O inferno
29 fevereiro, 2008
Eu sou a Lenda, filme norte-americano, é a Disneylândia. A estrada, romance de Cormac McCarthy, é o inferno.
Nesta estrada não há homens inspirados por Deus. Eles se foram e eu fiquei, eles levaram consigo o mundo. Pergunta: Como faz aquilo que nunca será para ser diferente daquilo que nunca foi.
[...]
Todas as coisas graciosas e belas como as que se levam guardadas no coração têm uma origem comum na dor. Nascem do pesar e das cinzas. Então, ele sussurrou para o menino adormecido. Tenho você.
Leio e releio os mesmos parágrafos. Assustador e sublime – como a vida.
Romênia
29 fevereiro, 2008
O cinema romeno recente é uma lufada de ar no pó comercial que domina os circuitos de exibição. A morte do Sr. Lazarescu é o exemplo mais eminente da safra de filmes que os brasileiros, agora, estão tomando conhecimento. Fora os festivais do Rio e de São Paulo, A morte… só é encontrado no Emule e alguns similares – alô, distribuidores?! Mas é possível alugar A Leste de Bucareste, outro bom exemplo do cinema romeno contemporâneo, e notar o porquê dos cinéfilos paulistanos estarem tão entusiasmados.
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias é um filme romeno. Isso não diz nada.
Chaves
29 fevereiro, 2008
Caso você tenha esteja na casa do dos 22 aos 50, você é um admirador do programa humorístico Chaves. Eu não imaginava que poderia soltar gargalhadas tão gostosas como as de ontem. Todos estavam em Acapulco, com seus maiôs e roupas de banho, seus castelos de areia e seus bordões lendários. E, como não poderia deixar de ser, o seu Madruga rouba a cena à beira da piscina, exibindo seu corpanzil e destilando frases tão corriqueiras que não teriam efeito tão agradável caso fossem ditas por um ator qualquer. Tudo é brega em Chaves. E eu sou por demais brega.
Alienígenas
28 fevereiro, 2008
Malditos atores! Eles são seres alienígenas, contaminados por uma substância viscosa e atraente e repulsiva e jamais se satisfazem em te levar às lágrimas ou à fadiga ou ao território do inominável. Eles querem te fazer acreditar que aquilo (a personagem) não são eles, mas uma pessoa qualquer, pega num momento de surpresa com uma faca e um revólver ou mesmo uma camisa com resíduos de sangue no colarinho. Não se engane, pois eles são dissimulados. Eles podem fazer um carteiro sem nunca terem entregado uma carta ? e você acreditar. Embora os atores, os melhores, sejam sempre eles mesmos.
Mais vida, por favor
27 fevereiro, 2008
A velhice é algo assustador. Eu já falei isso na semana passada. Velhos, não leiam Homem Comum, de Philip Roth. Ou leiam e vejam o que nos aguarda. É triste ver um sujeito de compleição robusta e severa tornar-se um pequeno caroço de uva. E é impossível você não se colocar, ao menos por alguns instantes, no lugar daquele homem que você acabou de visitar num leito asséptico e tomado por tons creme e esverdeado. A vontade é procurar a administração do hospital e pedir que eles dêem uma modificação no cenário. A morte não precisa ser tão estranhamente silenciosa.
Feliz aniversário, Lucas!
26 fevereiro, 2008
A vida é um tanto estranha. Pense num jogo de futebol disputado. Craques dos dois lados do campo. Um goleiro fora de série e um dia chuvoso. O estádio lembra um coliseu dominado por gladiadores. Os gritos são ensurdecedores. Espadas, escudos, leões e músculos avançam em sua direção. Você quer correr, mas não pode. É a vida te socando, pedindo passagem.
Você é apenas um homem de 26 anos. E você ainda não sabe muito bem o que fazer com as mãos e muito menos com as idéias. Você não tem um belo par de pernas, não é a Sharon Stone e jamais foi ou será lembrado pelos atributos físicos. Seu rosto é marcado, suas unhas carcomidas, sua testa e nariz lembram os mapas que a professora de geografia o fazia copiar semanalmente, indiferente ao seu fracasso como desenhista; e nem mesmo os seus olhos e cabelos castanhos, do tipo encontrado em cães vira-latas, são algo de que se orgulha.
Mas você, agora, tem 26 anos, uma moto preta, uma avó que faz rocambole em seus aniversários e um pai e uma mãe que jamais deixaram de lembrá-lo que você, apesar de tudo, é um garoto especial.
Mas você, agora, tem 26 anos e sabe que todos os garotos são especiais para seus pais. Você procura, desde seus 18 anos, algo que te faça feliz. Um emprego, plano de saúde, uma casa, o carro do ano e uma mesa de jantar no centro da sala nunca foram seus sonhos. Você gostaria de ser um Fitzgerald mas sabe que não passa de um Harvey Pecker sem talento. E você escreve. Mais: você escreve porque isto é uma das únicas coisas que te deixa vivo.
Mas você, agora, tem 26 anos e sabe que escrever é só uma maneira de fugir de si mesmo.
Você odeia parabéns, tapinha nas costas e animais dentro de casa. Fora a sua família, há apenas uma garota que você amou verdadeiramente. Antes dela você não acreditava que poderia atravessar uma chuva de granizo e chegar esbaforido e encharcado do outro lado simplesmente para abraçá-la ou dizer que seus olhos são mais negros que a noite e seu nariz uma pequena cereja num bolo de morango. Depois dela você nunca irá pronunciar olhos tão negros e bonitos quanto ou cerejas em bolos de morango. E você sabe, de alguma maneira, que ela sempre irá lembrar-se de você como o cara que atravessou uma chuva de granizo só para lhe abraçar e dizer que o mundo, ao menos naquela hora, parou para contemplá-los. Ela sabe que nunca mais sentirá o que sentiu por você por outro homem. E você sabe que nunca sentirá o que sentiu por outra mulher.
O amor é só o encontro de duas pessoas ingênuas e loucas.
Mas você tem apenas 26 anos e a partida ainda está no primeiro tempo. Você não é um craque. Você não fará sequer um gol como os do Pelé, um filme ambivalente como os de Woody Allen ou um manuscrito como os de Conrad. Mas você irá brigar por cada centímetro de grama, xingar os adversários, chutar a bola e olhar para os companheiros de equipe. Eles são poucos. E mesmo na hora da substituição, com o estádio apinhado de torcedores do time adversário, você sairá dançando. A vida só vale a pena se nós rirmos dela.
Cormac estava lá
25 fevereiro, 2008
Assistir ao Oscar deitado dá outra visão de toda aquela parafernália verborrágica. Entre uma cochilada e outra você torce por uma tal de Cate Blanchett ganhar o prêmio de atriz coadjuvante, mas quem leva é a alien inglesa Tilda Swinton. Melhor do que darem para Ruby Dee, que, apesar de fazer direitinho o que foi pedido, não se compara as demais indicadas. Javier killshot deve dormir com o homenzinho dourado. Deveriam existir categorias especiais para atores como Day-Lewis, afinal os outros concorrentes se sentem pobres-diabos. Os irmãos Coen (viva!) finalmente foram reconhecidos. Cormac estava lá. Cormac estava lá. Amém!
Homem Comum
24 fevereiro, 2008
Philip Roth ficou na fila de espera durante três meses. Alguns escritores ficam um ano ou dois. Falei a um amigo que o livro mais recente de Palahniuk, Assombro, será lido daqui a dois anos. Ele riu. Trata-se de uma lista bem seletiva. Roth, McEwan, Coetzee, Bolaño e alguns outros até podem passar à frente, mas nunca antes de uma lida no primeiro parágrafo. O primeiro parágrafo é o sorriso de um livro. Um sorriso sem dentes é algo assustador. Daí que ao ler o primeiro parágrafo de um livro eu sei, mais ou menos, o que eu posso esperar do manuscrito. Claro que há inúmeras exceções, mas no geral eu costumo acertar. Com Philip Roth não foi diferente.
A concisão e simplicidade de Homem Comum (o livro mais recente de Roth traduzido no Brasil; Exit Ghost chega, segundo fontes jornalísticas, no mês de junho) devolvem à leitura seu caráter singular de prazer. Contrariando a prosaica idéia de que profundidade só é alcançada através de exercícios herméticos ou caudalosos, a prosa de Roth é simples sem ser didática; seca sem ser árida; e portentosa por ser distanciada mas nunca indiferente. O relato de uma vida, desde seus momentos gloriosos até os mais abjetos, é tratado com extrema acuidade.
Algumas vezes era preciso fechar o livro e digerir mais calmamente uma ou outra passagem. Há frases como que esculpidas – nada sobra. O diálogo é nunca menos que brilhante.
Não há como refazer a realidade, disse ela ao pai. O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar.
Não há nada demais em retratar a vida de um sujeito comum, alguns diriam desconfiados. Não, não há nada demais, se não fosse Roth o escritor que é. Ao optar, genialmente, por abrir o livro com o enterro e, portanto, com o que seria o desfecho da obra, ele acaba por frustrar o nosso desejo pelo inesperado. Tal como Crônica de uma morte anunciada, García Márquez, o que importa não é se o personagem irá ou não morrer, o que já é dado de início, mas como e o porquê ele vai morrer. E o relato, tanto de Márquez quanto de Roth, não admite complacência ou meios-termos – até mesmo o conhecido barroquismo de Márquez, nesse livro, parece mais diluído. Ele vai morrer; sem desculpas. E esse embate com a decadência do corpo e todas as suas afetações, apesar de ser, desde tempos remotos, algo que já conhecemos e vivenciamos, em menor ou maior grau, são momentos de extrema dor.
A velhice é uma batalha, meu querido, quando não é uma coisa, é outra. Uma batalha implacável, justamente quando você está mais fraco e mais impossibilitado de enfrentar a luta como antes.
Mas há momentos felizes. Poucos, mas há – principalmente quando a personagem se mostra voluptuosa. Talvez a cena mais pungente do livro, e que funciona como uma metáfora fulgurante e dolorosa, seja a conversa um tanto mórbida com o coveiro. Poucas vezes eu fiquei tão eufórico com uma cena isolada de uma narrativa como neste caso.
Ao final da leitura você sai arrasado. A velhice é dilacerante, cruel, injusta ; ou, para ficarmos em termos mais próximo aos da personagem: A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre. A finitude, diria Roth, sempre será o nosso maior medo.
Senhores do corpo
23 fevereiro, 2008
Senhores do Crime, o belo filme de David Cronenberg, teve sua estréia na tarde de ontem. Viggo Mortensen, injustamente, é carta fora do baralho na premiação do Oscar. É na fala de Cronenberg, no que diz respeito ao processo de atuação, que notamos o cerne de seu cinema.
Um ator é antes de mais nada um corpo. O físico é seu instrumento de trabalho. Quando um cineasta filma um ator, o material sensibilizado pela película ? ou mesmo que fosse a tecnologia digital, não tem nada de abstrato. É uma matéria viva, com nervos, músculos e contornos.
O corpo é tudo!
O Orfanato
22 fevereiro, 2008
Fecho a cortina da sala, apago as luzes, aumento o som no limite, e coloco uma cópia de um filme espanhol, obviamente baixada do eMule, no meu reprodutor de DVDs. Um amigo havia me alertado sobre a possibilidade de, após a exibição do filme, eu começar a sentir insônia crônica. Nada me faz perder o sono, caríssimo. Talvez a ingestão de batatinhas banhadas ao óleo. No mais, eu até ando sonhando ultimamente.
O Orfanato se passa, evidentemente, num orfanato. Eu sempre achei orfanatos lugares tristes. Este, além de triste, é mal-assombrado. A intertextualidade com Peter Pan só aprofunda essa sensação.



