Pátina nas vigas da vida

30 maio, 2008

A organização da casa, como disse um amigo recentemente, pode deixá-lo mais tranqüilo em relação aos demais problemas que lhe atingem sempre no cair na tarde, quando as crianças saem das escolas numa algazarra tremenda, chutando cachorros caolhos e segurando o rabo de gatos envelhecidos pelo calor do asfalto. Mas colocar as coisas em ordem pode fazer com que você arrume mais problemas pensando nas antigas cartas de amor encontradas em caixas de sapato, ingressos de cinema dentro de meias furadas, fotos amareladas e sorridentes… Prometi a mim mesmo que não voltarei a arrumar a casa antes de comprar um lenço bem macio para secar minhas lágrimas.

Prêt-à-Porter – coletânea 1

29 maio, 2008

Há pouco mais de dois meses assisti Prêt-à-Porter 9. A cena inicial, de dois funcionários públicos encarcerados em seus ofícios, e exercendo um papel social que os afasta de qualquer inter-relação que não a troca de carimbos e protocolos e assinaturas, poderia muito bem sintetizar “o poético no prosaico”, como assim define Antunes Filho quando fala sobre a concepção de Prêt-à-Porter. E mesmo que as cenas seguintes não alcancem a expressividade e carpintaria e poeticidade de Um escritório ao entardecer, o processo jamais perde em minúcias ou caracterizações minimalistas.

De acordo com Emerson Danesi, “ator-coordenador”, após a montagem de Drácula e outros vampiros (encenação carregada de elementos cênicos e um conjunto de 33 atores em cena), Antunes decide por buscar o simplório, o universal que existe no particular. “O homem está com saudade do homem, vamos reencontrá-lo”, é o mote, a idéia-corpo.

E isso fica claro quando o que vemos no palco não são mais adereços, elementos de cenário ou luzes de efeito, mas atores. A iluminação não passa de uma lâmpada de cozinha, e o cenário compõe-se de duas ou três cadeiras ou um tapete e poltrona ou criado-mudo, etc. Tudo muito simples. Inclusive a dramaturgia. Não há sobressaltos ou grandes acontecimentos. Tudo acontece no “aqui e agora”. E, portanto, não há uma resolução, já que não podemos falar em conflitos ou peripécias. É a vida seguindo seu fluxo constante. Isto é Prêt-à-Porter: dois atores, poucas falas, silêncios, e os abismos da vida. Elas, as personagens, como nós, não percebem que a vida está no ordinário, nos pequenos instantes. E que a vida é, sim, o que acontece com você quando você está preocupado fazendo outras coisas.

Prêt-à-Porter – coletânea 1 é uma pequena pérola. A primeira cena (única inédita) envolve um segurança e a filha do senador: enquanto ele a aguarda para levá-la para uma festa de casamento, ela se mostra lasciva e autoritária. Nada além disso. No entanto, a cena é tão agradável, e os atores, principalmente Marcelo Szpektor (grande, grande ator!), são como marinheiros velhos – nada escapa.

A garota da Internet (foto acima) poderia ser o clichê do clichê não fosse a dramaturgia inteligente e Arieta Corrêa e Marcelo Szpektor, novamente, os atores que são. Arieta é a garota da internet. Marcelo Szpektor é o cara da internet. Após um longo período de bate-papo virtual, topam se encontrar. Ela, idiossincrática. Ele, nerd. A cena é fantástica. Pense num filme de Woody Allen temperado com personagens de Wes Anderson.

Ponto sem retorno, a última cena, é irrepreensível. Talvez seja a cena curta mais singela e tocante à qual eu tive a oportunidade de assistir. E, mais uma vez, não há nada demais. Dois amigos de longa data se reencontram numa festa. Reminiscências vêm à tona. Planos inacabados. Desacertos. São as escolhas pedindo o troco. Os silêncios são de uma agudeza lancinante. Uma obra-prima de 20 minutos.

Prêt-à-Porter – coletânea 1/CPT

★★★★☆

Sandra Corveloni

27 maio, 2008

Querida Sandra,

Recebi a notícia da premiação em Cannes com uma alegria incomensurável. Quase chorei ao assistir, no Fantástico, o telefonema de Walter Salles lhe parabenizando pela Palma de Ouro. Era tão improvável tal prêmio ser concedido a uma brasileira estreante em longa-metragem. Era quase certa a premiação de Julianne Moore ou Angelina Jolie. Mas não. O júri foi quase unânime em sua decisão. E isso só vem mostrar que não foi um prêmio dado como que para agradar gregos e troianos. Não. O prêmio é só a confirmação de seu talento. É para isto que servem os prêmios, não é mesmo? Para nos mostrar que, de alguma forma, valorizaram o nosso trabalho. E mesmo que prêmio não houvesse, você, ainda assim, seria a professora Sandra, a comediante full time, a mãe zelosa, a atriz que chegava exausta mas nunca indisposta ou aborrecida.

Acompanhamos de perto, se assim posso dizer, a sua preparação para a personagem Cleuza, mãe de quatro filhos. E numa daquelas incontáveis segundas-feiras de leitura e ensaio de Jorge Andrade, trazido por suas mãos, você me disse que eu poderia ser um de seus filhos no filme. Não pelo talento ou pela semelhança entre nós, mas por eu ter certos aspectos físicos que iam de encontro aos mesmos filhos que dividem a cena com a sua personagem. Pensando nisso, começo a rir sozinho. Já imaginou se eu tivesse a oportunidade de contracenar com a Sandra Corveloni?!

Uau!

Besteira. Eu nunca contracenei com a Sandra Corveloni. Mas eu fui, sim, dirigido, orientado e, algumas vezes, poucas, vá lá, elogiado por uma cena ou outra. E levei alguns puxões de orelha também. Muitos puxões, na verdade. E ríamos bastante, sempre. E nisso ela é especialista. Ok, eu já disse que ela é uma comediante. Mas não que tem um carisma arrebatador, um sorriso largo e um trato meigo, acolhedor. Éramos seus filhos naquelas aulas. E mesmo as broncas, minutos depois, eram revertidas em gostosas e sonoras risadas.

Quando uma cena não dava certo, quando um dos alunos não atingia o grau de excelência que ela almejava, havia sempre um exercício isolado, uma conversa mais íntima, um diálogo entre parceiros. Foi um pouco disso que a Sandra nos deixou. O prosaico. A percepção do outro. O coletivo em detrimento ao individual. Estar aberto ao jogo. E, sobretudo, escutar. Silenciar. E escutar novamente. E só então falar. Estabelecer relação. Brincar. Pois, como disse recentemente Cleyde Yáconis, “o que vale é a brincadeira”.

Continuamos brincando, Sandra. E temos a certeza de que você também continua brincando.

Beijos do seu aluno do 1º semestre de 2007,

Lucas Mayor.

P.S.: Quase ia me esquecendo: parabéns pelo prêmio!

Madonna-girl

25 maio, 2008

Monossilábico. O olhar é mais importante do que a palavra. Tosse repetidas vezes, e isso faz com que a ansiedade desapareça junto com o ruído. Ele pensa em dizer banalidades sobre o tempo, como fazem as pessoas nos elevadores. Mas ela o antecede, e comenta rapidamente algo sobre o novo visual da Madonna, e que ela, quando criança, pensava que sua mãe poderia ser a Madonna. A infância é estranha, você diz. Ela sorri, como se não entendesse. Depois, silêncio. Ela, de costas. Você, encostado à janela, acendendo um cigarro vagabundo e pensando em algo capaz de sustentar um diálogo qualquer.

- Então pensava que sua mãe poderia ser a Madonna

- É. Ela estava sempre bêbada, e raramente estava em casa.

- Como a Madonna.

- É. Como a Madonna.

Você sabe que a Madonna é uma cantora pop, e que aprontou bastante na juventude. Mas isso é tudo.

- Bonita?

- Quem? A mamãe?

- É.

- Como a Madonna. Mais bonita ainda.

- Humn… E você?

- Eu o quê?

- Gosta da Madonna?

- Eu nunca ouvi nada dela. Só vi fotos, e soube das histórias.

- Eu adoro música. Pop.

- Ahã.

- Podemos conversar mais?

- Como quiser. Só apaga a luz, neném.

Singing in living room

24 maio, 2008

Dizem que a primeira impressão é a que fica. E com ela ficam os pequenos movimentos labiais e as interjeições. Porque, numa primeira impressão, tudo, principalmente a fala e o raciocínio leve, parece se acovardar diante do outro. O outro que é novo para você. E, por tabela, você também é novo para o outro. E a novidade faz qualquer um silenciar. Ou falar adoidado. E o silêncio, num primeiro encontro, pode parecer indiferença ou soberba. Por outro lado, a eloqüência pode aparentar presunção, cabotinismo e chatice. Falar de menos causa má impressão. Falar demais, também. Talvez movimentos com a cabeça e com os olhos, entre uma palavra e outra, seja a solução. Ou então, faça como nos musicais: pule, segure a mão de sua parceira e saia cantando. Saber dançar* e cantar sempre causa boa impressão.

* Caso tenha dificuldades para soltar alguns passos, recomendo Cantando na Chuva. Em hipótese alguma ensaie com um guarda-chuva. Você jamais será um Gene Kelly.

Husbands

23 maio, 2008

Anoitecia. Pensei em Faces, Uma mulher sob influência e Amantes. A leitura de John Cassavetes (biografia, análise crítica e filmografia completa), de Thierry Jousse, só faz aumentar meu fascínio em relação ao autor de Shadows. A cada filme revisitado, o mesmo sentimento de desconforto e dor e angústia e visceralidade.

O primeiro contato com Faces foi tão revelador e marcante quanto à primeira vez em que toquei o corpo de uma mulher e percebi, algum tempo depois, minha própria fragilidade. Eu não sou apenas massa e desejo e força bruta. Eu sou, antes de mais nada, frágil, precário, vacilante e um bocado ingênuo. Como são as personagens de Cassavetes.

Fora de quadro, sempre em movimento. A câmera procura enquadrá-las: mas elas fogem, se distanciam. Rostos, mãos, expressões. O close, como em Bergman, é a fotografia da alma.

Peter Falk deitado numa cama de hotel em silêncio, observando a garota japonesa que não fala. O próprio Cassavetes num jogo sexual com a loira grandalhona e autoritária que pede para ser amada. Ben Gazzara fala sobre a esposa e chora como um bebê antes de ser massageado e levado ao quarto pela mulher conhecida há pouco num cassino. O silêncio incomoda, nos coloca no quarto, e, por alguns instantes, eu me torno Peter Falk, meio vesgo e nada sedutor, mas carente.

Husbands é um filme para homens. Para homens que não querem voltar para casa. Para homens que se embriagam e falam palavrões e se esmurram e choram loucamente. Para homens que pedem para ser amados, mesmo que isso não passe de mentirinha. Para homens que sabem que a amizade é o único amor sem máculas.

Husbands é um filme para homens que já perderam as esperanças.

Husbands/John Cassavetes ★★★★★

O fogo é quente ou frio? Para confirmar que a pessoa existe

22 maio, 2008

Racionei a leitura de blogs e revistas eletrônicas nas últimas semanas. E isso, ao invés de me deixar desesperado, fez com que eu percebesse que poucos blogs, e raras revistas eletrônicas, valem mais que um dólar furado. É a mesma sensação que tenho ao ler periódicos diários e/ou semanais. Falta-lhes alma. A informação é reciclada. E a mudança de uma ou outra palavra dá ao blogueiro-jornalista, ou ao jornalista-blogueiro, a certeza de que escreveu algo original, relevante. Mas o resultado é o almoço que virou jantar. Mais do mesmo. Mata-se a subjetividade. Pasteuriza-se a opinião. A vida é maior que a objetividade.

New look

21 maio, 2008

Continua sendo o mesmo blog de sempre. O título é só mais uma tentativa frustrada de dizer que o material será renovado, bem como seu autor. Engodo. O autor continua sendo Lucas Mayor.

***
Alguém disse que eu deveria parar de usar a terceira pessoa. Ah, meu Deus!

***
O meu desaparecimento foi notado por pouquíssimas pessoas, e por isso cheguei à conclusão de que meus escritos valem tanto quanto um cachorro morto. Isso não me deixou mais triste do que costumo ser.

***
O blog está de cara nova, como você pode notar. Mas, insisto, não há nada de novo em meus escritos.

***
Ficar distante da internet é quase tão bom quanto dormir dois dias seguidos.

***
Ainda estou enrolando os pés com cobertos e me queixando das contingências humanas. A sorte nunca está ao meu lado.

***
No supermercado, ouvi uma mulher reclamar da velhice a outra senhora que escolhia maças. Neste mesmo supermercado, um dos funcionários empilhava latinhas de milho com uma precisão cirúrgica. Eu não sei por que eu ainda continuo observando as pessoas de maneira tão despudorada.

***
Troco um Philip Roth por um Sebald. Alguém topa?

***
Li críticas absurdas (leia-se superficiais ou estúpidas mesmo) sobre o novo filme de Woody Allen. Como disse Domingos Oliveira: “Quem não gostou é porque não entendeu. Ou porque ficou com inveja desse jovem cineasta de 72 anos que há décadas faz humildemente um filme por ano, seguindo o seu destino de artista”.

***
Coloquei leituras em dia, revi alguns filmes, fui ao teatro, brinquei de ser ator, tomei banho gelado e não chorei nas últimas semanas. Ah, e eu continuo tomando chá e comendo bolacha Maria.

***

Entre, pegue uma xícara, e sinta-se em casa.

Rinoceronte

21 maio, 2008

A pizza é tamanho família e com borda recheada. O corpo disforme e obeso passaria despercebido se não fosse acompanhado por uma risadinha irritante, quase surda. Sua como se estivesse numa maratona olímpica. Pouco ou nada do que chamamos de pescoço se faz notar entre o casaco bege manchado por um aparente líquido vermelho, talvez ketchup picante, e uma camisa com o nome de uma dessas indústrias alimentícias. Tal como um rinoceronte encarcerado e visto por crianças barulhentas em zoológicos, ele quase urra quando um dos carros não pára antes da faixa de pedestres. É impossível não notar um homem de compleição robusta quando ele se põe a gritar e mover a barriga num movimento circular, quase hipnótico. A pizza numa das mãos, o lenço umedecido pelo suor na outra. São apenas alguns metros que o distanciam da próxima esquina, e o trajeto, habitual, em direção ao apartamento, com três meses de aluguel atrasado, mais se parece com uma escalada, tamanha a dificuldade de respiração entre um passo e outro. Primeiro a cabeça e depois o restante do corpo beija a rua. Um mamute abatido por um caçador. Antes que seja notado por transeuntes apressados, olha o céu de chumbo e suas formas geométricas.