Tom Zé

31 janeiro, 2008

Digam o que disserem, Tom Zé é um gênio. Embora a palavra gênio esteja tão desgastada pelo uso excessivo – chamam o Falabella de gênio (argh)?! -, é isso mesmo. Tom, contrariando nossa natureza passiva e pouca combativa, é um leão. O documentário Fabricando Tom Zé mostra uma faceta desse sujeito simples mas nada bobo. Arrancando sons de coisas ordinárias, ele produz uma musicalidade invejável. Sua diatribe com a Tropicália é pouco discutida no filme, o que dá ao documentário uma carinha mais complacente diante dos abusos ególatras de Caetano Veloso e sua trupe. Enquanto Caetano assovia Tom Zé ruge.

Tom Zé fala sobre Rita Lee (eu chorei, chorei de rir):

Manhãs

30 janeiro, 2008

Gosto de acordar e ficar um tempo sozinho, bebericando um pouco de chá ou café bem amargo. Gosto de ler o jornal com um pequeno cobertor sobre os pés. Gosto de ligar a tevê bem baixinha e ficar escutando o noticiário. Gosto de levar o lixo para a rua e ver as pessoas se movimentado pra lá e pra cá. Gosto de entrar no chuveiro e deixar com que a água quente molhe lentamente meu corpo. Gosto de ver o dia nascendo. Gosto do silêncio próprio das manhãs. É a única hora do dia em que eu consigo estar só.

Malditas baganas

29 janeiro, 2008

Sou um tanto metódico e obsessivo quando o assunto é organização domiciliar. Um tanto não seria a melhor escolha de palavras: coloquem demasiadamente obsessivo. Uma simples colher e alguns copos sobre a pia são capazes de fazer com que eu não durma; isto é, antes de lavá-los e colocá-los em seus devidos lugares.

Relaxa, ouço minha esposa dizer freqüentemente. É fácil para ela, afinal ela não dá a mínima para um copo sujo ou um tapete repleto de pedacinhos de pão. Metade dos casamentos acaba por falta de diálogo, digo. Ela sorri e lança mais uma bagana no quintal.

Sorria!

28 janeiro, 2008

A melhor definição para programas de auditório que povoam as tardes televisivas seria: nojentos. Creio não ser necessário citá-los. As pobres almas que passam por estes programas sofrem verdadeiras sessões de humilhação pública. Alguns participantes ganham apenas o lanche e uma maquilagem canhestra. Outros se contentam com sua figura lacrimosa e, julgam elas, forte.

Conselhos práticos para você mudar sua vida, receitas, broncas, celebridades, namoros instantâneos, casamentos, horóscopo, choro, raiva, ódio, mais choro, baldes de lágrimas, etc., etc., etc. A única regra desses programas é que você revele sua vida: real ou inventada. Afinal estamos no mundo da imagem. Sorria!

Screen Actors Guild Awards

28 janeiro, 2008

De uns tempos pra cá não tenho mais paciência para as grandes festas de premiação que envolvem o mundo cinematográfico. Geralmente, eu prefiro a cama.

O Screen Actors Guild Awards foi ao ar na noite de ontem. E, por curiosidade, comecei a assistir. É irmão próximo do Globo de Ouro e do Oscar. A diferença: mais objetivo. O único momento realmente verdadeiro veio da premiação de Day-Lewis. Subiu ao palco e falou com honestidade sobre a admiração que tinha por Heath Ledger. Citou a cena final de O Segredo de Brokeback Mountain, com emoção. Day-Lewis está aposentado. Tornou-se sapateiro. Genial.

Aos domingos

27 janeiro, 2008

Qualquer tipo de esforço físico, qualquer tipo de movimentação mais abrupta, qualquer variação, por menor que seja, altera o ritmo do meu corpo. Lembram-se do filme Corpo Fechado? Pois então, eu sou o negro.

Há tempos havia desistido do futebol – o que seria a opção mais correta, já que sou do tipo perna-de-pau. Não obstante, voltei a jogar. Das 7h da manhã às 8h30min. Aos domingos. Mamãe ficou surpresa com a minha disposição e pontualidade; vovó diz que isso não irá durar sequer um mísero mês. Pego alguns cubos de gelo e não retruco. A dor na virilha me impede.

Woody Allen por Woody Allen (4)

26 janeiro, 2008

No último sábado não foi possível continuar com a seleção de excertos retirados do livro-entrevista Woody Allen por Woody Allen, de Stig Björkman. Diferentemente do que havia dito, esse sábado não será o quarto e último dia. Há muito material, e por isso prorroguei até a segunda quinzena de fevereiro. Vale, e muito, o conjunto selecionado.

Zelig e Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão foram feitos simultaneamente, embora o primeiro tenha levado mais tempo para se concretizar. Se fosse obrigado a fazer um top ten da filmografia de Woody Allen, Zelig constaria. Então, aos filmes:

Zelig e Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão

Prólogo

Zelig: É seguro… ser como os outros.

Eudora: Você quer se sentir seguro?

Zelig: Quero me sentir amado.

(De Zelig)

Woody Allen: Fiz dois filmes imediatamente depois de Memórias, que foram Zelig e Sonhos eróticos de uma noite de verão. Rodei ambos ao mesmo tempo.

Stig Björkman: Isto foi porque Zelig levou mais tempo para ser concluído?

WA: Não. Eu tinha terminado o roteiro de Zelig e não tinha nada para fazer enquanto calculavam o orçamento e executavam todo o trabalho de pré-produção. Estava em casa e perguntei a mim mesmo: ?não seria divertido fazer agora um simples filmezinho de verão? Escrevi o roteiro em duas semanas. Era apenas uma história simples, como dia de feriado no campo. E pensei: ?por que esperar? Vou fazer os dois filmes ao mesmo tempo. Que diferença faz?? Foi o que fiz.

[...]

SB: Você fala de Dustin Hoffman e já o mencionou antes. Você já pensou em trabalhar com ele?

WA: Sempre pensei e penso que ele pode fazer todos os meus papéis, talvez até melhor do que eu.

SB: Mas você nunca tentou contar com ele para desempenhar um papel num dos seus filmes?

WA: Não, ele nunca está disponível. Ele só trabalha por dinheiro muito alto, dinheiro que não temos.

[...]

SB: Esta foi também a primeira vez que Mia Farrow aparece num dos seus filmes. Você já a conhecia antes ou só veio a conhecê-la durante as filmagens?

WA: Eu já a conhecia antes. Comecei a sair com ela durante as filmagens de Memórias.

SB: Onde Sonhos eróticos de uma noite de verão foi rodado?

WA: Num lugar chamado Pocantico Hills. Fica a quarenta minutos daqui.

SB: Aquela casa já existia ou foi construída pra o filme?

WA: Foi construída. Vi-a numa revista e falei ?construam isso!?. Os interiores também foram construídos dentro da casa. Construímos uma casa completa.

[...]

SB: De onde você tirou o nome Zelig?

WA: Eu tinha acabado de enrolar a minha língua quando estava escrevendo. Apenas dei o nome de Leonard Zelig ao personagem e o nome soou perfeito, mas nunca pensei em dar ao filme o título de Zelig. Só depois de muito pensar, mas de pensar muito mesmo. Tínhamos vários outros títulos para o filme, títulos que chegaram realmente a ser filmados. Um deles era The Cat´s Pyjamas mas esta é uma expressão dos anos vinte e trinta, que se refere a alguma coisa realmente fabulosa. O título original era O Homem Trocado. Este virou o título do filme dentro do filme. Chegamos mesmo a pensar em A Crise de Identidade e Sua Relação Com a Personalidade Desordenada.

[...]

SB: Você chegou a conhecer Garbo?

WA: Não. Vi Garbo uma vez na rua. Eu, pessoalmente, nunca gostei muito de Garbo. Ela era ótima, mas nunca me deixei levar pelo mito. Eu era talvez um pouco jovem demais quando comecei a me interessar pelo cinema. Ela chegou ao topo da carreira antes da minha época.

SB: Mas ela foi a única grande figura da era de ouro do cinema mudo com quem você queria contar em Zelig?

WA: Não. Fiz uma entrevista com Lilian Gish, mas não me utilizei dela porque não gostei da maneira como ficou. Ela tem se mantido firme desde o nascimento do cinema. É impressionante. Ela realmente engloba toda a história do cinema.

(Até o próximo sábado.)

Síntese é tudo

26 janeiro, 2008

Se pegarmos alguns artistas na casa dos 70, 80, 90 anos, que ainda estão criando, podemos notar o apuro artístico e o poder de síntese desses autores. Manoel de Oliveira, 98, no seu último filme (Cristovão Colombo, O enigma), demonstra isso como ninguém. Alain Resnais também. E Claude Chabrol (!), que nunca perde o estilo, a força. Todos eles, de maneira muito particular, atingiram o que poderíamos chamar, por falta de um termo mais adequado, da “plenitude da criação”. Tudo está subentendido. Apenas o essencial interessa. Diante disso, alguns os tomam por simplórios demais. Azar o deles. Síntese é tudo.

Pequenas porções de felicidade

25 janeiro, 2008

O ar puro e a distância da capital nunca me fizeram tão bem quanto nos dois últimos dias. Passei dois dias na chácara do meu pai. Sem televisão. Sem hora marcada para levantar ou locomover-se de um lugar ao outro. Sem planos. Apenas o barulho do vento balançando a copa das árvores.

?Um homem não precisa muito mais do que isso?, pensei baixinho. E não!, não sou do tipo ermitão ou coisa parecida. Apenas fiquei longe da roda-gigante e isso me fez bem. Pisar no barro, avistar o crepúsculo ao longe, assoviar, gritar, deitar na grama. Pequenas porções de felicidade.

Meu ódio será tua herança

23 janeiro, 2008

Soa um tanto engraçado, para não dizer outra coisa, ler algumas impressões de blogueiros e resenhistas sobre a literatura contemporânea. Primeiro porque as chamadas prospecções são, no geral, infundadas, pouco esclarecedoras e dominadas por uma gama de adjetivos que, na cabeça dos seus exegetas, funciona como, ao que parece, o único critério avaliativo possível, já que se trata de um corpo estranho o referido objeto de análise. E segundo, sem cair em generalizações infantis, a maioria não lê a literatura atual, salvo raras exceções.

O campo da critica literária recente assemelha-se bastante aos filmes de Sam Peckinpah. Atira-se a esmo.

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