobo. É amor. A letra é quase infantil. Arredondada e de um rosa que, nos idos anos 90, era cintilante. A memória é um quebra-cabeça do tamanho de Paris. Fecho a carteira, amasso o bilhete e penso em, mais uma vez, livrar-me das caixinhas de sapato. Um outro dia, talvez.

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