O eterno ciclo da vida
30 novembro, 2007
Exato um ano* do nascimento da minha filha. O parto foi rápido e, aparentemente, indolor. A Jack consegue ser linda até quando chora. Ao sair da sala ainda pude acompanhar no telão, colocado numa sala isolada da maternidade, minha pequena aos prantos.
Tornar-se pai é uma experiência assustadora, num primeiro momento. Abdicar-se de sua vida, ao menos da vida desregrada e sem compromissos, em prol do outro, não é como atravessar a esquina de casa para comprar pão. Acostumar-se a não fazer barulho, deixar de sair todas as sextas-feiras, trocar o dinheiro investido em objetos supérfluos por fraldas, leite, carrinhos, roupas, chupeta e toda a sorte de materiais necessários à criação de uma criança, é tarefa básica e essencial. Depois, preocupe-se em levá-la ao pediatra, não esquecer a vacina do mês, o remedinho para cólica, a pomada específica, o sabonete com cheirinho especial, etc., etc., etc.
A partir do 6º mês, você e sua esposa, caso tenham uma pessoa confiável para cuidar da bebê, podem pensar em ir tomar um suco na padaria. Não se esquecer de passar na farmácia e comprar mais fraldas.
Um sorriso, um balbuciar de sons desconexos, a batida com as palmas da mão ao vê-lo voltar cansado e sem paciência do serviço, valem todo o esforço. A sensação de conforto vem do fato de que você tem certeza, ao menos uma vez, que fez alguma coisa direito na vida. O resto são platitudes.
Isso não quer dizer que eu já passei pela fase de adaptação, que talvez dure pelo resto da vida.
Virão os passeios no parque, fábulas ao cair da noite, o primeiro dia na escolinha, a primeira briga com o papai e com a mamãe, o pedido para dormir na casa da amiga super irada, feita nas aulas de Inglês, o garoto que mexe nos seus livros, pega seus filmes e toma conta do controle remoto, e que você tem vontade de surrar, mas aí você se lembra que ela te disse, chorando, que ele era o amor da sua vida. E, mesmo sabendo que isso é passageiro, você concorda com sua filha, afinal é o seu primeiro amor. A pior parte fica sempre para o fim: o casamento e a saída de casa. Você irá chorar, dizer que ela é uma criança, que seu marido nunca a fará feliz, e blá, blá, blá… blá, blá, blá… blá, blá, blá. Nessas horas nem Joseph Campbell e toda filosofia moderna o farão entender que as pessoas partem. É o eterno ciclo da vida.
Feliz aniversário, Rafa.
…
*Dia 26, e não 30.
Just smile
29 novembro, 2007
Sabe o que é você ler sobre um grupo durante dois meses, saber que eles irão aparecer no Brasil, e que você terá a oportunidade única de acompanhar um espetáculo de 7h30min, e não está nem um pouco preocupado caso sua bunda vá endurecer nessa cadeira, nesse espaço, nesse maldito lugar.
Aí você, duas semanas antes da divulgação impressa, descobre que os ingressos serão vendidos com mais de um mês de antecedência, em todas as bilheterias do Sesc, e a meia-entrada não é tão barata como você queria mas isso não importa muito. A bilheteria abre às 14h00min de uma quinta-feira, e você, um maldito otimista, daqueles que acredita que não é todo mundo que está disposto a ficar 7h30mim dentro de um teatro, protela um pouco mais a saída para a compra do ingresso, e percebe, por volta das 16h50min, já diante da bilheteria de um Sesc Pompéia automatizado por meninas que confundem Théâtre du Soleil com Cirque du Soleil, que todos os ingressos, do dia 13 ao dia 23, estão esgotados.
Você retorna para casa e sua mãe diz que não tem problema, pois eles retornariam em breve, e ademais o Alegría está chegando, e são eles, diz ela, um desdobramento do Théâtre du Soleil. Você balança a cabeça positivamente, pois tudo que você mais quer é não ter de explicar para sua mãe que os dois grupos são quase antípodas.
Você irá ler o post de uma amiga e perceber que, diferente de você, um estúpido inveterado, ela conseguiu comprar o ingresso.
Você é um otimista, mas ainda assim não acredita que o Théâtre du Soleil retornará ao Brasil. Mas você ainda tem os olhos e a sensibilidade da sua amiga, que descreverá tudo nos mínimos detalhes, desde o figurino até o mínimo meneio de cabeça, bem como aqueles pontos mortos, onde aparentemente nada acontece. Ao lembrar-se disso, dá um leve sorriso, não necessariamente um sorriso alegre, tampouco triste, mas sorri.
Pepsi Twist com toque de limão
28 novembro, 2007
Acabo de engolir a leitura da nova revista da Livraria Cultura (a revista chama-se revista da cultura, com minúscula mesmo). Pior do que a revista só Pepsi Twist com toque de limão.
O único saldo positivo foi a breve entrevista de Antonio Prata – o escritor faz parte do famigerado projeto Amores Expressos. Do jovem escritor, filho de Mário Prata, só pude ler crônicas, e ele é talentoso. Nada que te faça perder o fôlego, mas engraçado.
Na entrevista concedida à revista falou um pouco sobre a sua relação com a literatura, a família, o despertador, etc. Entre uma besteira e outra soltou uma ou duas coisas engraçadíssimas (quando digo engraçada, quero dizer inteligente), as quais reproduzo aqui:
Ler e Escrever
Eu lia desde pequeno, mas nunca fui um leitor exageradamente voraz. Não sou um autor que escreve por influência da literatura. Escrevo porque quero falar da vida, interferir na vida, dizer o que eu penso das coisas. Das primeiras coisas que li, lembro-me de Ruth Rocha, João Carlos Marinho, Tintim, Asterix, Turma da Mônica, Stella Carr, Lígia Bojunga Nunes, a coleção para gostar de ler e muitas outras coisas. Quando agente elenca nossas influências, o que fazemos é dizer quem gostaríamos de ser quando crescermos. Poderia falar de Cortázar, Machado, Millôr, Veríssimo, Cervantes, Campos de Carvalho e tantos outros. Sem falar na poesia: Drummond, Pessoa, Bandeira, Leminski & grande elenco. Mas será que eles marcaram minha escrita mais do que os Simpsons, a professora de português da segunda série ou a bailarina por quem fui perdidamente apaixonado aos 15 anos de idade?
Cultura é?
Cultura é tudo aquilo que nos diferencia de mexilhões, samambaias e tamanduás. (Tirando a respiração e a primeira mamada, o resto é cultura – a segunda mamada já deve ter alguma malícia. E malícia é cultura.) Cultura é tudo isso que criamos para ocuparmos o pensamento, assim que nos demos conta de que um dia iríamos morrer. Cultura é invenção de uns magrelos feiosos para roubar as moças dos guerreiros fortões. Cultura é tudo aquilo que nós entregaríamos de bom grado em troca de uma nadadora olímpica.
11 cineastas que abalaram sensivelmente meu olhar
28 novembro, 2007
1. Woody Allen
2. Antonioni
3. John Cassavetes
4. Tarkowski (ou Tarkovskij)
5. Kieslowski
6. Fellini
7. Fassbinder
8. Pasolini
9. Godard
10. Ozu
11. Bergman



