Um beijo roubado
12 abril, 2008 · Imprimir
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Tenho uma relação, digamos, passional com Wong Kar-way. Sobretudo com os aspectos obsessivos de sua mise-en-scène. Não há um fio solto, um único take que não tenha sido meticulosamente decupado e trabalhado à exaustão.
Em geral, o cineasta leva 2 anos, após o encerramento das filmagens, para a conclusão de seu projeto. 2046 foi apresentado em Cannes, numa sessão especial, intitulada work in progress (ninguém mais suportava a espera), em razão do atraso de mais de um ano entre a data oficial, acordada com os distribuidores, e a entrega da obra.
Talvez esse seja o período necessário para que o diretor encontre, em meio à mixórdia de planos e cenas sobrepostas, o filme que acredita haver ali. É no processo minucioso de edição que o filme ganha forma, identidade. Diferentemente de outros cineastas, que após o período de filmagens já estão praticamente com o filme arrematado, Kar-way, findo os dias de gravação, inicia um verdadeiro tour de force atrás do que acredita ser a essência do material.
Como Woody Allen, que recentemente está filmando longe de seu cenário habitual (Nova York), Wong Kar-way largou a China em direção à América.
O dono de um café (Jude Law) “coleciona” chaves esquecidas no balcão – cada chave possui uma história. Um casal acaba de terminar um relacionamento, no mesmo café. Mais uma chave. A chave, nesse caso, pertence à personagem de Norah Jones. Ela começa a freqüentar o ambiente. Ambos foram deixados por seus amantes. É nesse bar, meio à deriva, a própria metáfora do amor fugidio, que o filme inicia e tem seu desfecho. Ele, a certa altura, diz “que as coisas terminam”. Ela parte em busca de respostas. E, na estrada, a única coisa que encontra são pessoas tão perdidas e precárias e desiludidas quanto ela.
Não se trata de uma continuação de 2046 ou de Amor à Flor da Pele, mas de um desdobramento, uma variação. E se ele não atinge a mesma intensidade dos filmes citados, sobra suavidade e desencontro e imperfeições, enfim, elementos caros ao diretor.
A imagem desfocada, que não apreende o todo, a desaceleração e aceleração da imagem, sempre presa a vidros, portas, letreiros, cabines e balcões, são os elementos concretos que mais afastam do que aproximam os espaços e corpos. Distanciamentos geográficos, físicos, sentimentais.
(Os planos enviesados de Norah Jones, Natalie Portman e Rachel Weisz mais se parecem com figuras etéreas.)
Ainda que tudo esteja inexoravelmente fadado ao fim, nós precisamos das narrativas. E do amor – mesmo que não passe de uma simples disposição de fotogramas num filme de Wong Kar-way.
…
P.S.: O beijo conclusivo é realmente tudo o que andam dizendo por aí. Aos detratores de Kar-way, eu digo que cada vez mais eu gosto de artigos de perfumaria. Mais: a trilha sonora, principalmente Ry Cooder, é capaz de colocá-lo num estado de suspensão. Provisório, mas ainda assim suspensão.




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