Os 11 melhores filmes de 2007

24 dezembro, 2007

1. A Questão Humana
2. Medos Privados em Lugares Públicos
3. Na Natureza Selvagem
4. Onde os Fracos Não Têm vez
5. Possuídos
6. Jogo de Cena
7. Vocês, Os Vivos
8. Senhores do Crime
9. En La Ciudad de Sylvia
10. Síndromes e um Século
11. Viagem a Darjeeling

O Natal

23 dezembro, 2007

Tive a rara oportunidade de ser criado por duas mães: minha avó e minha mãe biológica. Mamãe trabalhava demais, e por isso eu e meus dois irmãos tínhamos de ficar sempre sob o olhar atento da minha segunda mãe – o que era uma delícia, na verdade.

Papai saiu de casa quando eu tinha 5 anos (saiu de casa é um eufemismo bobinho; meus pais resolveram seguir seus próprios caminhos; a sós), e isso só não se tornou um trauma na minha vida porque eu tinha, ao meu lado, a doçura de minha mãe e a dureza terna de minha avó.

Eu sonhava em fazer aniversário todos os meses, assim eu teria meu pai sempre por perto – ao apagar as velas do bolo de aniversário, eu sempre desejava que essa data fosse prolongada ad aeternum.

Eu era um garoto carente. Fiz terapia por três anos, na tentativa de apaziguar a ausência de meu pai – dos três filhos, o que mais se sentiu abalado pela separação, ao que tudo indica, foi esse sujeitinho amargo que vos escreve. A ausência, de certa forma, continuou. A diferença: eu aprendi a conviver com o distanciamento de meus pais; e esse aprendizado deu-se de maneira natural, já que ambos mantinham um diálogo e uma amizade verdadeira.

Eu nunca soube a real causa da separação. E hoje, 20 anos após o rompimento, eu prefiro não saber. Algumas coisas devem ser ditas; outras não. Eles preferiram não tocar no assunto, e nós, de maneira tácita, também.

Papai aparecia a cada três meses. Eu, diferentemente dos meus irmãos, me prostrava ao pé do portão e ali ficava aguardando, no dia marcado, sua chegada. Meus irmãos riam. Mamãe tentava dissuadir-me dessa besteira de espera. Minha avó sorria como se dissesse Calma, garoto, ele já está chegando. Um dia ele não chegou, e eu fiquei ali, sentado, esperando.

Minha infância foi alegre, apesar de tudo. Tentei rememorar um só Natal em que meu pai estivesse ao nosso lado: não consegui. Acredito que ele nunca estivesse presente nessas datas – não que ele não desse importância a comemorações: simplesmente ele decidiu passá-las ao lado de sua nova família. Creio eu.

Há um momento em que deixamos de esperar, e esse dia também chegou para mim. Nossa relação é intensa, mas sempre pautada por um quê de não-ditos.

Quanto ao Natal, ele nunca me despertou muito interesse. Entretanto, eu não abro mão de vivenciá-lo ao lado da minha família.

A diferença do garoto que esperava ao pé do portão, e desse, que vasculha suas reminiscências na tentativa de organizá-las de forma linear e satisfatória, é que o segundo não mais acredita no Papai Noel. Boas festas.

Writers Guild of America

22 dezembro, 2007

A greve dos roteiristas de Hollywood teve início no dia 5 de novembro, e permanece, até o momento, sem resolução. Razão da greve: maior participação de lucros na comercialização de outras mídias. É justo? Sim, é justo. Todos querem mordiscar um pedaço do bolo, e os roteiristas, principais colaboradores para o sucesso ou o fracasso de um programa, série ou filme, não querem ficar apenas com as sobras da velinha cor-de-rosa que encimava o bolo.

Sérgio Augusto, num texto premonitório, foi um dos primeiros a apontar a crise que uma greve do WGA (sindicato dos roteiristas dos EUA) poderia provocar. Mas nem mesmo ele imaginou que a greve iria durar tanto tempo, a ponto de atingir, de maneira tão difusa, às grandes produções de uncle Sam.

Dêem uma olhada no parágrafo final do texto de Sérgio Augusto, que, mesmo ciente da iminência da greve, se mostra bastante otimista:

Os cinéfilos podem ficar sossegados. Se curta a paralisação, seus efeitos serão quase imperceptíveis. Os estúdios operam com bastante folga de tempo e há muito acumulam pilhas e pilhas de scripts. Mas algumas produções em andamento deverão sentir o tranco. Embora iniciadas com a greve já no forno, não havia como nem porquê apressar o ritmo dos trabalhos. Correr com uma produção é roubada na certa. No cinemão, a pressa sempre foi inimiga da perfeição.

O período de sossego não mais vigora. Lost e outras sitcoms de peso já sentem o barulho da greve. David Letterman, bem como outros apresentadores de talk shows conhecidos do público brasileiro, está bancando, não com o dinheiro da verba destinada ao programa, mas com o próprio salário, às despesas de toda a equipe de roteiristas. E o cinemão, como bem coloca Sérgio, também está balançado: Anjos e Demônios, inspirado no livro de Dan Brown, já confirmou que as filmagens, ao menos por hora, estão adiadas. Outros filmes arrasa-quarteirões também estão adiando a fase de gravações.

Diante desse impasse, sem data definida para um possível armistício, restam as reprises: David Letterman passou à frente de Jay Leno ? o público de Leno, ao invés de assistir às reprises do apresentador, prefere assistir aos programas da concorrência, o que para Letterman não é de todo ruim.

Essa greve nos mostra, de maneira torta, que tudo nasce da palavra. E que Hollywood, sem os operários da linha de produção da escrita, não passa de uma cidadezinha encravada no meio do nada.

Coda

Piquetes e demais artifícios já foram utilizados na tentativa de colocar tudo nos eixos. Resultado: mais do mesmo ? greve. Agora, uma campanha intitulada Speechless (sem fala) é o mais novo canhão de guerra contra o absurdo da greve. Celebridades norte-americanas se propuseram a fazer vídeos, com cerca de 2 minutos, onde, de maneira improvisada, apóiam os roteiristas e suas reivindicações.

Dentre os mais de 20 ví­deos, e eu pude assistir a todos, o que mais salta aos olhos é o de Woody Allen. E isso não tem nada a ver com a minha idolatria em torno do cineasta nova-iorquino – ou tem, não sei.

Gargalhei até chegar às lágrimas. Sei que não é para tanto, mas se você, assim como eu, conhece um pouco a persona singular de Woody, com certeza entenderá o porquê do meu entusiasmo.

Então, ao vídeo:

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Excepcionalmente neste sábado não publicarei a terceira e penúltima parte da entrevista de Woody Allen, retirada do livro Woody Allen por Woody Allen, de Stig Björkman. As duas últimas partes da entrevista serão postadas nos dois primeiros sábados de 2008.

As 11 melhores leituras de 2007

21 dezembro, 2007

1. Noturno do Chile – Roberto Bolaño
2. A pista de gelo – Roberto Bolaño
3. Quatro Peças de Sam Shepard
4. O Náufrago – Thomas Bernhard
5. 47 Contos de Juan Carlos Onetti
6. A Virgem dos Sicários – Fernando Vallejo
7. Depois da Teoria – Terry Eagleton
8. Coronado – Dennis Lehane
9. Casa de Encontros – Martin Amis
10. Mason & Dixon – Thomas Pynchon
11. O Mar – John Banville

Ridley Scott ainda respira

20 dezembro, 2007

Ridley Scott era um talentoso diretor de campanhas publicitárias. Iniciou a carreira dirigindo comerciais para a TV. Estudou Pintura e Desenho numa escola de arte. Arriscou-se e fez Os Duelistas, baseado na obra de Conrad, que lhe valeu o prêmio de melhor filme dado a diretores estreantes no Festival de Cannes. Em seguida, fez Alien, o Oitavo Passageiro, sucesso de público e de crítica.

Dois anos depois, veio Blade Runner, O Caçador de Andróides, detentor do título de melhor filme de ficção científica da década de 80, mas incompreendido à época de seu lançamento, e resgatado, anos depois, como um dos maiores cult movies da história do cinema ? a versão do diretor acaba de ser (re)lançada.

Veio o período dos trabalhos feitos por encomenda (A Lenda, Perigo na Noite e Chuva Negra, que devo ter assistido umas cinco vezes, e talvez por estar ligado a um momento da minha adolescência, eu tenha, ainda hoje, certa identificação com aquele mundo, e, principalmente, com a figura de Michael Douglas), que se não são ruins, estão muito longe das obras citadas anteriormente, onde se pode notar a visão de um autor, e não de um mero diretor de cenas.

Em 1991 ele nos dá Thelma & Louise, o primeiro road Movie da minha vida. Mamãe dizia que caso eu não me comportasse direito, ela fugiria com a Thelma numa carruagem vermelha e barulhenta. A imagem de liberdade alcançada por aquelas duas mulheres nada frágeis jamais sairia da minha cabeça. Durante 9 anos ele fez alguns filminhos para tirar alguns trocados, e conseguiu. No ano de 2000 ele retorna com a truculência inspirada de Russell Crowe em O Gladiador, seu filme de maior sucesso.

Os holofotes se voltam novamente ao diretor inglês em 2001, ano em que aceita fazer a continuação do filme O Silêncio dos Inocentes. Hannibal consegue atingir público e crítica ? ao menos uma parcela da crítica. Nesse mesmo ano, ele investiga a entrada do exército americano na Somália, no filme Falcão Negro em Perigo ? indicado a quatro Oscars; no entanto, não passa de um filme esquemático e raso. Em 2003 surge Os Vigaristas, um filme acima da média, nem tanto pela direção funcional de Scott e mais pela interpretação virtuosa de Nicolas Cage. Mas nem mesmo o sucesso relativo de Os Vigaristas o salvaria do anonimato anual.

Vieram A cruzada, um curta dentro do filme Crianças Invisíveis, e Um Bom Ano, este último o único de seus filmes a que não tive acesso ? os outros dois não merecem quaisquer comentários.

Assisti, há pouco, seu mais novo filme, American Gangster, e gostei bastante. Baseado em fatos reais, o filme aborda uma América em crise, tomada pelas drogas e pela máfia: não mais da época de ouro da família italiana, onde os gângsteres aparentavam serem astros de cinema, e o clima era frio, pesado, mas uma máfia esfacelada e dividida, onde todos correm desesperadamente atrás do pote dourado no fim do arco-íris ? ou atrás do pó Blue Magic, para ficarmos numa comparação mais próxima ao filme.

As notícias da Guerra do Vietnã, o patriotismo exacerbado, o sonho americano de vencer a qualquer custo, a questão étnico-social, o jogo de poder entre duas forças antagônicas, e por vezes mais próximas do que se imagina, a ética tomada como mera moeda de troca, e o senso de justiça apenas como simplório estandarte manchado por alguns dólares a mais, são algumas das marcas dessa América agônica retratada em American Gangster.

Ridley está mais ambicioso, e isso já é um bom sinal. Mesmo distante da austeridade e ambiência soturna da trilogia do O Poderoso Chefão, ou mesmo dos grandes filmes de Scorsese, ele parece ter retomado sua inquietação criativa. Resta esperar que ele não entre, novamente, num estado de sujeição ao mercado e suas regras castradoras.

Ridley Scott, por enquanto, respira.

Esqueço, logo existo

18 dezembro, 2007

Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos.
(Nietzsche)

Nem mesmo a semana começou, ainda estamos na terça-feira, e eu já ouvi a palavra recomeçar mais de 20 vinte vezes. E, nas vinte vezes em que a palavra foi proferida, eu sentia que cada um que a dizia estava realmente acreditando na tão propalada idéia dos eternos recomeços.

?Recomeço, logo existo?, diria Descartes? Não, ele era um sujeitinho muito esperto para cometer tal gafe. Acredito que, se vivesse no século XXI, ele estaria mais para: ?Desisto, logo existo?.

O pior do discurso do eterno recomeço não é tanto a idéia, em si, mas quem a carrega. Dependendo da maneira que é dita, ou de seu portador, a vontade é, literalmente, de mandar ir à merda (tanto a mensagem quanto seu emissor).

A palavra soa como aquelas campanhas publicitárias tão eficazes quanto uma Coca-Cola sem gás. Azia, dispepsia, sonolência, afasia etc., são alguns dos efeitos colaterais mais visíveis quando me deparo com pessoas carregadas do sentimento do recomeçar de novo – lembrou-se da música, não é mesmo? Eu também.

?Recomece de novo, mas não diga isso a ninguém, muito menos a mim?, digo internamente, procurando não transparecer que discordo totalmente da pessoa à minha frente.

Estou numa fase de encerramentos, e não de recomeços. Alguns otimistas de plantão diriam que todo encerramento é o recomeço de uma coisa qualquer. Eu digo que não. O encerramento é a conclusão de algo. O recomeço pode ou não vir, afinal, é tudo tão incerto.

Não irei fazer planos, comprar novos calendários ou mudar os móveis de lugar. Quiçá eu tire o pó que faz companhia aos meus livros.

Hoje, tudo o que mais quero é não pensar em renovação. “Encerro, logo existo”, digo bem baixinho.
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Faixa escondida

Resolução de 2007: esqueça, abstraia, arranque 2007 do seu córtex cerebral.

Tenho uma proposta aos leitores desse blog: que tal se fizéssemos como Jim Carrey e Kate Winslet, no filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, que simplesmente apagam os momentos indesejados de suas vidinhas tediosas. Tédio é a única coisa que sinto quando essas datas “especiais” se aproximam. Caso alguém esteja disposto a apagar lembranças indesejadas, eu tenho o telefone de Charlie Kaufman. É possível que ele já não se recorde da máquina e da história toda, mas não custa nada tentarmos. Para concluir, digam em voz alta, de preferência na sacada ou no telhado: ?Esqueço, logo existo?.

Woody Allen por Woody Allen (2)

15 dezembro, 2007

No último sábado não foi possível continuar a seleção de trechos da entrevista que Woody Allen concedeu em janeiro de 1992, e que pode ser encontrada no livro Woody Allen Por Woody Allen, de Stig Björkman. Por outro lado, eu pude reler algumas passagens do livro-entrevista e recortar alguns momentos luminosos.

Neste sábado, ficaremos com os excertos finais de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, e Interiores, este último um de seus filmes mais criticados.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Stig Björkman: A vida precisa de ordem?

Woody Allen: Sim. E tudo tem de ser em tons cor de terra, em tons suaves. Com a exata quantidade de mobília.

[...]

SB: E que pode dizer quanto à sua infância, da infância de Alvy/Woody?

WA: Está perfeita. Eu realmente morei num lugar como aquele. Fui a uma escola que tinha as mesmas professoras de cabelos azulados, muitíssimo rigorosas e antipáticas.

[...]

SB: O filme também demonstra total liberdade de estrutura.

WA: Isso eu sempre tive para escrever. Sempre me senti livre e aberto na cronologia de um filme, na sua estrutura.

[...]

SB: Vamos voltar a Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Neste filme, você fez uma coisa que era mais ou menos proibida no cinema: é quando fala diretamente com a platéia fazendo comentários sobre a história e os personagens, com um toque meio de Brecht ou de Godard. Estas características aparecem nas suas primeiras comédias, mas, nelas, tais comentários são como observações adjacentes, seguindo a tradição de Bob Hope.

WA: Certo, como Groucho e Bob Hope. Isso acontecia mais para favorecer o desenvolvimento da história do que pela piada. Queria que a platéia participasse da experiência comigo. Para início de conversa, foi isso que me estimulou a realizar o filme.

Interiores

SB: Interiores foi o primeiro filme em que você não desempenha papel nenhum. Você chegou a pensar em atuar no filme, isto é, podia ter interpretado os papéis que Richard Jordan ou Sam Waterson fizeram?

WA: Não, não pensei nisso por um minuto sequer.

SB: Foi por causa dos personagens do filme?

WA: Sim, porque sou um comediante, um ator cômico, e não sei se poderia fazer esse tipo de trabalho. Acho que a platéia iria caçoar de mim no momento em que me visse. Nunca me ocorreu fazer qualquer dos papéis.

[...]

SB: A sua mãe também foi uma figura forte na sua vida?

WA: Não. Ela está viva. É uma pessoa agradável. Dou-me bem com ela. Ambos, meu pai e minha mãe, residem perto de mim. Acho que você pode dizer que ela é a mãe típica. Talvez um pouco rigorosa, mas, basicamente, boa.

[...]

SB: Você também mostra Maureen Stapleton sempre vestida com cores vivas. Por exemplo, ela aparece usando um vestido vermelho chamejante ao ser apresentada à família pela primeira vez.

WA: Sim. E ela gosta de comer carne, faz truques de mágica e coisas parecidas. Acho que seria um sucesso se eu agora fizesse o filme outra vez.

SB: Mas você se sente infeliz com o filme?

WA: Não, não estou infeliz com ele, mas, depois de vê-lo, acho que teria feito coisas diferentes. Isto sob um ponto de vista estrutural. O meu instinto de escritor me diz que eu teria colocado Maureen Stapleton na história mais cedo. Eu podia ter descoberto um meio de fazer isso.

[...]

SB: Mas qual a sua opinião sobre ela? Ela é uma pessoa e uma irmã positiva e boa, ou não é uma irmã tão boa assim, especialmente com relação a Joey?

WA: Renata tem sorte porque ela tem o seu talento e aquilo que Joey não tem, isto é, um meio de expressar todas aquelas coisas dolorosas que nos causam problemas na vida. Mas ela é egoísta. Isto porque, a meu ver, os artistas são egoístas. Eles precisam ficar sozinhos, precisam de disciplina e, às vezes, precisam se comportar com as pessoas de formas que sejam importantes para eles, mas que não são realmente simpáticas para com os outros. E Renata compreendeu finalmente que a sua arte não irá salvá-la e isto a incomoda. Alguns artistas pensam que a sua arte irá salvá-los, que eles serão imortalizados e continuarão vivendo através de sua arte. A verdade é que a arte não irá salvar ninguém. Para mim, a arte sempre foi um entretenimento para intelectuais. Mozart, Rembrandt ou Shakespeare sempre foram criadores de entretenimentos num nível muitíssimo elevado. É um nível que traz um grande sentido de estímulo, de incentivo e realização às pessoas sensíveis e cultas. Mas não salva o artista. Shakespeare não ganhou nada com o fato de suas peças terem sobrevivido a ele, que estaria muito melhor se estivesse vivo e suas peças esquecidas.

[...]

SB: Acho que aí está um tema muito repetido nos seus filmes, esse medo da morte. Talvez seja por esse motivo que você povoou seus filmes com muitas pessoas de diferentes idades, nunca excluindo os mais idosos.

WA: Nem há outro receio de maiores conseqüências. A gente pode lidar com todos os outros temores, com todos os outros problemas. Solidão, carência afetiva, falta de dinheiro, a gente pode lidar com tudo isso. De um modo ou de outro, dispomos de meios para agüentar. Você tem amigos que podem ajudá-lo, médicos que podem auxiliá-lo. Mas a morte é o que é. Eu acredito firmemente nas idéias de A Negação da Morte, o livro de Ernst Becker, que recomendei a Annie, o personagem de Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. É um livro interessante sobre o tema, sobre a morte, colocada de uma maneira muito bem pensada.

(Até o próximo sábado.)

Curtindo a vida adoidado

14 dezembro, 2007

A fase escolar, apesar de inúmeras adversidades, foi o melhor período da minha vida. As obrigações se resumiam a um banho, uma lição qualquer, geralmente feita às pressas, e uma rápida olhada no espelho.

Os professores eram professores, burocráticos, lousas negras. A sala era uma trincheira. Havia uma divisão explícita: nerds, mauricinhos, tímidos, burros e os outros. Eu fazia parte dos outros.

Éramos farristas, malandros de quinta, garotinhos loucos pela primeira transa atrás do muro da escola. Nosso modelo era Ferris Bueller (Matthew Broderick), um tipo inteligente e sedutor.

Era interessante ver como alguns tinham melhor desempenho com as garotas, outros com os esportes, e outros, ainda, eram exímios lutadores de rua. Havia os que, por não ter nada a oferecer ao grupo, se resumiam a contar histórias mirabolantes sobre o último feriado, o beijo na Marcinha com direito a peitinho, a descida para a praia de bicicleta, o cigarro de maconha fumado no banheiro da escola ou o novo recorde alcançado num jogo qualquer de videogame.

Sabíamos que cada palavra era um amontoado de mentiras. Sabíamos, também, que era a única coisa que aqueles garotos, nossos amigos, podiam oferecer. Por companheirismo, pena, amizade, amor, ou sei lá o quê, nós os ajudávamos a mentir. As histórias tomavam proporções abissais. Algumas vezes, e dependendo do garoto, fazíamos questão de desmenti-lo, colocando-o numa situação ridícula. Mesmo nessas horas, um ou outro tentava intervir, consertar a falácia. Na época, eu achava patético esse sentimento altruísta. Hoje, acho que era uma forma de amor.

Tínhamos as piadas internas, o time da rua, a matinê aos domingos, as garotinhas estúpidas e sardentas, a Playboy da Vera Fischer embaixo do colchão, a série Malhação, os desenhos do Pica-pau, e o seu Madruga como modelo de professor perfeito. Possuíamos o caminho para o El Dorado.

Bastava o sinal tocar, a turma se reunir, e tudo mais que aconteceu no seu dia era apenas uma preliminar para as cinco horas ao lado dos caras que você, de certa forma, amava. O primeiro amor na vida de um garoto, fora a família, são os amigos. As garotas eram simples notas de rodapé ao final de um dia.

Trocávamos segredos, fazíamos planos, imaginávamos que aquele grupo, criado ao acaso, ficaria ligado mesmo após a saída de casa, o casamento, os filhos, a morte dos pais, a crise dos 40 e a constatação da nulidade da vida. O grupo acabou. Da mesma maneira que tudo que inicia está fadado ao fim. Na época não sabíamos disso. Talvez por isso mesmo fosse tão bom.

Olhando com certa distância, não passávamos de pobres Cameron Frye (o amigo introspectivo de Ferris): tímidos, vacilantes, presos numa garagem com uma bela Ferrari. Éramos fracos, na verdade.

13 anos depois…

Entro no supermercado. Pães, bolachas, duas caixas de hambúrgueres e uma Coca-Cola em vidro. Ergo a cabeça e vou em direção ao caixa. Paro. Percebo um rosto familiar entre saquinhos plásticos e aquele barulho irritante provocado pelo abre e fecha da caixa registradora. ?O Ricardo virou empacotador??, pergunto a mim mesmo, sem acreditar no que estava vendo. O Ricardo era uma espécie de líder, brigão, bom de bola, corpulento, nem bonito nem feio, do tipo que atraía as garotas não tanto pelos atributos físicos, mas pela maneira ardilosa, persuasiva de ser. Todos nós gostaríamos de ser o Ricardo por um dia quando éramos crianças.

Agora, ele estava ali: uniforme azul, dentes cariados, barba por fazer e um olhar de deserção. Tentei fingir que não o havia reconhecido, e assim fiquei, estático, voltado em direção ao funcionário do caixa ? olhar para ele me fazia voltar a uma fase da qual guardava boas recordações. Ricardo sonhava em ser jogador de futebol, como a maioria dos garotos entre 10 e 16 anos. Ele virou empacotador num supermercado pequeno e sem cor. Agarro o saco de compras com as duas mãos, estrangulando o plástico. É inevitável não nos olharmos, e o que se segue é um rápido ?Oi, tudo bem?? formal e próprio para não enveredar para um assunto qualquer.

Saio rápido, tropeçando numa cesta de compras vazia, o que faz com que alguém grite o nome de Ricardo. Não fico para ouvir ou ver qualquer tipo de repreensão ao seu serviço. Fecho a jaqueta. A garoa fina deixa a vista um pouco embaçada. Subo na moto e ela dá duas engasgadas antes de dar a partida. Não olho para trás.

(Quase) Férias

13 dezembro, 2007

Consegui retornar ao site. Da última quinta-feira até a tarde de hoje foi uma corrida infernal: fechamento de notas, conselho de classe, reuniões, ensaios, discussões, casamento, chácara, família reunida, filha serelepe, esposa colérica, etc.

Entrei num período de contagem regressiva para as merecidas férias. Apenas 5 dias me separam do caos que é a vida contemporânea urbana e o ócio criativo – sim, eu li Domenico de Masi quando estava cursando a graduação.

Esse estado de (quase) férias, ao invés de amansar meus ânimos, me deixa mais apreensivo do que a vida normal, atribulada. Há tantos filmes, peças, lugares e livros a conhecer, e tão pouco tempo. Nem mesmo a tarefa de fazer planos faz com que eu os cumpra (pelo contrário: geralmente sou um sujeito indisciplinado e que foge dos planos como garotinhos de 25 anos fogem do altar; sair da casa dos pais é mais traumático para um jovem do que a constatação, aos 2,3 anos de idade, de que a mamãe não é somente sua ou do seu querido irmãozinho, mas do papai também.

O tempo é uma anomalia moderna, eu digo a mim mesmo, tentando torná-lo mais suave, menos inflexível e um tanto palatável. O efeito de dizer e/ou pensar isso é insosso, bobinho, mas, por vezes, acaba funcionando. Olho para a pilha de livros no criado e sinto que uma só vida é muito curta para os meus anseios livrescos. Acontece o mesmo com as outras coisas que procuro avidamente ir de encontro.

A vida é feita de escolhas, e por isso eu paro de pensar no que eu não vou conseguir ler, escrever, ver ou conhecer, e, com isso, faço do não-visto, apenas um ainda-não-visto. Ao final, percebo que essa maneira de encarar a vida, além de ser mais saudável, é mais inteligente.

*Prometo tentar atualizar o site diariamente. Caso eu não consiga, colocarei a culpa no tempo.

As 11 maiores peças teatrais de 2007

6 dezembro, 2007

1. Pequenos Milagres
2. Crepúsculo – 3 peças de Samuel Beckett
3. Uma Pilha de Pratos na Cozinha
4. Roxo
5. Zona de Guerra
6. Plan B
7. Homens sem Rumo
8. No Retrovisor
9. Pálido Colosso
10. Psicose 4h48
11. História de Amor (últimos capítulos)
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Infelizmente, devo ter esquecido algumas encenações. Rasga Coração, que figurava na primeira lista, agora dá lugar ao novo trabalho da Cia. do Feijão, Pálido Colosso. E Plan B, que já havia me esquecido, toma o lugar de Primeiro Amor, novela de Samuel Beckett, levada ao palco pelas talentosas mãos de Georgette Fadel e Marat Descartes.

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