Museu de cera
18 abril, 2008
Em determinado livro de ensaios ou não, Sartre diz que um homem assume as características de sua profissão. Sartre convivia com intelectuais eminentes da França, tomava café com literatos, era amigo de Camus, marido de Simone de Beauvoir e amante de luxo de belas mulheres entre uma conferência e outra. Sartre era um flâneur, e por isso um grande observador da cidade e seus moradores.
A máxima de Sartre atirou-se à minha frente ontem, na sala dos professores. Percebi que todos ali, dados seus trejeitos, falas, roupas e movimentos, haviam assumido, mesmo em suas vidas privadas, o peso e responsabilidade de serem professores em tempo integral.
Eram profissões, não pessoas. Eram frases de efeito. Eram roupas adequadas ao exercício da profissão. A maquilagem forçada de uma delas, o cabelo pintado com a raiz precisando de um retoque, o sapato gasto de um deles, o sorriso que não mostra os dentes da pequena professora que senta mais ao fundo da sala, numa tentativa de não ser notada, são, talvez, a única marca pessoal ainda viva do que poderíamos chamar de um estranho museu de cera. As pessoas não são, ou não deveriam ser, o que elas fazem.
Sonhando Acordado (Jake Paltrow)
17 abril, 2008
Sonhando acordado é feito do mesmo material da safra dos filmes de Spike Jonze e Michel Gondry (do mesmo material, não da mesma inventividade e arquitetura). A realidade adentra a ficção e vice-versa. Metalinguagem e bobagem. O homem tem uma vida tediosa, não transa mais com a esposa, trabalha num servicinho que castra suas veleidades artísticas e, para dar uma apimentada ao caldeirão de fracassos, tem um amigo estúpido e machista, mas que, comprovando a máxima de que talento e inteligência não passam de notas de rodapé em teses de mestrado, está em ascensão profissional, enquanto ele, o que só vive no sonho o que gostaria de ter na realidade, não passa de um loser engraçadinho e meio nerd.
Mas não se pode viver de sonhos, não é mesmo? Sim, é mesmo. E então o sujeito acorda. Ah, deu uma baita saudade de A rosa púrpura do cairo.
11 dos filmes inesquecíveis da minha infância (1)
16 abril, 2008
1. Goonies
2. E.T.
3. Curtindo a vida adoidado
4. Garotos perdidos
5. Uma noite alucinante
6. Conta comigo
7. O garoto do futuro
8. Te pego lá fora
9. Karatê kid
10. De volta para o futuro
11. Quero ser grande
Do outro lado
14 abril, 2008
Contra a parede tem uma pulsão de vida tão premente que causa desespero, aflição. Do outro lado caminha num clima de conforto, mesmo que seja dominado por desarranjos e perdas e desesperanças e reviravoltas e um quê de desbragada redenção. É como se estivéssemos diante de um Babel menos manipulador e que foge a todo custo do melodrama fácil que caracteriza a telenovela rasteira. Talvez a artificialidade dos elos entre as histórias, recurso já cansativo pelo uso excessivo e por não se adequar ao conteúdo da trama, seja o maior ponto de saturação de um conjunto quase que promissor. Quase.
Um beijo roubado
12 abril, 2008
Tenho uma relação, digamos, passional com Wong Kar-way. Sobretudo com os aspectos obsessivos de sua mise-en-scène. Não há um fio solto, um único take que não tenha sido meticulosamente decupado e trabalhado à exaustão.
Em geral, o cineasta leva 2 anos, após o encerramento das filmagens, para a conclusão de seu projeto. 2046 foi apresentado em Cannes, numa sessão especial, intitulada work in progress (ninguém mais suportava a espera), em razão do atraso de mais de um ano entre a data oficial, acordada com os distribuidores, e a entrega da obra.
Talvez esse seja o período necessário para que o diretor encontre, em meio à mixórdia de planos e cenas sobrepostas, o filme que acredita haver ali. É no processo minucioso de edição que o filme ganha forma, identidade. Diferentemente de outros cineastas, que após o período de filmagens já estão praticamente com o filme arrematado, Kar-way, findo os dias de gravação, inicia um verdadeiro tour de force atrás do que acredita ser a essência do material.
Como Woody Allen, que recentemente está filmando longe de seu cenário habitual (Nova York), Wong Kar-way largou a China em direção à América.
O dono de um café (Jude Law) “coleciona” chaves esquecidas no balcão – cada chave possui uma história. Um casal acaba de terminar um relacionamento, no mesmo café. Mais uma chave. A chave, nesse caso, pertence à personagem de Norah Jones. Ela começa a freqüentar o ambiente. Ambos foram deixados por seus amantes. É nesse bar, meio à deriva, a própria metáfora do amor fugidio, que o filme inicia e tem seu desfecho. Ele, a certa altura, diz “que as coisas terminam”. Ela parte em busca de respostas. E, na estrada, a única coisa que encontra são pessoas tão perdidas e precárias e desiludidas quanto ela.
Não se trata de uma continuação de 2046 ou de Amor à Flor da Pele, mas de um desdobramento, uma variação. E se ele não atinge a mesma intensidade dos filmes citados, sobra suavidade e desencontro e imperfeições, enfim, elementos caros ao diretor.
A imagem desfocada, que não apreende o todo, a desaceleração e aceleração da imagem, sempre presa a vidros, portas, letreiros, cabines e balcões, são os elementos concretos que mais afastam do que aproximam os espaços e corpos. Distanciamentos geográficos, físicos, sentimentais.
(Os planos enviesados de Norah Jones, Natalie Portman e Rachel Weisz mais se parecem com figuras etéreas.)
Ainda que tudo esteja inexoravelmente fadado ao fim, nós precisamos das narrativas. E do amor – mesmo que não passe de uma simples disposição de fotogramas num filme de Wong Kar-way.
…
P.S.: O beijo conclusivo é realmente tudo o que andam dizendo por aí. Aos detratores de Kar-way, eu digo que cada vez mais eu gosto de artigos de perfumaria. Mais: a trilha sonora, principalmente Ry Cooder, é capaz de colocá-lo num estado de suspensão. Provisório, mas ainda assim suspensão.
I’m growing up
11 abril, 2008
Estar acometido por tristeza em período quase integral é algo que não estava nos seus planos quando você era só um garotinho que passava secador no cabelo e bolava com os colegas artimanhas de beijar o maior número de garotas numa danceteria próxima à sua casa, e onde achava que era tão conhecido como uma bandinha indie em ascensão, fora a repetida sensação de que o grupo de amigos, uns belos sem-vergonha, admirava seu talento de sedutor nada romântico, que soltava frases do tipo É uma questão de tempo para que nossos lábios se encontrem em alguma esquina mal iluminada.
Pedro Costa (asceta herético)
9 abril, 2008
Tootsie
9 abril, 2008
Tootsie é o Sydney Pollack da década de 80. A aparente comédia agridoce, do ator idiossincrático, e por isso mesmo relegado ao segundo escalão, que é obrigado a vestir-se de mulher para conseguir um papel numa sitcom fraca mas de audiência, poderia ser mais do mesmo não fossem as atuações brilhantes de Dustin Hoffman e Jessica Lange. Tootsie é o oposto de filmes como Uma babá quase perfeita, onde Robin Williams traveste-se mulher para conviver com seus filhos. Enquanto Uma babá… sofre dos lugares-comuns, Tootsie ganha pela inventividade. A vontade é de cantar It might be you.
Arquitetos do palco
8 abril, 2008
A construção de uma personagem se dá, sobretudo, pelo corpo. A fala sugere, o corpo diz. Quando não se tem domínio total da arquitetura da personagem, o corpo é o primeiro que entra em colapso. A intenção perde sua força quando um corpo diz o oposto daquilo que está sendo proferido. O corpo é o condutor, o pára-raios. Não existe criação plena que sobreponha uma das partes. A justa medida, que não é segredo para ninguém, encontra-se no equilíbrio das forças. É como no amor, o encontro de dois corpos distintos, mas em constante interlocução. O ator é um corpo em movimento.
Os cães param de latir quando amadurecem
6 abril, 2008
Uma luz difusa pede passagem por entre uma pequena nesga da porta empenada do meu quarto. Dificilmente sou acordado por barulhos externos ou algo que o valha. Penso que a televisão poderia ter ficado ligada enquanto eu, sonolento, cambaleava à procura do travesseiro esquecido ou jogado embaixo da cama. Embora tenha certeza que desliguei a televisão, numa tentativa desesperada, diga-se de passagem, de fazer com que a Rafaela pegasse no sono. Um conselho: caso gostem de dormir bastante e jamais acordar cedo, abortem qualquer possibilidade de crianças berrando na sala.
Será Deus a luz?, pensei. Não poderia ser Deus. Temos nossas divergências. Ele não toparia me visitar num sábado à noite de curtição, bares lotados e jovens alucinados correndo com suas carangas siliconadas atrás de pó e felicidade, sempre felicidade. Não. O que um ateuzinho de merda poderia dizer que Ele já não soubesse? Talvez… Não. Há muitas pessoas precisando d´Ele num dia como este. As pessoas morrem aos sábados. E eu parecia estar bem vivo. Ao menos era o que diziam as batidas ritmadas no meu peito. Mas o problema maior eram minhas mãos e pés, que continuavam frios como ursos-polares. E se ao invés de Deus for a morte radiante. Afinal, ninguém sabe ao certo como essas coisas se anunciam. Ao invés da escuridão, a luz. Ao invés da foice, o sorriso. Pode ser, quem realmente sabe?
Ao puxar o cobertor por sobre a cabeça, ouço um clique parecido com o microondas milésimos de segundos antes do apito que anuncia que a refeição já está aquecida. Penso que só pode ser um curto-circuito qualquer. O chuveiro está queimado faz alguns dias. O abajur só acende quando quer. O fogão só serve para esquentar água, já que o forno nunca funcionou. Problemas domésticos estão fazendo com que você fuja do problema real: a LUZ. Qualquer um levantaria e abriria a porta e solucionaria a noite maldormida.
Mas aí é que está: você não acredita em Deus, mas é medroso. O medo faz com que você fique acordado por mais duas longas horas. Nesse ínterim, você roça um pé no outro, pensa na sua vida, na peça que não pôde ver na sexta-feira, no seu pai que está morando mais longe do que o habitual, na sua mãe ao pé da escada falando de um filme que você ainda não viu, na sua avó o repreendendo por você não colocar as meias de molho, e até mesmo no seu cachorro, que parou de latir há alguns meses. Falta-lhe vontade. Não que ele tenha desaprendido como se faz, nada disso. Os cães param de latir quando amadurecem. É bem parecido com os homens, que param de sorrir quando se percebem como homens. A maturidade é só o medo de levantar da cama, abrir a porta e apagar a luz.



