Planeta Terror

31 março, 2008

É impossí­vel, mesmo diante de toda a inverossimilhança de Planeta Terror, você não aceitar e, de certa forma, acreditar nas situações e no conjunto de personagens caricatos que povoa o filme e o imaginário de Rodriguez. Mas, para deixar claro, é um filme de Rodriguez, e não simplesmente uma homenagem a um gênero perdido entre as décadas de 70 e 80. Mais radical do que em seus filmes anteriores, e com um domí­nio narrativo e estrutural só visto em Sin City, Planeta Terror consegue a proeza de criar um mundo particular, auto-irônico e carregado de absurdos de uma genialidade sem igual.

Senhora dos Afogados (primeira leitura)

30 março, 2008

As leituras vão se acumulando, e mesmo que eu tenha alguns livros já iniciados, opto, agora, pela leitura de uma peça de Nelson Rodrigues, que data de 1947 – proibida no ano seguinte, e montada somente em 1954, tendo como diretora Bibi Ferreira.

A razão da leitura se deve ao fato da montagem da peça, a qual verei hoje, se tudo der certo.

Senhora dos afogados pertence a uma categoria de textos tidos como míticos, ao lado de Álbum de Família, Anjo Negro e Dorotéia. Categoria essa nada arbitrária, pois os personagens e situações transcendem seu tempo-espaço imanente e ganham ares de figuras míticas, arquetípicas.

A rubrica inicial deixa claro que a peça poderia se passar em qualquer tempo, dado seu caráter atemporal, posto que o que está em curso, a derrocada dos laços familiares, e, por conseguinte, de uma tradição, atrelada a questões de incesto, fratricídio, adultério e feminilidade, poderia se passar tanto num Brasil subdesenvolvido e de tradição escravocrata quanto numa região qualquer, independente de nacionalidades e/ou aspectos sociais. Temas universais, portanto.

Antes de falar sobre duas ou três especificidades que me chamaram mais atenção, tentarei dar um breve panorama da “tragédia da esterilidade”, como assim definiu Antunes Filho.

Misael é o patriarca da família Drummond, e D. Eduarda, sua esposa. Clarinha e Dora, mortas já na abertura da peça, formam, junto com Paulo e Moema, os quatro filhos do casal. Paulo procura, ao lado do noivo de Moema, o corpo de Clarinha, que o mar levara dias antes. Misael está ocupado num banquete de negócios, e os vizinhos, que assumem a função do coro, nada mais fazem do que julgar a família de mulheres que não traem. A avó, amalucada, às vezes funciona como elemento de conflito e rememoração entre uma cena e outra. Mas é na evocação da prostituta, morta 19 anos antes, que a peça vai ganhando contornos e desvãos.

Vozes opressivas ecoam na casa, velando alguém que não é Clarinha, mas a prostituta morta pelas mãos do juiz Misael. O crime irá costurar os três atos, e a sucessão de mortes, sempre acompanhada e ovacionada pelos vizinhos, confere à tragédia o peso que lhe é devido.

A filha Moema quer se casar com o pai, e matar a mãe, numa alusão direta à tragédia de Édipo Rei. A mãe, por sua vez, quer o amor do marido, que nunca a viu completamente nua – procura o adultério como que se buscasse o amor. Paulo ama a mãe de forma desbragada. É por amor exacerbado que os personagens matam.

Nunca ódio, mas amor.

Paulo mata o noivo da irmã num ato de desespero, como que para impedir que a mãe se tornasse uma adúltera. Moema matou Clarinha e Dora por amor ao pai, para ser a filha única e não ter de dividir o amor com as duas irmãs. O pai mata a prostituta por amor à mulher. E depois, mata a própria esposa, num ato repentino de amor transfigurado, que mais parece ódio. Mas é, repito, por amor desenfreado que o carrossel mortífero gira num moto-contínuo.

É por isso que quando Antunes diz que é a tragédia da esterilidade, ele na verdade está querendo dizer que os personagens são impotentes diante de seus próprios anseios e desejos. Acabam, pois, por degradar o objeto do amor.

Moema parece atingir seu objetivo, que era ser a única mulher na casa, ao lado de seu pai. Ela só não contava com a morte súbita de Misael. E como um anjo da morte, Moema matou ou fez com que cada um morresse através de suas mãos: as irmãs, o irmão, que recebe seu consentimento para atirar-se no mar, o pai, que morre mais por desgosto em razão do assassinato de sua própria esposa, e ela própria, que perdera sua imagem em algum retrato, e agora só possuía as mãos, signo* da morte e do amor, da carícia e dos golpes, do que fizera de si e dos outros.

E diferentemente da mãe, que teve as mãos decepadas pelo marido, numa tentativa de extirpar a parte pecaminosa, ela as terá como que um câncer, corrosivo, lembrando-a sempre dos atos sanguinolentos, e, sobretudo, da mãe e da família Drummond, que estará presente em cada membro de seu corpo e da casa com os vizinhos que usam máscaras e ditam palavras de ordem.

Não vejo paradoxo nenhum em afirmar que Senhora dos Afogados é uma tragédia do amor – de sua eterna impossibilidade.

* A peça é repleta de signos: as mãos, o farol, as máscaras, o espelho, o mar etc.

Não leia Nelson Rodrigues!

30 março, 2008

Pode ser uma casa presente na minha infância. Talvez a casa da minha tia ou de algum de meus parentes mais afastados. E eu procuro nos retratos, no sofá, no banheiro com os azulejos riscados, algo familiar, uma pista qualquer. Ao fundo ecoa um som estranho, parecido com uma prece, um chamado. E da ponta da escada é possível ver um grupo de pessoas que caminha na minha direção. Pronunciam em uníssono algo do tipo Matou sim! Matou sim! Usam máscaras e roupas bem parecidas. Pedem que eu assuma o crime cometido contra a prostituta.

Acordo. Preciso de um banho.

Navalhada

29 março, 2008

Em menos de 4 meses, assisti duas montagens bem diferentes de Navalha na Carne, de Plínio Marcos. A primeira, em cartaz no Tusp, apresenta imperfeições, desníveis, ondulações. Mas aceita suas personagens com o pouco de humanidade que lhes resta. Aceitá-las não quer dizer que sejam complacentes, quer dizer que não as julgam de antemão. Devolve-lhes, portanto, a humanidade solapada pela ganga bruta do cotidiano excruciante. Na segunda montagem, em cartaz no Sesc Paulista, não podemos falar em imperfeições tão-somente, mas num equívoco que, por vezes, beira o patético. Não há aprofundamento, é tudo estereótipo, truque, macaqueação travestida em roupagem modernosa.

Breves entrevistas com homens hediondos (3 breves impressões)

28 março, 2008

Estou terminando a releitura de A Estrada, do Cormac – sem dizer, mas já dizendo, o livro é assustadoramente brilhante. Mas é sobre o livro de contos de David Foster Wallace, Breves entrevistas com homens hediondos, que eu gostaria de falar duas ou três banalidades: 1) o domínio narrativo, principalmente no conto A pessoa deprimida, é louvável; 2) há um bom tempo eu não lia um escritor com um estilo tão peculiar e sedutor e de uma erudição tão despojada; 3) É importante ressaltar que eu reli Para sempre em cima umas 30 vezes, e por quê? Por que meu Deus?

Encenadores

28 março, 2008

É costumeiro ouvir que o grande encenador é aquele que se esconde, que não se faz notar. Concordo em partes: não se deve sobrepor elementos cênicos ou signos sobressalentes quando o texto pede algo direto e seco, sem meios-termos. Agora, diante de Antunes, Zé Celso, Fauzi, Rusche, Gabriel Villela, Felipe Hirsch, André Garolli, Gerald, Tolentino etc., fica praticamente impossível não notar o esmero em cada detalhe, a escolha disso e não daquilo, a construção obsessiva da mise-en-scène, bem como os demais elementos estéticos que compõem a encenação.

Recentemente, Zona de Guerra e Camaradagem são bons exemplos de direção.

Third

28 março, 2008

É como um filme que te deixa triste, um parágrafo que não sai da sua cabeça, um calo que te lembra o tempo todo que ali tem algo doído, uma morte acidental, uma breve despedida de uma relação conflituosa, uma briga familiar que nem mesmo esparadrapo é capaz de esconder, a saudade de um ente querido, a solidão presente e mortificante, a vaga e sempre ilusória idéia de felicidade reinante, os aniversários que já passaram, a infância que não pode ser costurada, o soco na parede branca, o choro inaudível entre cobertores e travesseiros. Não ouça Portishead antes dos 30.

O lobisomem da quitinete de marfim

27 março, 2008

Mário Bortolotto é um homem de princípios. Como assim, princípios? Ora, princípios. Pensa comigo: um sujeito que só escreve o que lhe convém, que jamais faz uma peça pura e simplesmente com a intenção de arrecadar uma grana fácil (ao menos é o que parece), que sempre joga a merda no ventilador, e que, ao que tudo indica, não se compraz em dizer o correto-falso quando na verdade o que pensa é que tudo aquilo que viu, ouviu ou leu não passa de um salgadinho requentado numa manhã de segunda-feira, não pode ser tomado como uma pessoa que não tenha princípios bem sólidos. E uma das maiores dificuldades de um artista é manter uma linha de honestidade (leia-se coerência e seus sinônimos) consigo próprio. E isso ele mantém como poucos.

Leia o seu blog ou qualquer conjunto de escritos, peças ou crônicas, e isto que acabei de falar sobre o Mário ficará mais evidente. Mesmo quando o tomam por pretensioso, arrogante, miserável, puto etc. e tal, ele publica o comentário e responde. Ingenuidade da sua parte, alguns diriam. Eu digo o contrário: talvez se ele ficasse em silêncio a resposta seria mais eloqüente do que uma discussão, dado o nível dos interlocutores ou a inocuidade do embate. Ok, mas se ele não respondesse não seria o Mário Bortolotto.

Isso é princípio, cara. Simples assim.

A peça Aos ossos que tanto doem no inverno, do poeta Sérgio Mello, é mais uma incursão de Bortolotto a um mundo que lhe é característico. Um viúvo solitário, vivido por Mário, é assaltado por um ladrão, Nelson Peres, que acaba de sair da cadeia – agora não lembro se ele foi libertado ou fugiu; não importa.

O viúvo passa os dias bebendo e pensando num amor do passado. O ladrão, com crise de consciência, decide devolver-lhe a carteira, roubada dias antes. O fato, por si só, já é um tanto absurdo. Soma-se a isso um ladrão metido a artista e um viúvo fã declarado de Chet Baker.

A geladeira está cheia de cerveja, a espingarda, objeto que o viúvo carrega a tiracolo, descarregada, e a carteira cheia de pequenas e melancólicas lembranças. Algo liga o viúvo ao ladrão. E as ligações não se resumem a dados geracionais, muito agradáveis por sinal. Talvez os ossos que tanto doem no inverno. Talvez as perdas. Talvez a sensação de deserção que domina o ambiente. Talvez a merda do microondas que ficou silencioso e os espaços vazios que não podem ser preenchidos com álcool e cobertores grossos.

Ou talvez seja apenas um mundo onde sujeitos dessa estirpe não tenham mais espaço. E os ossos continuam doendo, no inverno ou não.

É surpreendente como o Mário sempre me faz sorrir. Não um sorriso tolo, bobinho. Tampouco um sorriso forçado. Digamos que seja um sorriso à Buster Keaton.

Brown Bunny

27 março, 2008

O que distingue um tipo de “fazer cinema” do outro é a questão da temporalidade. E por isso o segundo filme de Vincent Gallo, Brown Bunny, é um corpo estranho dentro de um cinema americano tradicional e pouco afeito a filmes-experimento. Diferentemente de Búfalo 66, seu primeiro filme, aqui a história se resume a uma viagem de New Hampshire à Califórnia. Quando muito um diálogo qualquer com uma das moças (todas com nome de flor) que ele encontra pelo caminho. Nada além. No entanto, é de uma fisicalidade aguda, alcançada principalmente por uma temporalidade dilatada, contemplativa. A poética do vazio.

Nelson está vivo

26 março, 2008

Um motoboy desempregado de 26 anos não se contentou apenas em afirmar aos vizinhos na periferia do Jaguaré (zona oeste de SP), que matou a tiros o amante de sua então mulher em novembro do ano passado. Ele foi além: tatuou no início deste ano um caixão com uma cruz no braço direito com o nome da vítima e a data do crime.

Ao ler a notícia, pela manhã, pensei imediatamente em Nelson. Não pelo triângulo amoroso, não pela traição, seguida de morte, ou por ela alegar que sequer tinha um marido. A tatuagem lembra Nelson. Sim, Nelson, somos patéticos.

Notícia retirada do jornal Folha de S. Paulo.

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